
Fotografia de Paulete Matos
Morreu Artur Palácios. O nome não dirá muito a muitos leitores. Tinha 74 anos. Militante comunista muito antes do 25 de Abril, foi do PCP [
trabalhou com o PCP, nunca tendo chegado a filiar-se], depois da UDP e por fim do Bloco de Esquerda. Foi aí que o conheci. Foi operário e activista na Lisnave e, como morador do Casal Ventoso, em Lisboa, um lutador incansável pelas condições de vida dos seus vizinhos. Um líder de tal forma insistente que todos os poderes locais, mais tarde ou mais cedo, acabavam por lhe ceder. Fosse porque não os largava, fosse porque lhes punha os moradores na Assembleia Municipal ou, quando a coisa era mais grave, a cortar a Avenida de Ceuta para que alguém os ouvisse, com ele nunca nada ficava apenas pelo lamento inconsequente. Dentro do partido, era rijo e muitas vezes crítico.
Discordaríamos em muita coisa, com toda a certeza. Mas o Palácios, que não deixava ninguém parar, que quando eu tinha no partido a tarefa da relação com a imprensa me enchia de papéis e relatórios e comunicados e recortes de jornais e protestos, tinha o mais importante, muito para lá de qualquer discordância: vivia para a política naquilo que ela tem de melhor. No fim, já praticamente cego, continuava a sua militância no Bloco e as lutas no seu bairro. Entregou a sua vida à política e ao trabalho e morreu pobre. Lutou até morrer. Os livros não falarão dele. Na Net, a única foto que se encontra é esta, pequena como ele nunca foi [
a fotografia pequena foi substituída por uma maior, enviada pela autora]. Mas os seus vizinhos e os seus camaradas nunca o esquecerão. E é destes homens sem fama que se fez e faz a história da esquerda. Homens como o Palácios.