Segunda-feira, 28 de Dezembro de 2009
por Daniel Oliveira
Sem grandes apresentações ou explicações, aqui fica o texto de Maziar Bahari, um jornalista iraniano preso por 118 dias, 12 horas e 54 minutos. Um exclusivo Expresso/Newsweek que tomo a liberdade de aqui republicar. Talvez assim algumas pessoas desnorteadas que procuram a luta de classes e o combates ao Imperialismo debaixo de cada pedra percebam que um torturador é um torturador, uma ditadura é uma ditadura e o lugar certo é sempre, sempre e sempre ao lado do torturado e daqueles que arriscam a vida pela sua liberdade. No video, "The Partisan", de Leonard Cohen, que, com o seu carrasco, foi, durante meses, a companhia Maziar Bahari.



Prisão de Evin, 21 de Junho de 2009 (cerca das 10h)

O interrogador fez-me sentar numa cadeira de madeira, semelhante à que eu tinha na escola primária. Mandou-me olhar para baixo, apesar de eu já estar de olhos vendados. “Nunca olhe para cima, Sr. Bahari. Enquanto estiver aqui — e não sabemos quanto tempo vai estar aqui —, nunca olhe para cima.” Tudo o que eu conseguia ver por baixo da venda eram os seus chinelos de cabedal preto. “Sr. Bahari, você é agente de organizações secretas estrangeiras”, começou ele. Vira-o de relance quando ele e os seus homens me tinham arrastado para fora da cama e prendido, algumas horas antes. Ele era mais pesado — soube depois que os guardas lhe chamavam “O Grandão” —, mais alto e mais volumoso do que eu, com uma cabeça enorme. A sua pele era escura, como a dos naturais do sul do Irão. Usava óculos de lentes grossas. Mas agora só o reconhecia pela voz, pelo hálito e pelo perfume de água de rosas usado pelos homens que fazem piamente as suas abluções diversas vezes por dia antes das orações mas que raramente tomam um duche. Podia ver os chinelos do Sr. Rosewater (Água de Rosas) mesmo diante dos meus sapatos. “Pode-me dizer quais?”, murmurei. “Fale mais alto!”, gritou ele. Debruçou-se sobre mim, com a cara a dois centímetros da minha. Dava para lhe sentir a respiração. “O que é que você disse?”

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“Perguntava se teria a bondade de me dizer quais são essas organizações”, repeti.
“CIA, MI6, Mossad e ‘Newsweek’.” Fiquei espantado pela segurança do Sr. Rosewater. Na altura não sabia para que ramo do dividido Governo iraniano ele trabalhava. Quando fui preso, centenas de milhares de manifestantes enchiam as ruas de Teerão, indignados com a disputada reeleição do Presidente Mahmoud Ahmadinejad. Tinham-se registado cenas de violência. Milícias empunhando bastões, conhecidas como Basij, haviam atacado os manifestantes, homens como mulheres. Alguns dos manifestantes tinham ripostado. O aiatola Ali Khamenei, líder supremo do Irão, mandara parar as manifestações, mas ninguém sabia se isso iria acontecer. Pelo menos, ninguém fora da prisão de Evin tinha a certeza disso. O Sr. Rosewater era outra coisa.

Descobriria mais tarde que fora escolhido pelo departamento dos serviços secretos dos Guardiães da Revolução Islâmica (GRI). Antes das eleições de Junho, esta unidade da guarda era pouco conhecida; sempre que jornalistas e intelectuais tinham problemas com as autoridades, eram interrogados pelo ministério oficial dos Serviços de Informação. Mas os GRI, que reportam directamente a Khamenei, tornaram-se mais poderosos. Muita gente desconfia que foram os Guardiães que falsificaram os resultados eleitorais. Uma coisa é certa: foram eles que aplicaram as medidas de repressão que se seguiram.

Os serviços de informação dos GRI são agora responsáveis pela segurança interna do Irão, o que significa que a sua violenta paranóia se propagou ao regime. Mas há entidades no interior do regime que sabem tomar decisões racionais sobre os interesses externos do Irão; se não houvesse, eu ainda estaria na prisão. Contudo, os Guardiães estão a agudizar os piores instintos da República Islâmica, a sua insegurança e profunda desconfiança. Numa altura em que as potências mundiais tentam levar Teerão a moderar a ameaça do seu programa nuclear, é crucial que compreendam esta mentalidade e o papel dos GRI no sistema iraniano. Aprendi muito sobre ambos enquanto estive nas mãos dos Guardiães.

O Sr. Rosewater ia ser o meu adversário durante 118 dias, 12 horas e 54 minutos. Nunca me disse o seu nome. Só por duas vezes lhe vi o rosto. A primeira foi quando conduziu a equipa que me deteve. “Esta prisão pode ser o fim da linha para si se não cooperar”, foram as suas palavras de boas-vindas. A segunda e última vez foi depois de eu ser libertado — e avisado por ele para nunca falar sobre o que me acontecera na prisão. Se desobedecesse, disse ele, seria perseguido. “Conseguimos enfiar uma pessoa num saco esteja ela onde estiver no planeta”, disse ele, ameaçador. “Ninguém nos consegue fugir.”

Não acreditei nele. Não acredito nele. Mas a dúvida persiste, que é o que ele desejava — e o que o regime que serve deseja para todos nós, afinal.

Avenida Vali Asr, 21 de Junho de 2009 (pouco antes das 8h)

Quatro deles vieram à minha procura. Disseram à minha mãe que tinham uma carta para mim, depois mostraram-lhe qualquer coisa semelhante a um mandato e seguiram-na para dentro de casa. Ela acordou-me com suavidade. “Querido, estão aqui quatro senhores... do gabinete do procurador? Não sei. Dizem que querem levar-te com eles.” O seu tom de voz era sereno. O meu pai fora preso repetidamente na década de 50 por conspiração contra o regime do Xá. Ela sabia o que dizer.

Os homens adoptaram um estranho código de etiqueta. Tiraram os sapatos quando entraram no apartamento e depois, quando fizeram buscas no meu quarto, recusaram a oferta de chá da minha mãe. Disseram-me mais tarde que não gostavam de abusar da amabilidade dos familiares daqueles que prendiam. Porém, a possibilidade de estarem a prender um inocente não os parecia perturbar. Nos começos da revolução, o aiatola Ruhollah Khomeini emitiu um decreto: “Manter vivo o sistema [islâmico] é a tarefa mais importante de um muçulmano.” Nas suas mentes, apenas executavam o seu dever religioso.

Três dos homens tinham um aspecto frio de contabilistas. O Sr. Rosewater era claramente o chefe. Vestia um fato castanho e uma camisa branca. Quando entrou no quarto, avaliou-me como se eu fosse uma presa. Podia ver-lhe um revólver por baixo do casaco, mas a forma como me fixava dava para entender que preferia usar o seu olhar como arma.

Havia cinco carros à espera lá fora, todos sem matrícula. Ninguém estava fardado nem exibia insígnias. Ao afastarmo-nos num carro, perguntei a um dos meus sequestradores se íamos a caminho da prisão de Evin. “Talvez sim, talvez não”, disse ele. Depois mandaram-me tirar os óculos e pôr uma venda nos olhos. Dei uma última olhadela à minha volta. Estávamos na auto-estrada do Curdistão, virados a norte. Íamos sem dúvida para Evin.

Construída em finais da década de 60, durante o reinado do Xá, como cadeia de alta segurança para prisioneiros políticos, a prisão de Evin tornou-se sinónimo de unhas arrancadas e ossos partidos. Os primeiros reclusos eram maioritariamente comunistas e islamitas. Depois da revolução de 1979, os islamitas puseram atrás das grades os seus captores, bem como os seus antigos companheiros de cela que fossem de esquerda. Utilizaram algumas das mesmas técnicas dos antecessores, mas com mais eficácia. Muitos dos que tinham resistido aos torturadores do Xá quebraram em poucos dias sob a nova gestão.

“Bem-vindo a Abu Ghraib, Guantánamo ou o que quer que seja que vocês, americanos, constroem”, disse-me um guarda.
“Não sou americano, meu irmão”, respondi com um sorriso.
“Se trabalha para eles, é um deles”, disse ele. “Mas não se preocupe. Isto aqui não é um mau lugar.”

Fui levado para a minha cela. Em tempos entrevistei um antigo guerrilheiro islâmico que se tornara ministro do Governo. O problema com a polícia secreta do Xá, disse ele, era que pensavam que podiam quebrar a vontade de um preso através da pressão física, mas muitas vezes isso só servia para reforçar a determinação da vítima. “O que os nossos irmãos depois da revolução conceberam foi o modo de sujeitar a alma de um homem sem usar muita violência física.” Ao entrar na minha cela, perguntava-me até que ponto era violenta a tal “sem muita violência”.

Tirei a venda dos olhos. O Corão diz que um dos piores castigos que Alá pode infligir aos pecadores é tornar mais pequenas as suas sepulturas. A minha cela de dois metros quadrados assemelhava-se a uma sepultura. As paredes eram uma imitação de mármore, de um branco sujo, e estavam limpas, mesmo imaculadas, excepto no que respeita a alguns aforismos provocadores e poesia persa numa letra pequena e ilegível. Três frases estavam escritas em letra maior: “Meu Deus, tem piedade de mim”, “Meu Deus, eu arrependo-me” e “Deus, ajuda-me por favor”...

Londres, Novembro de 2009

Paola, a minha mulher, está sentada no sofá a dar de mamar à nossa filha Marianna, nascida há duas semanas. Estamos a ouvir uma das canções que me não saíam da cabeça em Evin e que me ajudaram a encontrar alguma paz dentro de mim: ‘Hey, That’s No Way To Say Goodbye’, de Leonard Cohen: I loved you in the morning, Our kisses deep and warm, Your hair upon the pillow Like a sleepy golden storm. (Amei-te de manhã, Nossos beijos profundos e quentes, O teu cabelo sobre a almofada Como uma vagarosa tempestade dourada.)

Para mim, esses versos representavam Paola. É deste tipo de coisas de que é feita a sobrevivência. A música foi o meu verdadeiro refúgio. Obrigado, Sr. Cohen.

Prisão de Evin, 22 de Junho de 2009 (cerca das 4h da manhã)

Um guarda despertou-me e disse-me que depois das orações da manhã me ia encontrar de novo com o meu ‘especialista’, a palavra que os guardas prisionais tinham de utilizar para designar os interrogadores. Seria a minha terceira sessão no espaço de 24 horas.

Quando o Sr. Rosewater entrou na sala do interrogatório ouvi-o bocejar. Perguntou-me se eu queria metade do pepino descascado e temperado que estava a comer. Quando recusei, sentiu-se insultado. “O que é? Pensa que os interrogadores não lavam as mãos?” Comi o pepino. Ele queria que eu lhe falasse de um jantar onde estivera com mais oito jornalistas e fotógrafos em casa de um amigo em Teerão, em Abril, diversas semanas antes das eleições. “Você faz parte de uma rede muito americana, Sr. Bahari”, disse. “Deixe-me corrigir: você tem a seu cargo uma rede secreta americana, um grupo que inclui aqueles que foram a esse jantar.” “Foi só um jantar”, murmurei. “Sim. Um jantar muito americano. Podia ter acontecido em New Jersey ou noutro local semelhante.” Fez uma pausa. “A sua própria New Jersey em Teerão.”

“Você estava a planear erradicar a religião pura de Maomé neste país e substituí-la pelo Islão ‘americano’. Um Islão de New Jersey... Diga-me, algumas das mulheres no jantar estavam de véu?” “Não.” “Então não me venha dizer que não tinha uma rede secreta americana. Uma rede de New Jersey.”

Nasci em Teerão e vivi lá os primeiros 19 anos de vida, até ir estudar para o Canadá e a Grã-Bretanha e aí começar a minha carreira de jornalista e realizador de documentários. Regressei em 1998 e fiz filmes e reportagens para a “Newsweek”. Mas até ser preso nunca reconhecera plenamente a suspeita corrosiva que está a perverter a República Islâmica desde o seu interior. Os Guardiães vêem verdadeiros inimigos a toda a volta — reformistas no interior do país, centenas de milhares de soldados americanos lá fora. Ainda pior são os supostos agentes-sombra da Grã-Bretanha, Estados Unidos e Israel — aos quais impõem a sua lógica temível e a sua história reinventada. Só os muçulmanos, só eles são vítimas.

O que se passa é que eu devo ser o único realizador iraniano ou mesmo muçulmano que fez um filme sobre o Holocausto (“The Voyage of the Saint Louis”, em 1994). O Sr. Rosewater sentia-se ofendido por isso e esforçou-se arduamente por me ligar àquilo que ele chamava ‘elementos’ judeus e sionistas. No seu léxico, eram raras as pessoas judias. Só havia ‘elementos’.

Prisão de Evin, 26 de Junho de 2009 (depois das orações da tarde)

O Sr. Rosewater não estava só. Podia ouvir que havia mais alguém na sala, outro interrogador. Este queixava-se das minhas respostas escritas a perguntas sobre diversos indivíduos. Quando se aproximou de mim, vi que calçava uns sapatos pretos reluzentes. As calças eram bem engomadas e vincadas. “Sr. Bahari, as suas respostas são muito gerais. Temos esperança que nos possa dar respostas mais detalhadas”, disse ele.

“Eu só escrevo aquilo que sei, senhor. E, se lhe der mais pormenores, isso significa que estou a mentir.”

“Bem”, disse o Sr. Rosewater, que até aí se tinha mantido em silêncio, “nós temos gravações em vídeo de si muito interessantes. Isso pode convencê-lo a ser mais colaborante.” Não conseguia imaginar o que poderia ser. Algo pessoal? Algo que pudesse comprometer os meus amigos? Mas... recordei a mim próprio que não fizera nada de mal.

Poucas semanas antes, centenas de repórteres estrangeiros tinham sido autorizados a entrar no país no período que antecedera as eleições. Entre eles estava Jason Jones, um ‘correspondente’ do “Daily Show”, o noticiário satírico de Jon Stewart. Jason entrevistou-me num café de Teerão, fingindo ser um americano imbecil. Vestia-se como uma personagem de um filme barato sobre mercenários no Médio Oriente — com um lenço palestiniano aos quadrados em volta do pescoço e óculos de lentes muito escuras.

A ‘entrevista’ foi muito curta. Jason perguntou-me porque é que o Irão era ruim. Respondi-lhe que o Irão não era ruim. Acrescentei que, na verdade, o Irão e a América partilhavam muitos inimigos e tinham em comum muitos interesses. Mas os interrogadores não estavam interessados no que eu estava a dizer. Estavam fixados em Jason.

“Porque é que este americano está vestido como um espião, Sr. Bahari?”, perguntou o segundo homem.
“Ele está a fingir que é um espião. Faz parte de um espectáculo de comédia”, respondi.
“Diga a verdade!”, gritou o Sr. Rosewater. “O que é que tem de engraçado sentar-se à mesa de um café usando um kaffiyeh e óculos de sol?”
“É só uma piada. Espero que não estejam a insinuar que ele é um espião verdadeiro.”
“Pode dizer-nos porque é que um jornalista americano a fingir que é um espião o escolheu para ser entrevistado?”, perguntou o homem das calças vincadas. “Sabemos pelos nossos contactos e fontes que lhes disse quem deviam entrevistar para o programa.”

Os outros iranianos entrevistados por Jason — um ex-vice-presidente e um ex-ministro dos Negócios Estrangeiros — haviam sido detidos uma semana antes de mim como parte das radicais medidas de força dos GRI.

“Trata-se apenas de comédia”, disse eu, sentindo-me fraco.
“Também acha que é engraçado ter dito que o Irão e a América têm muito em comum?”, perguntou o Sr. Rosewater, declarando que estava a perder a paciência comigo. Agarrou a minha orelha esquerda entre os polegares e começou a torcê-la como se estivesse a espremer um limão. Depois segredou-me: “Este tipo de comportamento não o vai ajudar. Muitas pessoas apodreceram nesta prisão. Você pode ser uma delas.”

Prisão de Evin, 29 de Junho de 2009 (depois da meia-noite)

Estava a dormir profundamente quando um guarda abriu a porta da minha cela: “Levante-se! Hora do especialista!”

O Sr. Rosewater não me disse olá como de costume. Arrancou-me das mãos do guarda. “O divertimento acabou”, gritou. Empurrou-me com tanta força que quase caí no chão. Depois agarrou-me por um braço e começou a arrastar-me. Sentia-lhe a respiração pesada enquanto ele repetia: “Acabou a bondade islâmica, meu espiãozinho, vamos mostrar-te o que podemos fazer contigo!... Vais ver do que somos capazes.”

Empurrou-me para dentro de uma sala. Parecia haver muita gente lá, sussurrando uns para os outros. O cheiro a suor e a água de rosas era forte. De repente, a sala irrompeu numa cacofonia de saudações. Todos queriam cumprimentar alguém a quem chamavam Haj Agha. O epíteto significa literalmente alguém que foi a Meca em peregrinação, mas entre as autoridades iranianas significa respeito pela hierarquia. Alguém me pegou na mão e a colocou na mão de Haj Agha.

“Salaam, Sr. Bahari”, disse ele. “Sabe porque está aqui?” A voz pareceu-me familiar, como a de um conhecido propagandista do regime que tem um programa na televisão iraniana. Ele não queria decididamente ser reconhecido e disse-me para manter os olhos bem cobertos. Perguntou a alguém: “O carro já chegou?” Depois falou de novo para mim: “Sr. Bahari, é suspeito de espionagem. Esteve em contacto com diversos espiões conhecidos.” Nomeou alguns dos meus amigos, na maioria artistas e intelectuais iranianos no exílio. Um carro vinha-me buscar para me levar para uma unidade de contra-espionagem, disse ele. Aí seria interrogado durante mais de 15 horas por dia e sujeito a “todas as tácticas” até falar. A investigação levaria “entre quatro a seis anos”. Podia ser condenado à morte. Perdi-me nos meus pensamentos sobre a minha mãe, sobre Paola, sobre o nosso filho ainda por nascer. Como é que os tinha colocado nesta situação? Eu era um mau filho, pensei, um mau marido, um mau pai.

“A não ser que”, disse Haj Agha, fazendo uma pequena pausa, “a não ser que esteja interessado numa negociação, Sr. Bahari.”

Pouco tempo depois da minha detenção, para além de me acusarem de trabalhar para diversas agências de espionagem, o Sr. Rosewater repetira que eu tinha “sido o cérebro da cobertura das eleições pelos agentes dos meios de comunicação ocidentais no Irão”. Isto recordava-me um medo que me era familiar. O ayatollah Khamenei gostava de avisar os iranianos sobre uma “NATO cultural” tão ameaçadora como a militar — uma rede de jornalistas, activistas, intelectuais e advogados que supostamente procuravam minar a República Islâmica a partir de dentro.

Qualquer pessoa que passasse pelas ruas de Teerão em Junho perceberia como foram espontâneos — e sem líderes — os protestos que se seguiram às eleições. Mas Khamenei e os Guardiães acreditavam claramente — ou pelo menos queriam que os iranianos acreditassem — que tinham sido orquestrados por estrangeiros. Chamaram à conspiração uma “revolução de veludo” ou um “derrube sem violência”. “Vocês são piores do que qualquer sabotador ou assassino”, tinha-me dito, furioso, o Sr. Rosewater naquele primeiro dia. “Esses criminosos destroem um objecto ou uma pessoa. Vocês destroem a mente e provocam as pessoas contra o Líder.”

Em persa existe uma palavra muito poética, jafaa, que se refere a todos os agravos que cometemos contra aqueles que nos amam. De acordo com o Sr. Rosewater, eu era culpado de jafaa contra Khamenei. Agora devia arrepender-me.

Na manhã seguinte fui levado ao gabinete de Haj Agha. Tinham sido montadas máquinas de filmar em tripés. O Sr. Rosewater estava sentado atrás de uma cortina e dava as perguntas aos repórteres de três meios de comunicação estatais. “Dê as suas respostas tão clara e articuladamente quanto puder... claro, nas suas próprias palavras”, ordenou-me Haj Agha. Eu devia explicar como é que a revolução de veludo era encenada — por estrangeiros e elites corruptas, utilizando os meios de informação ocidentais — e como só a sabedoria e generosidade do Líder Supremo haviam frustrado esta última tentativa.

Tentei manter as minhas respostas tão vagas quanto possível, esperando dar deste modo a impressão de um distanciamento irónico (uma fonte do antigo ministério dos Serviços de Informação dir-me-ia mais tarde que o meu solilóquio foi um “caso de estudo de como não dizer nada”).

Prisão de Evin, 4 de Julho de 2009 (algumas horas depois das orações do meio-dia)

Depois da ‘confissão’, segundo me prometera Haj Agha, seria libertado em breve. Mas na vez seguinte que vi o corpulento Rosewater, ele fechou a porta da sala do interrogatório e, pela primeira vez, começou a bater-me. As suas mãos sapudas atingiram-me com dureza na nuca e nos ombros. “Pensava que tínhamos um entendimento!”, protestei, tentando proteger o corpo.

Os espancamentos continuariam desde esse momento até fins de Setembro. O Sr. Rosewater não me batia enquanto me fazia perguntas. Batia-me antes ou depois. Disse-me que o fazia porque estava zangado. “O que fizeste, Mazi, faz-me ferver o sangue. Eu não quero levantar a minha mão contra ti, mas o que sugeres tu que eu faça a alguém que insultou o Líder?” Afirmava que o seu próprio pai fora prisioneiro político antes da revolução de 1979 e que os torturadores do Xá lhe tinham arrancado as unhas dos pés tão brutalmente que ainda hoje não podia caminhar bem. Devia sentir-me um sortudo, insinuava ele.

Não me sentia. O que eu mais odiava era quando ele me chamava Mazi. Só os amigos mais chegados e a família me chamam Mazi. O diminutivo é familiar, afectivo. Na sua voz, soava obsceno.

Londres, Novembro de 2009

As equimoses tinham quase desaparecido quando cheguei a Londres, mas Paola ficou chocada com a minha magreza. Uma das primeiras coisas que o Sr. Rosewater me prometera fora que enviaria o meu esqueleto para casa. E tinha razão. Perdi mais de 11 quilos na prisão. Compreendi rapidamente que para aguentar os interrogatórios precisava de estar em forma, tanto física como mentalmente. Fazia talvez cinco horas por dia de exercícios na minha cela minúscula. Fazia 500 abdominais e 60 flexões. Fazia ioga.

Durante algum tempo foi-me permitido passear no pátio da prisão durante 30 minutos de manhã e 30 minutos à tarde. Eles punham seis ou sete reclusos ao lado uns dos outros e nós andávamos para trás e para a frente com os olhos vendados. Os guardas chamavam-lhe o hava khori — literalmente, ‘apanhar ar fresco’. Era a única vez que conseguia ver o céu, podia levantar a cabeça e espreitar por baixo da venda. No princípio, não sabia como caminhar de olhos vendados. Mas rapidamente memorizei o número de passos entre as paredes do pátio. E comecei mesmo a fazer corrida. O meu verdadeiro refúgio, contudo, era a música. Tribunal Revolucionário, 1 de Agosto de 2009 (antes do meio-dia) Ia de olhos vendados enquanto seguíamos de carro. “Mazi, hoje podes prestar um grande serviço a ti e ao país”, tinha-me dito o Sr. Rosewater num dos interrogatórios antes de amanhecer. “Queres ficar livre, não queres?” “Sim”, disse eu em voz baixa. “Portanto, tudo o que tens a fazer é repetir o que Haj Agha te ensinou sobre ‘revoluções de veludo’ numa conferência de imprensa.” Depois deu-me diversas palmadas nas pernas até elas me começarem a doer. “Mas desta vez precisamos de nomes. Precisamos de saber quem são os agentes da ‘revolução de veludo’. Precisamos de nomes, Mazi. Sem nomes, significa forca. Compreendido?”

Quando esperava no tribunal, nessa manhã, não fazia a mínima ideia de que noutra sala mais de 100 prisioneiros maltratados — muitos deles destacadas figuras reformistas e ex-ministros do Governo — estavam sentados no banco dos réus enquanto um delegado do MP lhes lia um longo e estranho relato dos seus papéis na suposta “revolução de veludo”. Dois deles — o antigo vice-presidente Mohammad Ali Abtahi e o antigo vice-ministro do Interior Mohammad Atrianfar — foram mais tarde apresentados para ‘confessarem’ os seus papéis aos repórteres dos meios de comunicação estatais.

A minha vez chegou depois do almoço. Comemos frango grelhado e bebemos dough, uma bebida saborosa de iogurte, semelhante ao lassi. O Sr. Rosewater deu-me a sua bebida, dizendo que tinha de ter cuidado com a tensão arterial. “Nomes, Mazi, nomes”, recordava-me ele.

De novo não lhe forneci nenhum. Claro que conhecia políticos reformistas — como qualquer jornalista iraniano veterano. Muitos deles, na verdade, também tinham sido destacados revolucionários; com o tempo, haviam concluído que o que tinham ajudado a instaurar só poderia sobreviver se se modernizasse. Isto era heresia para a nova geração dos comandantes dos Guardiães. Estes conservadores emergiram depois da guerra Irão-Iraque, convencidos de que o Irão não tinha amigos no estrangeiro, apenas inimigos — e era dominado por um Governo corrupto e ímpio. Do seu ponto de vista, a velha guarda precisava de ser expurgada do sistema tão profundamente como tinham sido os amigos do Xá.

Era evidente que o Sr. Rosewater queria que eu implicasse estes reformistas, para os ligar aos meus patrões dos meios de comunicação no Ocidente. Ao meu lado, sentado num estrado, estava outro prisioneiro, Kian Tajbaksh, um académico iraniano-americano que trabalhava para o Open Society Institute, dirigido por George Soros, um verdadeiro papão para os Guardiães. O facto de o Governo nos ter autorizado aos dois a fazer o nosso trabalho apenas confirmava as suspeitas dos Guardiães relativamente ao establishment iraniano. “Aqueles que vos deram autorização são ainda mais culpados do que vocês”, disse-me um dia o Sr. Rosewater.

Quando terminámos, eu sabia o que me esperava de regresso a Evin. Na sala de interrogatórios, o Sr. Rosewater espancou-me sem dizer uma palavra. Nem era preciso explicar.

Prisão de Evin, Agosto de 2009

Dia após dia, horas após horas sem fim, os interrogatórios prosseguiam, cada vez mais
surrealistas nos seus contornos de conspiração infame. Inicialmente, o Sr. Rosewater pedira-me as passwords do meu e-mail e do Facebook, por isso possuía uma longa lista de contactos para me atormentar com perguntas sobre cada um deles.

Prisão de Evin, 17 de Setembro de 2009 (cerca das 9h)

“É muito estranho que ainda ninguém tenha dito nada sobre si”, disse-me um dia o Sr. Rosewater. “Não tem amigos nem parentes?” Pensei que ele estava a fazer bluff, mas não tinha a certeza. O pior pesadelo de um prisioneiro é pensar que foi esquecido. Então, numa manhã de Setembro, o guarda mais simpático da prisão, com quem eu trocava anedotas obscenas, abriu a porta da minha cela e disse-me: “Sr. Hillary Clinton, pode ir agora fazer o hava khori.”

Fiquei perplexo. “Porquê Hillary Clinton?”, perguntei-lhe. “Ela falou sobre si ontem à noite”, disse ele, referindo-se aos comentários que a secretária de Estado dos Estados Unidos fizera ao seu homólogo canadiano. Fiquei eufórico. Isto significava que havia pressão internacional para me libertarem.

Em Setembro comecei a ver sinais de que os Guardiães estavam sob pressão para me libertar. Primeiro permitiram-me telefonar à minha mãe, depois participar num jantar iftar durante o Ramadão. Também me deixaram telefonar a Paola — para a avisar que devia parar de dar entrevistas (felizmente, ela percebeu que a mensagem significava que devia era dar mais). O Sr. Rosewater começou a dizer que queria libertar-me antes de o meu bebé nascer, no fim de Outubro. Onze dias antes da minha libertação, tiraram-me da solitária e levaram-me para uma cela com quatro conhecidos reformistas, incluindo Atrianfar. Tínhamos televisão.

Um responsável iraniano desencantado disse-me recentemente que os Guardiães impediram a minha libertação durante semanas; o Sr. Rosewater estava entre os que mais reclamavam que eu fosse julgado rápida e severamente. Duvido que ele se tenha alguma vez preocupado com as múltiplas campanhas de pressão que a “Newsweek” e outros lançaram em meu apoio — os editoriais e petições, as iniciativas diplomáticas, os discretos esforços pessoais de líderes mundiais. Em Setembro, com o Irão à beira das conversações sobre o poder nuclear, puderam argumentar que eu me tinha tornado um motivo de preocupação. “Na prisão, você era mais um risco do que uma vantagem”, disse-me o desencantado responsável.

Londres, Novembro de 2009

Sinto-me nervoso mas satisfeito enquanto digito as palavras no meu portátil: “Não me contacte mais. Nunca fiz espionagem para ninguém. Não vou agora começar a fazer espionagem para vocês.”

Envio o e-mail para o endereço que o Sr. Rosewater me deu. Nos dias anteriores à minha libertação, ele tinha-me forçado a assinar um documento dizendo que eu teria de “cooperar com os irmãos dos Guardiães da Revolução” quando fosse para fora do país. Deu-me uma lista de nomes sobre os quais devia dar informações, que incluía a maioria dos meus amigos iranianos em Londres e noutras cidades ocidentais. Deu-me o endereço de e-mail para eu utilizar.

Na noite anterior a deixar o país, pediu para me encontrar com ele num hotel da baixa de Teerão. O seu olhar era tão ameaçador como no dia em que me prendeu. “Esperamos ter uma cooperação construtiva consigo no futuro”, disse um outro homem que estava com ele, num tom tranquilizante. Sorri e acenei com a cabeça educadamente. Do sr. Rosewater ouvi: “Lembre-se do saco, Sr. Bahari. Lembre-se do saco”, foram essas as suas últimas palavras.

Em vez disso, é de outra coisa que me estou a lembrar: da minha filha recém-nascida que tenho nos braços. O seu nome é Marianna Maryam Bahari.


por Daniel Oliveira
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48 comentários:
Antonio Cunha
Esse paraíso na terra que é o Irão.

Os comunalhas que venham em sua defesa.

deixado a 28/12/09 às 14:07
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estouxim
Daniel, não arranja melhor para os desnorteados?

Newsweek correspondent Maziar Bahari, who was arrested on June 21, also appeared in court Saturday. At a news conference later in the day, he expressed regret for his actions.

"On behalf of myself and my press colleagues, I apologize to Iran's great nation and supreme leader of the Islamic Revolution for doing harm to the country," he said. - http://www.washingtonpost.com/wp-dyn/content/article/2009/08/01/AR2009080100432_2.html

Grande tortura e grande lutador pela liberdade...

Repetindo, para ver se vc percebe:

http://www.iranaffairs.com/iran_affairs/2009/12/iran-the-other-sanctions-on-the-other-dictator.html

A campanha ainda é a mesma e é lamentável que vc a propague.

Se em vez de recorrer a peças de propaganda tivesse o cuidado de investigar talvez convencesse algum desnorteado.

deixado a 28/12/09 às 16:00
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estouxim, informe-se o senhor antes de dizer barbaridades. Há até uma entrevista sobre essas declarações que pode procurar (tenho mais que fazer) e perceber porque foram elas feitas. Gostava de o ver a si. É fácil falar quando se vive em liberdade e democracia e se pode dizer o que se pensa sem correr risco de vida nem viver com o receio de ficar sem família. Muito fácil mesmo. OU acredita que algum jornalista pede desculpas assim, de livre vontade. Suponho que consigo as confissões dos julgamentos de Moscovo passavam por sinceras e livres. Estouxim, quando alguma vez vier aqui falar da ditadura em que vivemos durante meio século eu recordo-lhe a sua posição. Lamentável é a sua simpatia por torturadores e assassinos.

deixado a 28/12/09 às 16:08
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Augusto
Estou estupefacto, então para alem do Chavez esse grande paladino do xuxialismo, há tambem em Portugal , quem defende o regime iraniano.....

Depois de Cuba da China, da Coreia do Norte, há cidadãos que se dizem de esquerda , a defender o regime do Irão?????

Ser de esquerda é denunciar todas as formas de repressão venham elas de onde vierem....

Ser de esquerda é defender a LIBERDADE, e repudiar todas as formas de censura.

Se há quem não entenda isto , então certamente não é de esquerda, nem nunca lutou pela liberdade em Portugal.

deixado a 28/12/09 às 16:37
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mister p
Salman Rushdie, outro igualmente tenebroso agente da opressão ideológica ocidental (de cariz imperialista ou mesmo medieval) sobre a livre, justa e incorruptível sociedade muçulmana (óbvia vanguarda do desenvolvimento sócio-económico da humanidade), continua com a cabeça a prémio, assim como os autores de uns bonecos publicados em jornais europeus.
Valha-nos que os nossos fundamentalistas são muito mais civilizados, já que num curtíssimo espaço de tempo (apenas alguns séculos depois) vieram oficialmente aceitar Galileu e revogar os castigos celestiais (os outros não foi ainda possível) decretados.

deixado a 28/12/09 às 17:15
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Antonio Cunha
4 Augusto

Voce tem a certeza que e de esquerda ? É que existe por aí uns gajos de extrema esquerda que se julgam os donos do termo.

deixado a 28/12/09 às 17:21
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Rafeiro Danado
A mim não me espanta nada, é o costume, que muito boa gente de 'esquerda' confunda a luta dos povos com os objectivos de certas organizações - Hammas, Hezbolah e afins - que se dizem representantes dos seus legitimos anseios.

A Liberdade não é um valor de esquerda ou de direita, é algo que faz parte da essência do ser humano, por isso reverencio todos os que, não a tendo, têm coragem de lutar por ela.

Maziar Bahari, obrigado pelo seu exemplo, obrigado por existir.

deixado a 28/12/09 às 18:09
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antonioNinguém
o sr. augusto cunha é que é de esquerdadaqueles que defende aramndos varas,coelhos e ,vá lá,é compreensivo para os cardosos e cunha,isaltino e tc e o compadre dias loureiro,pois então!Não há pachorra.

deixado a 28/12/09 às 18:15
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LAM
Não fosse eu já ter vivido algumas situações e conhecer outras (é das poucas coisas que alguma idade pode trazer vantagem) e ficava deveras perplexo com tanta pedra partida ácerca da "violência revolucionária" implícita numa miniatura da Duomo, e um assobiar para o lado quando não um alinhamento cúmplice com a teocracia iraniana quando as coisas aquecem mesmo. Ontem como hoje.
Admitindo até (não sei e creio que com as informações disponíveis relativas à oposição iraniana haverá casos diversos), que alguma dessa oposição esteja a ser apoiada por países ocidentais da europa ou mesmo dos EU, o papel de qualquer revolucionário é apoiar essa luta contra a ditadura. E se os EU apoiam tanto melhor. Venham aliados de onde vierem, porque para quem vive sob uma ditadura corrupto/religiosa como a iraniana será sempre melhor qualquer democracia burguesa do que a tortura e a morte.
Claro que esta violência nas cidades iranianas não dá para vender artesanato.

deixado a 28/12/09 às 18:20
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Vicente de Lisboa
#8 antonioNinguém

Essa resposta ali ao seu homónimo Cunha resulta de um conhecimento pessoal, ou é a faixa de mp3 que se mete a correr sempre que alguém corrige Os Donos Da Esquerda?

deixado a 28/12/09 às 18:36
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