Quinta-feira, 29 de Abril de 2010
por Daniel Oliveira
A pergunta é uma provocação. Serve apenas para tentar que se perceba que o nosso problema não é apenas a dívida. E que ou discutimos a Europa ou estamos a perder o nosso tempo



O euro é uma moeda forte. E isso, sendo excelente para as importações, é trágico para as exportações de um país sem grandes argumentos competitivos. E isso é mau para as nossas melhores empresas e para o nosso crescimento. Na verdade, se não estivéssemos no euro é provável que fosse mais fácil responder à crise. Quer com os instrumentos monetários tradicionais, quer com as vantagens de uma moeda mais fraca. Por fim, é uma moeda cega às necessidades das periferias.

Quando entrámos para o euro ele apresentava uma vantagem: a integração plena no espaço económico europeu. Mas havia uma condição: a solidariedade absoluta dentro deste espaço. Nenhum país frágil pode ter uma moeda forte e que não controla, um mercado escancarado e, ao mesmo tempo, ser deixado à deriva quando os ataques especulativos acontecem.

Se os "pigs" (os países do Sul), que, graças aos preconceitos dos mercados (os mercados não são racionais - são compostos de pessoas com as mesmas dificuldades de percepção que todas as outras), servem de carne para canhão quando as coisas apertam o melhor que têm a fazer é sair do euro.

Por isso, repito a pergunta: e se saíssemos do euro? Parece uma tragédia. Provavelmente seria e por isso não o defendo. Mas se é para termos os prejuízos de uma moeda forte, os riscos de um mercado aberto e a fragilidade da nossa pequenez, mais vale sermos nós a decidir o nosso futuro. Se é para servirmos de alvo aos ataque ao euro mais vale voltarmos à estaca zero.

Por agora, só posso concluir uma coisa: a Europa está a falhar em toda a linha. E o seu coveiro tem um nome: Angela Merkel. Por causa de umas eleições regionais tem andando aos ziguezagues. No jogo da especulação, ninguém aposta o seu dinheiro num cavalo com vitória segura. Ninguém aposta num cavalo com derrota segura. É a instabilidade e a incerteza, que o comportamento da Alemanha em relação à Grécia alimentou, que cria o caldo para esta ofensiva especulativa. Se isto continua o euro é um péssimo negócio para os países periféricos. E a provocação que aqui faço deve passar a ser para levar a sério.

Publicado no Expresso Online.

por Daniel Oliveira
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69 comentários:
CarlosC
Se saíssemos do Euro afundávamos quem nem pedras!
Toda a nossa dívida está emitida em €, quando saíssemos do €uro para voltar ao Novo Escudo a nossa moeda sofreria uma tal desvalorização (veja-se o que no último ano e meio aconteceu à Libra), que ficaria à volta dos 250$ ou 300$ para 1 €.
A nossa moeda desvalorizava, mas a nossa dívida não, pelo contrário o € valorizava pela inexistência dos parceiros mais fracos. Mais dívida para pagar

Está a ver a casa e o carro dos portugueses... ficava tudo penhorado. Como saíamos da Euribor, voltávamos à Libor e como a taxa de juro teria que subir fruto da inflação ( a desvalorização cambial cria inflação), os portugueses que tem corda na garganta, puxavam o nó.
Já estou a ver os bancos a enviarem cartas aos clientes a informar que os seus contratos tem que ser renegociados e com as novas TAEG.
As taxas passariam para quase dois digitos.

Por último os movimentos cambias de desvalorização são movimentos de empobrecimento das populações. Não existe outro nome. Desvalorizo a moeda, aumenta a inflação, mas os salários não podem subir de forma igual. Portanto mais gente pobre

deixado a 29/4/10 às 09:54
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[...] This post was mentioned on Twitter by Arrastão. Arrastão said: Arrastão E se saíssemos do euro?: A pergunta é uma provocação. Serve apenas para tentar que se perceba que o nosso... http://bit.ly/9CMSBz [...]

deixado a 29/4/10 às 09:31
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CarlosC
Sei que a saída do €uro era uma provocação, mas sobre a questão da senhora Merkel, eu acredito que é a das poucas que está certa.

1. Consta do tratado Da União que não é permitido transferência da dinheiro para outros Estados;
2. O Supremo tribunal alemão colocou como pedra de toque esta questão ( fruto da 2ª Guerra o S. Tribunal tem poderes formidáveis de controlo)
3. A maior parte da população alemã está contra (últimas sondagens dão 80%, por isso não há margem de erro).

Portanto uma Democracia deve estar sujeita aos Cidadãos e à Lei.
Da Extrema -Esquerda à Extrema-Direita europeia se culpa a Alemanha por estar a respeitar a vontade dos cidadãos e o Estado de direito. No fundo é isto.

Os especuladores andam a exigir taxas de juros bárbaras porque sabem que irão ser pagos. Sabem que os outros irão pagar. Senão não emprestavam por o risco ser demasiado grande.
Portugal vai endividar-se para ajudar a Grécia, quando nós mesmos precisamos já de ajuda.

Os bancos franceses, alemães, e ingleses são dos mais expostos à dívida. A chanceler alemã parece ser a única com tomates para desafiar estas instituições, mesmo algumas delas da sua terra natal.

Não sou de direita, mas neste momento estou mais de acordo com a Angela Merkel. Lei e Democracia, não solidariedade para com fundos de investimento ( são eles que vão receber o dinheiro) e diplomacia obscura dos negócios.

deixado a 29/4/10 às 10:14
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Carlos, a Europa está a emprestar dinheiro à banca a juros baixos para ela emprestar à Grécia a juros altos.
Quanto à democracia, se assim for entra em vigor o egoísmo europeu e não somos nós que temos de sair do euro, é o euro que acabará. Porque não sobrevive com cada um a pensar em si, assim como o dólar não sobrevive se cada estado pensar apenas em si. A Califórnia está falida. Ninguém discute se deve ou não ser ajudada. É e ponto.
Não sou nem de extrema-esquerda nem de extrema-direita.

A banca francesa e alemã está preocupada apenas com a Espanha e a Itália. A nossa dívida são trocos. Quando a coisa chegar aos outros vai ver como a chanceler acorda. Talvez tarde demais, mas acorda.

deixado a 29/4/10 às 10:19
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CarlosC
Daniel,
não estava a dizer que era de extrema-esquerda ou de extrema-direita :) Estava a dizer que do extrema-esquerda à extrema-direita tornou-se posição comum defender que a culpa é da Alemanha. Ou seja todo o espectro político.

Quanto à divida da Califórnia, ela não foi ajudada pelo Estado Federal. Teve que pagar em IOU, mas não ajudada. E o dólar não morreu!

Nos anos 70 o reino Unido recorreu ao FMI, a hungria recorreu em 2009, a Islândia em 2008 ainda. Portugal nos anos 80 também recorreu a essa ajuda. Foi um drama? Para lá do efeito psicologico e político? Não, não foi.

O problema do que está a acontecer foi o que se seguiu ao Lehman. Aprendeu-se que afinal existem coisas que não podem ir à falência, grandes bancos, seguradoras ou Estados todos serão salvos.
Os especuladores "apenas" aproveitam isto. Especulam ao máximo, porque não vão perder! Os seus investimentos, ou jogadas serão pagos pelos contribuintes.

se os especuladores começarem a perder agora, embora o risco económico seja grande não vão continuar a morder. Se a Alemanha ajudar todos quem ajuda a Alemanha?

Por último sobre o egoísmo e cada um por todos. Sou democrata e europeísta. Se os cidadãos não querem ajudar e ser um pouco "egoístas" eu sou Democrata antes de europeísta. Resta-me respeitar o Direito e a vontade do povo.

deixado a 29/4/10 às 10:51
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M
E se ainda tivessemos o escudo? Suponho que, face a esta crise, poderiamos desvalorizar a moeda, para aumentar as exportações e baixar as importações.

Contudo, uma moeda mais fraca iria tornar-nos ainda mais pobres em relação ao resto da Europa. Penso que isso não seria uma boa solução. O Euro, não nos permitindo usar estes mecanismos, obriga-nos a tornar-nos mais eficientes para que possamos convergir com a Europa, o que passa por conseguir finalmente fazer reformas há muito necessárias.

Mas há uma outra questão: como é que se decide valorizar/desvalorizar o euro em relação às outras moedas, sendo que países diferentes no Euro têm interesses diferentes?

deixado a 29/4/10 às 10:59
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Não percebo nada de economia, mas uma coisa parece-me certa. Desde que entrámos no euro que estamos sempre a divergir da Europa, o que não acontecia antes. Fui um entusiasta da moeda única, mas os factos, por enquanto, têm-me mostrado que estava errado. O "M" disse que "uma moeda mais fraca iria tornar-nos ainda mais pobres em relação ao resto da Europa". O que se tem verificado é exactamente o contrário.

deixado a 29/4/10 às 11:38
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PedroM
Daniel, explique-nos uma coisa: É uma afronta inaceitável os sacrifícios que se pedem ao povo Português e Grego, por uma situação que os próprios (isto é, o país) criaram. Mas já acha natural que o governo alemão peça ao seu povo sacrifícios por uma situação que nós e Gregos criamos. Os alemães devem-se dar por felizes por terem que trabalhar ainda mais e melhor, pagarem mais impostos para que outros continuem a engana-los, a ganharem mais (proporcionalmente ao PIB, produtividade e riqueza gerada), a terem mais férias e reformarem-se mais cedo.

deixado a 29/4/10 às 11:47
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Antonio Cunha
Existem pessoas que ainda não perceberam o verdadeiro problema

Portugal andou estes anos todos a endividar-se para pagar os custo sociais.

O problema é que para haver uma democracia social tem que haver produtividade e crescimento económico, e isso está mais do que parado.

deixado a 29/4/10 às 11:51
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Rui F
A Culpa não é da Alemanha?
Mas a economia Europeia não anda ao sabor da onda Alemã? O motor da Economia Europeia é ou não é a Alemanha?

Não foram sempre as economias mais poderosas, a sair fora dos critérios de convergência para o Euro?

A Europa é disforme e culturalmente variada. Ou se convive com isso e se criam politicas comuns, ou não vale a pena cada um por si.
Sou dessa opinião.

deixado a 29/4/10 às 11:58
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