Ver texto do "Público" em baixo.
A História e o futebol são motivo de orgulho para os portugueses... e as artes também
28.02.2007, Clara Viana
Só os Estados Unidos e a Venezuela batem Portugal no que toca à importância do passado histórico, revela estudo sobre identidade nacional que comparou 42 países
a Orgulhosamente portugueses: não parece, mas é deste modo que nos descrevemos, revela um estudo sobre Identidade Nacional que será hoje apresentado no Instituto de Ciências Sociais (ICS) da Universidade de Lisboa. E o que faz de nós seres orgulhosos da sua nacionalidade? A História, sobretudo, mas também o desporto, as artes e a literatura, adianta o antropólogo e historiador José Manuel Sobral, um dos coordenadores da investigação.
É o passado que garante um lugar no pódio a Portugal. Cerca de 92 por cento de portugueses dizem sentir orgulho na história do país. Em 42 países auscultados no âmbito desta investigação, é uma percentagem só ultrapassada nos Estados Unidos e na Venezuela. Orgulhamo-nos também com o futebol - o desporto vem a seguir à História.
E, surpresa, os portugueses sentem-se mais orgulhosos com as suas artes e literatura do que os nacionais de países como a Irlanda, os EUA ou a Rússia, revela José Sobral. Ufano com a sua História, Portugal não está, contudo, entre os mais patriotas. Embora figure entre os mais nacionalistas. Segundo os autores do estudo, é o que se conclui a partir das respostas a perguntas como esta: "As pessoas devem apoiar o seu país mesmo quando este toma uma posição errada?" Uma persentagem de 50,5 dos portugueses respondem "sim". É uma das mais altas.
Mesmo assim, não são apresentados entre os patriotas. É uma questão de definição, e a que foi utilizada para este estudo afasta-os. O problema é que os portugueses engrandecem o passado na mesma medida em que desprezam o presente. "O pequeno povo que fez um grande império" já há muito que não alinha entre os grandes e não arrisca sequer comparações com a vizinha Espanha. Estão pessimistas, desconfiados, sublinha José Sobral, e isso reflecte-se quando são chamados a identificar quais são, para eles, "as fontes de orgulho na situação presente de Portugal". Entre as quais figuram itens como a Segurança Social, a democracia, a governação, a influência política do país, etc.
É a partir destes indicadores que são calculados as chamadas "médias de patriotismo". Numa escala de 1 a 4, Portugal fixa-se nos 2,14, contra 2,71 de média na União Europeia.
Identidades valorizadas
Dando a si próprio tanto passado e tão pouco presente, o país não surpreende neste estudo. "Continua sempre a olhar para o passado. Mesmo quando inova e realiza, é sempre o passado que evoca. Foi o que aconteceu, por exemplo, com a Expo "98", diz José Sobral.
Qual o aspecto mais importante para se ser um verdadeiro nacional? Respostas dos portugueses: o conhecimento da língua (94,7 por cento) e ter antepassados nacionais (83,4 por cento). A primeira resposta coloca Portugal na média europeia, mais associada à chamada "representação cívica" da identidade nacional. A segunda remete-nos para junto daqueles que têm uma "representação etnista" da nação. Ambivalentes? "Estão nos dois lados, mas são dos que dão mais ênfase à dimensão étnica, aos antepassados, valorizam a pertença a uma comunidade no tempo que, no seu caso, fazem recuar aos lusitanos", diz José Sobral. Desta importância dada aos ancestrais pode-se também concluir que Portugal "não é um país muito aberto à imigração", acrescenta.
Realizado no âmbito da rede de pesquisa International Social Survey Programme, que em Portugal está integrado no programa Atitudes Sociais dos Portugueses, do ICS, o estudo que hoje será apresentado conclui que a percepção das identidades nacionais continua a ser um caso sério. Apesar da globalização, "não foi desvalorizado", comenta José Sobral. Em Portugal, foram realizadas para esta investigação 1602 entrevistas entre Abril e Setembro de 2004. Mais informação em http://zacat.gesis.org/webview/index.js
Existe "um forte recalcamento da questão étnica" na Europa, diz José Sobral com base nos dados recolhidos no âmbito do estudo sobre identidade nacional. Na Alemanha, por exemplo, e contrariando o que se registou no passado, a importância da ancestralidade quase não é referida. É a culpa alemã ainda a trabalhar, arrisca o investigador
Também a Eslováquia e a Eslovénia tendem a desprezar a importância dos avós. A "representação etnista" da nação é forte na Irlanda, Áustria e Espanha, mas sempre com valores inferiores aos recolhidos em Portugal.
Ver texto do "Público" em baixo.
A História e o futebol são motivo de orgulho para os portugueses... e as artes também
28.02.2007, Clara Viana
Só os Estados Unidos e a Venezuela batem Portugal no que toca à importância do passado histórico, revela estudo sobre identidade nacional que comparou 42 países
a Orgulhosamente portugueses: não parece, mas é deste modo que nos descrevemos, revela um estudo sobre Identidade Nacional que será hoje apresentado no Instituto de Ciências Sociais (ICS) da Universidade de Lisboa. E o que faz de nós seres orgulhosos da sua nacionalidade? A História, sobretudo, mas também o desporto, as artes e a literatura, adianta o antropólogo e historiador José Manuel Sobral, um dos coordenadores da investigação.
É o passado que garante um lugar no pódio a Portugal. Cerca de 92 por cento de portugueses dizem sentir orgulho na história do país. Em 42 países auscultados no âmbito desta investigação, é uma percentagem só ultrapassada nos Estados Unidos e na Venezuela. Orgulhamo-nos também com o futebol - o desporto vem a seguir à História.
E, surpresa, os portugueses sentem-se mais orgulhosos com as suas artes e literatura do que os nacionais de países como a Irlanda, os EUA ou a Rússia, revela José Sobral. Ufano com a sua História, Portugal não está, contudo, entre os mais patriotas. Embora figure entre os mais nacionalistas. Segundo os autores do estudo, é o que se conclui a partir das respostas a perguntas como esta: "As pessoas devem apoiar o seu país mesmo quando este toma uma posição errada?" Uma persentagem de 50,5 dos portugueses respondem "sim". É uma das mais altas.
Mesmo assim, não são apresentados entre os patriotas. É uma questão de definição, e a que foi utilizada para este estudo afasta-os. O problema é que os portugueses engrandecem o passado na mesma medida em que desprezam o presente. "O pequeno povo que fez um grande império" já há muito que não alinha entre os grandes e não arrisca sequer comparações com a vizinha Espanha. Estão pessimistas, desconfiados, sublinha José Sobral, e isso reflecte-se quando são chamados a identificar quais são, para eles, "as fontes de orgulho na situação presente de Portugal". Entre as quais figuram itens como a Segurança Social, a democracia, a governação, a influência política do país, etc.
É a partir destes indicadores que são calculados as chamadas "médias de patriotismo". Numa escala de 1 a 4, Portugal fixa-se nos 2,14, contra 2,71 de média na União Europeia.
Identidades valorizadas
Dando a si próprio tanto passado e tão pouco presente, o país não surpreende neste estudo. "Continua sempre a olhar para o passado. Mesmo quando inova e realiza, é sempre o passado que evoca. Foi o que aconteceu, por exemplo, com a Expo "98", diz José Sobral.
Qual o aspecto mais importante para se ser um verdadeiro nacional? Respostas dos portugueses: o conhecimento da língua (94,7 por cento) e ter antepassados nacionais (83,4 por cento). A primeira resposta coloca Portugal na média europeia, mais associada à chamada "representação cívica" da identidade nacional. A segunda remete-nos para junto daqueles que têm uma "representação etnista" da nação. Ambivalentes? "Estão nos dois lados, mas são dos que dão mais ênfase à dimensão étnica, aos antepassados, valorizam a pertença a uma comunidade no tempo que, no seu caso, fazem recuar aos lusitanos", diz José Sobral. Desta importância dada aos ancestrais pode-se também concluir que Portugal "não é um país muito aberto à imigração", acrescenta.
Realizado no âmbito da rede de pesquisa International Social Survey Programme, que em Portugal está integrado no programa Atitudes Sociais dos Portugueses, do ICS, o estudo que hoje será apresentado conclui que a percepção das identidades nacionais continua a ser um caso sério. Apesar da globalização, "não foi desvalorizado", comenta José Sobral. Em Portugal, foram realizadas para esta investigação 1602 entrevistas entre Abril e Setembro de 2004. Mais informação em http://zacat.gesis.org/webview/index.js
Existe "um forte recalcamento da questão étnica" na Europa, diz José Sobral com base nos dados recolhidos no âmbito do estudo sobre identidade nacional. Na Alemanha, por exemplo, e contrariando o que se registou no passado, a importância da ancestralidade quase não é referida. É a culpa alemã ainda a trabalhar, arrisca o investigador
Também a Eslováquia e a Eslovénia tendem a desprezar a importância dos avós. A "representação etnista" da nação é forte na Irlanda, Áustria e Espanha, mas sempre com valores inferiores aos recolhidos em Portugal.
Melhor filme
Letters from Iwo Jima/Cartas de Iwo Jima
Melhor Realização
Martin Scorsese
Por The Departed/Entre Inimigos
Melhor actor principal
Peter O'Toole
Em Venus
Não vi, mas adorei.
Melhor actriz principal
Penélope Cruz
Em Volver
Melhor filme de animação
Monster House/A Casa Fantasma
Melhor argumento original
Iris Yamashita, Paul Haggis
Por Letters from Iwo Jima/Cartas de Iwo Jima
Melhor argumento adaptado
William Monahan
PS: Algumas músicas identifiquei erradamente como sendo originalmente de Morricone. Retiro, com pena. E acrescento a "Missão" (não tinha posto porque infelizmente não vi o filme e queria apenas ficar-me por filmes que vi e me marcaram) e "Por um Punhado de Dólares". Mudei a versão do "Cinema Paraíso" para a instrumental, bem melhor.
Fez ontem 26 anos
Romano Prodi demitiu-se e ao que tudo indica vai regressar integrando no seu novo governo elementos do centro-direita.
O chumbo da moção de apoio à política externa italiana (sobretudo à participação na missão da NATO no Afeganistão) não se deve exclusivamente à abstenção de dois senadores à esquerda - um da Refundação Comunista outro do Partido dos Comunistas Italianos. Também três senadores vitalícios pró-americanos, calculistas e pouco amigos do ministro dos Negócios Estrangeiros não deram o seu voto à moção. A verdade é que D'Alema julgava poder contar com apoios que não tinha e subiu demasiado a fasquia. Não foram sequer os votos dos senadores do Partido da Refundação Comunista (PRC) que faltaram. Apenas um deles se absteve. Faz parte de uma tendência trotsquista minoritária que vale 7% num partido que vale 7% de um país. Mas a verdade é que um senador "transviado" chegou para que começasse a gritaria contra a Refundação e a exigência de alterações (mais uma vez e desta vez com razão) da lei eleitoral. O espectro da impossibilidade de manter a Refundação Comunista e o centro-esquerda no mesmo governo continua e continuará a pairar sobre Itália.
Escrevi, quando a coligação de esquerda ganhou as eleições, que, apesar de me ter parecido indispensável a unidade em defesa da democracia, com o objectivo de garantir a derrota de Berlusconi, tinha muito pouca esperança na viabilidade deste governo baseado numa aliança negativa.
Vamos, por facilidade, entender neste texto por "esquerda" os que estão à esquerda dos partidos social-democratas tradicionais. Quase sempre é feita a esta esquerda a mesma pergunta: terá maturidade para participar em soluções de compromisso?
É, na verdade, um problema sem solução. Hoje, as principais clivagens políticas não se fazem entre a esquerda e a direita. Nem em política externa, nem em políticas sociais, nem no debate sobre o papel do Estado. Por deslocamento da social-democracia tradicional para a direita? Por cegueira ideológica da esquerda? Porque no plano estrito dos governos nacionais não há alternativas ao "realismo" do que se vai fazendo? A verdade é que hoje são maiores as afinidades entre um neo-liberal e um dirigente de um partido social-democrata europeu do que entre as várias componentes da esquerda.
Em Itália, a dúvida é esta: pode a Refundação Comunista participar em manifestações contra a política externa americana e defender que a construção de "Império Americano" é um dos maiores riscos para a paz mundial e ao mesmo tempo votar favoravelmente a expansão de uma base americana em solo nacional? Pode aprovar orçamentos que dizem o contrário do que o partido defende? Argumentando que o pacto de Estabilidade Crescimento foi uma poderosa arma no desmantelamento do Estado Social na Europa pode apoiar a política Europeia do pai do dito pacto? Pode ser contra a guerra no Afeganistão e a favor da participação das tropas italianas no conflito? Pode ceder em tudo para estar aliado a quem não mostra qualquer disponibilidade para ceder em nada? Pode, pelo contrário, querer ter a força política que o eleitorado não lhe deu para que quem tem muito mais votos ceda? Faria sentido que cedessem? Até onde pode um partido à esquerda ir para garantir a estabilidade governativa e impedir o regresso da direita ao poder?
Resta a dúvida contrária: havendo um fosso intransponível entre partidos social-democratas e os partidos que estão à sua esquerda, devem os últimos arredar-se do poder condenando-se a si próprios ao papel de resistência inútil, para sempre na oposição? Não estão assim a atirar o centro-esquerda para os braços da direita?
Não vale a pena ficar no confortável plano dos princípios. A esquerda deve medir cada um dos seus passos e cada uma das consequências das suas opções. Em Itália, sendo o regresso de Berlusconi um risco, a Refundação Comunista deve aguentar-se firme, tal como está a fazer a sua direcção, com um alto custo para a unidade do seu partido. O preço que a Refundação pagaria pelo regresso de Berlusconi ao poder por sua responsabilidade - pela segunda vez- seria tão alto que ela não só pode como vai aguentar isto tudo e muito mais. Sobretudo agora que se juntam ao albergue os democratas-cristãos de centro-direita que nem a sua agenda "fracturante" vão deixar de pé.
Mas seria o mínimo exigir dos restantes partidos da coligação (muitos deles com menor peso eleitoral que o PRC) respeito por este esforço. Ou, pelo menos, que se evitassem actos de pura provocação, esperando que apenas os outros estejam a altura das suas responsabilidades. Para ser possível a unidade, todos têm de estar preparados para compromissos que podem ter um preço junto dos seus eleitorados.
Dito isto, em situações normais (as que nunca ocorrem em Itália) os governos de unidade de esquerda são cada vez mais improváveis. Serão mais naturais os governos de bloco central. Concordam em política externa, em política social e em política económica. É normal que quem veja a democracia como um mero acto de gestão da alternância na continuidade discorde de mim, mas os governos de bloco central não são compostos por forças alternativas. O entendimento ideológico é obviamente mais fácil. E faz-se, sem grandes dramas, quando a urgência o exige.
O problema desta constatação é que, perante ela, a esquerda fica condenada ao degredo. E tendo o poder como uma miragem, não se sente na obrigação de construir um programa viável, fazer as alianças necessárias e abandonar a cartilha ideológica ou o populismo de circunstância. Condenada a receber ciclicamente o voto de protesto mais não pode ambicionar do que ser uma força de protesto.
Para não viver o dilema de ou trair o seu programa ou a tornar-se numa força de oposição sem futuro, a esquerda tem de saber construir a sua credibilidade programática, recusar a inflexibilidade ideológica e ter, a cada momento, a inteligência táctica de encontrar aliados. Participar ou não participar em governos, conforme o momento e, claro, o governo, sem preconceitos ou juras de pureza. E, talvez isto seja mesmo o mais importante, cada um saber que será parte da alternativa que ajudar a construir e não obrigatoriamente o seu principal protagonistas. Isto, se a esquerda quer que alguém acredite que ao votar nela está a ajudar a construir alguma coisa. E tem de ganhar os desiludidos do centro, integrando as suas preocupações e os seus contributos. Quem julga que basta somar descontentamentos deveria saber que o descontentamento que não encontra solução acaba sempre em frustração. E que a frustração é o mais perigoso vírus que pode atacar a democracia.
Por isso, a resposta às repetidas dúvidas sobre a disponibilidade da esquerda para a governabilidade é esta: depende. Depende do governo, das circunstâncias, do peso de cada um. De tudo. Mas a disponibilidade não pode ser tão pouca que o poder seja apenas uma projecto sempre adiado. Nem tanta que o programa político seja apenas um objecto decorativo. Sendo certo que um partido que não se vê a si próprio no poder não é um partido. É um hobby. E se só imagina no poder daqui a cem anos é pior que um hobby. É uma perda de tempo.
Romano Prodi demitiu-se e ao que tudo indica vai regressar integrando no seu novo governo elementos do centro-direita.
O chumbo da moção de apoio à política externa italiana (sobretudo à participação na missão da NATO no Afeganistão) não se deve exclusivamente à abstenção de dois senadores à esquerda - um da Refundação Comunista outro do Partido dos Comunistas Italianos. Também três senadores vitalícios pró-americanos, calculistas e pouco amigos do ministro dos Negócios Estrangeiros não deram o seu voto à moção. A verdade é que D'Alema julgava poder contar com apoios que não tinha e subiu demasiado a fasquia. Não foram sequer os votos dos senadores do Partido da Refundação Comunista (PRC) que faltaram. Apenas um deles se absteve. Faz parte de uma tendência trotsquista minoritária que vale 7% num partido que vale 7% de um país. Mas a verdade é que um senador "transviado" chegou para que começasse a gritaria contra a Refundação e a exigência de alterações (mais uma vez e desta vez com razão) da lei eleitoral. O espectro da impossibilidade de manter a Refundação Comunista e o centro-esquerda no mesmo governo continua e continuará a pairar sobre Itália.
Escrevi, quando a coligação de esquerda ganhou as eleições, que, apesar de me ter parecido indispensável a unidade em defesa da democracia, com o objectivo de garantir a derrota de Berlusconi, tinha muito pouca esperança na viabilidade deste governo baseado numa aliança negativa.
Vamos, por facilidade, entender neste texto por "esquerda" os que estão à esquerda dos partidos social-democratas tradicionais. Quase sempre é feita a esta esquerda a mesma pergunta: terá maturidade para participar em soluções de compromisso?
É, na verdade, um problema sem solução. Hoje, as principais clivagens políticas não se fazem entre a esquerda e a direita. Nem em política externa, nem em políticas sociais, nem no debate sobre o papel do Estado. Por deslocamento da social-democracia tradicional para a direita? Por cegueira ideológica da esquerda? Porque no plano estrito dos governos nacionais não há alternativas ao "realismo" do que se vai fazendo? A verdade é que hoje são maiores as afinidades entre um neo-liberal e um dirigente de um partido social-democrata europeu do que entre as várias componentes da esquerda.
Em Itália, a dúvida é esta: pode a Refundação Comunista participar em manifestações contra a política externa americana e defender que a construção de "Império Americano" é um dos maiores riscos para a paz mundial e ao mesmo tempo votar favoravelmente a expansão de uma base americana em solo nacional? Pode aprovar orçamentos que dizem o contrário do que o partido defende? Argumentando que o pacto de Estabilidade Crescimento foi uma poderosa arma no desmantelamento do Estado Social na Europa pode apoiar a política Europeia do pai do dito pacto? Pode ser contra a guerra no Afeganistão e a favor da participação das tropas italianas no conflito? Pode ceder em tudo para estar aliado a quem não mostra qualquer disponibilidade para ceder em nada? Pode, pelo contrário, querer ter a força política que o eleitorado não lhe deu para que quem tem muito mais votos ceda? Faria sentido que cedessem? Até onde pode um partido à esquerda ir para garantir a estabilidade governativa e impedir o regresso da direita ao poder?
Resta a dúvida contrária: havendo um fosso intransponível entre partidos social-democratas e os partidos que estão à sua esquerda, devem os últimos arredar-se do poder condenando-se a si próprios ao papel de resistência inútil, para sempre na oposição? Não estão assim a atirar o centro-esquerda para os braços da direita?
Não vale a pena ficar no confortável plano dos princípios. A esquerda deve medir cada um dos seus passos e cada uma das consequências das suas opções. Em Itália, sendo o regresso de Berlusconi um risco, a Refundação Comunista deve aguentar-se firme, tal como está a fazer a sua direcção, com um alto custo para a unidade do seu partido. O preço que a Refundação pagaria pelo regresso de Berlusconi ao poder por sua responsabilidade - pela segunda vez- seria tão alto que ela não só pode como vai aguentar isto tudo e muito mais. Sobretudo agora que se juntam ao albergue os democratas-cristãos de centro-direita que nem a sua agenda "fracturante" vão deixar de pé.
Mas seria o mínimo exigir dos restantes partidos da coligação (muitos deles com menor peso eleitoral que o PRC) respeito por este esforço. Ou, pelo menos, que se evitassem actos de pura provocação, esperando que apenas os outros estejam a altura das suas responsabilidades. Para ser possível a unidade, todos têm de estar preparados para compromissos que podem ter um preço junto dos seus eleitorados.
Dito isto, em situações normais (as que nunca ocorrem em Itália) os governos de unidade de esquerda são cada vez mais improváveis. Serão mais naturais os governos de bloco central. Concordam em política externa, em política social e em política económica. É normal que quem veja a democracia como um mero acto de gestão da alternância na continuidade discorde de mim, mas os governos de bloco central não são compostos por forças alternativas. O entendimento ideológico é obviamente mais fácil. E faz-se, sem grandes dramas, quando a urgência o exige.
O problema desta constatação é que, perante ela, a esquerda fica condenada ao degredo. E tendo o poder como uma miragem, não se sente na obrigação de construir um programa viável, fazer as alianças necessárias e abandonar a cartilha ideológica ou o populismo de circunstância. Condenada a receber ciclicamente o voto de protesto mais não pode ambicionar do que ser uma força de protesto.
Para não viver o dilema de ou trair o seu programa ou a tornar-se numa força de oposição sem futuro, a esquerda tem de saber construir a sua credibilidade programática, recusar a inflexibilidade ideológica e ter, a cada momento, a inteligência táctica de encontrar aliados. Participar ou não participar em governos, conforme o momento e, claro, o governo, sem preconceitos ou juras de pureza. E, talvez isto seja mesmo o mais importante, cada um saber que será parte da alternativa que ajudar a construir e não obrigatoriamente o seu principal protagonistas. Isto, se a esquerda quer que alguém acredite que ao votar nela está a ajudar a construir alguma coisa. E tem de ganhar os desiludidos do centro, integrando as suas preocupações e os seus contributos. Quem julga que basta somar descontentamentos deveria saber que o descontentamento que não encontra solução acaba sempre em frustração. E que a frustração é o mais perigoso vírus que pode atacar a democracia.
Por isso, a resposta às repetidas dúvidas sobre a disponibilidade da esquerda para a governabilidade é esta: depende. Depende do governo, das circunstâncias, do peso de cada um. De tudo. Mas a disponibilidade não pode ser tão pouca que o poder seja apenas uma projecto sempre adiado. Nem tanta que o programa político seja apenas um objecto decorativo. Sendo certo que um partido que não se vê a si próprio no poder não é um partido. É um hobby. E se só imagina no poder daqui a cem anos é pior que um hobby. É uma perda de tempo.
O primeiro-ministro italiano, Romano Prodi, apresentou esta tarde a sua demissão por causa de uma moção de apoio à política externa do Governo, contestada tanto pela oposição de direita como pelos partidos mais à esquerda da coligação. O envolvimento das tropas italianas na missão da NATO no Afeganistão e o anunciado alargamento da base americana de Vicenza são responsáveis por esta crise política. Para ser aprovada, a moção precisava do apoio de 160 senadores, mas não conseguiu mais do que 158 votos, enquanto 136 parlamentares votaram contra.
Tenciono escrever amanhã mais profundamente sobre este assunto e sobre as suas implicações para o debate à esquerda.
O primeiro-ministro italiano, Romano Prodi, apresentou esta tarde a sua demissão por causa de uma moção de apoio à política externa do Governo, contestada tanto pela oposição de direita como pelos partidos mais à esquerda da coligação. O envolvimento das tropas italianas na missão da NATO no Afeganistão e o anunciado alargamento da base americana de Vicenza são responsáveis por esta crise política. Para ser aprovada, a moção precisava do apoio de 160 senadores, mas não conseguiu mais do que 158 votos, enquanto 136 parlamentares votaram contra.
Tenciono escrever amanhã mais profundamente sobre este assunto e sobre as suas implicações para o debate à esquerda.
Carmona, o nosso Presidente, sempre foi um grande desportista. Já nos tem vindo a mostrar isso há algum tempo. Vão ser dezenas de degraus que ele vai descer.
Espectacular! Ai, ai! Caiu! Mas com aquelas protecções não se aleijou e levantou-se logo. Mais um lance de degraus, vamos ver como ele se vai portar. Bem, alta velocidade! Muito bem!
Mais uns degraus, uma curva apertada… Vamos ver como ele vai dar ao pedal agora na zona de velocidade… E vai muito bem. Muito bem mesmo! Para quem não estava à espera aqui está: Carmona Rodrigues! Um grande desportista!
Carmona Rodrigues teve ali um pequeno percalço, mas já recuperou. E continua! Com força! Aplaudam por favor!
Atrás de Carmona Rodrigues vieram também outros representantes da Câmara Municipal de Lisboa. Sem medos!
Fontão de Carvalho suspende o mandato por três meses.
Fontão de Carvalho suspende o mandato por três meses.
Chamando a atenção para o facto de Hugo Chavez ter sido democraticamente eleito, quer aqui quer no Expresso, já me lamentei do imprudente entusiasmo que a esquerda mostra pelo populismo chavista. A ameaça de nacionalizar os supermercados e lojas é o último passo para o abismo. A esquerda ainda vai torcer a orelha.
Chamando a atenção para o facto de Hugo Chavez ter sido democraticamente eleito, quer aqui quer no Expresso, já me lamentei do imprudente entusiasmo que a esquerda mostra pelo populismo chavista. A ameaça de nacionalizar os supermercados e lojas é o último passo para o abismo. A esquerda ainda vai torcer a orelha.
Cavaco Silva diz que houve uma fractura no país e pede uma lei moderada. A lei do PS é moderada. Das mais moderadas da Europa. E nem ela evita, como se viu na campanha, uma fractura. As fracturas na sociedade só são um problema quando a democracia não funciona. Quando ela funciona, fazem-se escolhas. E quando elas são feitas nem sempre os consensos são possíveis. Fosse ele possível e nunca teria havido referendo. Saber respeitar o voto popular, é o que se exige a Cavaco e a quem dele se tenta socorrer. Espero assim que estas declarações de Cavaco sejam apenas para garantir os seus 15 segundos de fama.
PS: Defendo o aconselhamento a que qualquer médico está obrigado, dando à mulher as informações e as alternativas a que ela tem direito. Acho bem um período de reflexão exequível. Sou contra a transformação dos médicos em novos polícias ou juízes organizados em comissões. Seja qual for a lei, esperemos que ninguém abra a porta a que aconteça a esta o que aconteceu à de 1984: um boicote organizado por parte de quem não aceita o poder do Estado e da Democracia.
Cavaco Silva diz que houve uma fractura no país e pede uma lei moderada. A lei do PS é moderada. Das mais moderadas da Europa. E nem ela evita, como se viu na campanha, uma fractura. As fracturas na sociedade só são um problema quando a democracia não funciona. Quando ela funciona, fazem-se escolhas. E quando elas são feitas nem sempre os consensos são possíveis. Fosse ele possível e nunca teria havido referendo. Saber respeitar o voto popular, é o que se exige a Cavaco e a quem dele se tenta socorrer. Espero assim que estas declarações de Cavaco sejam apenas para garantir os seus 15 segundos de fama.
PS: Defendo o aconselhamento a que qualquer médico está obrigado, dando à mulher as informações e as alternativas a que ela tem direito. Acho bem um período de reflexão exequível. Sou contra a transformação dos médicos em novos polícias ou juízes organizados em comissões. Seja qual for a lei, esperemos que ninguém abra a porta a que aconteça a esta o que aconteceu à de 1984: um boicote organizado por parte de quem não aceita o poder do Estado e da Democracia.
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