«O nome é fictício mas a idade deve ser verdadeira. "Lisa", 37 anos, doente terminal, vai decidir sexta-feira, em directo, no reality show holandês The Big Donor Show (O Grande Dador), quem irá receber os seus rins.»
Público de ontem.
Alguém que substitui a generosidade pela exibição televisiva e que acaba os seus dias pondo desgraçados a lutar pela vida em frente às câmaras para gáudio das audiências, pode doar todas as partes do seu corpo, menos uma: o coração.
Quanto à empresa Endemol, são apenas os chulos da desgraça alheia.
«O nome é fictício mas a idade deve ser verdadeira. "Lisa", 37 anos, doente terminal, vai decidir sexta-feira, em directo, no reality show holandês The Big Donor Show (O Grande Dador), quem irá receber os seus rins.»
Público de ontem.
Alguém que substitui a generosidade pela exibição televisiva e que acaba os seus dias pondo desgraçados a lutar pela vida em frente às câmaras para gáudio das audiências, pode doar todas as partes do seu corpo, menos uma: o coração.
Quanto à empresa Endemol, são apenas os chulos da desgraça alheia.
Se apoiam a greve e têm um blogue, usem no vosso
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1. A primeira e mais urgente: o desemprego. É curioso que tenha sido com um governo supostamente de esquerda este tenha atingido o recorde da história recente: 8,4%, (sabendo-se que, ao contrário da maioría dos países europeus, qualquer biscate ocasional retira o trabalhador dos números do desemprego).
Um governo de esquerda, em qualquer país do Mundo, tem o emprego como a prioridade acima de todas as prioridades. A defesa do pleno emprego é talvez a mais permanente e definitiva tradição de todas as esquerdas. Para Sócrates o emprego parece ser a última das prioridades. Sócrates adoptou o discurso que responsabiliza os supostos excessos de direitos dos empregados pelo índices de desemprego. A realidade está aí para o desmentir. A cada medida para diminuir os mal chamados “direitos adquiridos” (a expressão deveria ser “direitos conquistados”) não tem correspondido criação de emprego. Pelo contrário. Um governo de esquerda que apresenta, ao fim de dois anos, estes índices de desemprego devia pintar a cara de preto e perceber porque está a falhar em tudo o que é essencial.
2. O aumento das relações laborais precárias, ao qual não tem correspondido nem um aumento dos postos de trabalho disponíveis nem um aumento do poder de compra.
Em Portugal existe uma dupla realidade: o que está na lei e o que acontece. Há uma parte substancial da população, sobretudo a mais jovem, que trabalha sem qualquer vinculo - vale a pena ver o peso que as empresas de trabalho temporário têm hoje no mercado de emprego. Com baixos salários e nenhuma perspectiva de futuro esta situação cria problemas sociais graves. Mas também problemas económicos. Sem saber o futuro e vivendo em instabilidade e incerteza permanente, o planeamento financeiro da maior parte das famílias, um endividamento sustentável, o pequeno investimento pessoal e a assunção de riscos profissionais são impossibilidades. Quem não sabe se daqui a um mês terá dinheiro para pagar a casa, os estudos dos filhos e as despesas mais elementares não arrisca em nada. No caso dos mais jovens, a decisão é simples: prolongar a dependência em relação aos pais. A precariedade absoluta cria uma sociedade infantilizada e medrosa, e não o oposto.
O grande argumento tem sido este: é porque as gerações mais velhas têm excesso de direitos que as mais novas não têm direitos nenhuns. A mentira é uma evidência. Em nenhum país a diminuição de direitos dos mais velhos correspondeu a um aumento de direitos dos mais jovens. Imaginar isto é imaginar que a perda de direitos não cria um padrão nas empresas.
3. A perda de direitos na função pública. A estratégia de concentrar o fogo sobre os trabalhadores do Estado é inteligente. Criar um bode expiatório, isola-lo socialmente e começa por aí o combate político e ideológico. A extrema-direita faz isso com os imigrantes, a direita conservadora com os miseráveis que vivem “à custa dos subsídios” e os liberais com os funcionários do Estado.
É evidente que se o nosso Estado é irracional no uso dos seus recursos financeiros, também o é no uso dos seus recursos humanos. Há situação disparatadas em quase todos os serviços públicos. Mas devemos ser claros: num país em que se recebe mal, o “emprego para a vida” foi a forma do Estado compensar a fragilidade do tecido económico do país. Se à perda de direitos dos funcionários do Estado não corresponde um aumento de direitos dos funcionários do privado, não estamos a equilibrar, estamos apenas a baixar a fasquia. Sobretudo quando sabemos que em países pobres o sector público funciona como padrão para o resto do mercado de trabalho (vejam-se os aumentos salariais).
Infelizmente, os sindicatos do sector do Estado não têm sabido falar com o resto dos trabalhadores. Numa lógica corporativa, abandonaram o discurso político capaz de ganhar a solidariedade dos restantes trabalhadores.
4. A reforma da segurança social é um remendo e não resolve a o problema da insustentabilidade do sistema diminuindo ainda mais as já paupérrimas reformas em Portugal. É na receita e na redistribuição das contribuições que o problema pode ser resolvido.
A formula encontrada cria uma injustiça indefensável: o trabalhador que não queira prolongar o tempo de trabalho (tendo em conta a indexação da idade de reforma à esperança média de vida) tem duas possibilidades: ou desconta mais ou recebe menos. Como é evidente, para os trabalhadores com menores recursos estas duas possibilidades são impossibilidades. Ou seja, os trabalhadores que ganham menos e que, em muitos casos, têm trabalhos mais violentos, trabalharão até mais tarde do que os mais privilegiados. Inaceitável.
5. A redução do poder de compra dos portuguesas é uma marca deste governo. A inflação foi, em 2006, de 3,1%. 63% superior à média europeia (1,9%). A electricidade é 24% mais cara do que a média europeia, o gás doméstico 38% e a gasolina aumentou de 20% a 34%, muito mais do que na UE. As despesas em saúde, transportes e habitação tiveram também aumentos muito superiores ao habitual. Dois milhões de portugueses tiveram aumentos inferiores ao da inflação e estamos com um poder de compra 29% abaixo da média europeia (contando com os 25 países). O custo médio do trabalho é 49,5% inferior à média da UE.
À sensível e quase insignificante retoma económica não corresponde nem criação de emprego nem, para quem trabalha, um aumento da qualidade de vida. Pelo contrário. O aumento da emigração e a inversão do saldo migratório é a mais clara prova do falhanço deste governo em todas as áreas que para si deviam ser prioritárias.
6. A diminuição, em quantidade e em qualidade, dos serviços públicos disponibilizados aos cidadãos, em que a saúde, o serviço mais básico para qualquer sociedade que se pretenda socialmente democrática, é o melhor exemplo, parece ser um cavalo de batalha de José Sócrates.
7. Será o assunto da Presidência portuguesa da União Europeia e dominará os próximos dois anos da política de emprego: a flexigurança.
Trata-se da importação de um conceito escandinavo, mas é uma contrafacção. Na realidade, o modelo escandinavo tem uma premissa: ao aumento da flexibilidade do mercado de trabalho corresponde a qualificação (que dá maior autonomia ao trabalhador) e o aumento da protecção do Estado (que garante apoio social e económico ao desempregado em transição, formação profissional e recolocação). Mais: corresponde a uma imposição de regras às empresas. Nem ela é comportável para os magros cofres públicos portugueses, nem ela é adaptável ao mercado português, nem ela tem qualquer correspondência com a realidade política e social nacional, nem é nesse sentido que têm ido todas as reformas que este governo tem feito. Mais valia que dissesse, como ouvi da boca do presidente da CIP, ao que vem: o que se quer não é flexigurança nenhuma, é mesmo e apenas flexibilidade sem qualquer medida de segurança.
O governo promete com o uso desta palavra mágica que à flexibilização do mercado de trabalho corresponderá um aumento das prestações sociais. Só acredita quem passe o dia no largo do Rato. É isto que mais irrita: Sócrates propõe na realidade o mesmo que qualquer neo-liberal mas sempre com uma farpela muito modernaça. O que Sócrates nos propõe é a desregulação do mercado de trabalho sem qualquer garantia. Daí resultaria um desastre social.
Feito o balanço destes dois anos, o país está pior e nada de fundamental distingue José Sócrates de Durão Barroso. A prioridade do combate ao déficit (importante, mas inútil se esmagar tudo o resto) é a única linha política deste governo. Aliás, a haver alguma distinção (sobretudo se acrescentarmos as manobras para reduzir a liberdade de imprensa), ela será para pior. Pelo menos do ponto de vista de qualquer pessoa que se considere de esquerda ou que tenha as preocupações sociais como o centro do seu pensamento político. Talvez Sócrates vença apenas numa coisa: conseguido o que o PSD nunca conseguiria - queimar a oposição à sua esquerda - anulou igualmente a oposição à sua direita. Assustador para um país mergulhado numa grave crise social. A greve geral é a forma mais eficaz de travar esta vertigem "socialista" (com muitíssimas aspas).
Nada disto retira as críticas que fiz ao método de marcação e à estratégia e táctica definidas para esta greve geral. As lutas têm o seu modo e o seu tempo. Falhar nelas é piorar o que já está péssimo. As boas razões para esta greve são as que mereceriam os melhores procedimentos. Esperemos que as agendas partidárias não funcionem contra os objectivos justos desta greve. Esperemos que com tantas boas razões para ser punido, José Sócrates não saia dela reforçado. Se assim for, alguém terá de explicar porquê. Se assim não for, estão de parabéns e serei o primeiro, com genuína alegria, a rejubilar. Esperemos que eu me engane.
PS: Os serviços mínimos definidos são uma violação sem precedentes do direito à greve. Se a definição de serviços mínimos é que todos os serviços regulares de uma empresa funcionam, a greve passa a ser irrelevante. Quem quer por via administrativa inviabilizar greves é bom que seja claro e diga a todos que defende a restrição deste direito constitucional. Não deixa de ser curioso que o governo que de forma mais clara desrespeita esta conquista da democracia seja um governo do PS. Mais um elemento de reflexão para a base eleitoral socialista.
1. A primeira e mais urgente: o desemprego. É curioso que tenha sido com um governo supostamente de esquerda este tenha atingido o recorde da história recente: 8,4%, (sabendo-se que, ao contrário da maioría dos países europeus, qualquer biscate ocasional retira o trabalhador dos números do desemprego).
Um governo de esquerda, em qualquer país do Mundo, tem o emprego como a prioridade acima de todas as prioridades. A defesa do pleno emprego é talvez a mais permanente e definitiva tradição de todas as esquerdas. Para Sócrates o emprego parece ser a última das prioridades. Sócrates adoptou o discurso que responsabiliza os supostos excessos de direitos dos empregados pelo índices de desemprego. A realidade está aí para o desmentir. A cada medida para diminuir os mal chamados “direitos adquiridos” (a expressão deveria ser “direitos conquistados”) não tem correspondido criação de emprego. Pelo contrário. Um governo de esquerda que apresenta, ao fim de dois anos, estes índices de desemprego devia pintar a cara de preto e perceber porque está a falhar em tudo o que é essencial.
2. O aumento das relações laborais precárias, ao qual não tem correspondido nem um aumento dos postos de trabalho disponíveis nem um aumento do poder de compra.
Em Portugal existe uma dupla realidade: o que está na lei e o que acontece. Há uma parte substancial da população, sobretudo a mais jovem, que trabalha sem qualquer vinculo - vale a pena ver o peso que as empresas de trabalho temporário têm hoje no mercado de emprego. Com baixos salários e nenhuma perspectiva de futuro esta situação cria problemas sociais graves. Mas também problemas económicos. Sem saber o futuro e vivendo em instabilidade e incerteza permanente, o planeamento financeiro da maior parte das famílias, um endividamento sustentável, o pequeno investimento pessoal e a assunção de riscos profissionais são impossibilidades. Quem não sabe se daqui a um mês terá dinheiro para pagar a casa, os estudos dos filhos e as despesas mais elementares não arrisca em nada. No caso dos mais jovens, a decisão é simples: prolongar a dependência em relação aos pais. A precariedade absoluta cria uma sociedade infantilizada e medrosa, e não o oposto.
O grande argumento tem sido este: é porque as gerações mais velhas têm excesso de direitos que as mais novas não têm direitos nenhuns. A mentira é uma evidência. Em nenhum país a diminuição de direitos dos mais velhos correspondeu a um aumento de direitos dos mais jovens. Imaginar isto é imaginar que a perda de direitos não cria um padrão nas empresas.
3. A perda de direitos na função pública. A estratégia de concentrar o fogo sobre os trabalhadores do Estado é inteligente. Criar um bode expiatório, isola-lo socialmente e começa por aí o combate político e ideológico. A extrema-direita faz isso com os imigrantes, a direita conservadora com os miseráveis que vivem “à custa dos subsídios” e os liberais com os funcionários do Estado.
É evidente que se o nosso Estado é irracional no uso dos seus recursos financeiros, também o é no uso dos seus recursos humanos. Há situação disparatadas em quase todos os serviços públicos. Mas devemos ser claros: num país em que se recebe mal, o “emprego para a vida” foi a forma do Estado compensar a fragilidade do tecido económico do país. Se à perda de direitos dos funcionários do Estado não corresponde um aumento de direitos dos funcionários do privado, não estamos a equilibrar, estamos apenas a baixar a fasquia. Sobretudo quando sabemos que em países pobres o sector público funciona como padrão para o resto do mercado de trabalho (vejam-se os aumentos salariais).
Infelizmente, os sindicatos do sector do Estado não têm sabido falar com o resto dos trabalhadores. Numa lógica corporativa, abandonaram o discurso político capaz de ganhar a solidariedade dos restantes trabalhadores.
4. A reforma da segurança social é um remendo e não resolve a o problema da insustentabilidade do sistema diminuindo ainda mais as já paupérrimas reformas em Portugal. É na receita e na redistribuição das contribuições que o problema pode ser resolvido.
A formula encontrada cria uma injustiça indefensável: o trabalhador que não queira prolongar o tempo de trabalho (tendo em conta a indexação da idade de reforma à esperança média de vida) tem duas possibilidades: ou desconta mais ou recebe menos. Como é evidente, para os trabalhadores com menores recursos estas duas possibilidades são impossibilidades. Ou seja, os trabalhadores que ganham menos e que, em muitos casos, têm trabalhos mais violentos, trabalharão até mais tarde do que os mais privilegiados. Inaceitável.
5. A redução do poder de compra dos portuguesas é uma marca deste governo. A inflação foi, em 2006, de 3,1%. 63% superior à média europeia (1,9%). A electricidade é 24% mais cara do que a média europeia, o gás doméstico 38% e a gasolina aumentou de 20% a 34%, muito mais do que na UE. As despesas em saúde, transportes e habitação tiveram também aumentos muito superiores ao habitual. Dois milhões de portugueses tiveram aumentos inferiores ao da inflação e estamos com um poder de compra 29% abaixo da média europeia (contando com os 25 países). O custo médio do trabalho é 49,5% inferior à média da UE.
À sensível e quase insignificante retoma económica não corresponde nem criação de emprego nem, para quem trabalha, um aumento da qualidade de vida. Pelo contrário. O aumento da emigração e a inversão do saldo migratório é a mais clara prova do falhanço deste governo em todas as áreas que para si deviam ser prioritárias.
6. A diminuição, em quantidade e em qualidade, dos serviços públicos disponibilizados aos cidadãos, em que a saúde, o serviço mais básico para qualquer sociedade que se pretenda socialmente democrática, é o melhor exemplo, parece ser um cavalo de batalha de José Sócrates.
7. Será o assunto da Presidência portuguesa da União Europeia e dominará os próximos dois anos da política de emprego: a flexigurança.
Trata-se da importação de um conceito escandinavo, mas é uma contrafacção. Na realidade, o modelo escandinavo tem uma premissa: ao aumento da flexibilidade do mercado de trabalho corresponde a qualificação (que dá maior autonomia ao trabalhador) e o aumento da protecção do Estado (que garante apoio social e económico ao desempregado em transição, formação profissional e recolocação). Mais: corresponde a uma imposição de regras às empresas. Nem ela é comportável para os magros cofres públicos portugueses, nem ela é adaptável ao mercado português, nem ela tem qualquer correspondência com a realidade política e social nacional, nem é nesse sentido que têm ido todas as reformas que este governo tem feito. Mais valia que dissesse, como ouvi da boca do presidente da CIP, ao que vem: o que se quer não é flexigurança nenhuma, é mesmo e apenas flexibilidade sem qualquer medida de segurança.
O governo promete com o uso desta palavra mágica que à flexibilização do mercado de trabalho corresponderá um aumento das prestações sociais. Só acredita quem passe o dia no largo do Rato. É isto que mais irrita: Sócrates propõe na realidade o mesmo que qualquer neo-liberal mas sempre com uma farpela muito modernaça. O que Sócrates nos propõe é a desregulação do mercado de trabalho sem qualquer garantia. Daí resultaria um desastre social.
Feito o balanço destes dois anos, o país está pior e nada de fundamental distingue José Sócrates de Durão Barroso. A prioridade do combate ao déficit (importante, mas inútil se esmagar tudo o resto) é a única linha política deste governo. Aliás, a haver alguma distinção (sobretudo se acrescentarmos as manobras para reduzir a liberdade de imprensa), ela será para pior. Pelo menos do ponto de vista de qualquer pessoa que se considere de esquerda ou que tenha as preocupações sociais como o centro do seu pensamento político. Talvez Sócrates vença apenas numa coisa: conseguido o que o PSD nunca conseguiria - queimar a oposição à sua esquerda - anulou igualmente a oposição à sua direita. Assustador para um país mergulhado numa grave crise social. A greve geral é a forma mais eficaz de travar esta vertigem "socialista" (com muitíssimas aspas).
Nada disto retira as críticas que fiz ao método de marcação e à estratégia e táctica definidas para esta greve geral. As lutas têm o seu modo e o seu tempo. Falhar nelas é piorar o que já está péssimo. As boas razões para esta greve são as que mereceriam os melhores procedimentos. Esperemos que as agendas partidárias não funcionem contra os objectivos justos desta greve. Esperemos que com tantas boas razões para ser punido, José Sócrates não saia dela reforçado. Se assim for, alguém terá de explicar porquê. Se assim não for, estão de parabéns e serei o primeiro, com genuína alegria, a rejubilar. Esperemos que eu me engane.
PS: Os serviços mínimos definidos são uma violação sem precedentes do direito à greve. Se a definição de serviços mínimos é que todos os serviços regulares de uma empresa funcionam, a greve passa a ser irrelevante. Quem quer por via administrativa inviabilizar greves é bom que seja claro e diga a todos que defende a restrição deste direito constitucional. Não deixa de ser curioso que o governo que de forma mais clara desrespeita esta conquista da democracia seja um governo do PS. Mais um elemento de reflexão para a base eleitoral socialista.
As empresas têm formas de pressionar os governos quando qualquer política prejudica os seus legítimos interesses. Usam o seu poder económico e político, imensamente superior ao do comum dos cidadãos. Os trabalhadores, que mais não têm que o poder do seu voto, têm, para reforçar o seu poder negocial junto do empregador ou para defender os seus não menos legítimos interesses junto do poder político, um outro instrumento: a greve. Legal em muitos países europeus há mais de século, é a forma institucionalizada dos trabalhadores fazerem sentir ao poder político e ao poder económico o seu próprio poder: o de não produzirem.
Porque uma greve falhada enfraquece o poder negocial dos representantes dos trabalhadores não furo, por princípio, nenhuma greve. Enquanto fui trabalhador por conta de outrem fui sempre sindicalizado. E, a não ser que uma greve ferisse de forma inaceitável os meus princípios, quer pelo seu método quer pelos seus objectivos, faço-as sempre. As divergências que tivesse faria, se necessário fosse, chegar ao meu sindicato, punindo a direcção por ter conduzido mal um processo de luta. Mas, repito, não furo, numa situação normal, uma greve.
A forma como se dirigem as greves, em Portugal, reflecte bem a situação de crise dos sindicatos.
O seu agendamento corresponde, demasiadas vezes, a prioridades políticas externas ao movimento sindical.
Fazem-se demasiadas greves por períodos demasiado curtos. É a greve rotineira e burocrática. O prejuízo para os trabalhadores é o mesmo, mas o efeitos para o empregador são muito menores. Em demasiados casos tratam-se de greves meramente simbólicas e não chegam a afectar aqueles com quem se está a medir forças. São greves para a opinião pública, de impacto económico reduzido, e que não resultam de um longo processo de auscultação dos trabalhadores. Saem por isso muitas vezes fracas e não obrigam o outro lado a ceder.
Não se investe em fundos de greve para garantir que funções chave, que podem paralisar uma empresa inteira, não funcionem.
Aposta-se mais nos sectores de serviços do Estado, estando o sector produtivo e privado com cada vez menor capacidade de reivindicação. Aprofunda-se assim o fosso entre trabalhadores do privado e trabalhadores do sector público, dando espaço à demagogia contra os serviços públicos e os seus funcionários, que Durão Barroso e José Sócrates tão bem souberam aproveitar nos últimos anos.
Estabelecem-se, em greves gerais, objectivos difusos em que, na realidade, é ponto assente que da greve não resultará nenhuma conquista concreta. Se os trabalhadores nunca sentem a vitória depois do sacrifício financeiro resultante de uma greve vão desmobilizando.
São raríssimas as greves europeias de empresa, não tendo o sindicalismo acompanhado a internacionalização da própria economia.
A próxima greve geral é justa nas suas razões, difusa nos seus objectivos e duvidosa na forma como foi agendada. Mas porque é justa nas suas razões, conta com o meu apoio. E por agora é tudo.
Como em todos os posts, mas especialmente neste, escrevo a titulo estritamente pessoal. É sempre bom deixar isso claro. Amanhã regressarei ao tema para falar de uma das principais razões porque apoio esta greve: a flexigurança. Menos mobilizador que os salários, menos trágico que o desemprego, esta é a palavra que vai dominar os próximos anos do debate sindical e laboral.
As empresas têm formas de pressionar os governos quando qualquer política prejudica os seus legítimos interesses. Usam o seu poder económico e político, imensamente superior ao do comum dos cidadãos. Os trabalhadores, que mais não têm que o poder do seu voto, têm, para reforçar o seu poder negocial junto do empregador ou para defender os seus não menos legítimos interesses junto do poder político, um outro instrumento: a greve. Legal em muitos países europeus há mais de século, é a forma institucionalizada dos trabalhadores fazerem sentir ao poder político e ao poder económico o seu próprio poder: o de não produzirem.
Porque uma greve falhada enfraquece o poder negocial dos representantes dos trabalhadores não furo, por princípio, nenhuma greve. Enquanto fui trabalhador por conta de outrem fui sempre sindicalizado. E, a não ser que uma greve ferisse de forma inaceitável os meus princípios, quer pelo seu método quer pelos seus objectivos, faço-as sempre. As divergências que tivesse faria, se necessário fosse, chegar ao meu sindicato, punindo a direcção por ter conduzido mal um processo de luta. Mas, repito, não furo, numa situação normal, uma greve.
A forma como se dirigem as greves, em Portugal, reflecte bem a situação de crise dos sindicatos.
O seu agendamento corresponde, demasiadas vezes, a prioridades políticas externas ao movimento sindical.
Fazem-se demasiadas greves por períodos demasiado curtos. É a greve rotineira e burocrática. O prejuízo para os trabalhadores é o mesmo, mas o efeitos para o empregador são muito menores. Em demasiados casos tratam-se de greves meramente simbólicas e não chegam a afectar aqueles com quem se está a medir forças. São greves para a opinião pública, de impacto económico reduzido, e que não resultam de um longo processo de auscultação dos trabalhadores. Saem por isso muitas vezes fracas e não obrigam o outro lado a ceder.
Não se investe em fundos de greve para garantir que funções chave, que podem paralisar uma empresa inteira, não funcionem.
Aposta-se mais nos sectores de serviços do Estado, estando o sector produtivo e privado com cada vez menor capacidade de reivindicação. Aprofunda-se assim o fosso entre trabalhadores do privado e trabalhadores do sector público, dando espaço à demagogia contra os serviços públicos e os seus funcionários, que Durão Barroso e José Sócrates tão bem souberam aproveitar nos últimos anos.
Estabelecem-se, em greves gerais, objectivos difusos em que, na realidade, é ponto assente que da greve não resultará nenhuma conquista concreta. Se os trabalhadores nunca sentem a vitória depois do sacrifício financeiro resultante de uma greve vão desmobilizando.
São raríssimas as greves europeias de empresa, não tendo o sindicalismo acompanhado a internacionalização da própria economia.
A próxima greve geral é justa nas suas razões, difusa nos seus objectivos e duvidosa na forma como foi agendada. Mas porque é justa nas suas razões, conta com o meu apoio. E por agora é tudo.
Como em todos os posts, mas especialmente neste, escrevo a titulo estritamente pessoal. É sempre bom deixar isso claro. Amanhã regressarei ao tema para falar de uma das principais razões porque apoio esta greve: a flexigurança. Menos mobilizador que os salários, menos trágico que o desemprego, esta é a palavra que vai dominar os próximos anos do debate sindical e laboral.
Fui hoje a uma mesa redonda, seguida de almoço, com Kofi Annan. No meio de muitas generalidades, inevitáveis num diplomata, disse umas coisas evidentes: que se os Estados Unidos têm interesses no Iraque não podem deixar de saber que o Irão, ali mesmo ao lado, também os terá. A instabilidade ali mesmo ao lado é coisa que não faz sorrir Teerão. Por isso, insistiu para que negociassem com o governo iraniano, recordando que contaram com a colaboração deste país durante a invasão do Afeganistão, sem problemas de maior para as forças dos EUA na fronteira entre os dois países. O mesmo não se pode dizer da fronteira com o seu aliado paquistanês. Não é preciso já ter percebido o enorme disparate que foi a ocupação do Iraque para dar razão ao pragmatismo de Annan. Só mesmo alguns almas pirómanas em desvario constante não vêem a evidência. E, por fim, alertou: muito mais deslizes no Iraque e as consequências serão enormes em locais muito distantes de Bagdade.
Fui hoje a uma mesa redonda, seguida de almoço, com Kofi Annan. No meio de muitas generalidades, inevitáveis num diplomata, disse umas coisas evidentes: que se os Estados Unidos têm interesses no Iraque não podem deixar de saber que o Irão, ali mesmo ao lado, também os terá. A instabilidade ali mesmo ao lado é coisa que não faz sorrir Teerão. Por isso, insistiu para que negociassem com o governo iraniano, recordando que contaram com a colaboração deste país durante a invasão do Afeganistão, sem problemas de maior para as forças dos EUA na fronteira entre os dois países. O mesmo não se pode dizer da fronteira com o seu aliado paquistanês. Não é preciso já ter percebido o enorme disparate que foi a ocupação do Iraque para dar razão ao pragmatismo de Annan. Só mesmo alguns almas pirómanas em desvario constante não vêem a evidência. E, por fim, alertou: muito mais deslizes no Iraque e as consequências serão enormes em locais muito distantes de Bagdade.
A finura do humor, a profundidade da critica, a argúcia do argumento...
A finura do humor, a profundidade da critica, a argúcia do argumento...
É o blogue do dirigente do PCP Vítor Dias. Alinhado (infelizmente sem nunca se desviar um centímetro da linha), é bem escrito, bem preparado e inteligente. O Tempo das Cerejas é o blogue em destaque desta semana. Vítor Dias é um dos homens públicos mais inteligentes e capazes do Partido Comunista. E o facto de ser um dos poucos comunistas destacado a ter percebido a importância da blogosfera, a chegar a ela (desde Fevereiro) e a fazê-lo com indiscutível qualidade ,chegaria para passar aqui pelo canto direito (a imagem da Comuna de Paris é da minha responsabilidade). Acresce que, apesar da distância ideológica, talvez concordemos mais vezes do que aquelas que discordamos.
A explicação do título do blogue está lá. "O tempo das cerejas" é uma canção de Jean Baptist Clément e Antoine Renard e foi escrita em 1866. Anterior à Comuna de Paris. Não é um canto revolucionário, mas uma cançoneta de amor. Algumas informações apontam porém para que a última estrofe, posteriormente dedicada, segundo o testemunho de Louise Michel, a uma enfermeira morta em defesa da Comuna, foi escrita sob a influência da «semana sangrenta» em que dezenas de milhar de combatentes da Comuna foram cruelmente massacrados. Tornou-se num símbolo da Comuna de Paris.
É o blogue do dirigente do PCP Vítor Dias. Alinhado (infelizmente sem nunca se desviar um centímetro da linha), é bem escrito, bem preparado e inteligente. O Tempo das Cerejas é o blogue em destaque desta semana. Vítor Dias é um dos homens públicos mais inteligentes e capazes do Partido Comunista. E o facto de ser um dos poucos comunistas destacado a ter percebido a importância da blogosfera, a chegar a ela (desde Fevereiro) e a fazê-lo com indiscutível qualidade ,chegaria para passar aqui pelo canto direito (a imagem da Comuna de Paris é da minha responsabilidade). Acresce que, apesar da distância ideológica, talvez concordemos mais vezes do que aquelas que discordamos.
A explicação do título do blogue está lá. "O tempo das cerejas" é uma canção de Jean Baptist Clément e Antoine Renard e foi escrita em 1866. Anterior à Comuna de Paris. Não é um canto revolucionário, mas uma cançoneta de amor. Algumas informações apontam porém para que a última estrofe, posteriormente dedicada, segundo o testemunho de Louise Michel, a uma enfermeira morta em defesa da Comuna, foi escrita sob a influência da «semana sangrenta» em que dezenas de milhar de combatentes da Comuna foram cruelmente massacrados. Tornou-se num símbolo da Comuna de Paris.
Quando cheguei ao 1000º post (este que aqui escrevo) apercebi-me que deixei passar o primeiro aniversário do Arrastão. Foi anteontem. Fica aqui o relatório de um ano: em 365 dias, 403,188 visitas, e 665,618 páginas vistas. Neste momento, o blogue é, em média, visitado por 1,850 internautas por dia (acima de dois mil nos dias de expediente), com 3,162 paginas vistas. Foram feitos 13.403 comentários, e para aí uns 100 até foram simpáticos. A todos os visitantes, deixem ou não comentários, concordem ou discordem das minhas opiniões, obrigado por escolherem este estabelecimento. Continuarei a andar por aqui.
Parabéns pelos dois anos do Bichos Carpinteiros e obrigado pelo reconhecimento de Womenage A Trois, Loja das Ideias ; Gritos Insanos; A Chave do Euromilhões; Corta-Fitas; Spectrum; Ladrões de Bicicletas; O Amigo do Povo e Troll Urbano. . Se me tiver escapado algum será actualizado.
Quando cheguei ao 1000º post (este que aqui escrevo) apercebi-me que deixei passar o primeiro aniversário do Arrastão. Foi anteontem. Fica aqui o relatório de um ano: em 365 dias, 403,188 visitas, e 665,618 páginas vistas. Neste momento, o blogue é, em média, visitado por 1,850 internautas por dia (acima de dois mil nos dias de expediente), com 3,162 paginas vistas. Foram feitos 13.403 comentários, e para aí uns 100 até foram simpáticos. A todos os visitantes, deixem ou não comentários, concordem ou discordem das minhas opiniões, obrigado por escolherem este estabelecimento. Continuarei a andar por aqui.
Parabéns pelos dois anos do Bichos Carpinteiros e obrigado pelo reconhecimento de Womenage A Trois, Loja das Ideias ; Gritos Insanos; A Chave do Euromilhões; Corta-Fitas; Spectrum; Ladrões de Bicicletas; O Amigo do Povo e Troll Urbano. . Se me tiver escapado algum será actualizado.
Ninguém parece estar a levar a sério o aviso de Almeida Santos. Fazem mal. Depois não se queixem.
Ninguém parece estar a levar a sério o aviso de Almeida Santos. Fazem mal. Depois não se queixem.
Todos os ministros de Estado iniciais abandonaram Sócrates. O protagonismo está entregue aos bombos da festa: Mário Lino, Manuel Pinho e Isabel Pires de Lima. O caso do diploma transformou o primeiro-ministro em assunto de anedota. O PS não teve, desde que chegou ao poder, uma única vitória eleitoral. O desemprego atinge cada mês que passa novos recordes. Cresce o consenso nacional contra a principal obra do regime.
Parafraseando o ministro da Ota, não é exagero afirmar que este governo está com mau aspecto, não tem um braço, não tem uma perna e só lhe falta mesmo o cancro nos pulmões.
Todos os ministros de Estado iniciais abandonaram Sócrates. O protagonismo está entregue aos bombos da festa: Mário Lino, Manuel Pinho e Isabel Pires de Lima. O caso do diploma transformou o primeiro-ministro em assunto de anedota. O PS não teve, desde que chegou ao poder, uma única vitória eleitoral. O desemprego atinge cada mês que passa novos recordes. Cresce o consenso nacional contra a principal obra do regime.
Parafraseando o ministro da Ota, não é exagero afirmar que este governo está com mau aspecto, não tem um braço, não tem uma perna e só lhe falta mesmo o cancro nos pulmões.
Almada
Barreiro
Seixal
Setúbal
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Barreiro
Seixal
Setúbal
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