Escrevi esta semana no "Expresso" que Sócrates é hoje «a vanguarda ideológica da direita» portuguesa, para explicar a falta de espaço e futuro do PSD. E dei-me ao trabalho de explicar porquê e em quê. Vital Moreira citou a frase e não se perdeu em grandes considerações políticas. Disse apenas que a frase devia entrar numa «Antologia do anedotário político».
Há poucos anos Vital Moreira estava contra quase tudo o que este governo agora defende. Apenas porque era o PSD que o propunha. Hoje faz a defesa cega de tudo o que venha de Sócrates, contrastando com o espírito critico da sua colega de blogue e militante do PS, Ana Gomes. Seguindo o exemplo telegráfico de Vital Moreira, respondo-lhe também de forma expedita:
Caro Vital Moreira, está a ver Vasco Graça Moura? O PS já tem o seu.
Porque o multibanco estava fora de serviço Porque os apoiantes de Mendes adormeceram há uns anos Porque Mendes Bota não cantou Porque se o Porto é uma Nação, Gaia é um Império Porque os sobrinhos de Isaltino foram todos votar Porque Valentim Loureiro prometeu frigorificos a quem não votasse em Mendes Porque sim
O PSD estava à beira de um precipício. Acabou de dar um passo em frente. Entre o intervalo e o abismo escolheu o abismo. Acabou num santanismo sem Santana. Ou seja, sem graça.
Luís Filipe Menezes representa o pior do PSD profundo: sem ideologia nem programa, refém de caciques. A oposição do PSD será de esquerda quando o vento sopra da esquerda, de direita quando o vento soprar de direita. O nível da sua campanha para as primárias é um cheirinho do que nos espera. Espera-nos o PSD dos autarcas.
Se acreditasse que Luís Filipe Menezes era um líder para ficar diria que o PSD se preparava para um crise de identidade sem remédio. Acredito que o seu arqui-inimigo, Rui Rio, ficará à espreita. E Rio Rio é o oposto. Um autoritário de uma direita liberal, um pequeno Sarkozy à pindérica dimensão nacional. Não aprecio o estilo, mas ele seria o que o PSD precisava: um dirigente com um perfil ideologicamente marcado. Menezes poderá fazer guerrilha, mas não construirá um exército para tomar o poder. Não tem nem nunca terá uma ideia política. Aliás, quem ouviu o seu paupérrimo discurso percebeu que Menezes tenciona fazer oposição a Sócrates pela esquerda. Um disparate de cálculo. O PSD arrisca-se a não recuperar o que perdeu e a perder o que tem.
Agora vamos aos problemas práticos que estão à frente de Menezes:
Menezes não é deputado. Com as alterações ao funcionamento do Parlamento, os debates com Sócrates ganharam importância. E com o líder do PSD fora da Assembleia é lá que Sócrates vai querer fazer os debates. Quem encontrará ali espaço para brilhar? Santana Lopes. Sobretudo tendo em conta que aqueles foram os deputados que ele escolheu. Ou seja, ou Menezes escolhe dar protagonismo quem lhe vai cavar o túmulo ou fica sem nenhuma voz de peso no Parlamento.
Segunda dificuldade: os pesos pesados do PSD estiveram calados. Suponho que assim continuarão. E enquanto Marques Mendes, mesmo sendo fraco, era um dirigente com dimensão nacional, Menezes terá um partido de anónimos ou de apoiantes transitórios.
Terceira dificuldade: Menezes fez toda a campanha contra Mendes defendendo aqueles que Mendes afastou com argumentos morais, fossem falsos ou verdadeiros. Isaltino já prepara o regresso. Os caciques virão cobrar a dívida.
Os militantes do PSD acharam que precisavam de um líder mais forte. Um erro. As próximas eleições já estão perdidas. O que o PSD precisava era de um líder sólido que estruturasse uma alternativa para daqui a seis anos. Uma alternativa de direita que empurrasse o PS à esquerda e recuperasse para o PSD o eleitorado do centro. Com Mendes adiava essa urgência. Com Menezes afasta-se dela.
Resumindo: fora do Parlamento, sem os pesos pesados, sem solidez política, entregue às exigências do pior que o PSD tem, Menezes será um líder forte de coisa nenhuma. Sócrates pode ignorá-lo como ignorou Mendes. Com uma vantagem: não se tem de cruzar com ele.
Quem ficará em dificuldades é Paulo Portas. Tem um concorrente no terreno populista. Ele é melhor, mas o seu partido é mais pequeno.
Uma direita ideológica e alternativa a Sócrates fica adiada. Mas, para dizer a verdade, talvez ainda não fosse o tempo dela. O programa da direita está a ser aplicado. É por isso mesmo que Manuela Ferreira Leite fica em casa. Sabe que a coisa está em boas mãos. Do PSD, nos próximos dois ans, virá apenas ruído.
Se ganhar Marques Mendes, a direita terá o Paulo Portas. Se ganhar Luís Filipe Menezes, a direita terá o Paulo Portas e o Paulo Portas da loja dos 300.
Luís Filipe Menezes acredita que vai vencer as eleições directas do PSD. O candidato à liderança do partido votou ao fim da tarde na sede do partido, em Gaia. À saída garantiu que amanhã vai ligar a Marques Mendes para lhe dizer que conta com ele:«Amanhã vou-lhe ligar e dizer que conto com ele para colaborar com futuro líder do PSD».
Não po acaso, este inquérito teve muito maior participação do que o que tinha os candidatos verdadeiros. Ainda assim, vá-se lá saber porquê, o PSD parece não entusiasmar muito os leitores do Arrastão. Votaram apenas 253 pessoas. E voto tem as suas particularidades. Talvez por causa do que aconteceu na SIC Notícias, talvez porque o pessoal queira é galhofa (como se não lhes chegasse estas directas), ou porque querem o PSD bem enterrado, a vitória foi para Pedro Santana Lopes. Logo depois, a menina do PSD que a esquerda gosta: Paula Teixeira da Cruz. Talvez a campanha do aborto explique. Só depois é que acho que está o voto da direita: Manuela Ferreira Leite, Rui Rio e Marcelo Rebelo de Sousa, por esta ordem. António Borges, o prodígio silencioso, vem depois. Só em 7º lugar aparece um candidato verdadeiro: Luís Filipe Menezes. E o que é realmente extraordinário: Marques Mendes em último, atrás, vejam bem a humilhação, de Aguiar Branco.
Claro que todas as minhas interpretações podem estar erradas e Santana é que tem razão: o país está doido. Bem, agora é esperar pelo resultado final. Quem ganha? o 7º ou o 9º?
Pedro Santana Lopes: 24% (61) Paula Teixeira da Cruz: 16% (41) Manuela Ferreira Leite: 15% (37) Rui Rio: 15% (38) Marcelo Rebelo de Sousa: 13% (34) António Borges: 7% (17) Luís Filipe Menezes: 6% (14) Aguiar Branco: 2% (6) Marques Mendes: 2% (5)
O número que ontem Luís Filipe Menezes fez numa escola, usando-a para campanha interna no seu partido, escrevendo num quadro que hoje o país ia mudar e depois justificando a frase com a instalação de uns painéis electrónicos ou coisa que o valha é um bom retrato do que seria ou virá a ser a sua liderança. Espertalhona.
Estas são as primeiras directas realmente renhidas em qualquer partido. E nelas podemos ver todas as desvantagens desta nova moda. Os líderes são eleitos num momento diferente em que a orientação do partido é votada. O debate fica vazio. Os militantes acompanham a discussão pelos jornais. O debate é mediado. Os candidatos falam mais para dentro do que quando se dirigem a delegados, mais preparados para ponderar variantes externas ao partido. O partido expõem-se mais mas fecha-se. Os líderes desgastam-se ainda antes de o serem. E como directas difíceis só acontecem a quem está na oposição, fragilizam sobretudo quem já tem a tarefa dificultada. Os congressos são violentos, mas duram três dias. Dois meses depois de se atacarem, é mais difícil colar os cacos.
É verdade que as directas são, do ponto de vista interno, mais democráticas e mais transparentes. Mas fecham ainda mais os partidos em si mesmos, beneficiam o populismo e fragilizam quem está na oposição. E mais democracia nos partidos nem sempre se traduz em mais democracia no país. Todo o poder para o militante pode mesmo querer dizer menos poder para o eleitor.
O que seria verdadeiramente democrático: directas com o voto do eleitorado. Mas é viável? Se não é, mais valia voltar aos velhos congressos, sem lugares por inerência e com regras mais claras.
Apesar de me sentir Luís Filipe Menezes num congresso do PSD/Açores, agradeço ao 31 da Armada esta oportunidade de «obter um pouco mais de audiência, de projecção ou notoriedade.» Como dizia o outro, estou aqui com grande sacrifício pessoal. Mas prometo dar o meu melhor e analisar com toda a objectividade o sufrágio no Gang do Multibanco.
Saberemos hoje quem será o primeiro de vários líderes da oposição nos próximos seis anos. Se chegar a aquecer a cadeira já terá uma grande vitória. A sua primeira tarefa: fazer esquecer o último mês. A segunda: pôr no altar a Santa Manuela e assegurar que ela não desce à terra. A terceira: impedir que Rui Rio marche sobre Lisboa antes das próximas eleições. Oposição ao governo, com o qual, no fundo, concordam em quase tudo, só mesmo lá para 2010.
Como vêem, terão aqui um comentador isento e sem preconceitos. Até logo.
A minha participação no 31 da Armada já está a causar confrontos internos. O que é que querem? Dividir a direita é um talento que eu tenho. E se nascemos com um dom não o devemos contrariar.
Os posts que publicar no 31 da Armada serão também publicados aqui.
Para comentar as directas do PSD, hoje à noite estarei no 31 da Armada. Sabem quando percebemos que a contra-revolução está toda feita? Quando eles nos começam a convidar para ir jantar lá a casa.
Não sou jurista. Apenas estou um pouco baralhado. Se bem percebi, o Tribunal da Relação de Coimbra foi muito duro com os pais adoptivos de Esmeralda porque não terão facilitado o seu contacto com o pai biológico para que um dia fosse mais fácil esta vir a viver com ele. Isto, acha o Tribunal, prova que os país eram umas bestas, uns egoístas sem emenda, que nunca pensaram no interesse da criança.
Baralham-me duas coisas.
A primeira: não partirá este raciocínio do princípio que os pais adoptivos consideravam ilegitimo o seu estatuto de pais e que o deveriam ver como meramente transitório (o que explica o choque do tribunal perante o facto de terem mudado o nome da criança)? Ou seja, parece-me que há aqui uma inversão lógica: a justiça tem uma convicção e analisa o comportamento afectivo dos pais como se ele fosse guiado por essa mesma convicção. O máximo que o Tribunal poderia dizer (e não faço ideia se sim ou não), é que os pais adoptivos mostraram desprezo pela lei, não pelo interesse da criança. E não é exactamente a mesma coisa.
A segunda: que raio de afectividade é esta que está na cabeça destes juízes em que é suposto um pai não ter medo de perder o filho? Que raio de paternidade maquinal é esta? Quem, amando o seu filho, prepara tudo para o perder? Pois eu acho que seria um estranho sinal que o fizessem.
Por fim, não deixo de achar curioso que depois de desancar no suposto desprezo que os pais teriam pelo interesse da criança (que parece ser analisado pela estrita bitola do interesse da Lei), o Tribunal decida entregar uma rapariga com quase seis anos a um pai com quem não tem qualquer relação afectiva, retirando-o à família com quem viveu quase toda a sua vida. Onde está exactamente aqui salvaguardado o interesse da criança? Ou será que o tribunal cuidou, antes de qualquer interesse da criança, de punir os pais adoptivos, de impor a sua autoridade e de defender regras abstractas do direito.
Bem sei que isto pode parecer escandaloso para muitos juristas: mas o interesse da criança, de qualquer criança, está acima da Lei. Aliás, se me perdoam o paradoxo, acho que é exactamente esse o espírito da lei. A vida de uma criança não serve para punir ou premiar terceiros. Não serve sequer para dar exemplos e fazer jurisprudência. A sociedade defende o interesse de cada criança, olhando para cada caso e encontrando as melhores soluções. Soluções que podem ser injustas para os adultos. Que podem premiar o prevaricador. Mas, na hierarquia das prioridades, o interesse concreto daquela criança concreta está e tem de estar primeiro.
Mais do que considerações jurídicas, talvez falte a estes juízes algum senso comum. E sem senso comum não há justiça. Podem até dizer-me que não tenho, do ponto de vista jurídico, razão. Não sei. Sei que se assim for isso não me tira razão nenhuma.
Um indivíduo residente em Cantanhede contratou dois indivíduos para matar a mulher, passando-lhes um cheque sem cobertura para pagar o serviço. Os executores acabaram por não cumprir o acordado por falta de pagamento e a mulher procurou justiça dos tribunais. Acontece, porém, que a Relação de Coimbra indeferiu um pedido do Ministério Público para prender o marido “assassino”. Mais uma vez, os juízes argumentaram que a instigação de um crime não é punível, por não ser claro, neste caso, se chegaram a ser feitos actos que possam ser considerados como preparatórios.» Correio da Manhã
Um retrato perfeito do país: um homem manda matar a mulher mas paga com um cheque careca. A justiça nada faz. E, nos estranhos critérios dos nossos tribunais, já foi uma sorte não ter sido condenado, sim, mas por cheque sem provisão,
Se o homem não tivesse já sido primeiro-ministro, e péssimo, por sinal, até votava nele. Bem, talvez me esteja a entusiasmar. Mas que fez o que tinha a fazer, nem tem discussão.
A primeira greve virtual da história do sindicalismo tem lugar hoje no Second Life. A iniciativa partiu de vários sindicatos e tem em vista o combate aos cortes salariais na IBM.
Saiba mais aqui. E veja aqui como chegar ao lugar onde tudo acontece.
Santana não continua entrevista para a qual tinha sido convidado e repreende jornalista da SIC por ter sido interrompido para mostrar Mourinho a entrar num carro. Diz que isto é de doidos.
Ahmadinejad garante que não há homossexuais no Irão. Todos rimos e bem. Ou mal, porque ser homossexual no Irão e não existir tem mesmo muito pouca graça:
Só que quem se ri muitas vezes não olha para casa. Como recorda Juan Cole, há ahmadinejads católicos, ahmadinejads evangélicos e ahmadinejads militares. Claro os gays não são enforcados e isso faz toda a diferença. Apenas se nega a sua existência, espera-se que se curem, impede-se que tenham os mesmos direitos que os restantes cidadãos ou se assobia para o lado quando algum leva o devido correctivo.
Talvez os discursos de Ahmadinejad sempre sirvam para alguma coisa. Talvez algumas pessoas um pouco baralhadas, que aplaudem o animal só porque não gostam de Bush, percebam a besta que têm à frente. Talvez algumas pessoas um pouco incoerentes, que só se lembram dos direitos dos homossexuais quando eles vivem em terras distantes, percebam a besta que guardam dentro de si.
«Não sei se é costume dedicar-se este prémio a alguém. mas vou dedicá-lo. A todos os jornalistas precários.
Passado um ano da publicação destas reportagens, após quase três anos de trabalho como jornalista, continuo a não ter qualquer contrato.
Não tenho rendimento fixo, nem direito a férias, nem protecção na doença, nem quaisquer direitos caso venha a ter filhos.
Se a minha situação fosse uma excepção, não seria grave. Mas como é generalizada – no jornalismo e em quase todas as áreas profissionais – o que está em causa é a democracia. E no caso específico do jornalismo está em risco a liberdade de imprensa.»
«O PSD voltou a ser um partido com credibilidade institucional e política.»
«Marques Mendes inspira-se na firmeza de Sá Carneiro, no saber de experiências feito e no rigor de Cavaco Silva, na versatilidade de Marcelo e na destreza política de Durão Barroso.»
«Por muito que isso pese a Sócrates, a agenda tem sido marcada por ele»
«E vai haver mais ranger de dentes socialistas com a moção de estratégia que ele acaba de apresentar. »
Ao contrário dos inquéritos anteriores, o que aqui lancei sobre as directas no PSD foi uma miséria. Votaram apenas 157 almas. Ganhou Luís Filipe Menezes, com 82 votos (52%), enquanto Marques Mendes teve 75 votos (48%). Talvez seja por isto ser um blogue de esquerda, mas admito que a qualidade dos candidatos fosse um problema. Assim, resolvi avançar com um novo inquérito até sexta-feira. Para além dos dois candidatos, acrescentei-lhe mais sete nomes, para fingirmos todos que estas são umas directas para levar a sério. São eles: Marcelo Rebelo de Sousa, Paula Teixeira da Cruz, Manuela Ferreira Leite, Aguiar-Branco, Rui Rio, António Borges e (é para levar a sério, mas sem ser aborrecido) o injustamente esquecido Pedro Santana Lopes. Mais uma vez, façam como se fossem açorianos: sigam a tradição e votem mesmo que não tenham as quotas em dia. Desculpem se não escolhi todos os candidatos possíveis. Esta é uma generosa contribuição para que os militantes e simpatizantes do PSD não se sintam demasiado deprimidos. O que ganhar será aqui nomeado como Presidente Virtual do PSD. Sem possibilidade de recurso.
Alguém foi a um multibanco pagar a quota do PSD em meu nome ou vou ser o único português sem direito a voto nas directas?
Já agora, votem no inquérito da barra da direita. Ao contrário dos inquéritos anteriores, a afluência às urnas está uma miséria. Se forem açorianos não têm de pagar nada. É tradição.