Sobre a ausência de barões na campanha do PSD, assunto que só atormenta a alma dos jornalistas, diz Manuela Ferreira Leite: "Em funerais, missas de sétimo dia e acções de campanha vai quem quer". As tétricas analogias com a sua campanha são da própria e eu nem me atrevo a comentar. Faço apenas um respeitoso silêncio. As minhas condolências.
No "Expresso", contuinuo os textos sobre as cinco candidaturas às legislativas. Depois do CDS, o Bloco de Esquerda.
Como todos os partidos, o Bloco tem voto convicto e voto de protesto. Mas tem também, mais do que qualquer um, voto de expectativa depois da desilusão com os outros. E é com esses eleitores que o BE tem mantido uma relação ambígua. A maioria deles espera, um dia, ver o BE no poder. Saberá que, por razões evidentes, isso não acontecerá com Sócrates. Mas acredita que ao dar peso ao BE ele virá a ser um parceiro incontornável e determinará o próprio comportamento do Partido Socialista. O problema é que os principais dirigentes do Bloco ainda não disseram se estão ou não interessados no poder. (...) Com mais peso eleitoral, o Bloco parece ser hoje um partido menos plural, mais ideológico, mais concentrado na figura do seu líder, com maior peso político do seu aparelho e mais parecido com o PCP do que era há dez anos. Alguns destes pecados eram inevitáveis. Outros não. Mas o Bloco está longe de ser monolítico. E nele não falta quem não tenha esta escolha como fechada.
Assinala-se este ano o 20º aniversário da queda do Muro de Berlim. Este será, aliás, o início de muitas datas a recordar à volta deste tema. Por isso, a partir de hoje, e nos próximos meses, iremos publicando os episódios de uma série de documantários (24) sobre a Guerra Fria - claro que faremos algumas interrupções para, no Doc à 6ª, tratarmos de outros temas. "Cold War" (1947–1990), de Jeremy Isaacs, foi produzido em 1998 pela Turner Broadcasting System (para ser transmitido na CNN) e pela BBC. A séries recebeu críticas de quase todos os lados e muitas delas justas. Por vezes simplista, por vezes incompleto, muitas vezes ideológico, é, ainda assim, o primeiro documento televisivo que tentou fazer um apanhado exaustivo de mais de 45 anos da nossa história. Muito vista do lado Ocidental, é verdade, mas ainda assim com uma impressionante recolha de depoimentos e imagens de arquivo. No primeiro episódio, os antecedentes, entre 1917 e 1945. O mais fraco, na minha opinião. Não se resume meio século em 45 minutos. Mas é aqui que tudo começa.
Sobre a apresentação do programa do PSD aqui fica o meu comentário, feito ao Expresso Online. E que se resume assim: as prioridades são quase tudo, diz-se que se quer combater a despesa mas fazem-se propostas que a aumentam, garante-se que se têm prioridades claras e depois fala-se de mais ou menos tudo e criticam-se os slogans e pouco se sai deles. A partir de agora, ouvir e comentar aqui.
Li muitos comentários aqui no blogue a propósito do que aconteceu com 73 eritreus a caminho de Itália. Não farei grandes considerações porque corro o risco de ser demasiado rude, tal a volta que se me dá ao estômago a desumanidade de algumas coisas que leio. Apenas um comentário geral. O mais geral possível sobre esse tema que aquece tantas almas: a imigração. Sempre vista como um problema, o que é já um sinal de uma doença profunda das nossas sociedades.
"Não podem entrar todos". Esta é a frase que justifica tudo o que venha depois. A própria palavra "entrar" merecia debate. Não dizemos que um transmontano não pode entrar no Porto porque não cabem lá todos. Não dizemos que um alentejano não pode entrar em Lisboa porque não cabem cá todos. Mesmo que seja verdade, se alguém o dissesse seria tomado por idiota. Os Estados existem, é verdade. E isso tem de ser tido em conta. Até porque eles mudaram a natureza das migrações. Porque há leis e porque é no espaço das Nações que elas se aplicam. Tudo isso é certo. Com uma condição: sabermos e nunca esquecermos que o homem mudar de lugar na sua casa, que é o planeta, é o que é natural. A excepção, o que é estranho, é terem de o travar. O que é estranho, falando em sentido figurado, é alguém viver com a seca quando ao lado chove. Pode ser ou não necessário, é um debate que não faço agora. Mas nada tem de natural ou normal.
Desde que o homem é homem e a mulher é mulher que se nasce num lugar e se morre noutro. Foge-se da miséria e da desgraça. Procuram-se vidas melhores. Muito antes de haver fronteiras, países, Estados, governos, leis. As migrações não são um fenómeno novo, nem velho. Fazem parte da condição humana: a da luta pela sobrevivência. As fronteiras vieram depois. Combater a imigração é como combater a chuva ou o sol. Sempre existiram, sempre existirão. E, talvez seja necessário dize-lo, ainda bem.
"Não podem entrar todos". E assim se justifica tudo o que venha depois. E de repente acham-se naturais coisas extraordinárias. Os campos de concentração onde, por essa Europa fora, se amontoa gente que não fez mais do que procurar uma vida melhor para os seus filhos. Recambiar para a guerra e para a fome seres humanos. Deixar morrer no mar quem aqui tenta chegar. Construir muros, cercas electrificadas, torres de vigia. Pagar a ditaduras para serem nossos guardas fronteiriços. Dizer-se que um ser humano é ilegal. Procura-lo pelas ruas, persegui-lo, prende-lo. E de repente todas as atrocidades são naturais.
Tudo o que hoje nos parece criminoso e bárbaro já foi visto como natural. A escravatura, a segregação racial, as limpezas étnicas. Sempre com argumentos muito pragmáticos e até caridosos. Por isso sou optimista. Acredito que um dia a humanidade olhará com repulsa para o que fazemos hoje aos imigrantes. E perguntar-se-á como é possível ter ouvido italianos ou portugueses falar com desprezo dos que cruzaram as mesmas fronteiras que por eles já tinham sido cruzadas em sentido oposto. E olhará com espanto para países como os Estados Unidos, compostos quase exclusivamente por descendentes de imigrantes, que hoje reprimem a imigração até ao absurdo. Recordar-se-á que o egoísmo sem limites sempre fez a história da humanidade. Mas que apesar de tudo fomos conseguindo, conquista após conquista, civilizar os nossos piores instintos. Neste caso, seremos capazes de nos recordar que o que é da natureza humana é querer viver num lugar melhor. Pode não ser possível. Mas é isso que é natural.
O carro onde seguia Pinto da Costa atropelou um jornalista à saída do tribunal. A conduzir, o motorista do Presidente do FCP, também ele, claro, arguido. Depois do atropelamento, o carro seguiu e não cumpriu a ordem de um agente da PSP para parar. A SAD do Porto diz que ninguém no carro deu por nada: nem pelo atropelamento, nem pelo agente da PSP. O "toque", que levou à queda do jornalista, passou despercebido a todos os ocupantes da viatura, que apenas notaram um "pequeno e usual" contacto. Quem nunca abalroou uma pessoa sem dar por nada que atire a primeira pedra. Apesar de se ouvir o apito, a PSP do Porto, claro, desmentiu que houvesse desobediência à polícia. Quanto muito, ao mandar parar o Presidente do FCP, terá havido desobediência da PSP do Porto a Pinto da Costa. O clubismo consegue colocar uma só pessoa acima de todas as leis. Entre os fanáticos do costume já se escreve por aí que não houve atropelamento porque o jornalista até se levantou logo a seguir. Por isso, caro automobilista, se algum dia atropelar alguém, olhe para trás, se a pessoa se levantar pode seguir.
Aqui fica o novo site de apoio ao Sporting, criado por adeptos este mês. E onde, de vez em vez, escreverei umas coisas. Mas aproveito este post para deixar uma homenagem que indecentemente deixei passar: a Bobby Robson, um bom treinador mas, sobretudo, um homem bom. Que, lamentavelmente, o meu clube não soube merecer. Aqui fica um documentário de uma hora sobre Bobby.
A acusação de escutas e vigilância à Presidência, apesar de patética, é, se este país ainda se leva a sério, gravíssima. Perante ela, seria de esperar uma de duas atitudes do Presidente: ou confirmava a suspeita e agia em conformidade ou a desmentia e corria com o assessor que anda a espalhar tamanhos disparates. Nem uma nem outra. Preferiu, com o silêncio, alimentar a coisa.
E o primeiro de cinco textos sobre as principais candidaturas às eleições legislativas. Esta semana sobre o CDS. Para a próxima, sobre o Bloco de Esquerda, depois PCP, seguido do PSD e, por fim, PS:
Como um eucalipto, Portas foi aniquilando todos os quadros do seu partido. Primeiro os opositores, depois aliados e amigos. O pouco que restava de apresentável foi enviado para Bruxelas. É da sua natureza: Portas é a sua própria solidão. E fez do CDS o primeiro partido português verdadeiramente unipessoal. Sozinho, tem de encarnar todas as personagens da direita.
73 eritreus que tentavam chegar à costa iraliana morreram no mar. Vários barcos passaram por eles sem prestar ajuda (o ACNUR teme que o endurecimento das políticas governamentais tenha o efeito de desencorajar os capitães dos barcos de continuarem a honrar as suas obrigações internacionais marítimas), violando todas as regras do mar e da decência. Um pescador foi a excepção.
Como em todas as campanhas, volta a novela dos debates. Sócrates, que, como é evidente, teme mais debates com Portas e Louçã (que têm mais talentos de comunicação que outros candidatos da oposição) do que com Manuela Ferreira Leite, só quer debates a dois com a líder do PSD. Já a líder do PSD, que espera ver a esquerda a tirar votos a Sócrates, quer que os debates a dois sejam com todos. BE, PCP e CDS querem, como é evidente, mais tempo de antena. Nada há de coerente nas posições dos partidos em matéria de debates. Isso é natural. O que é estranho é que, ao fim de tantas eleições, ainda não se tenha fixado um procedimento e esta novela volte sempre.
Por mim, com base em tudo o que já foi experimentado, considero que os debates a dois, entre todos, a dividir pelos vários canais (como se fez nas últimas presidenciais), é mesmo o mais esclarecedor para os eleitores. Até porque muitos eleitores têm dúvidas entre o PS e o BE, entre o PS e o PSD, entre o BE e o PCP, entre o PSD e o CDS e por aí adiante. E é nestes debates a dois que melhor podem perceber as diferenças. E são mais sérios e profundos. Mas mais importante: institua-se um sistema e aceitem mantê-lo de eleição para eleição.
Conta o Peão, que leu no Rue89, que para poder financiar a transferência de Cristiano Ronaldo para o Real de Madrid, a Caja Madrid abandonou um projecto imobiliário que previa construir 2100 apartamentos a preço de custo. Os apartamentos, num subúrbio a sul de Madrid, seriam destinados a uma população que dificilmente pode comprar casa a preços de mercado actuais em Espanha: pessoas com menos de 35 anos ou divorciadas. A Caja Madrid não confirma mas sobretudo não desmente a notícia.
Quando se realizaram ontem as eleições no Afeganistão, aqui fica um documentário de Robert Greenwald, realizado este ano, que faz um balanço da intervenção americana.
"Não quero saber se há escutas ou não, não quero saber se há retaliações ou não. O que é grave é que as pessoas acham que há" Manuela Ferreira Leite, hoje na RTP
Para assegurar o apoio dos fundamentalistas Karzai aprovou uma lei que autoriza os maridos xiitas a violar as mulheres. Para conseguir arrebanhar eleitores e caciques que comprem votos num processo que só com muito esforço se pode chamar de democrático, aliou-se aos mais sanguinários senhores da guerra: Rashid Dostum e os seus dois candidatos a vices Mohammad Qasim Fahim e Karim Khalili. Mas nada disto tira o sono ao civilizado Ocidente que ali mantém as suas tropas. Longe vai a retórica dos direitos das mulheres em particular e dos direitos humanos em geral. Só para que fique registado para quando este tipo de argumentos aparecer numa próxima invasão.
Amanhã deixarei aqui um bom documentário sobre a situação actual no Afeganistão.
A novela do "Público" já tem a sua personagem principal: Rui Paulo Figueiredo. O homem que nos faz lembrar o Salazarismo e "os métodos mais próprios da polícia secreta dessa época". O Arrastão deixa aqui imagens do agente "001", que nas comitivas presidenciais se senta onde não deve e que tem, como provam as imagens, envidentes ligações à CIA:
Como o país está em crise profunda e temos o governo que temos, que tal se o PSD se dedicasse ao que é realmente importante? Compreende-se uma certa atenção ao acessório quando as diferenças entre PS e PSD não abundam. Mas até no Verão há limites para a parvoíce.
Esperava-se que o "Público" desse conta da forma como o PS soube das colaborações dos assessores de Belém na elaboração do programa do PSD e que assumisse o disparate da manchete de ontem, que a meio do dia já estava completamente desfeita e que, não por acaso, toda a gente decidiu desvalorizar. Pelo contrário, fez uma fuga para a frente, com uma notícia igualmente absurda e com um ano e meio de vida, que não tem um único elemento que apoie a ideia de que a presidência pudesse estar "sob escuta". Tem apenas uma velha história mal contada do incómodo da comitiva de Cavaco à Madeira com a presença de um assessor do governo. Alguém explica a alguém que nada disto é jornalismo de investigação?
No Google Maps já é possível ver Lisboa e Porto noutra perspectiva. Surgiram algumas dúvidas sobre o facto de aparecerem pessoas (eu próprio, outro dia, vi o carro que estava a fazer o mapeamento passar), mas do que consegui verificar as caras estão tapadas. Aqui fica um exemplo, da "minha" Praça das Flores, numa das muitas imagens possíveis de uma visão de 360º.
A pergunta “como é que os dirigentes do PS sabem o que fazem ou não fazem os assessores do Presidente?" já tem resposta. O "Semanário" contou e o PSD espalhou. O Sol recorda (via Jugular). Esperam-se explicações de fontes apressadas de Belém e da direcção do jornal "Público", que inventou o caso Watergate mais curto e idiota da história.