Quinta-feira, 30 de Setembro de 2010
por João Rodrigues


“É tempo de todos os socialistas se unirem, estoicamente, em apoio ao Primeiro Ministro, pela agrura de ter de decretar medidas duríssimas e de arrostar com incompreensão e impopularidade.”

Ana Gomes

Os socialistas sem aspas que se unirem, neste contexto, em torno de Sócrates terão abandonado, na prática, qualquer referência socialista. É aí que conta. Às vezes é simples. Passarão a ser outra coisa qualquer, socialistas é que não. Os socialistas, quando a coisa aperta, não podem ser contra a austeridade, ir a manifestações em Bruxelas, escrever coisas destas e faltar às manifestações que se seguirão em Lisboa. A austeridade leva à recessão, a mais desemprego e à continuada destruição do Estado-Providência. E não resolve nenhum problema financeiro. O que resta do património social-democrata depois de tudo ter sido escavacado? As reformas progressistas europeias e nacionais, de que precisamos para sair da crise, não virão sem luta social e política em todas as escalas, contra estes governos e contra o Consenso de Bruxelas. Os medíocres social-democratas das vias da moda, os que apoiaram todas as regras neoliberais europeias, as regras que facilitam a vida aos Durões desta vida, desistiram há muito. Não esqueço a responsabilidade dessa social-democracia, que no final da década de noventa estava no poder em 11 de 15 Estados, na criação do PEC. E quem aceitou este BCE e apoiou todas as liberalizações financeiras, todas as privatizações, a criação de um euro disfuncional? A autodestruição da social-democracia, um dos fenómenos políticos mais impressionantes destes tempos sombrios, continua imparável. Por dentro, através da colonização ideológica, como Vital Moreira, por exemplo, bem sabe, e por fora, através da coligação permanente com a direita. Há um campo político e ideológico vazio em Portugal?

por João Rodrigues
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por Sérgio Lavos
Quem está à margem, por lá se manterá durante muito tempo. Simbólico que as comemorações do centenário da República estejam a ser feitas com a ajuda de funcionários trabalhando a falsos recibos verdes. Segundo o blogue FERVE, há pelo menos 13 pessoas há dez semanas sem receber. De resto, sabemos que isto é norma em muitos organismos que dependem do Estado - gente que trabalha, por vezes durante anos, a passar recibos verdes, sem direito a férias ou subsídios de férias e Natal. Podemos pensar também nas novas normas de atribuição do subsídio de desemprego, que obrigam quem recebe a praticar serviço de voluntariado (portanto, voluntariado à força, portanto, uma suave escravatura) em serviços do Estado. Isto acontece - pessoas que descontaram para a segurança social durante anos sem qualquer garantia de que os descontos efectuados revertam a seu favor em tempos de aperto. Viva a república. Celebremos.

P.S.: Outro facto curioso, descoberto no Spectrum: o presidente da comissão para a comemoração do centenário da República é, nada mais nada menos, Artur Santos Silva, banqueiro e personagem de indiscutível mérito cultural. Maravilha.

por Sérgio Lavos
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por Sérgio Lavos


Se não ficar por mais nada, ficará pelo seu papel naquela que será a melhor comédia de sempre (é seguramente a minha preferida): Quanto Mais Quente Melhor. Contracenando com o excelente Jack Lemmon e uma Marilyn Monroe do outro mundo, em todos os sentidos. É muito.
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por Sérgio Lavos
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por Sérgio Lavos
Uma das mais interessantes curiosidades produzidas pela crise política tem sido o ténue equilíbrio do PSD em todo este imbróglio. Sócrates rompeu as negociações para a aprovação do Orçamento, acusou Passos Coelho de chantagem, e passados alguns dias anuncia as medidas de austeridade que o PSD vinha pedindo há muito tempo. Mas como Passos Coelho continua a não ceder na posição de princípio que assumiu, as hostes cavaquistas chegam-se à frente e pressionam o líder do PSD a abster-se na votação do Orçamento, não vá o segundo mandato esfumar-se no meio do caos que a queda de um Governo provoca. Nunca tive duvidas sobre o carácter do excelso Presidente da República, mais um dos abutres da pátria, guardando na sombra os restos para si e para a sua trupe (Dias Loureiro, lembram-se?). Mas em tempos difíceis, certas ideias ainda se tornam mais evidentes. Se uma das coisas positivas nascidas da crise for a derrota de Cavaco nas presidenciais, menos mal. Há sombras que precisam de ser dissipadas, e todas as oportunidades contam.

por Sérgio Lavos
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por Daniel Oliveira
Os advogados da política de terra queimada podem finalmente festejar. O governo deu-lhes ouvidos e prepara-se para rebentar com qualquer possibilidade da economia recuperar nos próximos anos.

Os funcionários públicos, escolhidos por tanta gente que nunca hesitou em pendurar-se no Estado como bode expiatório da incompetência quem governou este País durante tantos anos, irão finalmente ser sacrificados para acalmar a fúria desse novo Deus que são os mercados financeiros. Mas basta olhar para a Irlanda para saber que os especuladores, os únicos beneficiados por esta crise, não se irão comover. Até porque sabem o que nos vai acontecer.

Mas não serão apenas os funcionários públicos. São os reformados, que verão as suas miseráveis pensões congeladas. Serão todos os consumidores, que verão os preços subir por causa do aumento do IVA. Serão os mais pobres entre os mais pobres, que vão sentir mais um corte no quase simbólico rendimento mínimo, aquele que os remediados maldizem até ao dia em que precisam dele. E, com o que aí vem, tantos irão precisar. Serão todos os contribuintes, que ficarão a pagar o fundo de pensões descapitalizado da PT.

E é, acima de tudo, toda a economia. Menos dinheiro disponível, preços mais altos. Mais crise sobre a crise. Empresas que fecharão. O desemprego que inevitavelmente irá aumentar. Menos receitas fiscais, mais despesas sociais. O filme é simples e todos o conhecem: a partir do momento em que aceitámos saltar para este abismo a queda será estrondosa.

O mais extraordinário é que tudo isto é feito para garantir o financiamento da nossa economia. Financiamento que a banca nos garante pedindo emprestado o nosso dinheiro, o dinheiro da Europa, a um por cento, para depois nos voltar a emprestar a seis por cento. Apenas porque a União inventou o crime prefeito: impede-se a si própria de ajudar os Estados membros para dar a ganhar a quem se alimenta da nossa desgraça. Todos estes sacrifícios não são para melhorar as nossas vidas. São para alimentar a mesma banca que nos obrigou a enterrarmo-nos para a salvar da sua própria ganância.

Almeida Santos disse: sorte do País que é governado por quem tem a coragem de tomar medidas impopulares. Eu respondo: azar do País que é governado por quem nunca tem a coragem de governar pelo povo, com o povo e para o povo. Medidas impopulares têm tomado todos. As difíceis, que tocam no poder que realmente decide os nossos destinos, é que nunca vêm. Mais uma vez vamos pagar a crise que outros causaram. Mais uma vez serão eles a lucrar com ela. Restam-nos duas possibilidades: ou emigramos ou nos revoltamos.

Publicado no Expresso Online

por Daniel Oliveira
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por Bruno Sena Martins
Publicado na Liga Aleixo

Bastou o Villas-Boas deixar Otamendi ir para dentro de campo e o homem logo tratou de “marcar um golo na estreia” - Otamendi, curioso nome, soa como que vindo da América do Sul, mas afinal vem da Argentina. Causa-me sempre tremendo assombro quando vejo as parangonas dos jornais a celebrar um jogador que marca na estreia. Tal assombro deve-se, em parte, ao facto de eu não ter tido muito feliz sempre que tentei fazer algo de marcante na estreia, mas, enfim, deixemos de falar da minha vida que já passou muito tempo e, às tantas, com a minha cara sempre a mudar e o cabelo a cair, um dia a rapariga de Serviço Social vai deixar de me apontar na rua, para gáudio das amigas, só pelo capricho de publicitar a pior estreia de sempre desde que Renteria se estreou a jogar no Estádio da Luz.

Na verdade, mais do que lembrar aquela tarde aziaga no Jardim da Sereia, durante o desfile da Queima das Fitas, no longínquo ano que corre, ao ver Otamendi ser exaltado como um caso de sucesso na estreia os meus pensamentos vão directos para o Pena, o melhor marcador menos memorável que já passou pelo futebol português. Caso esteja esquecido, saiba o querido leitor que o bom do Pena se estreou marcando dois golos na época em que se sagraria Bota de Ouro 3 golos à frente do van Hooijdonk. O eclipse futebolístico de Pena, que pouco tempo depois de ser campeão pelo Porto já aquecia o banco do Braga (inaugurando o caminho mais tarde seguido pelo Adriano), nem sequer deve às drogas, como sabemos o único álibi no futebol para que a decadência não seja considerada patética.

Ao que parece Pena foi usurpado pelo seu empresário e perdeu aquela boa relação com as balizas, pelo menos assim se forjou a hipótese de uma decadência quase charmosa: temos um vilão e uma vítima que após perder o dinheiro do banco perdeu intimidade com o labor das balizas. Pessoalmente, não querendo duvidar da apetência dos empresários para a ladroagem, parece-me uma desculpa demasiado recorrente entre os jogadores de futebol. A minha tese é que Pena nunca teve boa relação com as balizas, com a bola e, dou de barato, nem com os empresários; Pena foi apenas um jogador que no jogo da estreia ganhou confiança para fingir ser o jogador que ninguém imaginava que ele pudesse ser. No fundo o efeito de uma estreia bem sucedida cumpriu o seu prazo de validade.

Percebem, pois, que mal tenha conseguido acabar a grelhada mista quando me apercebi que teria sido Otamendi o autor da recarga ao golo do Hulk. Não se trata de superstição, mas um clube deve honrar a sua história e a história do Porto passa pelo Pena, como passa por fazer os jogadores acreditar que conseguem ser melhores do que aquilo que são. Com esta história do golo na estreia, com o efeito determinante que a majestade inicial dos começos sempre tem no encetar uma relação, a decadência é a única coisa resta ao Otamendi na sua passagem pelo Porto. Depois do Pena, uma decadência lenta é tudo quanto peço.

por Bruno Sena Martins
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por Sérgio Lavos


Calhou ser no dia da apresentação do PEC III o dia de luta convocado pela Confederação Europeia de Sindicatos contra as medidas de austeridade adoptadas nos países da UE. Não sei até que ponto o Governo planeou a coincidência de datas. Havia urgência, há uma crise política, indicadores catastróficos da economia. Seja como for, o que vimos nos telejornais foi um desfilar de notícias relacionadas com o PEC e o constante bombardear da alcateia de lobos liberais que opinam nas televisões parcialmente saciada - o medina-carreirismo parece estar a ter o seu dia. Gabriel Malagrida, rói-te de inveja. Não interessa que medidas semelhantes estejam a ter consequências negativas na Irlanda, ou que a eficácia em Espanha e na Grécia seja reduzida; não interessa que o imposto mais socialmente injusto de todos, o IVA, tenha sido o escolhido para sofrer uma subida. Nem que se tenha decidido descer os salários e reduzir os benefícios fiscais (medidas que irão afectar sobretudo a classe média), mantendo intocado e regime contributivo excepcional de que a banca usufrui. E também não tem qualquer importância não haver propostas reais de combate ao despesismo do Estado - a multiplicação de organismos públicos, as parcerias público-privadas, que apenas beneficiam os privados, a compra de material de guerra em tempo de paz, etc, etc, etc. Não há, nunca haverá uma real vontade de justiça social por parte deste Governo. Nem deste, nem do próximo, mesmo que mude a cor política do mesmo. O "S" de PS, mais do que nunca, nada tem que ver com socialismo.

O que se pode fazer? Seguir o exemplo de quem luta nas ruas, em Espanha ou na Grécia, parece ser o único caminho para fazer a diferença. Os telejornais de hoje pouco mostraram das manifestações um pouco por toda a Europa. Como também não falam das greves em França. Parece que voltou a cair sobre o país um véu que parece querer esconder o que se passa lá fora. Não é quem está agora no desemprego, quem sofre e ainda vai sofrer mais com as medidas de austeridade, que é culpado da crise, por muito que nos tentem convencer disso. A crise não pode servir de pretexto para o que está a acontecer; até porque existem outros caminhos, que, infelizmente, parecem estar a perder o combate mediático com os profetas da desgraça. No meio de tudo isto, há outra coisa que me deixa intrigado: por onde anda a CGTP, que ainda há dois meses conseguiu organizar uma manifestação com 150 000 pessoas? Hoje, por exemplo, decidiu não convocar uma greve geral e limitou-se a picar o ponto nas ruas. Este não é um tempo de comer e calar - as soluções que estão a ser ensaiadas são gravíssimas e representam um retrocesso social aterrador. E nada, muito menos esta crise provocada por políticas erradas e pela complacência perante o capitalismo desenfreado das últimas décadas, pode justificar tais soluções. Mais do que uma questão de cidadania, é de sobrevivência. Se os governos tomam medidas de excepção, quem sofre as consequências também tem de as tomar. É o caminho.

por Sérgio Lavos
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por Pedro Vieira

© rabiscos vieira


por Pedro Vieira
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por Sérgio Lavos
António Barreto: direito à saúde, educação e habitação é incompatível com a crise.

É nestas alturas que as ratazanas saltam cá para fora. Este senhor é um digno representante das nossas elites, o exemplo perfeito da decadência que levou a este estado de coisas - e não falo da iminente bancarrota, mas sim do regabofe da lei do mais forte que tomou conta do país, com a complacência do povo calado e quieto. Como era mesmo aquela conversa sobre o Campo Pequeno?

por Sérgio Lavos
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Quarta-feira, 29 de Setembro de 2010
por João Rodrigues
“'Será que os mercados vão reagir bem a isto?'...perguntava o implacável Camilo Lourenço na rádio, pedindo mais sangue. Talvez não, digo eu. Talvez antecipem o cenário mais provável: uma recessão prolongada que torna mais difícil, senão impossível, o serviço da dívida pública e privada. Outra Irlanda.”

José Castro Caldas

“Luís Campos e Cunha, Pedro Ferraz da Costa, Ernâni Lopes, Francisco Sarsfield Cabral, Luís Delgado, Nogueira Leite, Helena Matos. Foram estas as pessoas que até agora tiveram lugar na TV para comentar as duras medidas de austeridade do governo. E ainda falta João Duque, Medina Carreira e César das Neves. Sim, a crise começa aqui.”

Miguel Cardina

por João Rodrigues
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por Pedro Sales


Telecom: Défice do fundo de pensões da PT aumenta 59 milhões para 1,53 mil milhões



É sempre bom sabermos que, para cumprir o défice que já diziam estar garantido com os cortes adicionais do PEC (lembram-se?), o Governo cedeu às antigas pretensões da PT e vamos ficar todos a pagar um fundo descapitalizado.

por Pedro Sales
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por João Rodrigues
“Governo anuncia redução de 5 por cento na massa salarial da função pública.” Isto vai afectar todos. Todos. Do público e do privado. O projecto de cortar salários, directos e indirectos, de forma deliberada vai para a frente. Juntem o aumento do regressivo IVA, num dos países onde este mais pesa na estrutura de impostos. Menos rendimentos do trabalho, recessão, mais desemprego. A especulação e a expropriação financeiras serão as de sempre...

Adenda: só para deixar o comunicado de imprensa do processo de aprofundamento do capitalismo de desastre em curso.

por João Rodrigues
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por Daniel Oliveira

por Daniel Oliveira
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por Bruno Sena Martins
"Conselho Diretivo do Sporting anunciou novas normas internas que proíbem a utilização de calças de ganga por parte dos funcionários do clube, de forma a refletir os "valores do Grupo Sporting. (...) Para além da proibição da utilização de calças de ganga, o Conselho Diretivo do Sporting também desaconselha o uso de calções, bermudas, ténis e chinelos. A missiva interna distribuída pelos funcionários também refere que é de evitar a "exposição de piercings e tatuagens"

por Bruno Sena Martins
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por Daniel Oliveira
O governo vai apresentar hoje as linhas gerais do Orçamento de Estado. Sem negociação prévia. PSD e CDS, que concordam com a receita geral recessiva (onde o aumento de impostos é apenas uma parte), não querem a impopularidade de estar nesse barco. PS não tem grande vontade de negorciar com BE e PCP (e vice-versa). Ou seja, podemos mesmo estar à beira de uma crise política. Que Sócrates apresente as linhas gerais do Orçamento no dia em que Cavaco ouve o PSD e em que a CGTP se manifesta só prova que o seu timing continua a ser o dos telejornais e não o dos problemas do País. Com gente assim, estamos bem tramados.

por Daniel Oliveira
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por Pedro Sales

por Pedro Sales
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por Daniel Oliveira


Para além do aumento do IVA, a OCDE propõe o congelamento dos salários da função pública até 2013 com vista a um incentivo para a "moderação salarial" no sector privado. Propõe que o país que tem dos mais baixos salários da Europa e com a segunda maior desigualdade salarial, logo depois da Letónia, seja moderado. Não nos salários mais altos, mas em todos. Quando o salário médio português pouco passa os 800 euros e 40% dos trabalhadores levam para casa menos de 600 euros líquidos gostava de saber como se identificam os excessos salariais como o principal problema nacional.

E dizer que os aumentos salariais não devem estar acima do crescimento da produtividade, só por piada. Nos últimos 30 anos ele esteve, de forma consistente, em linha com crescimento da produtividade. Mas como a desigualdade salarial se tem agravado, os aumentos nos salários mais baixos têm, na realidade, estado abaixo desse crescimento.

Seja como for, sem exportações para fazer, a medida afectará o mercado interno. E isto é a coisa mais perturbante no discurso dominante na Europa sobre esta crise: todas as propostas fazem por ignorar os efeitos de políticas recessivas na economia real. Aquela onde pessoas compram e vendem coisas. A consolidação orçamental e o endividamento é o alfa e ómega de tudo. A economia é tratada como se não existisse. E como se políticas de austeridade não tivessem qualquer efeito nestes dois indicadores.

Uma proposta: como pediam os profetas da terra queimada, olhem para a Irlanda. Aplicou, no último ano e antes de todos os outros, os cortes salariais que se propunham (cinco a quinze por cento nos funcionários públicos) enquanto se entretinha a salvar a banca nacional. Mereceu aplauso geral por tamanha coragem e astúcia. "Tomando estas medidas difíceis mas necessárias, vamos reconstruir a auto-confiança do nosso país internamente e a nossa reputação no exterior", disse em Dezembro o primeiro-ministro irlandês, usando expressões que nos são familiares. Passados oito meses, a Irlanda está, talvez ainda mais do que nós, num buraco sem fundo.

Tudo o que está a acontecer na Europa mostra que este caminho não resulta. Mas como nos repetem, contra todas as evidências, que é por aqui que temos de ir, lá vamos nós sem fazer muitas perguntas rumo ao abismo.

Publicado no Expresso Online

por Daniel Oliveira
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por Daniel Oliveira


"A Venezuela foi a eleições. O PSUV, partido de Hugo Chávez, conseguiu 95 dos 165 deputados da Assembleia Nacional. Atingiu a maioria absoluta, mas não a maioria de dois terços que permitiria aprovar leis orgânicas sem ter de negociar com a oposição e que era o objectivo de Chávez. Contudo, a distribuição de deputados favorável a Hugo Chávez não corresponde directamente à distribuição directa dos votos, onde a oposição conseguiu 52% dos votos (dado ainda não confirmado oficialmente à data da elaboração do presente artigo).

A expressão eleitoral que a oposição conseguiu alcançar merece uma análise detalhada. A ONU reconheceu que a Venezuela conseguiu, entre 2002 e 2008, a maior redução da desigualdade de entre os países da América Latina e alcançou a distribuição de rendimentos mais equitativa da região. Assim, como explicar que a oposição alcance metade dos votos em disputa num país com tamanhos avanços sociais? Será este resultado sintoma de uma crise do Socialismo do século XXI ou é uma crise do Governo de Chávez? (...)

Quando Hugo Chávez mistura aprofundamentos socialistas nas propostas de alterações à Constituição, com reforços do poder presidencial e da autocracia do Estado, reduz o debate ao populismo, e o Socialismo à sua permanência no poder. Quando vê a proposta de revisão constitucional chumbada pela primeira vez e, apenas dois anos depois, força novamente a votação, demonstra que para ele a Democracia é apenas uma forma de legitimação da sua vontade.

No país onde Socialismo se confunde com o populismo de Chávez, houve uma sondagem em 2009 onde 70% das pessoas indicavam que ninguém lhes tinha explicado o que era uma Democracia Participativa nem o Socialismo do séc. XXI. Um ano depois, a direita cresce para níveis assustadores de representação eleitoral. Não basta a socialização económica, para que o Socialismo seja vitorioso. Sem uma socialização política, onde a consciência e a prática democráticas sejam aprofundadas, não há Socialismo do Séc. XXI que resista."

De Pedro Filipe Soares

por Daniel Oliveira
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por Sérgio Lavos
Parlamento islandês processa primeiro-ministro que governava quando país faliu.
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por Sérgio Lavos
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Terça-feira, 28 de Setembro de 2010
por João Rodrigues


Comissão Europeia, Banco Central Europeu, FMI, OCDE: as nossas elites nunca foram originais e têm aliados de peso. Luís Ribeiro descreve bem o projecto do FMI no i de ontem, a aposta das marionetas do bloco central: “Cortar salários nos próximos dez anos.” O FMI não aprende com os seus desastres na América Latina e no leste europeu. Lembram-se da Argentina, por exemplo? Se não se lembram, aconselho a leitura de um excerto deste relatório.

Trata-se de fazer com que sejam as classes populares e os seus rendimentos, e logo os seus consumos, a pagar o fardo do ajustamento. O endividamento e o incumprimento seguem em maior escala dentro de momentos? Ou pensam que a poupança cai do céu?

O desemprego de dois dígitos ajuda a impor a disciplina, o medo, tão selectivos. Os planos de novas rondas de desregulamentação das relações laborais têm o mesmo efeito do desemprego: fazer com que os trabalhadores sejam compelidos a aceitar reduções do poder de compra dos salários e aumentar as desigualdades entre a malta do topo, com poder, e a esmiuçada malta da base, sem criar novos e duradouros empregos, como indica recente investigação sobre as dinâmicas das relações laborais.

Façam como Manuel Alegre: não liguem à OCDE, que reproduz o famigerado consenso do Banco de Portugal, e vice-versa, que esta arquitectura neoliberal está bem imbricada e oleada. Trata-se sempre de poder. E de gerar medo, uma vez mais. Causam crises de distribuição, crises de procura, à pala de muita especulação e expropriação financeiras, sempre toleradas. Foi assim que a crise começou. Lembram-se?

Juntem a isto a fragilização dos Estados periféricos com novas privatizações e os aumentos do regressivo IVA, uma vez que as classes populares consomem todos os seus rendimentos e logo o IVA leva-lhes proporcionalmente mais, e temos a estrada para a recessão com mais desigualdade à mistura: em Portugal o regressivo IVA representa 8,7% do PIB e o progressivo IRS 5,8% do PIB; na zona euro a média é de 7,5% e de 7,9%, respectivamente.

Os aparelhos ideológicos difundem uma fraude intelectual de proporções gigantescas: os salários são o problema português. Não são, se fizermos as contas. Em termos genéricos, os salários são um custo? São. O salários são uma fonte de procura? Também. Esta contradição, no cerne dos capitalismos, tem de ser institucionalmente gerida para que se gerem empregos e justiça social: a boa gestão cria um multiplicador da igualdade no quadro das variedades de capitalismo.

À escala europeia é a falácia da composição: cortar nos salários dos funcionários públicos – para tentar corrigir os défices gerados pela crise, para fazer com que os trabalhadores do sector privado aceitem o mesmo e para tentar corrigir desequilíbrios externos periféricos – leva a uma perversa contracção do conjunto mercado interno europeu, a novos problemas nas finanças públicas e aos problemas de sempre no saldo com o exterior. Os países não podem todos aumentar as exportações líquidas, como bem sublinhou o José Guilherme. E ainda não podemos exportar para Marte...

Perante este desastre europeu, só a luta dos trabalhadores europeus pode fazer a diferença. Razões não faltam para dizer: Trabalhadores de toda a União, uni-vos!

Notas. Como é hábito, algumas das ligações são a estudos recentes, que desafiam a sabedoria económica convencional, ajudam a aprofundar estes temas e a pensar nas alternativas. A tradução para português do “manifesto dos economistas horrorizados” está a caminho. Este texto também foi publicado no ladrões de bicicletas. Adenda. Dois atentos comentadores assinalaram que eu acabei por não dar informação sobre a iniciativa dos sindicatos europeus: ligações à confederação europeia de sindicatos e à CGTP.

por João Rodrigues
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por Daniel Oliveira
Estou a falar do Sporting. Mas podia ser do País. Nunca o meu clube esteve tão sintonizado com a esta tão pouco ditosa pátria. Podem ler a crónica aqui: Sporting Apoio.

por Daniel Oliveira
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por Bruno Sena Martins
"Alguém me explica para que é que uma empresa quase monopolista como a EDP precisa de uma campanha institucional destas? Mais: como é que uma empresa de capitais maioritariamente públicos se pode dar a tal luxo uma vez por ano? Qual o objectivo deste investimento mediático? Dissuadir os consumidores de comprarem electricidade à Iberdrola? Convencê-los a deixar as luzes ligadas a noite toda" Luis Rainha

por Bruno Sena Martins
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por Daniel Oliveira

por Daniel Oliveira
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por Daniel Oliveira
A OCDE propõe o aumento do IVA. Percebe-se a razão desta opção: ao não se sentir de forma tão evidente na carteira dos contribuintes, é o impostos menos impopular. Mas apenas por má percepção. O efeito é exactamente o mesmo do que o do aumento do IRS, apenas com uma diferença: é um imposto cego. Ao contrário do IRS, tanto o paga o pobre como o milionário. À mesma taxa, apenas proporcional ao que vai consumindo. Ou seja, não tem uma função redistributiva. Corresponde, na realidade, à taxa plana com que tantos sonham. Tem uma vantagem: é fácil de cobrar e o dinheiro entra logo nos cofres do Estado.

A opção recorrente pelo o aumento do IVA é um excelente retrato da forma como se governa hoje. Em vez de opções estratégicas consistentes, procura-se a solução que salve o barco nos próximos minutos. Mesmo que isso, no dia seguinte, ajude ao naufrágio. E escolhe-se a opção menos impopular, mesmo que ela seja a pior para os contribuintes. Por fim, as opções escolhidas, vá-se lá saber porquê, acabam sempre por ser as piores para os que, tendo menos poder económico, também têm menos capacidade para protestar.

Querem mexer no IVA? Podem começar por fazer uma coisa: retirar do escalão mínimo os produtos que não são realmente essenciais. Como, por exemplo, os famosos refrigerantes de que falava José Sócrates. Mas se aumentar o IRS seria penoso para o pais, aumentar ainda mais o IVA será trágico. É que estaríamos a aumentar um imposto que até o desempregado paga.

Publicado no Expresso Online

por Daniel Oliveira
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Segunda-feira, 27 de Setembro de 2010
por Sérgio Lavos
Para quem achava que a expulsão de roms era apenas um pormenor da história, aqui está a continuação: a lei que irá ser discutida

por Sérgio Lavos
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por João Rodrigues


As alternativas democráticas a partir de “baixo”, que Miguel Madeira tão bem defende em artigo no Le Monde diplomatique – edição portuguesa, precisam de alternativas vindas de “cima”. O Estado é um campo em disputa e pode, haja força politica e boas razões, estar ao serviço dos de baixo, sendo capaz de exercer muitas funções económicas com relativa eficácia, como apoiar o financiamento das suas iniciativas empreendedoras, e assim contrariar a discriminação no acesso ao crédito, que bloqueia tantos projectos cooperativos. Se queremos superar a separação entre baixo e cima podemos também apostar na defesa das políticas sociais universais. É que as políticas para pobres tendem muitas vezes a ser pobres políticas, para invocar o suspeito Milton Friedman, e por isso devem ser secundárias no quadro do Estado social. A experiência mostra que os serviços públicos e apoios sociais, financiados por impostos progressivos e acessíveis a todos os cidadãos sem barreiras de preço ou outras, são, paradoxalmente, mais redistributivos, estão politicamente mais protegidos porque todos deles tendem a beneficiar, exigem menos custos administrativos com fiscalizações intrusivas dos “pobres merecedores”, fazem menos exigências à administração em termos de conhecimento e ajudam a evitar armadilhas sociais à portuguesa; “equilíbrios baixos” em que a desigualdade e a desconfiança sociais se reforçam mutuamente. Coisas que tenho aprendido com estudos empíricos sobre os modelos de Estado. Precisamos do espírito da igualdade, a que o Daniel já aqui aludiu. Ao contrário do que pressupõe o deslocado e estranhamente a-histórico essencialismo de Rui Ramos no Expresso desta semana, o Estado é muito mais variado e plástico. Tem diversas naturezas, digamos. Tudo depende dos blocos sociais que definem as políticas. Aliás, o que Rui Ramos, sem se preocupar com a evidência sobre estes assuntos, diz sobre o Estado necessariamente punitivo e vigiador dos pobres aplica-se sobretudo ao tipo de Estado guarda-nocturno para o século XXI que Rui Ramos, ideólogo de Passos Coelho, anda por aí a defender.

por João Rodrigues
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por Sérgio Lavos
Não sei quantas vezes será preciso martelar na tecla - e o nosso João Rodrigues tem feito isso sistemática e pacientemente aqui no blogue - mas não há qua

por Sérgio Lavos
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por Sérgio Lavos
Quando John Berryman soube que Robert Frost tinha morrido, perguntou: «Who's number one?». Agora que morreu o número 1, quem é o novo [poeta] número 1? [Berryman achava, e bem, que era Lowell].

Desde que Saramago morreu, também temos vivido essa lufa-lufa, «quem é o número 1», «quem é o número 1», «quem é». Uns sobem de escalão pela singela virtude de ainda estarem vivos. Outros tornam-se candidatos porque são «novidade». E no hipermercado do romance é urgente a reposição de stocks.

Pedro Mexia
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por Sérgio Lavos
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por Sérgio Lavos

Agora que já tenho idade, e portanto juízo, suficiente para julgar os Nirvana pela qualidade musical, e valorizar esse lado da banda mais do que a simbologia que lhe está associada, lembro-me de um tempo em que a música pouco tinha a ver com grandes músicos, refrões marcantes ou riffs de bateria irrepreensíveis. Quando gostava de música sem saber muito bem porquê, sem conhecer o suficiente nem ter lido uns quantos livros sobre a razão de gostar. Nirvana foi música em estado puro, sem racionalização absurda ou relativizações imbecis e redutoras. Tenho saudade disso. Da pureza e da descoberta, a sequência perfeita desse meio termo romântico entre o fim da adolescência e o princípio da idade adulta. Espero que os putos de agora ainda saibam sentir isso.  Acima de tudo, procurar.

por Sérgio Lavos
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por Bruno Sena Martins
"A construção recomeçou hoje nos colonatos da Cisjordânia, mal terminou a moratória que congelava esta actividade, que ameaça as negociações de paz entre Israel e os palestinianos."

Quarenta anos depois da Guerra dos 6 dias, há muito que Israel é o maior inimigo de Israel.

por Bruno Sena Martins
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por João Rodrigues


Uma fracção das nossas elites suspira por Angela Merkel e pelo FMI. É como se quisessem ver a economia portuguesa definitivamente canibalizada pelos representantes dos bancos internacionais, dos credores.

Geralmente, são os mesmos que nos colocaram nesta situação, apoiando um processo de integração monetária que, na sua configuração concreta, se revelou desastroso para a economia portuguesa. Os mesmos que aderiram à ruinosa moda das privatizações de sectores estratégicos, reconstituindo grupos económicos viciados nos bens não-transaccionáveis. Os mesmos que acham que basta liberalizar porque o mercado trata do resto. A "mão invisível" é invisível porque não existe, como disse Joseph Stiglitz.

O resto da crónica pode ser lido no i.

por João Rodrigues
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por Daniel Oliveira

por Daniel Oliveira
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por Daniel Oliveira


Um dos enviesamentos do sistema partidário nacional resulta do facto do Partido Socialista português ter uma base sindical incipiente. E essa é uma das razões da sua falta de consistência ideológica, assim como determina o monolitismo político do nosso sindicalismo. Mas não é assim nos países onde, ao contrário de Portugal, a social-democracia contou com uma forte base social de apoio e correspondeu a um projecto ideológico de poder.

Na Alemanha ou no Reino Unido, o SPD e o Labour têm uma fortíssima base sindical. Nasceram do movimento operário do final do século XIX e, ainda recentemente, os sindicalizados contribuíam directamente para o partido que supostamente os representava. Mesmo que já apenas de uma forma simbólica, os partidos trabalhistas e social-democratas viam-se a si próprios como partidos de classe. E a simbologia, na política, nunca é um pormenor. As raízes históricas são, muitas vezes, um regulador do oportunismo político. Algo que impede que os partidos se limitem a seguir a opinião maioritária conjuntural e que mantenham o mínimo de coerência que garanta que continuam a existir, nas democracias, alternativas que se distingam entre si.

Depois da queda do Muro de Berlim, o Estado Social, e com ele a social-democracia, perdeu uma das suas funções para o Capitalismo: comprar a paz e garantir que o "perigo comunista" não ganhava peso político e social no Ocidente.

E foi nesse período que uma espécie de políticos sem qualquer referência ideológica a passaram a liderar. A esse vazio, inspirado em Anthony Giddens, deu-se o nome de "terceira via". As suas figuras políticas mais relevantes foram Tony Blair e Gerard Schroeder. José Sócrates, que no seu analfabetismo ideológico se gosta de juntar à moda de cada momento, também se candidatou ao lugar. Esta espécie de liberalismo temperado mais não foi do que um disfarce para o oportunismo político desistente do centro-esquerda europeu.

Na construção do New Labour, Tony Blair aproveitou bem o trabalho começado por Margaret Thatcher para vergar a espinha dos poderosos sindicatos britânicos. Só que, ao fazê-lo, o partido perdeu a base orgânica que o tornava forte. Passou a depender quase exclusivamente das capacidades do seu líder. Aconteceu uma coisa semelhante na Alemanha. Felizmente, a "Terceira Via" morreu quase à nascença. Mas o curto período em que fez escola chegou para transformar os dois principais partidos social-democratas europeus em duas gelatinas incaracterísticas.

O desnorte ideológico da social-democracia europeia espalhou-se um pouco por toda a Europa: os Partido Socialista francês é campo de batalha permanente, o PASOK, na Grécia, é o executor das mais violentas políticas anti-sociais. Na verdade, a social-democracia não tem hoje quase nada para dizer sobre coisa nenhuma. E isso é trágico para a esquerda europeia.

Num dramático duelo entre os irmãos Miliband pela liderança do Partido Trabalhista britânico o projecto do New Labour foi derrotado. Ed derrotou o seu irmão mais velho, David, o antigo secretário dos Negócios Estrangeiros de Gordon Brown. O vencedor recusa a alcunha de "Red Ed" e não parece que o Old Labour esteja de volta. Mas a verdade é que venceu graças ao fortíssimo apoio dos sindicatos e numa clara condenação do caminho seguido pelo partido nos últimos anos.

Não vou dizer que tenho grandes esperanças. Até porque os partidos de poder, como portadores de uma memória, de uma narrativa e de um projecto ideológico, estão pelas horas da morte. Eles já não organizam pensamento e vontades, porque as vontades estão dispersas e atomizadas. Ainda assim, é animador ver que há quem se aperceba que a social-democracia cometeu, nas duas últimas décadas, um autêntico harakiri ideológico. Ao tentar reabilitar a sua memória o Labour não regressará ao passado. Nem é provável que ganhe coragem para enfrentar a hegemonia conservadora que tomou conta do pensamento político e económico europeu. Mas pelo menos talvez comece à procura do seu lugar à esquerda, não se satisfazendo com o pobre papel de ser igual ao seu opositor em versão meiguinha.

Claro que nada disto é assunto em Portugal. Porque o Partido Socialista se implantou tardiamente no País (quando os seus congéneres europeus tinham quase cem anos de história) sem uma base sindical significativa e tendo como principal marca identitária o anticomunismo. Nunca desenvolveu um pensamento verdadeiramente autónomo ao da direita e apenas é o pai do nosso embrião de Estado Social porque calhou ser ele a estar no poder quando as condições sociais e políticas a isso obrigaram. Fosse o então o PPD a ocupar esse lugar e provavelmente seria sua a paternidade. Infelizmente, o PS não tem, nunca teve, um compromisso com o Estado Social. E não foi precisa nenhuma "terceira via" para que tivesse um papel central na sua destruição.

Da esquerda à direita, há muitos estatistas em Portugal. Social-democratas? Nunca os vimos. Não é por isso provável que venha a acontecer um dia ao PS o que está a acontecer aos trabalhistas. Porque o Labour está a lidar com um passado que o PS não tem. Infelizmente para a esquerda portuguesa, o "pensamento único" não pode sequer temer o regresso do PS a um lugar onde nunca esteve.

Publicado no Expresso Online

por Daniel Oliveira
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por Daniel Oliveira
Com oito pontos em dezoito e depois de um campeonato em que ficou em quarto lugar, só resta ao Sporting fazer a transferência que falta: a de José Eduardo Bettencourt e Costinha para o mais longe possível do Estádio de Alvalade.

por Daniel Oliveira
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Domingo, 26 de Setembro de 2010
por Sérgio Lavos


Melhor do que ter um defesa-esquerdo que sabe atacar como poucos é ter um extremo-esquerdo acima da média, capaz de tapar o corredor na perfeição, disfarçando a inabilidade do defesa que o precede. O percurso de Fábio Coentrão no futebol tem tido alguns desvios geográficos e percalços típicos de juventude, mas Jorge Jesus tem conseguido tirar partido de todo o potencial do jogador. O golo contra o Marítimo é muito bom, melhor do que muitos golos vistosos que nascem de um momento de sorte, de um rasgo involuntário; é a perfeita demonstração de uma técnica natural aprimorada pelo treino e pela evolução natural do atleta. Naqueles dois segundos, Coentrão tem o perfeito domínio da bola e sabe qual o desenlace da jogada. Sem hesitação e prescindindo do acaso. Só os melhores conseguem. Sabendo como funciona o futebol, nós, benfiquistas, deveremos apreciar cada momento em que ele joga pelo clube, porque é uma questão de tempo até se transferir para o estrangeiro (apesar da dívida de gratidão a Jesus). E Paulo Bento - que, diga-se de passagem, e contrariando a opinião da maioria dos sportinguistas, é uma boa escolha para seleccionador - bem pode aproveitá-lo, tem tudo para se tornar uma das figuras da selecção.

O Benfica acorda, e Roberto já consegue apanhar bolas altas. E a defesa com os pés é excelente. Precisamos de um Maxi a sério e de um Cardozo que saiba para que lado é que tem de chutar, como aconteceu no jogo contra o Sporting. Salvio parece-me um médio virtuoso, uns minutos mais são necessários, talvez no lugar de um Gaítan adormecido no meio da velocidade das transições ofensivas da equipa - mas tem um pé esquerdo que sabe de cor onde está o alvo que a bola procura.

Não queria falar do árbitro. Uma vez mais. Mas como até acho que se deve referir sempre que haja prejuízo, ainda que a vitória apareça, tem de ser: desta vez, dois a um em penalties; o primeiro por marcar - claríssimo -, sobre Saviola e o segundo de Maxi na grande área benfiquista para compensar o primeiro. O terceiro foi para não quebrar a regra dos três: esta época, contra o Benfica só se marca ao terceiro penalty - e é claro que, até agora, dois por marcar foi o melhor que conseguimos. A equipa tem de se esforçar mais neste aspecto. É o que temos.

por Sérgio Lavos
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por Sérgio Lavos


Há quem fale da influência negativa das elites como uma das principais causas do atraso do país. A generalização é sempre perigosa, mas há alguns exemplos interessantes que mostram até que ponto estas frases atiradas pelos profetas da desgraça fazem sentido. Hoje, por exemplo, na contracapa de um qualquer pasquim que passou de relance pelo meu campo de visão, uma frase e uma imagem: "Tenho ouvido o presidente dizer palavras sensatas", a frase, e na imagem pode-se ver o monarca na reforma, Mário Soares, sentado no cadeirão de tribuno que lhe é devido. Uma frase, que parece inverter o rumo de uma história antiga, e uma imagem, simbólica de um poder que não se esbate, que se prolonga muito além do tempo de duração de um cargo político. Um poder subterrâneo, decerto, que toda a gente conhece, mas que ninguém nomeia - e não há qualquer teoria conspirativa por detrás da cortina; é simplesmente assim, natural e inevitável. Dirão: mas haverá algum mal em ouvir os conselhos do pai do regime? Há; sobretudo se aceitarmos a conclusão de que, neste momento, há mais enteados do que filhos da Revolução. Estamos a chegar ao limite, ao ponto de não retorno, certo, mas o que realmente deixou de haver é paciência para a forma de fazer política deste pai e dos seus herdeiros, a extensa matilha de coiotes que se foi apoderando do poder e dele se tem alimentado durante as últimas décadas. Os bastardos de Sá Carneiro não são melhores - a eles devemos dez anos de dinheiro europeu e recursos naturais desperdiçados (durante os Governos de Cavaco), um primeiro-ministro que fugiu e uma piada que passa por político, o inefável Santana Lopes.

E Soares, que faz ele no pasquim, sentado no seu cadeirão de tribuno? Ressente-se, destila um rancor miudinho, vinga-se. Soares, o homem que lançou Fernando Nobre aos leões (e o incansável presidente da AMI não mereceria passar por tal papel), e agora recusa-se a apoiá-lo directamente (por muito que ele pedinche), elogiando o actual presidente. Sabemos quem é o outro candidato com possibilidades de vitória nas presidenciais - se Manuel Alegre passar à segunda volta, não se duvide que terá hipóteses de ganhar as eleições; e sabemos que a esse candidato nunca foi perdoada a traição, a candidatura sem apoio do primeiro partido do regime, o PS. Não há qualquer ingenuidade nas palavras deste velho tribuno, tudo fará para boicotar (de preferência, pela calada) a candidatura de Alegre. O resto - o estado das finanças, a crise internacional, o arrufo entre Sócrates e Passos Coelho -, pormenores sem importância, amendoins para os pobres. Estamos longe, muito longe, da velha ideia romântica do político ser eleito para servir o povo. Eu gostaria muito de não partilhar o sentimento generalizado de nojo perante a política. Mas há pouco, muito pouco, que me convença a sentir o contrário. Estamos todos de parabéns.
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por Sérgio Lavos
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por Daniel Oliveira

por Daniel Oliveira
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por João Rodrigues


"A Europa entre a austeridade e a renegociação da dívida soberana

Nas últimas duas semanas, por coincidência, dois assuntos dominaram as páginas de economia dos jornais: a aprovação do Orçamento do Estado e a crescente dificuldade de financiamento do Estado português nos mercados de capitais. Não existe um nexo de causalidade necessário entre os dois temas, mas a sua relação é inescapável. Depois da crise em torno da dívida pública dos países do Sul da Europa em Maio, o Governo português comprometeu-se com um programa de estabilidade e crescimento, com o apoio político do PSD, que aponta para um duro caminho de austeridade (só ultrapassado, nas suas previsões draconianas, pelo plano grego). Assim, mesmo sem conhecer ainda o Orçamento, já sabemos o que nos espera: o Governo prevê uma diminuição da despesa pública em 1,3% do PIB em 2011, seguida, em 2012, por uma nova redução em 1,4% - as quais, a par do aumento dos impostos, permitiriam almejar os objectivos de contenção do défice em 3% do PIB e diminuição da dívida pública. Os cortes são, e terão de ser, cegos: na despesa social, no investimento público, nos salários, etc.

As imposições externas, somadas ao estranho quase-consenso público nacional, tornam este programa económico uma inevitabilidade, que se reflectirá certamente na aprovação do próximo Orçamento. Porém, o mais recente relatório do RMF (Research on Money and Finance), coordenado por Costas Lapavitsas, aponta para a insustentabilidade desta trajectória e fornece algumas pistas para a sua superação.



O problema do crescente endividamento externo português (213% do PIB), juntamente com as trajectórias paralelas da Grécia e da Espanha, deveu-se à sistemática perda de competitividade destes países face às maiores economias europeias, no quadro de uma moeda única cuja política é determinada por estas últimas. No contexto de um Banco Central Europeu obcecado com o combate à inflação em detrimento do crescimento, de um pacto de estabilidade e crescimento que impede qualquer esforço público concertado de reconversão das economias e de ausência de mecanismos de redistribuição europeia promotores da coesão, os países com economias mais robustas, como a Alemanha - direccionadas para o mercado externo, com taxas de inflação mais baixas e uma força de trabalho disposta, por razões várias, à perda continuada de poder de compra -, ganharam competitividade em relação às economias periféricas. O resultado foi o crescente endividamento externo de economias como a portuguesa - endividamento esse que, ao contrário do que se possa pensar quando se lê a opinião publicada, tem vindo a ser assumido principalmente pelo sector privado (empresas e famílias, sobretudo as primeiras). 85% da dívida total (interna e externa) actual corresponde ao endividamento do sector privado.

No entanto, em face da recente crise financeira e da fragilidade e volatilidade dos mercados financeiros que lhe têm estado associadas, esta situação possui um reverso da medalha. Os bancos europeus encontram-se fortemente expostos à dívida dos países do Sul: 100 mil milhões de euros, no que se refere a Portugal, e 600 mil milhões, no caso de Espanha. Estas valores são quase tão avultados quanto o montante mobilizado pela UE e pelo FMI para a criação do obscuro fundo de estabilização financeiro que foi anunciado em Maio. Mais grave do que isso é o facto de os bancos se encontrarem confrontados com uma enorme dificuldade em recorrer ao financiamento através de depósitos (a diferença entre a Euribor e as taxas oferecidas nos depósitos foi mesmo negativa durante o segundo semestre de 2009) e com um problema de escassez de dólares (saliente na abertura de linhas de crédito por parte da Reserva Federal norte-americana). No caso português, esta fragilidade traduziu-se mesmo na impossibilidade de recurso ao financiamento nos mercados de capitais, estando os bancos portugueses quase limitados aos empréstimos do BCE. O juro baixo cobrado pelo BCE permite à banca portuguesa realizar margens extraordinárias através dos juros cobrados nos créditos que concede. No entanto, os empréstimos do BCE têm um carácter de curto prazo, o que torna os bancos vulneráveis a eventuais mudanças de política.

No contexto de uma austeridade alargada a todo o espaço europeu e de uma economia mundial dominada pela incerteza e pela possibilidade de um nova recessão, as previsões por parte do Governo português de uma retoma apoiada nas exportações que contrabalance os recessivos cortes públicos parecem, no mínimo, inverosímeis. O resultado será, pois, uma nova recessão e um novo aumento do desemprego, sem que os problemas de dívida pública, em termos relativos face ao PIB, se atenuem. Se a actual volatilidade especulativa nos mercados financeiros se mantiver, a perspectiva de uma reestruturação da dívida pública (a variável politicamente mais saliente no endividamento total) parece inevitável. Este processo será liderado pela Grécia. No entanto, graças ao contágio dos mercados financeiros, depressa afectará o nosso país. Vale assim a pena pensar, num momento em que os países do Sul detêm o poder de negociação sobre os bancos do Norte, em iniciar um processo de reescalonamento transparente da dívida. Este começaria por uma auditoria à dívida pública, seguida de uma renegociação que imponha condições favoráveis aos países devedores. A perspectiva da desagregação da zona euro é, neste cenário, provável. Se tal cenário acarreta riscos, a combinação da desvalorização cambial com a instituição de controlos de capitais e com o controlo público do sistema financeiro poderia permitir uma política industrial capaz de nos tirar da crise que se arrasta há mais de uma década. O cenário contrário será o de uma reestruturação da dívida liderada pelos credores, com as mesmas receitas de sempre: mais austeridade, mais recessão e mais desemprego. Até quando?"

Nuno Teles, Economista, membro do grupo de investigação Research on Money and Finance (www.researchonmoneyandfinance.org), Público.

por João Rodrigues
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Sábado, 25 de Setembro de 2010
por Sérgio Lavos


Poder-se-ia pensar que, com a saída de cena de Pedro Santana Lopes, há uns anos, o mau filme série B em que se tornou o PSD poderia sair de cartaz. Mas depois apareceu Luís Filipe Menezes e ainda tivemos direito a um breve cameo de Manuela Ferreira Leite. E agora, Pedro Passos Coelho, o político de ar sério e compungido - a quem certamente qualquer um de nós compraria um carro - decide enveredar pelo caminho justo, o único caminho que os líderes do PSD conhecem: o da asneira. José Sócrates é o homem certo na altura exacta: um sensacional incompetente a liderar-nos num momento crítico, decisivo, de crise mundial e de mudança de paradigma económico. A série ininterrupta de maus primeiro-ministros teve o seu apogeu com Sócrates, mas a verdade é que já lá vão duas eleições à conta do desnorte do PSD. E o engenheiro agradece.

A insistência de Passos Coelho na nova Constituição transformou-se numa teimosia absurda, principalmente depois de terem saído as primeiras sondagens mostrando o descontentamento dos eleitores com a proposta. Fica-se sem saber de quem terá sido a brilhante ideia de propor mudanças na Constituição que podem levar ao enfraquecimento do Estado Social em pleno período de crescimento do desemprego e de quebra do poder de compra. Mas o pior foi o que veio a seguir: a mensagem passada pelo Governo de que a moeda de troca para a aprovação do Orçamento seria precisamente o acordo para a revisão constitucional, como se este fosse uma inadmissível chantagem. Sócrates pode não perceber grande coisa do governo de um país, mas soube-se rodear dos especialistas certos, os spin doctors que transformam cada derrota em falsa vitória e cada escândalo em oportunidade de vitimização, aproveitando a fragilidade do adversário para atacar onde mais dói: as sondagens.

À primeira oportunidade, o parceiro de tango de que Sócrates se gabava de ter encontrado sofreu o destino esperado: a traição. Pedro Passos Coelho deveria saber que o tango também pode ser uma dança de morte, e o enamoramento é sempre passageiro. Agora que o PS se encontra numa fase de crescimento nas sondagens, Sócrates acena com o fantasma de novas eleições. O PSD, definitivamente, não aprende. O país, esse, é apenas um parêntesis no jogo da cadeira do poder. Até quando?
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por Sérgio Lavos
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por Daniel Oliveira

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