Admiro pessoas que trabalham muito. E entre elas está, segramente, António Nogueira Leite, que consegue ser, ao mesmo tempo, administrador executivo da CUF, da SEC, da José de Mello Saúde, da EFACEC Capital, da Comitur Imobiliária e administrador não executivo da Reditus, da Brisa e da Quimigal. No tempo que lhe sobra é ainda presidente do Conselho Geral da OPEX, membro do Conselho Nacional da CMVM, vice-presidente do Conselho Consultivo do Banif Investment Bank, membro do Conselho Consultivo da Associação Portuguesa para o Desenvolvimento das Comunicações e vogal da Direcção do IPRI.
Seguramente muito competente e aplicado em todas elas. Só assim se compreende que todas estejam dispostas a dividir um turboadministrador. Isto, claro, porque não quero acreditar que Nogueira Leite faz parte desse grupo de administradores que põem a sua agenda de contactos políticos a render.
O senhor é também de uma coerência que ninguém poderá negar. Secretário de Estado de António Guterres, é o homem de Passos Coelho para a economia. Tudo a ver, ao contrário do que possa parecer. Um foi primeiro-ministro, outro pode vir a ser. E não é à toa que se está em oito administrações ao mesmo tempo. É preciso, como dirá o próprio, fazer as apostas certas para ter os convites que interessam.
O que eu acho extraordinário é que Nogueira Leite, com tanta empresa para gerir, ainda consiga arranjar tempo para postar. Mas consegue. E é um serviço público que presta. A blogosfera tem esta vantagem: ficamos a conhecer melhor a massa de que são feitos os nossos candidatos a ministros. Sobretudo aqueles que estiveram com a esquerda social cristã e subitamente reaparecem com a direita liberal. E como os renascidos são sempre os mais aguerridos, Nogueira Leite tem-nos presenteado com o seu espírito democrático.
Um dos muitos exemplos é um ataque já antigo a Pedro Picoito, "uma criatura, supostamente profissional da academia, que aos trinta e muitos anos, sem curriculum, apenas pode reclamar um lugar de professor não-se-quê numa espécie de escola de ensino superior assim ao nível do instituto das novas profissões". E acusa-o de "ter andado numa Faculdade de Ciências Sociais e Humanas ao tempo conhecida como de Ciências Sexuais e Humanas, num curso de fortíssimo pendor feminino" (um garanhão, o senhor Nogueira Leite - está provado que os economistas da Católica são os mais dotados de toda a aristocracia nacional), "ser professor adjunto do ensino politécnico quando acha que merece ser professor de uma verdadeira universidade", "ter quase quarenta anos e não ter sequer conseguido completar um doutoramento, coisa que milhares de portugueses mais novos que V. (e mais ocupados) já conseguiram", "não ter sido nunca convidado para nada de relevante por alguém que valha a pena" e "ser um coleccionador de apostas perdidas".
As acusações dizem muito mais sobre o acusador do que sobre o acusado. Tudo se resume a uma questão de estatuto. Como o emigrante que regressa a casa num bom merceces para mostrar à miserável aldeia que é alguém na vida, Nogueira Leite vive do estatuto e para o estatuto e tudo o que lhe interessa é o estatuto do outro. São assim os espíritos inseguros. A cagança é apenas o seu mercedes. E, no entanto, nunca ninguém leu ou ouviu desta genial figura nada que ultrapassasse a mais simplória das banalidades. Apenas a sua risível arrogância, a sua infantil boçalidade e a espantosa possibilidade de vir a ser ministro (se até ??? já foi) fazem com que o que diz e o que escreve possam parecer ter alguma relevância.
As duas últimas acusações são as mais claras: Nogueira Leite é convidado para coisas relevantes por pessoas que valem a pena (já vimos que sim). Talvez porque aposta nos vencedores. E tanto dá que seja o PS ou o PSD, o primeiro-ministro do Rendimento Mínimo ou o líder do PSD que o combate. O que interessa é que são pessoas que valem a pena, apostas ganhadoras e gente que convida Nogueira Leite para qualquer coisa.
Fiquei curioso em saber mais sobre esta patusca figura quando, numa amena troca de palavras do twitter, me garantiu, em público e sem medo do ridículo, que nunca perdia um debate. É coisa que nem políticos como Soares, Cunhal, Sá Carneiro, Cavaco, Sócrates, Portas ou Louçã, que, todos eles, mesmo a dormir fariam em picadinho essa irrlevância que dá pelo nome António Nogueira Leite, poderiam alguma vez garantir. Respondi, com espanto, apenas "bolas!". Mas fiquei a achar que este obscuro candidato a qualquer coisa tinha de ser muito especial.
Apesar de ter pouca curiosidade por estes cabides que saltitam entre reuniões de conselhos de administração e que, por darem aulas numa qualquer universidade de um País pequeno e periférico se julgam alguém (devo dizer que acho sempre extraordinário quando uma pessoa que não vá seguramente ficar na história - haverá não mais do que uma dúzia em actividade em Portugal - se acha importante), fui, depois disso, acompanhando os escritos da figura. E posso dizer que estou mortinho por ver o rapaz na vida política. Sabendo que não há nada mais enternecedor do que um galo aviário à solta na selva. O seu ego costuma ser de tal forma imenso que nem se aprecebem que a sua genialidade passa ao lado dos mortais. Estes yuppies, que nunca foram a votos mas vivem numa enganadora erecção matinal, dão, quando chegam à política, espalhos de enorme aparato. Nunca mais voltam a ser os mesmos depois de se confrontarem com mais do que uma plateia de familiares, amigos e alunos. Com o estilo que nos deu a conhecer na rede, aceitam-se apostas: quantos dias duraria como ministro? Ou já terá Passos Coelho, com muitos anos de política, percebido que o rapaz tresanda a problemas?
Será interessante ver como os seus ataques cheios de insinuações sobre pessoas não nomeadas, àpartes sobre a vida privada dos adversários dignas das páginas de fofocas do defunto 24 horas e uma confrangedora obsessão pelo estatuto social e académico de cada um (o deslumbramento está no DNA do cabutino), funciona num debate parlamentar. Aqui fica o meu desejo: não desista da política, caro Nogueira Leite. É uma pena que ache que
o País não o merece. Merece sim senhor. Mais: o País precisa de Nogueira Leite. Guterres precisou. A CUF, a SEC, a José de Mello Saúde, a EFACEC, a Comitur Imobiliária, a Reditus, a Brisa, a Quimigal, a OPEX, a CMVM, o Banif, o IPRI e todas as pessoas que valem a pena e são apostas seguras precisaram. Passos Coelho vai seguramente precisar. Todos os governos precisam do seu Jorge Coelho e do seu Santos Silva. Nogueira Leite é mais tasqueiro do que o primeiro e menos culto do que o segundo (que também andou num curso para meninas), mas, com a sua boa agenda e a boçalidade que empresta a todos os debates, fará bem a vez dos dois. Claro que será uma versão liliputiana dos dois. E sabemos como os dois não engrandeceram a arte de governar. Mas é o que se arranja à medida que a política se degrada.