Quarta-feira, 16 de Fevereiro de 2011
por Daniel Oliveira

Já o escrevi, o Bloco cometeu um erro grave e nisto discordo do meu amigo e camarada José Manuel Pureza. Que sobreviverá a esse erro, não tenho qualquer dúvida. Até por uma razão: a possibilidade de estar no Bloco e discordar dele quando tem de ser vai-lhe dando vitaminas. Apesar das minhas discordâncias, e até por causa delas, aqui vai para os que há 12 anos assinam sucessivas certidões de óbito:

 

Quando o Bloco de Esquerda nasceu, os comentadores encartados vaticinaram-lhe displicentemente morte rápida. O argumento era o de que trotskystas, maoistas e outros istas jamais se entenderiam. O que espanta é que, ao fim de dez anos de permanente crescimento social e eleitoral do Bloco, os encartados comentadores não tenham aprendido nada com a realidade das coisas. Devo dizer-vos que não sei ao certo qual dos ecos do anúncio da moção de censura do Bloco ao Governo e aos seus apoios terá sido mais impressionante: se a corrida dos partidos da direita e das centrais patronais a socorrerem o Governo (em nome da "responsabilidade", pois claro), se a voracidade dos comentadores a re-vaticinarem, pela enésima vez, a morte anunciada do Bloco de Esquerda. Percebo-lhes o desejo: querem uma esquerda arrumadinha, previsível, respeitadora das naturais hierarquias e que se submeta, quando lhes convém, à ficção de um interesse nacional agregador das diferenças e tensões. Pois bem, quero dizer-lhes que o Bloco não pensa na reforma antecipada nem em desistir de ser fiel aos seus propósitos fundadores. Sei que daqui a dez anos voltaremos a ler os comentadores encartados a vaticinar que então é que vai mesmo ser a morte do Bloco. Mas, então como agora, vale para eles a ironia de Mark Twain: "as notícias sobre a minha morte são manifestamente exageradas".

José Manuel Pureza


por Daniel Oliveira
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por Bruno Sena Martins

"Lara Logan, jornalista do “60 Minutos”, foi sexualmente agredida no Egipto."

 

O facto de seguir Lara Logan há anos ajuda a pessoalizar, inflamando, a raiva sentida pelo que tantas vezes acontece às mulheres por esse mundo fora. O meu único desejo é que Lara Logan resista, que volte à sua profissão e à vida pública. E que a indignação pela violência patriarcal assim expressa alhures, em termos inomináveis, nos ajude a denunciar, também,  a trivial perfídia que perpassa nas nossas vizinhanças.


por Bruno Sena Martins
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por Daniel Oliveira

 

 

 

 

Depois do caso de Augusta Martinho, a senhora que esteve morta em sua casa durante nove anos, sucedem-se na imprensa casos semelhantes, apesar de menos graves e sem a evidente negligência do Estado. Não que tenha havido um súbito surto de mortes de velhos solitários, mas porque o assunto se tornou moda. É assim que a imprensa funciona.

 

Os discursos sobre o tema têm poucas variações. Antes de mais, o nostálgico: fala-se de um tempo em que as famílias tomavam conta dos seus velhos. Como se nesse saudoso tempo as pessoas fossem em geral mais generosas. A razão porque os velhos não iam para os lares e não ficavam sós é a mesma porque as crianças não iam para creches: porque as mulheres não trabalhavam para tomar conta da família. O que tornou as nossas famílias mais pequenas e com menos gerações a viver na mesma casa foi a entrada das mulheres no mercado de trabalho. Foi a sua liberdade. A mesma que levou a mais divórcios - as mulheres também passaram a escolher com quem queriam estar e o casamento é cada vez menos a prisão para sobreviver. As famílias contam menos, é verdade. Também porque somos todos mais independentes uns dos outros. Porque a família, para além de muitas outras coisas, coisas de que continuamos a precisar, sempre foi um núcleo económico. Ainda é. Mas menos.

 

É assim mesmo: não há ganhos sem perdas. A nostalgia do altruísmo imposto parece bondosa mas é vazia de moral. Porque grande parte das pessoas que chora por esse tempo odiaria viver nesse tempo. Sim, despejamos os filhos nas escolas e os pais nos lares. Porque as mulheres, pecado dos pecados, quiseram ter acesso ao mesmo que os homens tinham: realização profissional, independência económica e liberdade de escolha. Foi o trabalho que lhes deu isso tudo.

 

Depois, vem o discurso da recriminação difusa: a culpa é desta sociedade. Partindo do princípio que não estamos a falar da sociedade onde as mulheres estudam e trabalham, deve ser de outra coisa qualquer que se está a falar. Mas seria pecado aproveitar estas tragédias para falar de qualquer coisa que tenha a ver com política. Porque, já se sabe, falar de política quando se está a falar do sofrimento das pessoas é de um oportunismo inaceitável. Como se não fosse disso mesmo que a política tivesse de tratar.

 

Vou então á política. A que interessa. Se não queremos que as mulheres deixem de trabalhar e não queremos os nossos pais em lares ou abandonados e sozinhos em casa e os nossos filhos educados pela televisão, só há uma forma de resolver o problema: que, trabalhando homens e mulheres, ambos consigam ter mais tempo para a sua família. Para os filhos e para os pais. E já agora para o lazer, para os amigos, para o bairro onde vivem. Ou seja, que trabalhem menos. E que tenham empregos mais seguros para poderem dar tempo aos outros. Que tenham horários decentes, segurança mínima e direito a vida pessoal. Que haja mais gente com emprego e empregos que nos tomem menos tempo e energia.

 

Não podemos às segundas, quartas e sextas querer famílias que dediquem mais tempo aos seus filhos, aos seus pais, ao bairro, à escola, à comunidade, e às terças, quintas e sábados explicar que o emprego para a vida é coisa do passado, que para sermos competitivos temos de nos matar a trabalhar e que o centro da nossa vida deve ser a nossa carreira, a medida de todos o nosso mérito como seres humanos.

 

Os velhos não estão sós porque nos tonámos mais insensíveis do que éramos. Uns são e outros não, como sempre foi. Estamos nós todos mais sós porque uma sociedade que vive apenas para produzir não deixa tempo para mais nada. Nem tempo, nem afetos, nem energia. Se quebramos a rede social do bairro, da empresa de uma vida e das relações pessoais porque tudo é temporário, não podemos querer que, por milagre, a família seja para sempre. Se tudo é precário na nossa vida como poderia ser a família segura? Se tudo se mede pelo que se produz e só quem produz é relevante, como poderíamos nós dar valor aos velhos?

 

Os consensos dos bons sentimentos são insuportáveis não por os sentimentos serem bons, mas por os consensos os tornarem inúteis. A sociedade que lamentamos resulta de escolhas. E a essas escolhas damos o nome de política, esse abjeto bicho que parece enojar tanta gente.

 

Publicado no Expresso Online


por Daniel Oliveira
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por Daniel Oliveira

 

 

Facebook e blogue do prostesto.


por Daniel Oliveira
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por Daniel Oliveira

Tento aplicar o meu critério à recente moção de censura do Bloco de Esquerda e, infelizmente, não me dá nada. Tento pegar-lhe por várias pontas, e não há ponta por onde se lhe pegue. Nada muda se a moção perder. O governo fica no lugar, e é provável que dure até mais tempo. Se a moção ganhar, tudo muda — para pior, com um governo ainda mais à direita. Resta uma explicação "instintiva", a de que o BE se quis livrar do vírus da colaboração com o PS, no rescaldo das presidenciais. Isto seria uma dupla crise de confiança: do bloco em si mesmo como oposição; e do eleitorado no bloco como partido compreensível.

Rui Tavares, hoje, no Público


por Daniel Oliveira
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Terça-feira, 15 de Fevereiro de 2011
por Bruno Sena Martins

Kasparov sobre Bobby Fischer.

 

"No matter how sincere Fischer may have been about his protests—playing conditions, opponent’s manners, and always money—they were as much a part of his repertoire as the Sicilian Defense."

por Bruno Sena Martins
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por Daniel Oliveira

 

 

Há 65 anos a Alemanha era uma ruína e, graças a ela, a Europa também. Admiramo-nos como os alemães se reergueram mas esquecemos que o fizeram, e bem, com ajuda externa. Ajuda de quem vira muitos dos seus compatriotas perder a vida para libertar a Europa da loucura nazi.

 

Não terão sido poucos a perguntar: porque raio havemos nós de os ajudar quando por o estado em que estão apenas os próprios podem ser responsabilizados? Quando, para além da sua própria destruição, são responsáveis pelo terror, o genocídio e a destruição de tantos países? A resposta era simples: era a única forma de garantir a paz na Europa e, já agora, era útil ao crescimento económico de todo o Ocidente. O mundo fechou os olhos à vingança, respirou fundo e ajudou a Alemanha a voltar a ser uma potência. A generosidade voltou a sentir-se na reunificação alemã, que a Europa transformou numa prioridade de todos, e no assentimento ao alargamento da União a leste.

 

Chegámos à crise do euro. Os países periféricos estão a sofrer sem terem atacado ninguém. Limitaram-se a estar mais expostos aos ataques a uma moeda criada à imagem e semelhança do marco (e que em muito pouco lhes tem sido útil). Não cumpriram demasiadas vezes os critérios orçamentais impostos, mais uma vez, pela Alemanha? Sim, assim como a Alemanha não os cumpriu em diversos momentos sem que isso então lhes parecesse um crime de lesa Europa.

 

À pergunta de tantos alemães - porque havemos de pagar a desgraça dos outros? - podem encontrar a resposta na sua própria história. Porque sem isso a Alemanha não poderá contar com o crescimento que tem tido - muito à custa de um mercado aberto e de uma moeda que eles próprios desenharam. Porque sem a Europa estarão condenados a ser apenas mais uma Nação demasiado pequena e confortável para resistir à avalanche do Oriente.

 

Felizmente a Europa e os EUA tiveram líderes capazes de resistir ao egoísmo e à arrogância do vencedor. Ou a Alemanha os encontra ou, mais tarde ou mais cedo, o projeto europeu e o euro morrem por implosão. E nessas mortes o maior perdedor será a própria Alemanha. Porque ela foi o seu mais evidente beneficiário.

 

Publicado no Expresso Online


por Daniel Oliveira
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Segunda-feira, 14 de Fevereiro de 2011
por Sérgio Lavos

 

Outra má notícia para quem se apressou a temer que acontecesse na Tunísia e no Egipto o mesmo que aconteceu no Irão em 1979: o povo saiu à rua a pedir mais democracia. No Irão. Depois do comunicado dos líderes políticos a saudar as revoluções naqueles dois países.

 

(Claro que os opinadores se têm esquecido convenientemente das gigantescas manifestações contra o regime, a quando das últimas presidenciais iranianas. Não convinha nada que a realidade desmentisse uma opinião feita, mas acontece. E está a acontecer, e vai acontecer, apesar de estarmos a falar de gente "que não está habituada à democracia e que gosta de viver na barbárie", parafraseando o tom geral destes arautos da cinycalpolitik.)

 

*Imagem da Reuters


por Sérgio Lavos
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por Andrea Peniche

A moção de censura apresentada pelo Bloco de Esquerda provocou uma tempestade. O copo de água transbordou porque a esquerda decidiu fazer oposição e se recusou a capitular.

 

As razões da censura parecem-me claras: A moção critica e recusa a destruição do contrato social que deve proteger os desempregados. E a direita juntou-se ao PS para reduzir o subsídio de desemprego. A moção critica e recusa a vida sem vida que é imposta às gerações sacrificadas, aos trabalhadores que vivem a recibo verde e a trabalho temporário ou a prazo. E a direita juntou-se ao PS para promover os recibos verdes e a precariedade. Dois milhões, quase um em cada dois trabalhadores, desemprecários. Sem futuro, sem vida.

 

E o tempo parece-me acertado: Porque é agora que o governo concretiza medidas destruidoras do emprego porque facilitadoras do desemprego: a redução da indemnização pelo despedimento e o fundo para financiar o despedimento. Queremos que elas sejam retiradas, que sejam recusadas e que sejam vencidas, porque vão criar mais desemprego.

 

Depois de três dias de intoxicação, Miguel Portas diz hoje num artigo que esta é uma moção táctica de alcance estratégico. Recusa inevitáveis. Se aprovada, trará eleições num tempo que não é o preferido pela direita e onde o socratismo terá reduzida margem para chantagear com o voto útil. Se chumbada, acentua o compromisso do PSD com a decadência do governo.


por Andrea Peniche
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por Daniel Oliveira

 

 

 

 

Cinco dias depois de criticar a ameaça que o PCP fez de avançar com uma moção de censura, o Bloco de Esquerda desdisse-se e anunciou a sua. E anunciou-a para daqui um mês, coisa no mínimo bizarra. Tentemos descortinar o objetivo da apresentação de uma moção de censura por parte do Bloco de Esquerda. Cinco possibilidades: o Bloco queria eleições antecipadas, queria que o PSD clarificasse a sua posição em relação ao governo, queria antecipar-se ao PCP, queria pedir desculpas por ter apoiado Manuel Alegre ou apenas queria aparecer na televisão durante um mês.

 

1 - O Bloco de Esquerda quer provocar eleições antecipadas. Caso o conseguisse, segundo todas as sondagens, estaria a entregar o governo à direita mais extremista do ponto de vista social e económico que já pôde vencer eleições em Portugal. Ou seja, tudo o que move o Bloco na sua justa contestação a este governo - direitos sociais, emprego, defesa do Estado Social - só poderia piorar. O resultado para o Bloco de Esquerda, caso isto acontecesse, é facilmente previsível: o mesmo que aconteceu ao PRD quando avançou com a sua. Dificilmente o eleitorado do BE perdoaria a entrega do poder ao PSD.

 

Mas foi o próprio Bloco que, em mais um gesto incompreensível, pediu aos deputados do PSD para não votarem a sua moção. Acho que nunca tinha visto um partido fazer campanha pelo voto contra uma proposta sua. E o facto de ter sentido necessidade de o fazer demonstra como se deixou embrenhar na sua própria tática estapafúrdia e que rapidamente se apercebeu disso mesmo. As coisas fazem-se com convicção. Quando assim não é, dá disparate.

 

O Bloco atirou-se para uma aventura em que, apesar dos enormes riscos para si próprio e para o País, não controla o resultado final. Ficou nas mãos dos caprichos do PSD. Entre a fome de poder do aparelho social-democrata ou medo da nova liderança perder o comando do partido antes do governo cair e o receio da reacção do seu eleitorado ao precipitar uma crise política, Passos Coelho vai pelo caminho mais cauteloso. Aliás, toda a estratégia - avançar depressa e deixar para as vésperas de um Conselho Europeu a sua votação - parece ter sido desenhada para obrigar o PSD votar contra. O Bloco avança com uma moção de censura de forma a ter a certeza absoluta que ela é chumbada. Percebe-se o absurdo disto?

 

Com esta estratégia só havia um vencedor garantido: o PSD. Se aprovasse a moção, chegava ao poder. Se a inviabilizasse, voltava a fazer o papel de responsável. E um perdedor: O Bloco de Esquerda. Se a sua moção fosse aprovada o seu eleitorado não lhe perdoaria; se fosse chumbada todos perceberiam a futilidade deste gesto, que beneficiaria, como vai beneficiar, José Sócrates, que assim tem um balão de oxigénio: fica claro que o governo não vai cair até ao Orçamento. Ou seja, o Bloco censura o governo e acaba por lhe dar espaço de manobra.

 

2 - O Bloco de Esquerda quer comprometer o PSD com as políticas do PS. Quer um momento de clarificação. Este tem sido o argumento mais usado. E é o que melhor explica o facto do Bloco ter esvaziado a sua moção quando percebeu que, escrevesse o que escrevesse nos considerandos, havia quem, entre os social-democratas, quisesse aproveitar este momento para fazer cair o governo. O PSD viabilizou os dois PEC. O PSD viabilizou o Orçamento de Estado. Essa clarificação está feita há imenso tempo e não vai ser nem maior nem menor a quando da votação da moção de censura. O PSD vai dar o mesmo argumento de sempre: abstém-se por causa da estabilidade económica do País. Só que desta vez é ainda mais fácil: a proposta atacará o próprio PSD; ao abster-se o PSD não viabilizará nenhuma medida prática do governo, ao contrário do que fez das outras vezes; a votação será nas vésperas de um Conselho Europeu fundamental; a moção vem de um partido que lhe está politicamente distante. Não se clarifica nada que não esteja, de forma bem mais evidente, clarificado. Tanto risco para uma redundância.

 

3 - O Bloco de Esquerda quis-se antecipar ao PCP, que ameaçou com uma moção, que o próprio BE tinha criticado. Esta obsessão com o PCP dificilmente encontra uma justificação política racional. O Bloco não disputa eleitorado com o PCP. O Bloco não é oposição ao PCP. O Bloco disputa e é oposição ao PS e à direita. Só recuando muito na história, a um período em que o Bloco de Esquerda nem existia, e pensando nas velhas guerras de alguns setores que deram origem ao BE, é que podemos compreender este obsessão com os comunistas. Um reflexo condicionado que leva o Bloco, mesmo quando já tem mais peso político do que o PCP, a teimar em ser o seu eco ou uma versão modernizada dos comunistas. O resultado, mais uma vez, é o contrário ao pretendido: o PCP prova que tem um ascendente sobre o Bloco e que este vive num incompreensível complexo de inferioridade em relação aos comunistas. Uma vitória que o PCP não esperava: basta ameaçar fazer que o BE faz. E faz o que, no primeiro minuto, criticou.

 

4 - O Bloco de Esquerda quis conter os danos da derrota de Manuel Alegre. Uma espécie de pedido de desculpas pela ousadia. E com isto consegue fazer o pleno da derrota: depois de irritar o seu eleitorado que não gostou de o ver a apoiar o mesmo candidato que o PS, irrita o eleitorado que votou em Manuel Alegre, que além de se sentir traído percebe a inconsequência estratégica do Bloco. E deita a perder as relações de confiança que, apesar de tudo, foi construindo com independentes e socialistas críticos de Sócrates. Dois anos de trabalho atirados para o  lixo.

 

Não é a primeira vez que isto acontece. Já com José Sá Fernandes, depois de uma tentativa de alargamento da sua base política e social, o Bloco entrou em pânico, meteu os pés pelas mãos e acabou com uma estrondosa derrota nas urnas: os eleitores do Bloco mostraram que são bem menos propensos ao sectarismo do que alguns dos seus dirigentes. Só que dessa vez o próprio Sá Fernandes teve algumas responsabilidades na rutura. O mesmo não se pode dizer agora. O Bloco não pode continuar a fazer é este jogo do toca e foge, em que tenta seguir um caminho e à primeira contrariedade se arrepende. Caso contrário, o seu eleitorado fica tonto com tanta volta e reviravolta. O Bloco tem de aprender a viver com as derrotas. Elas acontecem na política e devem ser geridas com inteligências e ponderação.

 

Mas há uma possibilidade um pouco mais assustadora: que esta moção queira garantir uma clarificação, sim, mas interna. Que tenha como principal função mostrar que se desistiu definitivamente da ideia de reconstruir a esquerda, sabendo que para isso seria fundamental contar com uma parte da base social de apoio do PS, descontente com Sócrates mas pouco interessada em partidos que se acham autossuficientes e vanguardistas. Para isso já tinham o PCP e não consta que alguma vez o tenham escolhido como alternativa ao PS. Uma coisa é certa: sem esse povo de esquerda que vota tradicionalmente no PS não haverá nenhuma reconstrução do espaço político à esquerda. E se o Bloco julga que lhe chega o voto de protesto momentâneo está a enfiar-se num beco sem saída. Esse voto vai e volta, com ele não se tem um crescimento sustentável e, talvez mais importante, sendo inorgânico não se constrói com ele qualquer movimento político e social digno desse nome. Garante apenas vitórias de ocasião que dependem mais do populismo e da simpatia mediática de cada momento do que da construção sólida de um movimento político.

 

5 - O Bloco avançou com esta moção como mero truque mediático para garantir a atenção das televisões e jornais durante um mês. Além da futilidade da coisa, que corresponde a um frenesim inconsequente, ela acaba por revelar a fragilidade do próprio Bloco. Às vezes, "no news, good news". Sim, o Bloco vai estar na berlinda. Suspeito é que o vá lamentar demasiadas vezes.

 

Não é fácil descobrir o que estaria na cabeça dos dirigentes do Bloco quando resolveram avançar com este disparate. Seja qual for a razão, todas elas são más. A primeira é irresponsável, a segunda redundante, a terceira complexada, a quarta inconsequente e a quinta fútil. E seja qual for a verdadeira, todas garantem uma derrota para o Bloco e todas revelam impreparação tática, calculismo inconsequente e falta de solidez estratégica.

 

O meu problema não é a censura ao governo, que só pode contar com o meu apoio. São as consequências práticas desta moção. E um partido não se limita a gritar a revolta. Tem de lhe dar um caminho medindo as consequências de cada ação. Se alguém, para censurar o governo, avançar com a ideia de nos atirarmos todos ao rio eu serei contra. Porque sou menos convicto na oposição às políticas do primeiro-ministro? Não. Sou só menos maluco.

 

 

Publicado no Expresso Online


por Daniel Oliveira
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Domingo, 13 de Fevereiro de 2011
por Daniel Oliveira

Não faço ideia porquê, mas alguém, seguramente baralhado em relação à natureza do partido em que está, resolveu espalhar, no princípio da tarde de ontem, pelas redacções da vários jornais, televisões e agência de notícias, que eu me ia demitir ou já me tinha demitido do Bloco de Esquerda. Para não ter que perder nem mais um minuto a esclarecer jornalistas, fica a resposta: não saí nem tenciono sair do Bloco de Esquerda. Nem pelo meu pé nem empurrado por fontes anónimas para a imprensa. O partido que ajudei a fundar continuará a ser o meu, plural como sempre foi. Feito de homens e mulheres livres, que pensam todos pelas suas cabeças. Um partido onde a direcção eleita está sujeita à crítica de qualquer militante.


por Daniel Oliveira
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por Bruno Sena Martins


por Bruno Sena Martins
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Sábado, 12 de Fevereiro de 2011
por Sérgio Lavos

Desta feita, apresenta-se novo candidato a Gabriel Malagrida da nossa era: Pacheco Pereira. António Figueira escreve-lhe um delicioso e imaginário epitáfio. Ah, ia tão bem agora uma suspensãozinha da democracia, não ia? A vida não é mesmo nada justa. But, then again, we will always have Marmeleira.


por Sérgio Lavos
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por Miguel Cardina

Morreu Gérard Castello Lopes. Sempre pensei que este puto que se oferece a uma bola podia ter sido eu. O facto da foto ter sido tirada na Nazaré talvez ajudasse a criar a ilusão. Só hoje reparei que a imagem não tem nada a ver com futebol.


por Miguel Cardina
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por Bruno Sena Martins

Publicado na Liga Aleixo

 

A relação do Valter com picanha chegou a um beco sem saída: a faixa central onde o Hulk foi posto a jogar.

 

 

Pessoas que eu considerava amigas tentam destruir-me as relações com aqueles que eu mais estimo. Após a derrota para a taça, nem a equipa tinha entrado no túnel, e já me sopravam nos ouvidos com todo o tipo de injúrias a Villas-Boas. “Repara que ele é novo e giro e a qualquer momento foge com a tua namorada para as ilhas virgens, tem lá conhecimentos e sabe onde se servem os melhores daikiris”. Houve ainda quem tentasse emprenhar-me com argumentos menores: “não achas incrível que ele meta o Hulk no meio?”. “E o Sereno? Não achas que o Fucile dava mais pica àquela ala?”. “O facto de Valter estar gordo não devia ser um impeditivo, olha para ti és um balofo e nem por isso deixamos de jogar contigo.”

 

No fim da vitória tristonha com o Rio Ave, voltaram à carga. É claro que nessa altura já estava preparado para rebater os argumentos mais insidiosos, lembrei-me que não tenho namorada desde o tempo do Artur Jorge, lembrei-me que a genica do Fucile nesta época costuma redundar em penalties para as equipas adversárias, lembrei-me que não é inteiramente verdade que a malta jogue comigo porque quer (só eu é que tenho o número do homem que abre o pavilhão, por isso não têm outro remédio).

 

Mas, eu sou assim uma pessoa: publicamente defendo aqueles que amo e depois, no sossego da fila do Brasil ao Peso, deixo cair em mim a sombra de uma dúvida: “O Hulk no meio?”, “Será que na Figueira fazem bons Daikiris?”, “que calmantes é que ele andou a dar ao Belluschi?”. Na altura de pagar, dou em mim conciliado com os eventos mais recentes, o Iturbe marcou contra o Brasil, ainda temos 11 pontos de vantagem, O Benfica ganhou porque o Maicon e Fernando estariam concentrados na crise do Egipto, e o Rio Ave, bem vistas as coisas, é uma equipa difícil. Recebo sms do homem do pavilhão a avisar que deu à filha o nome da Andreia Villas-Boas Jasmim, homenagem ao povo do Egipto e ao treinador do 5-0. Que vai haver um mês com 5 sextas e que é preciso avisar à malta para pagar mais 3 euros. Que vamos ser campões.


por Bruno Sena Martins
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Sexta-feira, 11 de Fevereiro de 2011
por Sérgio Lavos

 

"Há festa em Sidi Bouzid, na casa da família de Mohamed Bouazizi, o vendedor de legumes cujo suicídio acendeu o rastilho da revolução tunisina e também da egípcia." Aqui.

 

Os cínicos não estão a ter um bom 2011. Um resto de ano igual ao que tem sido até aqui, é o que esperamos e desejamos.

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por Sérgio Lavos
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por Daniel Oliveira


por Daniel Oliveira
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por Sérgio Lavos

É o valor do crescimento anual dos lucros da GALP em 2010. Imoral, indecente, vergonhoso. Não o lucro da empresa - seria bom que todas as empresas portuguesas tivessem estes resultados - mas a maneira como foi conseguido: através de um monopólio absoluto do mercado da refinação (através da Petrogal) que mantém os preços dos combustíveis a um nível absurdo, que ignora completamente as flutuações do preço do crude. Mas a maior imoralidade parte do Estado. Num país decente já teríamos voltado há muito ao controlo estatal dos preços dos combustíves. Se o mercado livre não funciona nesta área, que se regresse rapidamente à economia estatal controlada. Um verdadeiro partido socialista, de esquerda, já teria tomado esta medida.

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por Sérgio Lavos
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por Pedro Vieira

 

 

rabiscos vieira

 

 

 

 


por Pedro Vieira
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por Andrea Peniche

 

Jodi Beiber venceu a edição do prémio World Press Photo deste ano com uma imagem de uma rapariga afegã, Bibi Aisha, de 18 anos, mutilada pelo marido. O crime desta rapariga parece ter sido o de o ter acusado de maus tratos e voltado para a família. Isso custou-lhe o nariz e as orelhas. Não há relativismos culturais que justifiquem a barbárie.

 

relatório de 2010 da Associação Portuguesa de Apoio à Vítima (APAV) revela que a violência doméstica lidera as estatísticas das queixas apresentadas, representando 80% dos actos criminosos. Mais, 55% dos crimes de violência doméstica acontecem na própria casa das vítimas e 63% prolongam-se no tempo. Os crimes de violência sexual aumentaram 194% e os homicídios 23%.

 

As vítimas são esmagadoramente mulheres (87%), entre os 36 e os 55 anos (55%), portuguesas (68%) e casadas (46%). A violência doméstica, ao contrário do que muita gente gosta de acreditar, não é um fenómeno exclusivo dos lares pobres e pouco escolarizados: 25,5% das vítimas, mulheres, têm um curso superior e 31,7% dos agressores, homens, também.

 

Os agressores são principalmente homens (81%), casados (55.8%) e com idade entre os 36 e os 55 anos (51%).

 

O facto de este tipo de crime ter aumentado 25% relativamente ao ano anterior é muito preocupante, mas revela também, como diz o secretário-geral da APAV, «que há uma maior consciência de que as pessoas são vítimas e que precisam de ajuda. Grande parte delas pede-nos agora ajuda directa».


por Andrea Peniche
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por Pedro Vieira

e já pode ser visto no sítio do costume.


por Pedro Vieira
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por Sérgio Lavos

A julgar pelas reacções indignadas de tanta gente - Santana Lopes, esse exemplo para a vida democrática portuguesa, acha inconcebível o sucedido -, a moção de censura que o BE irá apresentar no dia 10 de Março só pode ser uma boa ideia. As acusações de tacitismo feitas a Francisco Louçã, que visam sobretudo menorizar o efeito da intenção, parecem ignorar completamente o pânico que se instalou nos partidos do centrão. O PS acha indigno que a esquerda possa fazer cair um governo de esquerda, como se o PS ainda fosse um partido de esquerda; os barões do PSD põem as mãos à cabeça, recusando o desafio, percebendo que o partido a que pertencem acabou de perder a iniciativa política (Santana Lopes, diga-se, acha inconcebível que o BE apresente uma moção de censura porque este partido não deve liderar a oposição, como se a democracia portuguesa estivesse alugada em exclusivo ao eixo PS/PSD/CDS); e o PCP vê, de um momento para o outro, esvaziar-se o efeito da declaração de apoio a uma eventual moção apresentada pelo PSD; recorde-se, uma moção apresentada pelo PSD e apoiada pelo PCP, seria o que estava ironicamente em causa**. E não devemos esquecer o que tem sido a política portuguesa no último ano: uma espera interminável em direcção à queda do governo, uma agonia mantida em função dos interesses de Cavaco e de um desígnio nacional cujo único efeito prático foi a aplicação de medidas de austeridade que estão a levar o país à recessão económica. Agora que há finalmente uma oportunidade de fazer cair o Governo e acabar com a agonia, toda esta gente assobia para o lado. Quem será tacitista, neste caso?

 

*Este texto de Zé Neves também diz muito sobre a crise passageira. O ideal seria uma moção conjunta BE/PCP. Mas sabemos como, neste momento, isso é, infelizmente, uma miragem.

 

**Na realidade, ninguém do PCP afirmou que o partido iria apoiar uma moção de censura avançada pelo PSD. Este post do Vítor Dias é esclarecedor, assim como a pesquisa que fiz nos jornais on-line. Mais um exemplo de distorção por parte dos media, cedências ao sensacionalismo. Ou pior.


por Sérgio Lavos
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por Daniel Oliveira

 

Como quem vê o fim por perto Mubarak agarra-se ao poder como uma lapa. É quase sempre patético ver um fim de um diatador. Por mais dignidade que tente manter, quando a força bruta deixa de funcionar fica apenas a megalomania de um simples ser humano que se julga indispensável. Mas uma coisa é certa: Mubarak tem os dias contados. Até ele o sabe. Apenas procura uma saída que não seja a de ser escorraçado do seu próprio país.

 

Talvez venha aí a democracia. E seria uma lição extraordinária. Uma lição, antes de mais, para os que sempre encontram nas culturas alheias a incapacidade de viver em liberdade. Enganam-se, como deviam saber. Todos os povos têm uma sede natural de liberdade. Uma lição para os que acreditaram que a democracia só podia nascer como ato civilizador do Ocidente. À bomba, se preciso fosse. Como se a liberdade não tivesse de ser sempre uma conquista.

 

Todos se lembram da teoria do dominó. A intervenção militar no Iraque faria nascer ali uma democracia. E a partir daquele exemplo os vizinhos, maravilhados com tamanho feito, se converteriam à democracia entregue a casa e fabricada em gabinetes de Washington. José Manuel Fernandes até deixou cair uma lágrima furtiva quando os tanques do invasor chegaram a Bagdade e comparou aquele dia ao nosso 25 de Abril. A arrogância imperial tem sempre qualquer coisa de ingenuidade quando se maravilha com os seus próprios crimes. Sabemos que nada disso aconteceu. Apenas morte e ódio. A conclusão seguinte foi a única que estava à mão: aqueles povos não foram feitos para a liberdade.

 

Pois o efeito dominó aconteceu. Não a partir do Iraque. Começou na Tunísia. Da única forma que pode começar. Pelas mão do seu próprio povo. E alastrou para o Egito, para a Argélia, para a Jordânia, para o Iémen. Não foi graças à intervenção de nenhum libertador externo. Pelo contrário, foi contra os seus aliados de sempre. Apanhou a Europa e os EUA de supresa. A Casa Branca tenta dar uma cambalhota rápida e depois de décadas de cumplicidade com a ditadura tem a suprema lata de dar conselhos aos egípcios. Sarkozy e ministros tentam explicar como passaram férias às custas do dinheiro roubado aos egípcios. E são atacados pelos socialistas, os mesmos que tinham, na sua Internacional, a companhia de Mubarak e Ben Ali. Enquanto os egípcios se libertam do ditador, arriscando a sua vida, a Europa e os EUA envergonham-se da sua própria hipocrisia.

 

Todos os povos, mais tarde ou mais cedo, procuram a liberdade. E só a essa, conquistada por si e sem tutores, dão realmente valor. A praça Tahrir serve de lição. Não apenas aos que sofrem a opressão de outras ditaduras - de Havana a Teerão -, mas aos que julgam que a democracia se exporta à bomba, contra a vontade dos que devem construir.

 

Publicado no Expresso Online


por Daniel Oliveira
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por Miguel Cardina

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por Miguel Cardina
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por Andrea Peniche

 

 

Há quatro anos era domingo. Um dos domingos mais importantes da democracia portuguesa. Há quatro anos, o SIM à despenalização do aborto vencia nas urnas o obscurantismo. Há quatro anos, o País dava um passo de gigante, tardio, mas dava-o.

 

Ontem, a Federação Portuguesa pela Vida entregou na Assembleia da República 5500 assinaturas a pedir a revisão da lei do aborto e inventou números sobre os custos da mudança legislativa.

 

Há quem tenha dificuldade em perceber que a máquina de calcular deve ficar fora das contas dos direitos humanos. O voto universal, por exemplo, deve ser bem mais caro do que o voto limitado aos cidadãos maiores de 21 anos que sejam chefes de família ou que saibam ler e escrever.

 

Há quem use o terror contra o exercício de direitos e há quem tenha dificuldade em perceber que há direitos que não voltam para trás. A lei pode ser melhorada e, evidentemente, que há muito caminho a trilhar. No entanto, gosto de crer que, em matéria de direitos humanos, o mundo não anda às arrecuas.

 

Quatro anos depois ainda é preciso lembrar que a lei não obriga ninguém a abortar; que a única alternativa coerente a esta lei é a proibição total do aborto; que houve mulheres perseguidas, julgadas e condenadas; que as mulheres não pertencem ao reino da infantilidade e são capazes de tomar decisões ponderadas sobre as suas vidas.

Contra o esquecimento, fica aqui o lembrete.


por Andrea Peniche
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por Sérgio Lavos

 

Ao fim de tantos dias de revolta no Egipto, Mubarak recua para o lugar de onde não parece querer sair, aparentemente com a caução do exército. Não deverá ligar aos que dizem que uma revolta pode ser o começo de uma revolução e preferiu a arrogância orgulhosa do confronto com o povo ao exílio dourado garantido pela pior ditadura da região, a Arábia Saudita, esse exemplar aliado dos EUA. Veremos o que sucederá, mas ao longo deste mês já não nos livramos de uma coisa: do desfile mediático dos cangalheiros pesarosos da democracia. Pedro Correia, neste texto, fala de Vasco Graça Moura e de Pacheco Pereira (vejam quem), mas o que se tem lido e ouvido sobre o assunto daria para compôr um compêndio sobre o cinismo na política e na opinião. Neste combate pela perpetuação de um regime autoritário e caquético, tudo vale: vale um veto por parte do PS (convenientemente acompanhado por PSD e CDS, e é nestas questões que se vê quais são os partidos do sistema) a um voto de apoio à revolta egípcia, vale o sarcasmo cínico das hostes socratistas quando se fala de uma manifestação de apoio à luta (não esquecer que Mubarak pertenceu até há pouco tempo à Internacional Socialista); e vale sobretudo jogar a carta do medo, abanar o espantalho do fundamentalismo que fatalmente virá, esquecendo-se as diferenças fundamentais entre a revolução iraniana e as revoltas que estão a acontecer em dominó (não me canso de repetir esta expressão rumsfeldiana nesta situação, há ironias do destino que são demasiado saborosas para poderem ser desperdiçadas), esquecendo-se que a convulsão nasce sobretudo de um sentimento de impotência perante o agravar das condições de vida nestes países. Aliás, se lermos com atenção as reportagens que vão sendo feitas nas ruas egípcias, notamos que aquilo de que a grande massa popular se queixa é da falta de oportunidades, da pobreza, da miséria. A liberdade e a democracia surjem apenas em pano de fundo, e principalmente como palavras de ordem dos grupos mais politizados que coordenam os protestos. No limite, o povo faz a revolução porque está cansado de viver mal enquanto uma casta de privilegiados se eterniza no poder. A fome e a impotência que daí nasce é o melhor rastilho para a revolta. O ditador há-de cair.

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por Sérgio Lavos
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por Daniel Oliveira
Sobre a moção de censura anunciada pelo Bloco de Esquerda - e pelo PCP - escreverei no Expresso desta semana. Aqui deixo apenas uma palavra para a explicar.

por Daniel Oliveira
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Quinta-feira, 10 de Fevereiro de 2011
por Sérgio Lavos

 

 

 

 

Na semana em que acabaram oficialmente os White Stripes, regressam os Strokes. As duas bandas que revitalizaram o rock, moribundo desde as exéquias do grunge. Começar uma cena musical não é para todos, e os melhores serão sempre os primeiros. Os Strokes, com todos os defeitos que possam ter - e por favor não me falem em originalidade, o rock anda a a ser reciclado desde os anos 60, desde os Rolling Stones, os Beatles, os Who, é essa a sua natureza - terão sido a banda que mais estimulou o nascimento de outras bandas desde os Velvet Underground. E os White Stripes foram tudo o que o rock devia ser: crueza, minimalismo com entranhas, recuperação das origens, bluesy quanto baste e acima de tudo, imagem e pose, nunca deixando de ser fieis a si próprios - aquela expressão que nada diz mas define tudo. E depois vieram os Queens of the Stone Age, mas isso é outra história.

 

(Pode-se ouvir o novo single dos Strokes aqui.)


por Sérgio Lavos
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por Pedro Vieira

 

 

 

 

 

 


por Pedro Vieira
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por João Rodrigues

 

José Sócrates com Mello em pano de fundo. Parece que o grupo Mello contratou o gestor público que fiscalizava o contrato da sua parceria público-privada no Hospital de Braga para trabalhar no hospital de Vila Franca de Xira, mais uma parceria. Boas práticas de captura em linha com o capitalismo mais avançado. É a vida de quem retira o Grupo Mello da gestão do hospital Amadora-Sintra, entregando-lhe como prémio pela má gestão novos hospitais. Parcerias público-privadas de duvidosa vantagem para o interesse público, mas com muitas vantagens para o interesse privado que assim coloniza um dos sectores mais apetitosos. Afinal de contas, uma responsável do Espírito Santo Saúde já tinha afirmado à RTP, em 2007, que “melhor negócio do que a saúde só mesmo a indústria do armamento”. Já agora, aproveito para recomendar este artigo de João Semedo e Sofia Crisóstomo.


por João Rodrigues
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por Daniel Oliveira

Nos arredores de Lisboa, Augusta, que teria hoje 96 anos, morreu sem ninguém dar por nada. Nem família, nem amigos, nem serviços públicos. Uma vizinha, epenas ela, bateu a todas as portas que pôde, por estranhar a sua ausência. Da família, da GNR, de todos, apenas a indiferença. Nem a segurança social, nem os serviços de saúde. Ninguém. Era apenas uma velha num prédio de uns subúrbios. Passou oito anos a bater a portas. A burocracia impediu que alguém fizesse alguma coisa. A porta não podia ser arrombada. A GNR até gozou com a preocupação da vizinha. Coisas de velhos, terão pensado.

 

Mas Augusta, cidadã portuguesa, era também contribuinte. E aí deram por falta dela. Tinha uma dívida. Sem um único contato, a frieza da máquina leiloou o seu apartamento. Quando os novos donos chegaram, a porta foi finalmente arromada. E lá estava Augusta, morta no chão da cozinha. Tinha morrido há oito anos sem que ninguém tivesse dado ouvidos à vizinha.

 

O que impressiona, para além da solidão que permite que alguém morra sem que ninguém dê por nada, é que o mesmo Estado que dá pelo não pagamento de uma dívida ao fisco não dê, não queira dar, pelo desaparecimento de um ser humano. Que o contribuinte exista, mas o cidadão não. Que quem tinha a obrigação de pagar impostos tenha deixado de existir nos seus direitos. A metáfora é macabra. Mas é poderosa. Este Estado que não se esquece - não se deve esquecer - de nós quando é cobrador, mas para quem não existimos quando nos é devida alguma atenção.

 

Diz-se que só há duas coisas certas na vida: a morte e os impostos. Parece que para o Estado português só a segunda parte é verdadeira.

 

Publicado no Expresso Online


por Daniel Oliveira
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Quarta-feira, 9 de Fevereiro de 2011
por Daniel Oliveira

 

 

Que José Sócrates está a prazo já não é assunto de debate para ninguém. Que será sucedido por Pedro Passos Coelho também deixa poucas dúvidas. E que o extremismo ideológico do novo PSD ainda permitirá ao líder do PS fazer uns brilharetes à esquerda também parece óbvio. Uma coisa é certa: os socialistas terão de se preparar para uma longa travessia do deserto.

 

O próximo congresso do PS, em que ninguém com relevo surgirá para se confrontar com o primeiro-ministro em fim de festa, apenas tornará mais evidente o autismo socialista e a sua incapacidade em fazer debates políticos que não se resumam a mercearia de lugares. Mas vêm aí outros tempos. A crise promete ser longa e a ofensiva contra o Estado Social, que o próprio Sócrates começou e que Passos Coelho levará até a limites até agora desconhecidos, obrigará o PS, quando passar pela cura de oposição, a refletir sobre o papel que quer continuar a ter na política portuguesa.

 

O PS pode esperar que o poder lhe volte a cair no colo. Mas desta vez é um jogo arriscado. O descontentamento e a crise podem levar à desagregação da geografia eleitoral, deixando o centro-esquerda em estado comatoso prolongado. Já aconteceu em Itália e em França, nada nos diz que não possa acontecer em Portugal. Ou o PS, depois de se ver livre do vazio ideológico socratista, quer ter um papel nos grandes confrontos políticos que, por toda a Europa, se avizinham, ou poderá passar por uma crise semelhante à que o PSD conheceu desde a saída de Cavaco Silva. Pior: pode vir a ter o destino do centro-esquerda italiano e francês.

 

Apesar de não ser o mais importante, interessa saber quem será o próximo líder do PS. Se um gestor passageiro da derrota, se um reconstrutor do centro-esquerda, aproveitando os anos de oposição que aí vêm para transformar a federação de interesses em que o PS se tornou num partido político com capacidade de polarização ideológica e social. Com a guinada à direita a que a política nacional (e europeia) vai assistir, o bloco central não tem qualquer futuro. Ou o PS ocupa o lugar centrista que o PSD deixará solto, fazendo crescer, com o descontentamento social, os partidos à sua esquerda, ou é capaz de construir uma alternativa verdadeiramente social-democrata à razia que aí vem. As duas opções têm riscos, mas são inconciliáveis. Não me parece que a sedução ao centro e à direita com chantagem à esquerda volte a funcionar nos próximos anos.

 

Não sei se ainda há gente capaz de libertar o PS da tralha acumulada por anos de clientelismo no aparelho de Estado. Dos ruis pedros soares, varas, lellos, coelhos e vitorinos desta nossa triste sina. Não sei se sobrará densidade política e ideológica aos socialistas para começar um processo de clarificação urgente que os tire do vácuo em que se encontram. Sei que os portugueses demorarão alguns anos a esquecer José Sócrates. Com os maus tempos que aí vêm, a rotatividade ao centro já não é coisa garantida. E já não vai bastar a indignação retórica com as privatizações quando privatizou, a defesa intransigente, em palavras, do Estado Social quando se fragilizou o Estado Social, as reflexões sobre a necessidade da Europa mudar de rumo enquanto se aceita um papel passivo dos países periféricos. O que falta ao PS é consistência e consequência. E estas são as qualidades que um novo líder do PS teria de lhe emprestar. Ele existe?

 

Depois de Sócrates, o PS ficará em escombros. Os seus mais fieis e acríticos seguidores irão tratar das suas vidas. Uns com passagem direta para o novo poder, outros de licença em empresas privadas e públicas, à espera de uma nova vitória. Se o PS os deixar partir de vez e tentar reconstruir-se como alternativa política num tempo que tem de ser de clareza, quer dizer que aprendeu alguma coisa. Se fica apenas à espera do desastre que será Passos Coelho, então esperemos que a travessia do deserto seja mesmo muito longa.

 

Publicado no Expresso Online


por Daniel Oliveira
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por Sérgio Lavos

 

De entre o conjunto de teorias que foi sendo debitado, desde o início da época, para o mau campeonato do Benfica, nenhuma fez tanto sentido como a que afirma que, muito simplesmente, o Porto começou melhor, mais preparado. É verdade; mas como em tudo, este começo apenas se evidenciou porque o mau começo de época do Benfica foi realmente mau, com três derrotas nos quatro primeiros jogos. Também pouco interessará saber qual a razão da derrapagem inicial: poderia afirmar que o peso das arbitragens medíocres foi demasiado grande nos jogos contra o Guimarães e Nacional - foi, sem dúvida que foi - mas não devemos esquecer que qualquer grande equipa deverá saber ultrapassar as dificuldades impostas pela mediania arbitral, mesmo no caso extremo da arbitragem portuguesa. Também não serei favorável a falarmos da passadeira estendida nestas primeiras jornadas ao FCP; cada qual com o seu mal, e tudo somado teremos ficado a perder mais com o desacerto gravitacional de Roberto e as flutuações do ego de David Luiz do que com as quedas dos adversários na grande área do FCP não sancionadas pela maravilhosa estirpe de juízes que coube em sorte ao pontapé na bola luso.

 

A verdade é que, chegados a Fevereiro, o Benfica, não precisando de jogar muito mais do que na época passada, é neste momento a melhor equipa do campeonato. A distância cavada será um seguro que o FCP terá enquanto durar, e seria preciso uma irreprimível tendência suicida para que os oito pontos não fossem suficientes para manter o rumo certo. Então, como se explicam as exibições desastrosas da equipa "maravilha" do primeiro terço do campeonato? Uma descida à terra? O nervoso miudinho do "miúdo"? Apenas a melhoria do Benfica? A explicação passa por estes factores, mas vamos lá ver as coisas como elas são: nos jogos do FCP que eu vi esta época, não assisti a nenhuma maravilha. Foi ganhando, claro, com eficácia e alguns fogachos de Hulk e Falcao, uma eficácia fundada na força do meio-campo, no esforço de João Moutinho e no ocasional rasgo de Bellushi. Mas brilho, nem vê-lo. A meio da época, e passado o hara kiri precoce do Benfica, a realidade começa a bater à porta do Porto. Neste momento, de nada valem as quinze vitórias internas do Benfica, apesar de tudo. Repousa o desfecho deste campeonato nas mãos do miúdo Villas-Boas e na almofada de confiança que resta: os oito pontos de distância. Quanto ao resto, foi quase tudo pelo cano: a Taça menor, a Taça maior, o impulso inicial.

 

Jorge Jesus, depois da lição peixotiana, provou que é um projecto a longo prazo. E enquanto a direcção continuar a acertar nas contratações - sim, Gaitán poderá valer muito, sim, Jara é um misto de Lisandro Lopéz e Tevez, sim, Salvio tem de ser comprado - temos equipa. Ao cuidado do sr. Pinto da Costa e sus muchachos.

 

*A fotografia fofinha de Peixoto deve-se ao respeito que ele me merece enquanto homem, sujeito à provação de jogar semana sim semana não ao som dos assobios vindos das bancadas do Estádio da Luz. Não é para todos.

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por Sérgio Lavos
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Terça-feira, 8 de Fevereiro de 2011
por Daniel Oliveira
Neste vídeo, um manifestante morto pela polícia, em Alexandria, a 27 de Janeiro. Hoje, a Praça da Libertação fez mais uma vez justiça ao seu nome. Teve mais gente a manifestar-se do que em qualquer outro dia. Quando vemos esta gente a arriscar a vida pela liberdade e pela democracia só podemos sentir alguma vergonha pela forma como tantos desprezam o que temos por garantido.

por Daniel Oliveira
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por Daniel Oliveira

 

 

 

 

 

 

Pedro Passos Coelho explicou, este fim de semana, numa proposta aparentemente setorial, o que entende ser papel do Estado na sociedade. Acha estranho que as pessoas possam aceder ao passe social sem apresentarem uma declaração de rendimentos. Ou seja, defende que o passe deve apenas estar disponível como um subsídio à mobilidade dos mais pobres. Repete assim a ideia de que o papel do Estado deve ser meramente assistencialista.

 

Não é dificil perceber qual o resultado desta política: como as pessoas também agem seguindo alguma racionalidade económica, os preços de mercado resultariam num abandono dos transportes públicos, que ficariam, na realidade, quase exclusivamente reservados às classes baixas. Além da perda de qualidade estar assim mais do que garantida - já aqui expliquei várias vezes os efeitos na qualidade dos serviços públicos quando as classes médias deixam de os utilizar -, isto teria efeitos em toda a qualidade de vida urbana.

 

Na verdade, Passos Coelho limita-se a querer continuar o que outros começaram.

 

O passe social nasceu, com o nome errado, no final dos anos 70 e seguindo a boa experiência europeia. Aproveitando o facto de quase todos os transportes coletivos serem de propriedade Estatal, criou um bilhete mensal único para todos os transportes urbanos, dividido por coroas. Falhou ao deixar de fora os títulos de transporte para uma só viagem. Mas a lógica estava lá: a rede de transportes deve ser vista como um todo e não como uma mera soma das partes. Não se tratava de um apoio aos mais pobres, mas da promoção do uso do transporte coletivo. Não por qualquer fetiche ideológico. Apenas porque a sociedade, o ambiente e a economia ficam a ganhar com esta opção.

 

Quando começou, nos anos 90, o processo de privatizações dos transportes o passe único perdeu importância. Os privados não foram obrigados, como são em grande parte das grandes cidades europeias - sejam elas geridas por pessoas de esquerda ou de direita -, a aderir a este sistema. Criaram-se então os passes combinados. Um erro histórico: quase metade das deslocações dos lisboetas, por exemplo, são fora do circuito casa-trabalho. Ou seja, estes passes chegam para as deslocações habituais, mas são inúteis em todas as restantes movimentações, em que os utentes passam a usar os seus próprios carros. Se a isto juntarmos o crescimento económico dos primeiros anos da entrada na CEE e o desinvestimento nos transportes coletivos com uma canalização geral de fundos para a promoção do transporte individual, o resultado foi o que se esperava: cada vez mais carros nas cidades, trânsito infernal, estacionamento impossível, perdas de produtividade e mais poluição. Esta opção foi paga por todos nós. Sentiu-se nos nossos bolsos e na nossa qualidade de vida.

 

Durante as últimas décadas os transportes coletivos passaram a cobrar preços impensáveis para os rendimentos médios dos portugueses. E, para compensar o número cada vez maior de carros nas cidades, também o estacionamento passou, e bem, a ser cobrado. Ou seja, fosse qual fosse a opção passámos todos a pagar mais para nos deslocarmos.

 

O que um governante tem de propor ao País é exatamente o oposto do que propõe Pedro Passos Coelho: um pacto pela mobilidade. Os passes e restantes títulos de transporte (únicos e incluindo os operadores privados, como acontece na maioria das cidades europeias) devem ser subsidiados pelo Estado não por qualquer razão social, mas por uma questão de racionalidade económica. Em troca, o uso das redes públicas por transportes individuais deve ser visto, sempre que há alternativas, como um luxo que se paga. E paga-se para subsidiar o transporte público.

 

Promover o transporte público tem efeitos diretos na economia. Transportes públicos mais baratos e melhores permitem menor dependência energética do País (com efeitos na dívida externa); menos pressão no mercado imobiliário dos centros das cidades (a centralidade perde importância); maior competitividade das regiões mais isoladas ou deprimidas; menos tempo perdido nas deslocações para o trabalho (com efeitos imediatos na produtividade); melhor saúde dos cidadãos (menos custos no Serviço Nacional de Saúde); mais rendimento disponível (menos despesa em transporte, incluindo no transporte individual); e menor despesa na construção e manutenção de infraestruturas rodoviárias (é insustentável manter uma rede pública que garanta mobilidade para todos nos seus próprios carros).

 

O problema do debate sobre a despesa pública em Portugal é que as contas são sempre as de merceeiro e não as das grandes opções políticas. Passos Coelho pensou na despesa que o Estado tem com os operadores públicos e com o passe social. Esquece-se de fazer as contas para os efeitos económicos e orçamentais do desinvestimento no transporte coletivo. Se o fizesse, estaria a propor mas investimento - e melhor gestão - em tudo o que promova o uso dos transportes públicos. Porque saberia que nesta matéria, como em tantas outras, o barato sai muitas vezes caro.

 

O problema do debate sobre o papel do Estado na vida coletiva é que se toma por preconceito ideológico a defesa da intervenção pública e por meramente racional a posição oposta. Quando, mostra a experiência, aqueles que acreditam nos automatismos quase milagrosos da concorrência e do mercado nunca conseguiram provar, com números e factos, a sua tese. E a política de transportes é talvez o melhor exemplo disso mesmo. Quando cada um trata de si o Estado se demite de intervir ficamos todos a perder. Incluindo os que vivem melhor.

 

Publicado no Expresso Online


por Daniel Oliveira
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por Miguel Cardina

O PS abdicou da defesa dos trabalhadores e dos mais desfavorecidos. Trocou a sua matriz socialista pela adesão às teses neoliberais. Demonstra-se incapaz de questionar o poder do capital financeiro enquanto dono e árbitro do desenvolvimento económico. É dominado internamente por uma liderança autoritária que seca tudo à sua volta, que distribui lugares e se alimenta de promiscuidades. O PS acabou por se instalar no espaço do centro, tornando o país mais pobre, política e socialmente.

 

As considerações não são minhas. São de Ana Benavente, histórica militante socialista e antiga secretária de Estado da Educação. Reflectem o desencanto de uma significativa camada de militantes que não encontra em José Sócrates e na actual direcção do PS o arrojo político que caracterizou historicamente a social-democracia. Que, mais triste ainda, não vislumbram aí qualquer hipótese de reabilitação de um padrão ético que reequacione igualdade, liberdade e solidariedade. Não é um problema específico do centro-esquerda português, mas não há dúvida que no P português a erosão do S vai bastante adiantada. Veja-se, por exemplo, a inexistência de promoção de debate ideológico, o modo como maioritariamente se buscam diálogos e acordos com a face direita do espectro político, a forma como as estruturas dirigentes se mostraram enfastiadas com uma campanha presidencial que assumia claramente a defesa do Estado social e a crítica à chantagem dos mercados financeiros.

 

Será interessante perceber se no Congresso de Abril alguém se chegará à frente para fazer a figura de crítico do socratismo. António Costa e António José Seguro acham que ainda não chegou a sua hora. Manuel Maria Carrilho e Carlos César não estão disponíveis para desempenhar esse papel. É bem provável que ninguém se disponha a isso: os tempos futuros adivinham-se difíceis para um potencial sucessor de Sócrates e todos os militantes sabem que este eucaliptou bem o terreno em redor. Um adversário talvez desse jeito para que houvesse um simulacro de debate, mas o mais provável é Sócrates ter de ocupar-se sozinho do calor dos holofotes. Um passeio que dirá muito sobre o estado a que chegou um partido cada vez mais canibalizado pelo poder.

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por Miguel Cardina
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Segunda-feira, 7 de Fevereiro de 2011
por João Rodrigues

Ana Benavente aponta os sete pecados mortais que fizeram com que o PS perdesse o S: da adesão ao neoliberalismo à aceitação de uma integração dependente, passando pelo centralismo político que é indissociável destas transformações ideológicas e institucionais. A economia política da austeridade ilustra os pecados na perfeição: Manuel Esteves aponta oito medidas cuja lógica é reduzir salários directos e indirectos, o poder de compra das classes trabalhadoras. De resto, a subserviência de Sócrates face ao ordoliberalismo alemão ficou também patente na véspera do último conselho europeu, apodado de “histórico” com a precipitação de quem não tem parece ter qualquer referência socialista, qualquer noção da regressão socioeconómica em curso, qualquer rebeldia face às grandes potências do centro que mantêm a mesma intransigência de sempre, no que é aliás acompanhado por todos os governos dos países periféricos. Entretanto, a neoliberalização do PS e esta estrutura europeia de constrangimentos ajudam à radicalização do PSD, ao progresso das utopias liberais caucionadas pelos idiotas úteis do costume e à acentuação do histórico enviesamento de direita da política no nosso país. Só o encontro e convergência de todas as esquerdas socialistas pode eventualmente travar este desgraçado processo.


por João Rodrigues
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por João Rodrigues

Enquanto a direita intransigente anda entretida a inventar lutas de gerações, mais um estudo, desta vez sobre determinantes sociais da saúde, indica que a questão social é fundamentalmente uma questão de classes sociais e das suas desigualdades: “a classe é mais importante que a geografia para explicar desigualdades em saúde (…) todas as medidas que combatem desigualdades nos rendimentos têm efeitos na saúde" (Público). Um resumo do estudo de Ricardo Antunes pode ser encontrado no observatório das desigualdades. A injustiça social faz mesmo mal à saúde.


por João Rodrigues
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por Pedro Vieira

 

 

 


por Pedro Vieira
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por Daniel Oliveira

 

Pedro Passos Coelho diz que quer encerrar as empresas publicas que dão prejuízo. Partindo do principio que o líder do PSD não ensandeceu vamos ler esta declaração como uma proposta de mais privatizações. Ficamos assim a conhecer a grande clivagem ideológica entre Sócrates e Coelho: o primeiro quer privatizar as empresas publicas que dão lucro - CTT e ANA -, o segundo quer privatizar todas.

 

Coelho deu especial atenção às empresas de transportes. E ao fim do passe social, que deveria existir apenas para pobres. Mas isso é assunto que deixarei para a crónica de amanhã. Por hoje, fico-me pela milagre da multiplicação das privatizações.

 

Os transportes são um excelente exemplo de como a política de privatizações não teve os resultados prometidos. A privatização a retalho da Rodoviária Nacional levou a uma descoordenação geral do nosso sistema de transportes, porque a ela não corresponderam contratos de prestação de serviços dignos desse nome e uma regulação rigorosa do mercado. O dinheiro que o Estado encaixou com este "leilão" irresponsável foi pago em perda de qualidade de vida nas cidades e no interior, aumento da desertificação e prejuízos incalculáveis para a nossa economia. A isto veio juntar-se a demissão do Estado em usar as suas próprias empresas para cumprirem o seu papel.

 

Dirão: mas pelo menos o privado não suga dinheiro do erário publico. Falso. Peguemos num exemplo comparativo: CP e Fertagus. Escolhendo duas linhas urbanas da área metropolitana de Lisboa, a de Lisboa-Sintra e a de Lisboa-Coina. Na primeira, a empresa pública cobra 0,06 euros por quilómetro, nos bilhetes simples, e 1,30 euros no passe mensal. A Fertagus cobra0,11 euros por quilómetro, no bilhete simples, e 2,48 euros no passe mensal. Ou seja, a privada cobra mais 83 por cento do que a pública. Curiosamente, até ao ano passado, a Fertagus, apesar de ser privada e cobrar mais aos seus clientes, recebia mais do Estado, em indemnizações compensatórias, do que a empresa pública. 0,4 euros por passageiro para a Fertagus, 0,3 euros por passageiro para a CP. São estes os números que tornam os negócios privados que se penduram no Estado tão interessantes - mais 83 por cento cobrados aos passageiros e mais 33 por cento sacados ao Estado - e as empresas públicas tão ruinosas.

 

A conclusão a tirar deste exemplo é obvia: em Portugal, os privados não querem substituir o Estado. Querem garantir uma mesada sem risco.

 

 

 

Querem, antes de mais, ficar com o "filet mignon" e deixar para o Estado o prejuízo. Veja-se como as seguradoras e os hospitais privados atiram para os hospitais públicos tudo o que exija maior despesa. Se dá prejuízo, o contribuinte que pague o tratamento dos seus clientes. Querem continuar pendurados na mama dos dinheiros públicos: veja-se o caso das escolas privadas que dependem dos contratos de associação para sobreviver. Estão no mercado, mas o Estado garante a clientela que falta. E querem garantir para si setores onde não têm concorrência: veja-se a EDP e o interesse geral nos CTT e na ANA. O mercado é excelente, sobretudo quando os clientes não podem escolher.

 

A ideia de que com os privados a substituir o público poupamos dinheiro, conseguimos melhores preços com mais qualidade e temos mais escolha esbarra, em Portugal, com grandes empresas pouco habituadas a viver sem a mão amiga do Estado. Os processos de privatização de serviços públicos têm acabado todos da mesma maneira: privatização do lucro e socialização do prejuízo. É assim na saúde e na educação, foi assim na banca, na energia e nas telecomunicações, assim será nos transportes.

 

A vontade de privatizar o que sobra nada tem a ver com a proteção do interesse publico. Corresponde apenas às necessidades de um capitalismo nacional cronicamente rentista. Um capitalismo formado na mentalidade do condicionalismo industrial e que, incapaz de investir na produção de bens transaccionáveis que compitam no mercado externo, precisa, em tempo de crise, de se expandir para serviços públicos protegidos da concorrência. Com a garantia de uma procura pouco elástica e, já agora, com o brinde de um rendimento mínimo garantido pelo subsídio público da praxe.

 

Publicado no Expresso Online


por Daniel Oliveira
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