Quinta-feira, 18 de Agosto de 2011
por Sérgio Lavos

 

Num país que está a atravessar uma crise económica, receber a delegação papal gastando dinheiro dos contribuintes é uma afronta. As organizações laicas - que incluem católicos progressistas, ateus e agnósticos - protestam contra a indecência de não haver ainda uma verdadeira separação entre (uma) religião e o Estado na monárquica Espanha. Por cá, quando Bento XVI visitou o país, os protestos foram muito mais discretos. Infelizmente.

 

*Sem surpresa, a "liberal" Helena Matos insurge-se contra um grupo de pessoas que luta por um dos principais fundamentos do liberalismo: precisamente a laicidade. Isto no mesmo blogue em que, post sim, post sim, se defende o mínimo Estado possível. Mas já sabemos: se o dinheiro dos contribuintes vai para a saúde ou a educação, é um roubo; se é desviado para financiar um credo religioso, será o quê?


por Sérgio Lavos
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por Sérgio Lavos

 

Uma selecção chegar a uma final do Mundial é obra. Fazê-lo sem ter sofrido um golo sequer, é memorável. Parabéns aos jogadores e a Ilídio Vale - quando uma equipa defende como esta (e eu vi todos os jogos) muito do mérito tem de ser atribuído ao treinador. Quanto à história de não haver vedetas na equipa, eu olho e vejo Mika - o último guarda-redes português tão bom com esta idade foi Vítor Baía. Vejo defesas como Cedric, certo a atacar e a defender; Roderick, impulsivo e imponente; Nuno Reis, um central que eu não vi falhar uma vez, e fazendo pouquíssimas faltas; e um excelente lateral-esquerdo, Mário Rui, bom a defender e a atacar. A dupla do meio-campo defensivo, Danilo e Pelé, é intransponível e ainda tem arte para lançar ataques e marcar golos. Sérgio Oliveira respira classe. Alex é um bom extremo. Caetano é o novo João Pinto. E Nelson Oliveira é um caso sério para ser o próximo ponta-de-lança da selecção principal. O lado mau desta história? Cedric foi emprestado pelo Sporting. Roderick não tem o lugar assegurado no Benfica. Danilo teve de emigrar porque o Benfica não lhe renovou o contrato. O mesmo aconteceu com Mário Rui. Pelé também já joga no estrangeiro. Sérgio Oliveira passou uma época no banco do Beira-Mar, emprestado pelo FCP. E não sabe o que vai acontecer nesta. Nelson Oliveira será, na melhor das hipóteses, quarta ou quinta opção no Benfica, provavelmente atrás de Rodrigo, que não é melhor do que ele. E o FCP contrata Danilos do Brasil, enquanto o nosso emigra para Itália. Vergonhosa, esta situação. Com o futebol português refém de jogadas de empresários e com uma direcção da FPF inexistente (e inacreditável), é um milagre esta selecção ter chegado tão longe.

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por Sérgio Lavos
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por Sérgio Lavos

Sem concurso, violando todas as regras internas da RTP, passando por cima da Direcção de Informação e da administração da empresa, voo directo para Washington. Miguel Relvas e Mário Crespo - o tal jornalista de referência - brincando com a malta, abusando de uma desfaçatez inaudita. Estamos no bom caminho.


por Sérgio Lavos
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Quarta-feira, 17 de Agosto de 2011
por Sérgio Lavos

 

Quatro miúdas. Muitas horas a ouvir a música certa. A atitude certa. Uma voz de outra década planando sobre guitarras cristalinas. Amanhã, num festival perto de si (Paredes de Coura, claro).

 

*Esta série é dedicada a bandas de agora que foram buscar inspiração aos anos 80. A ideia é colocar um dos nomes novos e a seguir um teledisco (como se dizia) de um original dessa década.


por Sérgio Lavos
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por Sérgio Lavos

Alberto João Jardim recusa-se a falar e ameaça jornalista do DIÁRIO.

 

A impunidade tem um preço. E é democracia que o paga. Até quando o PSD (e o PS quando está no Governo) vai continuar a sustentar esta excrescência maligna do regime?


por Sérgio Lavos
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Terça-feira, 16 de Agosto de 2011
por Sérgio Lavos

 

Parece que o sr. Jorge Jesus andou a praticar durante as férias. Personal coaching, outra dessas invenções da pós-modernidade, como a morte do autor ou a música pimba. Aprendeu a falar com os jornalistas. Confesso sentir saudade da boca cheia de pastilha; não sou imune aos encantos xunga da Amadora quando se trata de futebol - a relação entre as classas privilegiadas e a bola é tema de tese a concluir do outro lado da Segunda Circular. Prefiro o courato ao caviar, a mini à flute de champanhe. Adiante. O problema não é Jesus ter deixado de mascar pastilha de boca aberta em directo para a TV; é ainda não ter aprendido a mais básica das lições do futebol: como controlar o ritmo de uma partida.

 

Vamos lá ver; contratar meia dúzia de bons reforços para o banco: excelente ideia. Ir aos saldos do Barcelona e encontrar um Villa dos pequeninos: melhor ainda. Descobrir alguém que, na frente capilar, substituísse com distinção o malogrado Balboa: feito, com proveito para as coisas da bola e tudo. Axel Witsel é, desde já, o jogador mais inteligente do plantel do Benfica. Eu juro que hoje, ao ver tantos jogadores do Benfica na área e uma velocidade de passe entre eles bastante acima da média, paralisei durante meio segundo, temi pelo inevitável desfecho. E foi esse meio segundo o suficiente para a calma zen de Witsel encontrar do outro lado o número 9 da equipa, que estava no lugar onde deve estar o número 9: no coração da pequena área a empurrar bolas para a baliza (o Cardozo estava à linha a passar o esférico para trás, se é isso que querem saber, fazendo juz ao número 7 que usa nas costas). Villa teve Messi anteontem, Nolito teve o toque de Witsel. Podem salvaguardar as distâncias que quiserem, mas o segundo golo do Benfica é uma jogada de equipa rara. Belíssima.

 

Mas depois, o pesadelo. Questão: como manter um excelente resultado fora de portas, contra uma equipa cuja maior qualidade reside no ataque? Opção n.º1: tirar Aimar, regressado de uma lesão, e fazer entrar Matic, adiantando Witsel. Opção n.º2: tirar Aimar, regressado de uma lesão, e fazer entrar Ruben Amorim, adiantando Gaitan. Opção n.º3: tirar Cardozo, que "apenas" serve para marcar golos, e fazer entrar Saviola, repetindo a linha média/avançada que marcou dois golos em 45 minutos ao Arsenal, há menos de 1 mês. E o que fez Jorge Jesus? Cito: "Na segunda parte meti o Saviola pensando que com ele e o Cardozo pudéssemos fazer o 3-1. Não aconteceu e sofremos o golo do empate num lance em que há falta nítida sobre o Emerson. Aí tentei defender o resultado com a entrada do Matic." Resumindo: um resultado de 2-1 não deve ser defendido, antes deverá ser pensado como uma excelente oportunidade para "esmagar o adversário". Um empate, sim, é para defender. Ou Jesus, com a ajuda do seu personal coach, andou embrenhado nos ideogramas do I-Ching e vê além do comum dos mortais, ou, lá está, ainda não aprendeu a controlar o ritmo do jogo quando a equipa está em vantagem no resultado. Será difícil encontrar treinador que alie tanta capacidade de preparar o jogo atacante com tão pouco domínio do que está na base de qualquer equipa vitoriosa: a defesa.

 

Tirando estes, vá lá, pormenores, está tudo bem encaminhado para Nolito ser o melhor marcador da Liga - parece que Falcao quer voar para um clube de grande dimensão, como é o caso do gigante Atlético de Madrid - e Witsel tornar-se o jogador com mais classe a jogar no campeonato português desde que o director desportivo do Benfica pendurou as chuteiras. Vocês sabem do que eu estou falar.


por Sérgio Lavos
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por João Rodrigues

 

 

O conhecido filantrocapitalista Warren Buffett já defendeu, com todo o realismo, que a luta de classes existia e que a sua classe a tinha ganho: num contexto de estagnação dos rendimentos das classes trabalhadoras, a percentagem de rendimentos captada pelos 1% mais ricos passou, nos EUA, de 8,95% do total, em 1978, para 20,95%, em 2008 (semelhante a 1929). A taxa de IRS que incidia sobre o ultimo escalão de rendimento passou de mais de 70%, nos anos sessenta, para 35%, na actualidade e na melhor das hipóteses. A perversidade macroeconómica da desigualdade excessiva foi assinalada com notável limpidez por um Nouriel Roubini que, pelo menos temporariamente, decidiu fazer-nos companhia num espaço intelectual que procura andar entre Marx e Keynes (via João Galamba):

 

“Assistimos a uma redistribuição maciça do trabalho para o capital, dos salários para os lucros, a desigualdade de rendimentos e de riqueza aumentou. Esta redistribuição faz com que o excesso de capacidade e a falta de procura agregada sejam ainda piores. Karl Marx acertou: a certa altura, o capitalismo pode autodestruir-se porque não se pode continuar a transferir rendimento do trabalho para o capital sem que se gere excesso de capacidade e défice de procura agregada. E é isso que se está a passar. Pensámos que os mercados funcionavam, mas não é isso que está a acontecer. O que é racional do ponto de vista individual – cada empresa, para sobreviver e prosperar, corta os custos laborais cada vez mais –, ignora que os meus custos laborais são os rendimentos e o consumo de alguém. É por isso que este processo é autodestrutivo. Não se pode resolver o problema com liquidez. Quando existe demasiada dívida ou se supera a situação através do crescimento ou da poupança. Mas se toda a gente gasta menos e poupa mais nos sectores público e privado, então estamos perante o paradoxo keynesiano da poupança e podemos ter uma depressão.”

 

É neste contexto que Buffett vem pedir aos dirigentes políticos, em artigo no New York Times, que “parem de acarinhar os super-ricos”: “Enquanto as classes baixas e médias lutam por nós no Afeganistão e enquanto a maior parte dos americanos luta para fazer face às despesas, nós os mega-ricos continuamos a ter isenções fiscais extraordinárias”. Este apelo é de difícil concretização sistémica, uma vez que a concentração de dinheiro, perante a fraqueza dos contrapoderes relevantes, como os sindicatos, gera sempre concentração de poder e a correspondente adulação.

 

Em Portugal, os nossos ricos cada vez mais super, como Alexandre Soares dos Santos, queixam-se de que não são suficientemente acarinhados pelo poder político e pela sociedade, coitados. Talvez por causa dessa estranha avaliação tenham decidido investir na luta das ideias, na luta pela adulação. Imaginem então o que diriam e o que fariam se não fossem tão acarinhados. Imaginem se as suas imorais práticas fiscais ou salariais tivessem de ser consistentes com os seus discursos sobre ética social. Imaginem se a actividade de ordenar a transferência de 9 milhões de euros por dia do país para os paraísos fiscais, infernos para a ordem ético-política, a que os mais ricos se dedicam, tivesse de ser consistente com tanto patriótico apelo ao sacrifício de todos. Não parem de imaginar…

 

Publicado no Ladrões de Bicicletas


por João Rodrigues
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por Bruno Sena Martins

 

 

Pelos ásperos meandros do tráfico humano para fins de exploração sexual, em La Sconosciuta  a dupla Tornatore-Morricone procura conciliar pretensiosismo formal -- no caso, dobrado às convenções do thriller --, exaltação intemperada do amor maternal, e uma cuidadíssima purga do sentimentalismo de autor. O resultado é distinto.

 

Trailer Oficial.


por Bruno Sena Martins
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Segunda-feira, 15 de Agosto de 2011
por Sérgio Lavos

 

O primeiro número da revista que publica o melhor dos blogues portugueses. Há gente do Arrastão lá dentro, mas isso, evidentemente, é apenas um pormenor. Facebookem-na.


por Sérgio Lavos
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Domingo, 14 de Agosto de 2011
por Sérgio Lavos

 

"[As pessoas] descobrem-se rodeadas por uma pobreza atroz, por fealdade atroz, por uma fome atroz. É inevitável que tudo isto as abale fortemente... Por conseguinte, com intenções admiráveis, mas equivocadas, fixam.se muiti séria e muito sentimentalmente a tarefa de dar remédio a esses males que vêem. Mas esses remédios não curam a doença: limitam-se a prolongá-la. A verdade é que esses remédios fazem parte da doença. As pessoas tentam resolver o problema da pobreza, por exemplo, mantendo os pobres em vida; ou, no caso de uma escola muito avançada, distraindo os pobres. Mas isso não é uma solução: é um agravamento da dificuldade. A decisão acertada é esforçarmo-nos e reconstruirmos a sociedade numa base tal que torne a pobreza impossível. E as virtudes altruístas têm realmente impedido esse propósito... Os piores proprietários de escravos foram os que eram brandos com os seus escravos, e assim impediam que o horror do sistema fosse concebido pelos que sofriam os seus efeitos, e compreendido pelos que o contemplavam... A caridade degrada e desmoraliza... É imoral usar a propriedade privada para aliviar os males que resultam da instituição da propriedade privada."

 

Em A Alma do Homem sob o Socialismo (ed. Vega), citado no mais recente livro de Slavoj Zizek, Viver no Fim dos Tempos, ed. Relógio d'Água, tradução de Miguel Serras Pereira.


por Sérgio Lavos
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por Sérgio Lavos

 

Guitarras indie, uma poderosa linha de baixo, teclados swingantes, uma voz que faz da desafinação um manifesto. Letras sobre drogas, festas e hedonismo dançante. Sem cowbell, mas com as maracas e os óculos com dupla lente de Bez. Um hino para uma geração.

 

*Esta série é dedicada a bandas de agora que foram buscar inspiração aos anos 80. A ideia é colocar um dos nomes novos e a seguir um teledisco (como se dizia) de um original dessa década.


por Sérgio Lavos
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Sexta-feira, 12 de Agosto de 2011
por João Rodrigues

 

 

Os senhores da troika, que aterraram na Portela há meses para nos ajudar a pôr tudo em ordem, regressaram para avaliar os nossos progressos. Os senhores da troika disseram hoje que estão muito satisfeitos e isso deve deixar o país cheio de orgulho. Esta é mais ou menos a linha da (in)formação que parece dominar os telejornais. Os pobres têm de ser controlados porque, já se sabe, tendem a gastar o dinheiro, que os ricos generosamente lhes dão, todo em vinho ou, no caso dos Estados e suas políticas públicas, sei lá, em programas sociais.

 

A realidade só entra no ecrã pequenito para mostrar algumas das consequências da “ajuda”, sem bater bota com perdigota, mostrando um país com demasiados cidadãos encolhidos, que as elites dominantes sempre quiseram pequenitos, disciplinados, sem força vital, sem esperança, sem cidadania. Nem sempre conseguiram. Nem sempre conseguirão?

 

A realidade de que não se trata de uma “ajuda” passa por relembrar uma tomada de posição pública contra o uso deste termo manipulatório por alguma imprensa e por lembrar algumas palavras cada vez mais importantes, associadas aos senhores da troika e a um governo bem comportado, de austeridade entusiástica, por contraste com o governo anterior, de austeridade relutante em alguns sectores: desemprego, recessão, redução do salário directo e indirecto, insolvência, redistribuição de baixo para cima e muitas privatizações a baixo preço.

 

Para quê? Para que os bancos, que estiveram na origem da crise, não sofram grandes perdas nas periferias. A lógica da capitalização e das garantias previstas, sem quaisquer contrapartidas de controlo público dos bancos, é a lógica dos senhores da troika. Quais são as alternativas a este declínio, a este capitalismo sem pressão salarial, de pilhagem e de sabotagem das energias nacionais?

 

Só há duas alternativas consistentes e nenhuma força de esquerda pode, neste contexto periclitante, colocar de lado qualquer uma delas, sob pena de ser ultrapassada pela realidade e de se tornar irrelevante. A primeira passa por uma federalização democrática da Europa, com a emergência de soluções cooperativas mutuamente vantajosas. No campo económico, esta alternativa teria de envolver, por exemplo, a reestruturação de uma parte da dívida existente, emissão de euro-obrigações, ou seja, títulos de dívida pública europeus emitidos conjuntamente e cujo serviço da dívida, menos oneroso, seria suportado proporcionalmente pelos Estados, com garantia do poder financeiro de um BCE autorizado a agir como um verdadeiro Banco Central, à imagem da Reserva Federal norte-americana ou do Banco Central do Japão, suportando, em conjunto com o Banco Europeu de Investimento, uma política de estimulo económico, uma pré-condição para a sustentabilidade a prazo das finanças públicas numa economia capaz de gerar emprego.

 

A segunda alternativa é o fim do euro e, como já argumentei no Ladrões, temos de estar preparados para este desenlace e para todas as suas implicações, potenciando vantagens e minimizando desvantagens. As duas alternativas têm de estar politicamente articuladas, até porque o uso da segunda, como ameaça credível, no quadro, por exemplo, de uma renegociação a sério, envolvendo uma reestruturação da dívida por iniciativa de países devedores, como propõem muitas forças de esquerda, pode ajudar a fomentar a consciência da necessidade de enveredar pela primeira, apesar de tudo mais desejável.

 

Seja como for, qualquer uma das duas alternativas é certamente preferível a este declínio de muitos e muitos anos, na hipótese heróica de que o arranjo europeu, mal desenhado em Maastricht, consiga sobreviver.


por João Rodrigues
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por João Rodrigues

Neste comboio, a próxima paragem tem sempre o mesmo nome: austeridade. Nem todos viajam nele, como se sabe pelas informações que dão conta da boa saúde das indústrias do luxo, do aumento de 17,8% da fortuna dos mais ricos em 2011, em relação ao ano anterior, ou da opção do governo de não aplicar aos lucros e dividendos a sobretaxa que vai cortar metade do subsídio de Natal das famílias, mesmo quando esta abrange até rendimentos provenientes de prestações sociais. Decididamente, não vamos todos no mesmo comboio (…) É caso para perguntar há quanto tempo é que o projecto neoliberal não inventa nada de novo… E quanto tempo mais vai ser capaz de transportar os povos nesta viagem suicidária rumo a um futuro que nos atira para formas de vida anteriores ao Estado social. Os transportes públicos, pela forma regular como são utilizados e pela identidade inter-geracional, inter-classista e inter-profissional dos seus utentes, pode ser um laboratório muito interessante de experiências de apropriação do espaço público onde se cruzem formas de contestação social que abranjam todo o tipo de movimentos sociais. Algures entre o tempo da espera pelo que está a chegar e o tempo da viagem para um destino desejado pode estar a construção comum de outra próxima paragem que não seja a da austeridade. É que o tempo da austeridade é, mais propriamente, o da paragem próxima.

 

O resto do artigo da Sandra Monteiro pode ser lido aqui e o Sumário do número de Agosto aqui.


por João Rodrigues
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por João Rodrigues

 

Pedro Lains, um economista liberal que vale a pena ler e ouvir, parece por vezes acreditar que os mercados não pressupõem maciças doses de intervenção política na sua criação, estabilização ou legitimação. O liberalismo é sempre um activismo político, por vezes mascarado por uma retórica naturalista de “deixar que as coisas sigam o seu curso”, que é apenas a expressão de uma preferência pelo statu quo, depois de alcançadas as vitórias políticas e as transformações institucionais desejadas.

Mas vamos aos mais relevantes pontos convergentes na questão da chamada desvalorização fiscal. Lains concorda que está em curso uma maciça redistribuição do rendimento, regressiva, claro, “que é aquilo com que este governo parece querer ficar na história”. Lains sublinha três pontos importantes adicionais: a mexida na TSU e no IVA não tem impactos estruturais relevantes, tem efeitos recessivos no “curto prazo”, ou seja, tem impactos recessivos ponto, e intervém em contribuições sociais que estão abaixo da média da área euro. Isto para não falar dos modelos delirantes, que, por exemplo, eu e o Nuno Teles aqui criticámos, usados para simular os efeitos das medidas.

Além disso, sublinho eu uma vez mais, o peso do regressivo IVA na estrutura dos impostos já está acima da média e o que o relatório encomendado pelo governo, numa gralha deliciosa, apoda de impostos “direitos” estão abaixo da média, exprimindo um Estado que sobrecarrega mais os que são mais pobres, os que não podem deixar de consumir todo o seu rendimento. É o tal Estado fiscal de classe, o que beneficia as fracções do capital mais poderosas, como os bancos, uma realidade socioeconómica que o governo de Gaspar recusa reconhecer, mas que as suas políticas se encarregam de tornar cada vez mais visível. Só espero que ninguém à esquerda tenha a ousadia de aceitar esta opção e, já agora, que alguma direita a rejeite também...

 

Publicado no Ladrões de Bicicletas.


por João Rodrigues
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Quinta-feira, 11 de Agosto de 2011
por Sérgio Lavos

 

Uns dias fora não me permitirão continuar o debate sobre os motins ingleses. Pena, tem sido tão educativo quanto divertido. Até agora, as principais consequências dos distúrbios são:

 

- O agravamento da tensão racial entre afrocaribenhos, asiáticos e turcos.

- O endurecimento das medidas repressivas da polícia, num país conhecido por praticar um policiamento de proximidade, mantendo as ruas seguras sem hostilizar as populações. Se muitos dos delinquentes se queixavam do tratamento policial recebido (com razão ou sem ela), daqui para a frente certamente terão muito mais do que se queixar. E um Estado policial é um Estado menos democrático, menos livre. Para todos, delinquentes ou não.

- O aparecimento de milícias de extrema-direita, grupos de vigilantes que percorrem as ruas à procura de potenciais criminosos. 

- A estetização da violência feita pela Levi's (essa importante multinacional anarquista), sob a forma de um anúncio agora lançado que mostra um amotinado enfrentando a polícia. A mensagem, definitivamente, passou.

 

Gostei deste post da Raquel Varela, mesmo não concordando com tudo o que é ali escrito. Sim, os marxistas nunca ficaram felizes com a violência. Mas não me parece que esta violência tenha alguma coisa a ver com Bakunin - a anarquia é uma proposta política tão sistematizada como outra qualquer, nada tem a ver com irrupções despolitizadas de violência. Pensando bem, nem com Malcolm McLaren - a destruição punk era tão niilista quanto estética; partiam montras e incendiavam viaturas pelo prazer de o fazer - não consta que cobiçassem o que as lojas vendiam. Contudo, se realmente estes motins contribuirem para uma aproximação dos sindicatos e da esquerda tradicional aos verdadeiros excluídos do sistema, já se poderá afirmar que alguma coisa de importante terá nascido do caos. Aguardemos.

 

Por outro lado, não se desse o caso de não apreciar por aí além de falar com jogos de computador, até responderia a quem fala do que eu escrevi sem sequer se dignar a linkar os meus textos. Uma oportunidade perdida. Lamentável.


por Sérgio Lavos
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por Bruno Sena Martins

"O Governo italiano planeia aumentar os impostos sobre os ganhos financeiros até vinte por cento, disse hoje o ministro da Economia e Finanças, Giulio Tremonti."


por Bruno Sena Martins
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por Sérgio Lavos

  

Em Birmingham, três homens asiáticos morreram atropelados quando tentavam defender o bairro onde viviam dos delinquentes. O pai de dois eles, um imigrante paquistanês, veio apelar à paz entre as diferentes comunidades. Exemplos.


por Sérgio Lavos
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Quarta-feira, 10 de Agosto de 2011
por Sérgio Lavos

Foto do Guardian 

 

Como ainda existe alguma massa crítica com a qual vale a pena discutir no 5 Dias, vale a pena perder mais algum tempo com o tema.

 

Começa o Tiago Mota Saraiva por afirmar que as notícias que falam em convocação dos amotinados através do BlackBerry têm aparecido apenas com o intuito de descredibilizar o carácter de classe do protesto. Admito que a disseminação destas informações tenha tido como principal intenção essa desvalorização dos protestos. Mas não sou ingénuo ao ponto de achar que não haja um fundo de verdade na notícia. Mais, afirmar que uma "esmagadora maioria" dos amotinados não tem dinheiro para os BlackBerry é uma daquelas coisas que se dizem apenas em defesa de uma ideia preconcebida - há amotinados a conduzirem carros que atropelam residentes protegendo os seus bens. Certamente que a situação em Inglaterra nada tem a ver com o Egipto. E é esta uma das principais diferenças entre as duas revoltas: no Egipto, uma elite com acesso às redes sociais teve conhecimento do que se passara na Tunísia (aqui sim, terá acontecido uma verdadeira revolução popular) e decidiu ir para a rua protestar contra o regime. Atrás desta elite, foram as centenas de milhar de egípicios descontentes. A revolução acabou por ter lugar em consequência da vontade e da persistência de muitos. Não houve tumultos localizados, nem pilhagens generalizadas, apenas uma massa incontrolável de pessoas a pedir a mudança no país. A importância dada aos BlackBerry sinaliza a natureza dos protestos. Mesmo que na origem do descontamento estejam factores sociais (estão sempre, mesmo quando se trata de criminalidade) a verdade é que a forma que os protestos acabaram por tomar esvaziou de conteúdo político o gesto.

 

Não sei de que modo o Tiago acha que a re-politização dos espoliados poderá acontecer. O que estamos a assistir é precisamente a uma confirmação das premissas do neoliberalismo: a despolitização da sociedade. Em vez de cidadãos com uma voz activa nas decisões dos países, somos agora consumidores nas mãos das grandes corporações. Os jovens que andam a pilhar lojas em busca de roupa de marca, ou a destruir automóveis e lojas, limitam-se a expressar a sua raiva por estarem fora desse círculo consumista. Como escreve aqui Zigmunt Bauman (via Luís M. Jorge, que de resto faz uma breve mas incisiva análise do que está a acontecer), não se trata de lutar por pão, mas por objectos aos quais apenas uma parte da população pode aceder. Achar que os amotinados querem destruir para construir é apenas wishfull thinking. Os amotinados simbolizam o reverso distorcido do consumismo. O investimento dos jovens nos objectos roubados é a outra face da sociedade do hiperconsumo, uma replicação fora-da-lei da angústia de status predominante. Há uma completa despolitização nas intenções (não há manifestos, ideias, líderes) e uma sobrepolitização nos gestos: a fúria dos amotinados é dirigida às grandes lojas, símbolos do poder económico, e não a símbolos do poder político (com a excepção da polícia, que funciona aqui apenas como defesa do poder económico, e não político), o que apenas reforça a força simbólica das grandes corporações. A luta não se faz contra o poder que exclui. Os motins são escaramuças inúteis, improdutivas, que apenas poderão ter como consequência um reforço da legitimidade de uma sociedade que discrimina e guetiza parte dos seus cidadãos.

 

Será prematuro depositar nestas revoltas a esperança de uma revolução. Aliás, o mais positivo que até agora saiu destes motins é a união mostrada pelas comunidades a que pertencem os jovens. Imigrantes (ou descendentes) que vivem à margem, acabando por ser os primeiros a sofrer. Sofreram com os cortes do Governo de Cameron e sofrem agora com a destruição dos seus poucos bens. Queremos ver a politização dos marginalizados? É só olhar para estes grupos de pessoas, demarcando-se da violência, sem deixarem de denunciar as condições de marginalização a que são submetidos. Não tenho horror a revoluções com chamas e vidros partidos, nem me impressionam os feios, porcos e maus. A violência politizada será sempre uma resposta à violência estrutural (segundo Zizek) exercida pelo capitalismo. Mas sei diferenciar a violência consequente da estéril. A esquerda que quer construir uma sociedade mais justa tem de saber distinguir entre um movimento produtivo e um que parasita as comunidades marginalizadas, um movimento que transforma a violência numa forma de hiperconsumo despojado da troca simbólica. Por outras palavras, roubo. Nada que chegue a beliscar o que quer que seja. 

 

Adenda: julgo que a pergunta que Filipe Moura faz no Esquerda Republicana também foi respondida neste texto. Acrescento ainda: mais depressa me revejo nas revoltas que têm acontecido na Grécia (essas sim, poderão levar a algum lado) ou, indo mais longe no tempo, atribuo muito mais legitimidade aos motins que tiveram lugar na Argentina em 2002. A derrocada do neoliberalismo naquele país levou à justa ocupação das ruas pelo povo. Não é o que está a suceder neste caso. Mas existirá "a" revolução? Sim. Tunísia, Egipto, por exemplo. Na Europa as condições são diferentes, o caminho terá de ser outro.


por Sérgio Lavos
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por Sérgio Lavos

"Começam a perceber-se as misteriosas razões que terão levado 2 159 742 portugueses a votar em Passos Coelho.

 

O eleitorado português tem sido repetidamente elogiado pela prudência e sensatez. Tirando a parte, humana, demasiado humana, da lisonja, resta o que é talvez fundamental, que os portugueses não gostam de surpresas e votam no que conhecem. E há que admirar a sua intuição: votando em Passos Coelho, o jovem desconhecido vindo do nada, que é como quem diz da JSD e de uns arrufos com a dr.ª Ferreira Leite, votaram no mesmo de sempre, na incomensurável distância que, em política, vai do que se diz ao que se faz.

 

E, pedindo ajuda a O'Neill, o eleitorado "tinh' rrazão": disse Passos Coelho que era um disparate afirmar-se que tributaria o subsídio de Natal e foi a primeira coisa que fez mal chegou ao Governo; que não mexeria nos impostos sobre o rendimento e idem aspas; que iria pôr o Estado em cura de emagrecimento e o "seu" Estado só tem engordado de adjuntos, assessores, "especialistas" (e até de "superadjuntos" e "superespecialistas"); agora foi de férias "para recuperar algum tempo do [seu] papel enquanto marido e pai" depois de ter anunciado que "o Governo não gozará férias" dada a necessidade de, "com rapidez", "traduzir os objectivos (...) que estão fixados em políticas concretas".

 

Estou em crer que o eleitor português típico, se tal coisa existe, nunca votaria num político imprevisível."

 

(No lugar de sempre.)


por Sérgio Lavos
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por Sérgio Lavos

 

A beleza das casas a arder. A poesia da violência. A euforia da destruição. Destruir, destruir. Para construir o quê? Dias de alegria passageira para os impotentes da revolução por vir e da Intifada Mundial.


por Sérgio Lavos
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Terça-feira, 9 de Agosto de 2011
por Sérgio Lavos

Entretanto, convém não esquecer as verdadeiras revoluções em curso e as ditaduras que continuam a ser apoiadas pelo Ocidente. Na Síria, Bashar al-Assad continua a reprimir violentamente os protestos - sim, neste caso são verdadeiros protestos contra o regime autoritário. Calcula-se que até agora tenham morrido 2000 civis, desde que começou a revolta, há cinco meses. Da euforia das primeiras revoluções, na Tunísia e no Egipto, passou-se quase ao silêncio nos media. Mas as prioridades mediáticas são voláteis. O sofrimento dos povos, não. 


por Sérgio Lavos
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por Sérgio Lavos

 

Aproveito para agradecer ao Renato Teixeira o tempo que está a dedicar à minha educação. E, já agora, perguntar-lhe quantos mais posts irão ter o meu nome - o meu ranking no Google agradeceria se continuasse a série por aí fora. Quanto ao resto, cada vez tenho menos dúvidas: daqui a duas semanas, quando estiverem presos todos os "revolucionários" que andam pelas ruas a pilhar os despojados da sociedade de consumo, a "revolução" acabou. E, no final, estaremos ainda mais longe de uma solução do que estávamos no início da semana. Mas imagino que este tipo de tragédias não comova o idealismo enviesado de muitos. Só me lembro do grito de guerra dos bushistas de sofá quando os EUA invadiram o Iraque. E é uma pena que assim seja.

 

(O vídeo, esse, encontrei-o no Blasfémias. Para que o Renato não fique ainda mais confuso.)


por Sérgio Lavos
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por Bruno Sena Martins
Num movimento de pontual democratização do consumo, o saque informal imita a lógica da exploração capitalista (saque institucionalizado), sugando a energia que desejaríamos ao serviço do fervor revolucionário.

por Bruno Sena Martins
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por Sérgio Lavos

 

(Obrigado ao Luís Rainha.)


por Sérgio Lavos
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por Sérgio Lavos

 

O reverso do capitalismo explorador é a violência organizada com recurso a objectos simbólicos desse mesmo capitalismo explorador. Os motins em Inglaterra deixaram de ter alguma coisa a ver com contestação social e não têm qualquer motivação política pela qual valha a pena lutar, qualquer ideologia que os sustente. Os maiores prejudicados pela violência estão a ser as comunidades marginalizadas, os pequenos comerciantes e os pobres que estão a ver o pouco que têm ser destruído por gangs. A Revolução Blackberry aos burgueses revolucionários que a merecem: é toda vossa, a destruição e o enorme vazio ideológico que a impulsiona. Estão bem uns para os outros.


por Sérgio Lavos
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por Miguel Cardina

Gestores não executivos recebem 7400 euros por reunião.


por Miguel Cardina
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Segunda-feira, 8 de Agosto de 2011
por Sérgio Lavos

 

Para variar, hoje gostei de ver José Gomes Ferreira - o tal especialista em economia que se indignou, aqui há umas semanas, com o corte no rating de Portugal - defender, no telejornal da SIC, o corte na notação dos EUA pela Standard and Poor's. Resumindo: fazer o que fizerem a Portugal é indigno e especulativo e é preciso denunciar as jogadas das agências de notação; um crime. Aos EUA é compreensível, consequência da subida do texto máxima da dívida pública americana. Pois.

 

Também gostei de ver Obama a dizer que o rating do país que preside será sempre AAA. É como ter um filho feio: aos nossos olhos, será sempre bonito. Chega a ser comovente. E, neste ponto, Cavaco Silva deve sentir-se orgulhoso: Obama reagiu da mesma maneira que o nosso presidente. E aposto que as consequências da indignação serão exactamente as mesmas... a crise ainda agora está começar.

 

*A imagem é da Gui Castro Felga.


por Sérgio Lavos
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por Sérgio Lavos

*Foto retirada do Guardian

 

Tudo começou com a morte de um taxista de 29 anos, pai de 4 filhos. Atingido por tiros da polícia. Como em França, um excesso policial que levou à morte de um inocente (até prova em contrário), levou a uma escalada de violência nos bairros periféricos e pobres de Londres. Do protesto legítimo das pessoas do bairro onde morava o taxista, Tottenham, rapidamente se chegou a um estado de quarteirões inteiros sitiados, à criminalidade pura. Em pleno Agosto, tempo de férias escolares. Muitos dos jovens envolvidos nos distúrbios costumavam ocupar os seus tempos em centros de diversão que o Governo fechou no âmbito das medidas de austeridade levadas a cabo no país. Quem culpar? Os criminosos que destroem património público e privado, o acto policial que espoletou a revolta ou o Governo central que descurou na atenção dada a quem está à margem? Apenas há uma certeza: apesar da esmagadora maioria da população daqueles bairros repudiar os actos criminosos que têm acontecido, todos questionam os procedimentos policiais neste caso. Vamos ver onde poderá a revolta chegar.

 

(Podemos acompanhar os acontecimentos em directo no blogue do Guardian).


por Sérgio Lavos
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Domingo, 7 de Agosto de 2011
por Sérgio Lavos

por Sérgio Lavos
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por Sérgio Lavos

 

Antes dos Strokes, antes dos Franz Ferdinand, antes dos !!! e dos LCD Soundsystem popularizarem o uso do cowbell, The Rapture. Guitarras e muito ritmo, grande linha de baixo, música para as pistas de dança do princípio da década passada.

 

*Esta série é dedicada a bandas de agora que foram buscar inspiração aos anos 80. A ideia é colocar um dos nomes novos e a seguir um teledisco (como se dizia) de um original dessa década.


por Sérgio Lavos
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Sábado, 6 de Agosto de 2011
por Sérgio Lavos

O ministro da Economia e do Emprego, Álvaro Santos Pereira, nomeou dois assessores com um estatuto remuneratório equiparado a director-geral, ou seja, irão receber um salário mensal bruto de 3.892,53 euros.

 

Devem ser os tais super-assessores do super-ministro. Tudo mudou para melhor, não duvidemos.


por Sérgio Lavos
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por Miguel Cardina


por Miguel Cardina
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por Sérgio Lavos

 *Foto de Dorothea Lange


A vácua pompa do nome diz tudo: Programa de Emergência Social. O programa feito para os pobres criados pelas medidas de austeridade foi anunciado por quem de direito, o Ministro da Caridade e da Esmola Social, o mui católico e centrista Pedro Mota Soares. Começa o documento por ser o anúncio de um futuro que a realidade externa desmente: "Ou seja, rigor e controlo nas finanças do Estado para poder promover o crescimento económico, a promoção do trabalho, a produtividade e competitividade e a mobilidade social." Sabemos que na Grécia está a acontecer precisamente o contrário do que o Governo espera, e que apenas se conseguirá evitar que a crise alastre a outros países da UE e o Euro impluda se acontecer uma inversão radical no caminho que es está a tomar. Mas enquanto isso não acontece, é preciso distribuir as migalhas que vão minguando pelos dos costume - a banca, os empresários e cáfila de amigos que depende directamente do financiamento do estado. O que sobra, vai para os pobres. 

 

Vai para os casais desempregados com filhos; um acréscimo de 10% no subsídio de desemprego. Quanto é 10% de 400 euros, mesmo? Cerca de 40 euros, que é menos do que se irá pagar a mais com o previsível crescimento da inflação nos próximos anos. Para além disso, não nos podemos esquecer que, com a mudança nas regras de atribuição do subsídio de desemprego, na maior parte dos casos este será recebido pelos desempregados apenas durante um ano. Tudo somado, 40 euros vezes doze meses. Uma fortuna. 

 

Vai para os empreendedores. Um programa de micro-crédito é uma boa ideia. E tem sobretudo o mérito de sinalizar uma mudança fundamental no posicionamento do país na economia mundial. O micro-crédito tem sido usado com sucesso em economias emergentes. Em economias consolidadas, existe, mas não está generalizado e não oferece condições tão atrativas como nas economias emergentes*. Agora sabemos onde estamos, para onde vamos: a caminho do Terceiro Mundo.

 

Vai para os escravos. Um exemplar parágrafo do Programa: "Vamos, com IPSS, Misericórdias, Mutualidades e outras instituições que desempenham funções sociais, desenvolver programas de trabalho activo e solidário, que permitam aos beneficiários manter-se no mercado de trabalho, desempenhando funções que satisfaçam necessidades socialmente úteis. Queremos também estudar a possibilidade de alargar o desempenho destas funções ao sector empresarial." Trocado por miúdos: vamos pôr quem recebe da Segurança Social a trabalhar de graça para nós e para empresários necessitados (essa classe tão desprotegida). Queremos um regresso à escravatura. Aqui está a prova da influência do CDS/PP neste Governo, o sonho concretizado de Paulo Portas: os parasitas do Estado Social transformados em escravos ao serviço do capitalismo.

 

Vai mais longe na ideia anterior. O Programa não acredita nos subsídios, por isso vai repensar a atribuição dos mesmos. Podemos esperar, já no segundo semestre de 2011, o fim do RSI e uma nova diminuição do tempo de atribuição do Subsídio de Desemprego?

 

Vai "incentivar a prestação de trabalho socialmente necessário". Gratuito. A oficialização da escravatura.

 

Vai regressar a sopa dos pobres, essa saudosa instituição do Estado Novo. 

 

O resto do documento limita-se a falar de medidas que já existem ou referir, de forma vaga, um "reforço de verbas" para apoio a IPSS's, o que na prática significa deslocar fundos do financiamento directo à pobreza para instituições que o Estado não pode controlar - e sabemos como a fraude é o pão nosso de cada dia em muitas destas instituições.

 

Num momento de crise, o Governo PSD/CDS está mais preocupado com ideologia - são inúmeras as vezes em que é repetida a ideia de que o Estado não deve ser Social - do que com o crescimento da pobreza. Um statement significativo. Queriam um Governo neoliberal, versão lusa? Aí o têm.

 

*Corrigido. Obrigado ao comentador Miguel.


por Sérgio Lavos
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por Pedro Sales

 

Aparentemente, alguém na Jerónimo Martins pensou que divulgar um plano da empresa para garantir comida e apoio social a 1100 dos seus trabalhadores seria uma boa manobra promocional. Em tempos de crise económica, quem demonstrar as melhores credenciais sociais parte na posição da frente no ranking da boa vontade dos fregueses.

 

Aparentemente, ninguém na Jerónimo Martins parece ter parado para reparar que uma empresa ter nos seus quadros 1100 pessoas que, trabalhando, não conseguem sair da miséria mais absoluta, pagar as despesas de alimentação e saúde diz mais sobre os salários praticados pela mesma do que da incapacidade congénita dos seus trabalhadores (desculpem, queria dizer colaboradores) em gerir o seu dinheiro.

 

Segundo um dos responsáveis por este grupo retalhista, um dos mais lucrativos em Portugal, as 1100 pessoas em causa revelam um “elevado desconhecimento dos mais elementares princípios da gestão de um orçamento doméstico", e, como tal, decidiu tomar em mãos o assunto. Aumentar os salários que, de acordo com o sindicato, se ficam em média por uns indigentes 540 euros na empresa? Nada disso. Ensinar quem pouco mais ganha do que o preço do aluguer de uma pequena casa em Lisboa ou no Porto a saber gerir os seus rendimentos. É preciso topete.

 

Mas não deixa de ser sintomático constatar que nenhum dos vários jornais em que este plano é noticiado faz uma menção - breve que seja - ao valor médio do salário na Jerónimo Martins, nem pergunta a quem de direito como é que se gere sapientemente um orçamento familiar com essa quantia irrisória. Pelo contrário, o director do jornal I, o tal que quer que os seus colunistas escrevam de graça, deu-lhe nota 20. E este é o ponto mais relevante desta história. O clima social criado com a crise, aliado a um condicionamento ideológico, mediático e semântico onde não existem trabalhadores nem despedimentos, conduziu à desvalorização social do trabalho ao ponto em que uma empresa trocar salários dignos pelo racionamento de vales para as despesas de alimentação ou saúde passou não só a ser uma atitude normal, mas passível de ser explorada comercialmente pelo seu departamento de marketing.

 

Todas as crises revelam as suas oportunidades. Os empresários deste cantinho, fartos dos baixos salários que usaram como principal argumento concorrencial, entreviram na persistência da austeridade um momento chave de mudança cultural e social que lhes garante a oportunidade de tornar as suas “práticas sociais” num chamariz comercial. Supostamente, devemos estar todos agradecidos à magnifiência de quem, pagando miseravelmente a quem trabalha mais de 40 horas, num trabalho desgastante e por turnos, ainda instala uma sopa dos pobres dentro de portas.

 

Quando nenhum jornalista faz o seu papel e publica a história como ela vem contada no press release, vemos até que ponto essa mentalidade está enraízada. Mas, verdade seja dita, com o que as empresas de comunicação social hoje pagam aos seus “colaboradores”, não seria de espantar que quem assina a notícia apenas suspirasse por um plano igual na sua redacção.


por Pedro Sales
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Quinta-feira, 4 de Agosto de 2011
por Bruno Sena Martins

É quase comovente ver os esforços do actual governo para tentar estar à altura das exigências da Troika, digo quase porque a actual conjuntura, como se percebe, não é mais do que um pretexto para cumprir o projecto antigo de colocar Portugal na vanguada de uma Batalha Final pelo neoliberalismo. Gosto do estilo de Vítor Gaspar, sinceramente, mas não se deixem enganar, as vestes de aluno esforçado, vagamente totó, não são mais que isso:  move-o a antiga vontade de estiolar o sector público distribuindo-o pelos interesses privados afáveis ao capitalismo de iniciativa estatal, move-o o desejo de taxar a classe média enquanto os proventos da especulação são escoltados até aos bolsos de uns quantos, move-o a construção de um paradigma de segurança social em que a prestação pecuniária se indistingue da esmola. Meus caros, em parcos 11 segundos, eis Vitor Gaspar e seus esforçados muchachos:

 


por Bruno Sena Martins
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Quarta-feira, 3 de Agosto de 2011
por Miguel Cardina

 

Acaba de ser lançada uma petição de solidariedade com as vítimas dos atentados na Noruega, promovida por várias organizações (lista no fim do texto), que está disponível AQUI para recolha de assinaturas individuais. Mais tarde, será dado conhecimento da iniciativa a várias organizações sociais norueguesas.

 

Acompanhámos, num misto de choque, fúria e profunda tristeza, o horror que aconteceu em Oslo e Utoya no dia 22 de Julho. Antes de mais, pensamos, obviamente, nas vítimas, famílias, amigos e camaradas. Aceitem as nossas mais sentidas condolências e solidariedade.

 

Enquanto activistas de diferentes movimentos sociais e políticos portugueses, estendemos as nossas condolências à Liga dos Jovens Trabalhistas e também ao povo norueguês. E ainda a todos aqueles que, como nós, na Europa e no resto do mundo, compreendem a ameaça representada por ideologias racistas, xenófobas e fascistas, sobretudo quando encontram eco nos discursos e crenças políticas que nos entram pelas casas dentro todos os dias.

 

Quando se vota no ódio e na exclusão, quando líderes políticos põem em causa os valores do multiculturalismo, quando as minorias são transformadas em bodes expiatórios para os erros de sistemas políticos que promovem a exclusão e a discriminação, o ódio passa a ser aceite na política. E as armas precisarão sempre do ódio como munição.

 

Podia ter sido qualquer um de nós. Por isso, a maior homenagem que podemos prestar a todos os que morreram, ficaram feridos ou perderam entes queridos é o nosso compromisso com a luta pelo respeito, diversidade, justiça e paz e por uma sociedade verdadeiramente democrática e inclusiva. Responderemos com mais democracia.

 

Artigo 21.º * Associação 25 de Abril * Associação Abril * Associação República e Laicidade * ATTAC Portugal * Bloco de Esquerda * Convergência e Alternativa * Crioulidades - Arte e Cultura na Diáspora * Fartos/as d'Estes Recibos Verdes * M12M * Movimento Escola Pública * Não Apaguem a Memória * Opus Gay * Panteras Rosa * PES Portugal * Portugal Uncut * Precários Inflexíveis * Rainbow Rose Portugal * Renovação Comunista * Sindicato dos Professores da Grande Lisboa * União de Mulheres Alternativa e Resistência * Vidas Alternativas


por Miguel Cardina
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Terça-feira, 2 de Agosto de 2011
por Sérgio Lavos

 

Havia quatro potenciais compradores do BPN. O governo PSD/CDS, através de uma Caixa Geral de Depósitos recheada de novos boys dos dois partidos, quer negociá-lo em regime de exclusividade com o BIC, cujo presidente é Mira Amaral, antigo ministro de um dos clientes mais famosos do BPN, Cavaco Silva. Para além dos 40 milhões que o BIC afirma ir pagar, metade dos funcionários irão ser despedidos. Entretanto, um dos compradores que foram preteridos, o NEI, vem dizer que nunca fez uma oferta que fosse inferior a 100 milhões de euros (sim, 60 milhões mais do que é proposto pelo BIC), e que a proposta seria sempre vantajosa para os trabalhadores. Excluído à partida, este grupo de investidores vem falar agora de uma luta de David contra Golias. Julgo que ninguém poderá ter dúvidas sobre a natureza deste negócio. A história do BPN é uma mafiosa pescadinha de rabo na boca, um vaivém criminoso entre PS e PSD que rapinou ao Estado (que somos nós, não esquecer isto) incontáveis milhões. Fundado por figuras do PSD, ligadas aos governos de Cavaco Silva, fez crescer a fortuna de muitos durante os anos de bonança financeira, recorrendo a empresas fictícias offshore e a ilegalidades várias. Quando estava prestes a afundar-se, o governo PS decide esbanjar erário público na sua recuperação, dando razão ao ditado: o crime compensa. E o círculo completa-se, já com o PSD no poder, com a venda, aparentemente ruinosa para o Estado, a uma instituição financeira ligada a outra figura do PSD cavaquista, Mira Amaral. Portugal há muito que se tornou uma metástase da Sicília, e ninguém parece interessado em acabar com a doença. Só não vê quem prefere não ver. E em terra de cegos...


por Sérgio Lavos
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por Sérgio Lavos

 

Um exemplo a seguir.


por Sérgio Lavos
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por Bruno Sena Martins
Em tempo de viagens e viajantes, aqui ficam algumas das maravilhas de Portugal num documentário de 56 minutos que passou na TVE.

Portugal mostrado pela TVE Espanhola.


por Bruno Sena Martins
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Segunda-feira, 1 de Agosto de 2011
por Sérgio Lavos

 

Quando Fernando Pessoa escreveu “a minha pátria é a língua portuguesa”, já tinha havido uma tentativa séria de estabelecer uma norma linguística que visava sobretudo o controlo, pelo estado português, dessa norma. Depois desta frase, muitas tentativas foram feitas para que essa norma existisse. Em 1992, foi estabelecido o Acordo Ortográfico para os países de língua portuguesa. Agora, enquanto escrevo este texto, desrespeito o acordo que entrou em vigor este ano.

 

Contudo, não desrespeito a língua. Escrevo em português, e ao escrever produzo uma língua diferente da que falo. Fernando Pessoa, quando pensou essa frase, que tão bem tem servido os interesses de uma pátria que quase nunca respeita a herança deixada pelos grandes escritores do passado, não teria com certeza em mente esta irreprimível vontade de regular essa coisa volúvel (e como a palavra se aproxima de volúpia) que é a língua. A pátria de Fernando Pessoa foi o instrumento usado para deixar a sua marca no mundo. Criar uma nova língua dentro da língua que antes havia. E se outra prova não houvesse, bastaria o facto de esta, e outras frases, do poeta continuarem a ser repetidas mais de setenta anos depois da sua morte.

 

Duvido que os belos bastardos da língua portuguesa se interessem minimamente pelo Acordo Ortográfico, com a sua regra e a sua excepção, com as supostas vantagens comerciais desta normalização forçada. Não precisam, usam a língua portuguesa como pátria, e isso é suficiente. Mia Couto, Luandino Vieira, Ondjaki, Rubem Fonseca; tudo o que eles escrevem é prova dura a superar pelos académicos bafientos que querem impor regras gramaticais e ortográficas ao resto do mundo. José Saramago e seu desengonçado flamenco prova que nada é tão rígido que não possa ser dobrado pelos anos de contacto com outra língua – ninguém poderá recusar o enriquecimento estilístico que as derivações cervantinas que os últimos romances de Saramago trouxeram. Escrever abraçando a música de outra língua abre o leque, balança o swing das mãos sobre as teclas. Há quem ouça música de negros para escrever; talvez eu precise apenas de derrogar por momentos a autoridade do meu português num longínquo gingar brasileiro para que todo meu pensamento se mova e se contorça, perca a palidez da normalidade.

 

A questão é simples: queremos uma língua pura ou uma língua mestiça? A resposta é um pouco mais complexa do que poderia parecer. O Acordo visa normalizar a mestiçagem da língua. E isso, parece-me bem claro, é um paradoxo. Nenhuma norma poderá obrigar um português a escrever como um brasileiro ou um angolano, e vice-versa. A mestiçagem é um fenómeno livre, o cruzamento de influências um fluxo libertário que não deverá ser constrangido. Ao defender isto, não colocamos em causa a existência de uma gramática. Ela existe, é verdade, e deverá existir, sobretudo para não ser respeitada. A tradição literária contemporânea vive desta liberdade. O uso de coloquialismos, calão, gíria de bandidos, é traço comum em muitos autores brasileiros actuais e começa a ser também em alguma literatura portuguesa. A invenção passa por aqui; e mesmo que continuemos a admirar o divino português do Padre António Vieira, as duas coisas não são incompatíveis: basta pensar nos diálogos nos filmes de João César Monteiro para se perceber isto.

 

A única posição esteticamente correcta nesta questão é esta: promover uma gramática comum a todos os países de língua portuguesa, na esperança de que esta seja continuamente desrespeitada por quem escreve e fala, contribuindo deste modo para que a língua portuguesa seja uma coisa viva, em permanente evolução, como qualquer língua deve ser. Se esta posição for a que vingar, não se duvide de que será o único modo de combater o predomínio da língua inglesa no actual mundo globalizado.

 

(Escrevi parte deste texto em 2008. Alterei algumas referências desactualizadas. Não mudei de opinião.)


por Sérgio Lavos
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