Segunda-feira, 31 de Outubro de 2011
por Bruno Sena Martins

A aceitação da Autoridade Palestiniana como membro da UNESCO, esta tarde, em Paris, provocou ondas de choque. A vitória palestiniana está a ser vista como uma derrota de Israel e dos Estados Unidos. Washington anunciou a suspensão do seu financiamento a esta agência da ONU, cerca de 60 milhões de dólares, já em Novembro.

 

 P.S. Portugal absteve-se na votação.


por Bruno Sena Martins
link do post | comentar | ver comentários (13) | partilhar

por Sérgio Lavos

Afinal, é ou não é ridículo o Primeiro-Ministro andar de país em país a vender Magalhães? Afinal, é ou não uma vergonha o Ministro dos Negócios Estrangeiros andar a negociar com "ditadores"? Os blogues do costume que me elucidem, se faz favor.


por Sérgio Lavos
link do post | comentar | ver comentários (16) | partilhar

por Daniel Oliveira

 

Andamos todos a falar das reformas vitalícias dos políticos. Assunto interessante e simbolicamente revelador da ausência de ética de uma parte (e não de toda) da nossa classe política. Mas, se me é permitido, acho que se falha no ponto. E que esta indignação compreensível pode acabar por servir como cortina de fumo para esconder o que realmente nos devia escandalizar. Não é no que os políticos recebem em reformas - medido em poucos milhares de euros - que encontramos o assalto feito ao Estado e aos seus recursos. É nas políticas que estes políticos impõem ao país. No preço que pagamos por elas. E na recompensa que os decisores recebem por desprezar de forma tão grosseira o interesse público.

 

Aconselho, por isso, a leitura de "Como os políticos enriquecem em Portugal", do jornalista António Sérgio Azenha e prefaciado por Henrique Neto. Pego aqui apenas nos números recolhidos junto do Tribunal Constitucional e reproduzidos neste trabalho de investigação. Deixo para um outro texto a análise mais pormenorizada do envolvimento destes ex-governantes em decisões concretas que podem explicar o interesse do sector privado por eles. Pego em apenas seis exemplos dos 15 analisados.

 

Joaquim Pina Moura ganhava, em 1994, 23 mil euros por ano. Entrou no governo e os seus rendimentos mais do que duplicaram. Natural, as suas responsabilidades também. Mas foi depois de sair da política que mudou de vida. Em 2003, um ano depois de sair do governo, ainda só recebia 172 mil euros por ano. Mas, em 2006, já como presidente da Iberdrola (depois de ter a pasta da economia, onde tomou decisões fundamentais para as empresas de energia), os seus rendimentos anuais eram de 700 mil euros por ano. Em doze anos aumentaram 2956%.

 

Jorge Coelho recebia 41 mil euros por ano, em 1994. Quando ocupou cargos executivos, passou a receber menos do dobro. Saiu em 2001 do governo. No início, a coisa não se sentiu muito. Só mais cinquenta mil euros por ano. Mas, passados uns anos, em 2009, já recebia 710 mil euros por ano, à frente da Mota-Engil. Isto, depois de ter sido ministro do Equipamento Social. O ministério que tratava dos negócios com as construtoras. Em 14 anos, o seu rendimento aumentou 1604%.

 

Armando Vara recebia 59 mil euros por ano em 1994. No governo, aumentou um pouco. Chegou aos cem mil euros em 2000. Saiu do governo e, inicialmente, ficou a perder. Mas só no primeiro ano. Subiu um pouco até 2004. Em 2007, já recebia 240 mil. Em 2009, 520 mil. E em 2010, como administrador do BCP - depois de estar, por nomeação política, na administração do banco do Estado -, 822 mil euros. Em 16 anos, os seus rendimentos aumentaram 1282%.

 

Não se sabe quanto recebia Dias Loureiro antes de ocupar cargos governativos. Não era, na altuea, obrigatória essa declaração. Mas sabe-se que estava muito longe de ser um homem abastado. Como ministro recebia, em 1994, 65 mil euros. Em 2001 já recebia 861 mil euros. Os seus rendimentos caíram depois. Já o que custou ao País, como se sabe, mede-se em muitos zeros à direita. Em sete anos, os seus rendimentos aumentaram 1225%.

 

Fernando Gomes recebia, como presidente da Câmara do Porto, 47 mil euros, em 1998. Como ministro, 78 mil euros. Foi em 2009, na GALP, que se deu uma súbita ascensão social: 515 mil euros anuais. E, no ano seguinte, 437 mil. Em 12 anos, o seu rendimento aumentou 975%.

 

António Vitorino recebia, antes de entrar no governo, 36 mil euros. Como ministro, 71 mil. Depois de sair do governo, 371 mil. Rendimentos que, com altos e baixos, foi mantendo: em 2005, recebia 383 mil euros. Em 11 anos, os seus rendimentos aumentaram 962%. Um caso de súbita competência na advocacia.

 

Aumentos desta amplitude só poderiam ser explicados por extraordinários casos de sorte ou por, como políticos, estes senhores terem revelado invulgares capacidades de gestão. Quando se repete um padrão torna-se difícil falar de sorte. Quanto à competência, cada um fará a avaliação que entender da maioria dos ministros que tivemos. Incluindo os casos referidos. E note-se que na maioria dos casos o currículo anterior à entrada num governo não chegaria sequer para ocupar um lugar de quadro intermédio nas empresas que acabam por dirigir.

 

A verdade é esta: em cargos governativos os ministros criam redes de contactos. Muitas delas alimentadas pelas decisões que tomaram e que lhes garantiram a simpatia de futuros empregadores. Fosse o contrário e dificilmente franqueariam as portas dos maiores grupos económicos.

 

Nunca devemos esquecer o caso de Joaquim Ferreira do Amaral que, depois de negociar a ruinosa parceria para a construção e exploração da ponte Vasco da Gama, foi dirigir a empresa concessionária, a Lusoponte. Em 15 anos, aumentou os seus rendimentos anuais em 328%. Ainda assim um número humilde, quando comparado com alguns dos seus colegas. Há casos como os de Armando Vara ou Fernando Gomes, em que é o seu partido a colocá-los diretamente nas empresas, sejam elas privadas, públicas ou com participação do Estado. Há outros em que se dedicam ao puro tráfico de influências. E outros em que recebem a recompensa do dinheiro que fizeram o Estado perder em favor de interesses privados.

 

Os nossos políticos não são nem mais nem menos honestos do que os de outros países. Como sempre, é a ocasião que faz o "ladrão". O problema é estrutural. E ele tem a ver com uma cultura de promiscuidade entre as empresas privadas e o Estado. Que tem dois sentidos. Um Estado permeável a todas as pressões - veja-se o tratamento de exceção fiscal que continua a ser dado à banca - e um sector empresarial pendurado no Estado. Se lermos os contratos das Parcerias Público-Privadas - recomendo mais uma vez a leitura de "Como o Estado gasta o nosso dinheiro", do juíz do Tribunal de Contas Carlos Moreno - e se analisarmos os processos de privatizações (sobretudo a de empresas que detêm monopólios naturais), percebemos como a nossa elite económica mantém a sua tradicional cultura rentista. Nunca quiseram menos Estado. E não é agora que o vão querer. Querem é o Estado fraco, permeável a pressões e anorético para os cidadãos.

 

Em tempo de vacas magras isto vai piorar. Se há menos para distribuir ficarão eles com tudo. Razão pela qual, mais do que estar atento às moralmente escandalosas - mas insignificantes para os valores de que falei neste texto - reformas dos políticos, devemos estar atentos às decisões que eles tomam. E não nos deixarmos perder com o acessório. O dinheiro que perdemos agora não será pago a quem nos rouba em reformas ou mordomias do Estado. Será pago com salários milionários em grupos empresariais privados para quem vende a nossa democracia em troca de carreiras interessantes. Os nomes destas pessoas interessam. Mas interessa mais saber o que torna isto possível.


por Daniel Oliveira
link do post | comentar | ver comentários (54) | partilhar

por Miguel Cardina

 

Depois de Debtocracy, vem aí Catastroika - um filme sobre os processos de privatização, os seus custos e os seus efeitos. É feito por gregos mas é como se fosse feito por nós.


por Miguel Cardina
link do post | comentar | ver comentários (3) | partilhar

por Sérgio Lavos

Eu poderia dizer que o desnorte tomou conta do Governo. Ou que este secretário de estado da juventude e do desporto, José Miguel Mestre, andou a fumar coisas esquisitas. Mas o pior é que ele aconselhou mesmo, com toda a seriedade, os jovens a emigrar. Este Governo tem uma ideia fixa: destruir o país que nasceu do 25 de Abril. Nem que para isso tenha de queimar tudo em volta, uma bela purga que apenas vai deixar por cá os puros e os pobres temerosos. Aquela ideia de que o Governo deve servir os interesses do povo faliu. Definitivamente. A ponto de aconselharem o povo, ou pior, aqueles que construirão o futuro do país, a abandonar o barco. Agora, venha o diabo e escolha: eles servem, ou os interesses do capital ou uma ideologia neoliberal tresloucada. No final, irá dar ao mesmo: regressaremos à década de 50. 


por Sérgio Lavos
link do post | comentar | ver comentários (39) | partilhar

Sábado, 29 de Outubro de 2011
por Sérgio Lavos

 

O vídeo do mais recente single ("My Machines") do álbum "Gloss Drop", dos Battles, parte de uma ideia simples: o que é que aconteceria se um homem caísse numas escadas rolantes e não se conseguisse levantar? O resultado final é excelente. O realizador é Daniels. Mais pormenores sobre o vídeo aqui. E a música tem o extra de voltarmos a ver Gary Numan, trinta anos depois do seu auge artístico.


por Sérgio Lavos
link do post | comentar | ver comentários (5) | partilhar

por Sérgio Lavos

 

A história contada por Julian Barnes em The Sense of an Ending (que vai ter o título em português de O Sentido do Fim*) é uma história de enganos e descobertas. Reencontrar o fio perdido de uma memória de juventude, de um acontecimento que surpreendeu e marcou um grupo de amigos, em particular o narrador do livro, Tony Webster. O avanço da narrativa faz-se na incerteza. O narrador não sabe o que aconteceu, nem porquê, e vai descobrindo à medida que o leitor descobre. A técnica usada não é especialmente inovadora mas é eficaz a vários níveis: serve a ideia da história e conduz o leitor a um caminho de percepções erradas e ideias construídas e desfeitas, um caminho em que o equívoco pode levar ao desastre e actos impulsivos à tragédia. 

 

O tema do romance evoca Expiação, de Ian McEwan, no seu pressuposto narrativo, mas a resolução do problema acaba por ser diferente em Barnes. Enquanto McEwan investe no pathos, criando uma personagem, Briony, cujo lastro de culpa que um acto ingénuo, uma errónea interpretação da realidade - normal numa criança de 12 anos - leva a um desespero apenas mitigado pela doença da esquecimento, Tony acaba por ser apenas um peão do destino, e o conhecimento tardio das razões que levaram ao suicídio de Adrian, o amigo de juventude, é um fantasma que o assombra - e assombrará, dado que o livro termina no vazio; da vida de Tony, a conclusão de um percurso de passividade e desistência. A aceitação da calma burguesa, que contradiz os ideais de uma juventude forjada nos swinging sixties, é o espelho invertido do brilhantismo de Adrian, derrotado pelo seu próprio tumulto.

 

As frases elegantes, a cadência realçando o modo como o narrador olha para o mundo, o domínio perfeito do suspense que qualquer boa história deverá exibir, fazem deste livro um cúmulo na obra de Barnes, que acabou por ser premiado com o Booker. Se mereceu ou não, pouco interessa; o resultado final oferece-nos algumas perfeitas horas de leitura, e isso é suficiente.

 

 

*Não concordo com esta tradução. Literalmente, poder-se-ia traduzir por "A sensação de um fim" ou, mais livremente, "O sentimento de um fim". É esse o significado da expressão. Mas é claro que Barnes também tentou dar outra dimensão ao título, e neste caso a palavra "sentido" parece bem aplicada. Contudo, o artigo usado em inglês é o indefinido, "an" e não o definido, "the". E quem lê o romance (ou novela) percebe que "fim" é usado no sentido de "closure", resolução. O enigma de um suicídio, a razão que vai para lá da frase de Camus. A grandiloquência da solução encontrada não se justifica.

 

 

Nota: a capa da edição portuguesa (da Quetzal, a sair em meados de Novembro) não é totalmente falhada. Mas por que é que não usaram a da belíssima edição original? Mistérios...

 

 

(Publicado originalmente no Auto-retrato.)
tags:

por Sérgio Lavos
link do post | comentar | partilhar

Sexta-feira, 28 de Outubro de 2011
por Andrea Peniche

No dia 28 de Outubro de 1989, um bando nazi de cabeças-rapadas assassinava José Carvalho à porta da sede do PSR, onde decorria um concerto antimilitarista. Faz hoje 22 anos.

 


por Andrea Peniche
link do post | comentar | ver comentários (3) | partilhar

por Daniel Oliveira

 

 

"Client 9", de Alex Gibney, que vi ontem no DocLisboa, é um documentário obrigatório para perceber corredores da corrupção moral do poder. Eliot Spitzer foi, durante sete anos, procurador-geral de Nova Iorque. Implacável com os crimes de colarinho branco, processou farmacêuticas ou indústrias poluidoras. Mas foi quando se meteu com os tubarões de Wall Street que marcou o seu destino. Antes de tudo o que sabemos hoje, Spitzer foi atrás das fraudes da AIG e do Bank of America. Tentou acabar com os ordenados e cláusulas de rescisão milionárias do diretor-geral da Bolsa de Nova Iorque, pondo em causa o poder de magnatas de Wall Street, como Kenneth Langone. Ou seja, tentou, com os seus pequenos poderes, pôr ordem na selva financeira. E, tendo em conta o cargo que ocupava, conseguiu vitórias extraordinárias que deixaram Wall Street em pânico. E inimigos poderosos que não disfarçavam a vontade de vingança. Quem se julgava este homem para querer impor a lei a quem paga as campanhas de quem as faz?

 

Com uma enorme popularidade entre os nova-iorquinos, Spitzer chegou a governador do Estado. Em Albany, encontrou um dos mais corruptos corpos legislativos dos EUA. E também aí fez poucas amizades. O seu estilo truculento, a sua pouca habilidade negocial e algum voluntarismo excessivo terão ajudado pouco. Mas com isso sabe o poder instalado lidar. O que não aguenta, o que é intolerável, é um homem que junte à honestidade coragem.

 

Só que Spitzer é um homem. Imperfeito e incoerente, como todos os homens. A sua fraqueza foram as incursões aprostitutas de luxo. O que Spitzer não imaginava, na sua ingenuidade, é que a partir do momento em que pôs em causa homens tão poderosos como o CEO da AIG, Maurice Greenberg, ou o anterior diretor-geral da Bolsa de Nova Iorque, Richard Grasso, levando à demissão dos dois, ou quando tornou público o que andava esta gente a fazer com o dinheiro dos investidores, teria de passar a ser mais do que perfeito. Ele era um alvo à abater. E mais tarde ou mais cedo escorregaria e seria abatido. Era só ter paciência e meios. O que poderia faltar da primeira sobrava da segunda.

 

E é aqui que o documentário se torna interessante. Como a justiça federal ganha um súbito interesse por uma pequena agência de escort e mobiliza meios nunca vistos para uma investigação aparentemente insignificante. Sendo esse interesse impulsionado pelos mesmos homens que, no sistema judicial, sempre tentaram travar as anteriores investigações de Spitzer e que, se tivessem ido mais longe, poderiam ter impedido a crise financeira internacional em que estamos mergulhados. Como foi desenterrada uma qualquer lei que pudesse, de alguma forma, justificar aquela enorme investigação. Como, sem nunca realmente Spitzer ter sido formalmente acusado, tudo foi sendo soprado para a comunicação social. Como os tabloides ligados à direita americana foram usados como instrumento para destruir este atrevido. Como barões da finança e corruptos locais se juntaram para tão edificante tarefa. Para que ele servisse de exemplo para quem alguma vez lhe quisesse seguir os passos.

 

A maioria dos cidadãos, puritanos ou apenas ingénuos que procuram heróis perfeitos em vez de quem, com os seus defeitos e pecados, os represente e lute por eles, achava que só restava Eliot Spitzer a demissão. Muitos deles estão hoje desempregados, sem casa e na miséria. Porque a política e a justiça não fizeram o que este homem tentou começar. Eliot Spitzer foi incoerente? O próprio o afirma e não responsabiliza ninguém, a não ser ele próprio, pela sua queda. Foi a sua desvantagem em relação aos inimigos que ganhou para a vida e que festejaram ruidosamente a sua queda. Com padrões morais inexistentes, é fácil, para eles, manter a sua coerência. E enquanto os que sofrem todas as consequências dos seus atos exigirem a perfeição a homens que apenas tentam ser sérios e corajosos serão os corruptos a decidir os nossos destinos. Se somos implacáveis com os melhores, porque deles esperamos tudo, e benevolentes com o esgoto, porque dele nada esperamos, é com o esgoto que viveremos.

 

Publicado no Expresso Online


por Daniel Oliveira
link do post | comentar | ver comentários (22) | partilhar

Quinta-feira, 27 de Outubro de 2011
por Sérgio Lavos

 

"Presidência da República no Paraguai com comitiva de peso.

 

Enquanto Passos Coelho se faz acompanhar de quatro pessoas, Cavaco Silva leva 23 para uma cimeira de dois dias.

 

Se a importância que os nossos governantes dão aos países que lhes cabe visitar se medisse pela dimensão da comitiva que os acompanha, ficaríamos a saber que a 21.a Cimeira Ibero-Americana, que decorre entre os dias 27 e 28 de Outubro, em Assunção, no Paraguai, é muito mais importante para o Presidente da República que para o primeiro-ministro ou para o chefe da diplomacia, Paulo Portas. Enquanto Pedro Passos Coelho leva consigo quatro pessoas, incluindo segurança, Aníbal Cavaco Silva arrasta atrás dele um séquito de 23, no qual se incluem mordomo e médico pessoal. O Presidente, que se eternizou na célebre frase “Ninguém está imune aos sacrifícios”, já tinha suscitado consternação aquando da visita aos Açores em Setembro, por se ter feito acompanhar de uma comitiva de 30 pessoas, entre as quais estavam o chefe da casa civil e sua esposa, quatro assessores, dois consultores, um médico pessoal, uma enfermeira, dois bagageiros, dois fotógrafos oficiais, um mordomo e 12 agentes de segurança. Numa altura em que os portugueses são diariamente chamados a acreditar nas garantias consoladoras de dificuldades justamente partilhadas e convidados a aceitar cortes, inevitável emagrecimento e até empobrecimento, eis que o chefe de Estado português aterra no Paraguai amanhã, depois de uma escala no Brasil, com o equivalente a duas equipas de futebol, com custos que, contabilizados ao nível do cidadão comum, e só no que diz respeito ao preço dos voos, são de 7500 euros por pessoa para um bilhete de ida e volta em classe executiva e 1870 euros em classe económica. A participação na Cimeira Ibero-Americana foi acordada aquando da passagem por Lisboa do secretário-geral ibero-americano, Enrique Iglesias, que na altura disse estar empenhado em garantir que Portugal se fazia representar em Assunção pelo Presidente da República Portuguesa, pelo chefe do executivo e pelo ministro dos Negócios Estrangeiros. Antes de aterrar no Paraguai, Cavaco Silva e Passos Coelho farão uma escala de menos de 24 horas no Brasil, onde, porém, não chegarão a cruzar-se. O objectivo: impulsionar os investimentos entre Portugal e o Brasil. (...)"

Resto da notícia no jornal I. Que jornalismo é este, que decide ventilar o que os assessores do Governo escrevinham? Tudo o que está a vermelho não é notícia; é pura opinião, ao nível rasteiro do taxista ou do comentador anónimo de blogues. Independentemente do despesismo de Cavaco ou da poupança de Passos Coelho. E não nos esqueçamos de que estas guerras entre os gabinetes do Governo e os da Presidência também são pagas por nós. A peso de ouro, recebido pelas dezenas de assessores que gravitam na órbitra do poder. 

 

(Via Câmara Corporativa). 


por Sérgio Lavos
link do post | comentar | ver comentários (11) | partilhar

por Miguel Cardina
Ouvir banqueiros circunspectos a perorar muito seriamente contra o desregramento consumista dos portugueses nos últimos anos.

por Miguel Cardina
link do post | comentar | ver comentários (11) | partilhar

Quarta-feira, 26 de Outubro de 2011
por Pedro Sales

Os políticos devem dar o exemplo. É impossível não ligar a televisão, a rádio ou ler um jornal sem tropeçar nesta afirmação. Devem liderar o campeonato dos cortes de direitos, da diminuição de salário, do fim dos subsídios. Aplicar todos os programas de austeridade num pacote único, mas mais forte.

 

Marcelo Rebelo de Sousa, no seu tempo de antena dominical, diz que estes devem perder metade do seu rendimento. Pouco importa que, nos últimos 12 meses, já tenham visto o seu salário diminuir cerca de 15% e agora tenham ficado sem subsídio de natal e de férias. Não chega. Só assim, diz Marcelo e mais um sem número de comentadores, a população vai aceitar e compreender as medidas. Desculpem? Quando os políticos derem "o exemplo" definitivo, e receberem todos menos de 1000 euros, já é aceitável colocar o salário mínimo nos 300? É essa a definição de “ética na austeridade”? A história "do exemplo" como atenuante moral da austeridade é só isto: demagogia populista contra a democracia e apologia da austeridade permanente. Para todos, claro.

 

“Curiosamente”, um dia depois de ter sido publicada a notícia referindo a acumulação das pensões extraordinárias a que os políticos tiveram direito até 2005, já CDS e PSD anunciavam ter uma proposta para o assunto. Em tempos de crise, e de cortes a torto e direito, nada como malhar nos políticos para distrair as atenções. Embarcar nesta onda, por muito justo que seja o fim de um caso concreto como o da acumulação de uma pensão extraordinária quando ainda se está a trabalhar, tem os seus custos. E desengane-se quem julga que ficarão todos no quintal do vizinho. Quando não virem o subsídio de natal, ou repararem que Portugal passou a ser o país europeu que menos investe na educação, lembrem-se como é que se foi entretendo a discussão no espaço público.


por Pedro Sales
link do post | comentar | ver comentários (13) | partilhar

por Daniel Oliveira

 

Fotografia tirada por uma amiga, no Banco Invest, Rua Barata Salgueiro, em Lisboa


por Daniel Oliveira
link do post | comentar | ver comentários (35) | partilhar

Terça-feira, 25 de Outubro de 2011
por Bruno Sena Martins


por Bruno Sena Martins
link do post | comentar | ver comentários (34) | partilhar

por Bruno Sena Martins

 

Villas-Boas recebeu o Dragão de Ouro.


por Bruno Sena Martins
link do post | comentar | ver comentários (39) | partilhar

por Daniel Oliveira

 

Muito se tem falado das mordomias de políticos e ex-políticos. Os subsídios imorais que mantêm. A forma súbita como alguns enriquecem depois de saírem do governo. A revolta dos cidadãos com estes casos pode ser natural, positiva, perigosa, míope ou hipócrita. Ou tudo isto ao mesmo tempo.

 

É natural porque os mesmos que nos exigem sacrifícios, que roubam o 13º mês e o subsídio de férias aos funcionários públicos, que falam das "gorduras do Estado", que aumentam impostos e que, com as suas medidas, destroem o nosso futuro, se isentam sempre a si próprios de qualquer esforço.

 

É positiva porque revela que, apesar de tudo, as pessoas ainda têm a capacidade de se indignar com o que é indigno. Que ainda não desistiram deste País. Que não estão completamente anestesiadas.

 

É perigosa porque demasiadas vezes beneficia o infrator. Pondo todos os políticos no mesmo saco acaba por absolver quem se aproveita da política para interesse próprio. E muitas vezes alimenta e alimenta-se de um discurso contra o papel social e económico do Estado. Um poder político desacreditado é um poder político frágil. Os interesses privados agradecem a sua fraqueza.

 

É míope porque trata o sintoma como se fosse a doença. A nossa democracia foi sequestrada. Comprada pelo poder do dinheiro. O mais grave assalto ao que é de nós todos não são estas "curiosidades". Isto são trocos. Ele é evidente no tratamento fiscal de exceção à banca. Ou quando Ricardo Salgado se dirige à sede do governo horas antes de Pedro Passos Coelho apresentar o Orçamento. Ou nas Parecerias Público-Privado, sempre ruinosas para o Estado e lucrativas para quem dele se aproveita. Ou nos ministros que saltam de empresas para ministérios - para a saúde, Coelho hesitou entre Isabel Vaz, presidente do BES Saúde, e Paulo Macedo, fundador da Médis - e de ministérios para empresas - Jorge Coelho na Mota-Engil, Ferreira do Amaral na Lusoponte. Ou nos ex-políticos que se dedicam, depois de abandonarem as suas funções, ao tráfico de influências económicas junto do poder político. Ou nos financiamentos de empresários a partidos - apesar do financiamento público ser o bombo da festa, não se percebendo que o que se pouparia aí sairia muito mais caro nos favores que os "mecenas" receberiam em troca. Ou nas privatizações de monopólios a saldo que se preparam. Ou no financiamento público a colégios privados no mesmo momento em que se fazem cortes violentos na Escola Pública. Tudo sintomas da mesma coisa: um Estado que é refém do poder económico. A democracia roubada aos cidadãos. Não falta quem tenha bom remédio: menos Estado ou até menos democracia. É como dizer que a melhor forma de atacar um enfisema é arrancar o pulmão ao paciente.

 

É hipócrita porque muitos dos que se revoltam são os primeiros a demitir-se das suas obrigações de cidadão. Se há eleições, não votam porque "eles querem é poleiro". Se há uma greve, nem querem saber porque "a minha política é o trabalho". Se há um protesto, devemos é ficar quietos que isso nunca dá em nada. Indignados sem causa, comportam-se como clientes maldispostos. Como se a democracia fosse uma coisa de políticos. Como se não fossem elas próprias a ter de a defender. E, quando votam, não hesitam em eleger homens como Isaltino Morais ou Alberto João Jardim. A qualidade da nossa democracia é um espelho do que nós somos.

 

Ontem vi, no DocLisboa, um documentário sobre a revolta egípcia. No início, alguns dos que arriscaram a vida naPraça Tahrir queixavam-se da apatia e do medo da maioria dos seus compatriotas. Da sua mesquinhez. Da sua indiferença. Ao fim de trinta anos de ditadura e corrupção, foi preciso a crise bater à porta para que o povo se revoltasse. E, afinal, o que parecia improvável aconteceu. O poder desmoronou-se sem um tiro. Foi preciso que uns tarados corressem todos os riscos para que os restantes acordassem.

 

Na verdade, tudo era mais fácil ali do que numa democracia. Ali queriam conquistá-la. Aqui, temos de cuidar dela.Ali só havia esperança. Aqui há desencanto. Ali o inimigo tinha um nome. Aqui nem se sabe bem quem ele é. Mas num e noutro caso, nenhum poder corrupto sobrevive sem a demissão do seu povo. Acham que a nossa democracia foi capturada? Libertem-na! Não é preciso ficar à espera que apareça um salvador. Ele não existe. Só que para correr o risco de assumir uma posição é preciso empenhamento e compromisso. A saúde da nossa democracia não está à distância de um e-mail com muitos pontos de exclamação. Eles só servem de alguma coisa se corresponderem a um pouco mais. Felizmente, não faltam neste País heróis anónimos e generosos que nunca desistiram. No seu bairro, no seu local de trabalho, na sua associação, no seu sindicato. Esses, e não indignados inconsequentes (mesmo que cheios de razão), são a esperança da nossa democracia.

 

A revolta contra quem se serve da política para amealhar uns trocos é justa. Ainda mais em tempo de crise. Masnão é, não pode ser, um programa político. Falta-lhe o programa. Mas, acima de tudo, falta-lhe a política.

 

Publicado no Expresso Online


por Daniel Oliveira
link do post | comentar | ver comentários (47) | partilhar

Segunda-feira, 24 de Outubro de 2011
por Sérgio Lavos

 

O Grande Mestre e mentor de Passos Coelho, Ângelo Darth Sidious Correia, já veio dizer que se solidariza com os cidadãos que vão ficar sem subsídios de férias e de Natal (sinto-me tocado por tal gesto altruísta), mas que se recusa a prescindir da subvenção vitalícia, porque é um "direito adquirido". Impressionado - e comovido - por tal repentino assomo de esquerdismo, fui procurar confirmação ao blogue mais bem informado do momento e claro, descobri um texto muito interessante, por sinal publicado no órgão oficial dos seus novos compagnons de route, o Avante, no qual Ângelo Correia afirma que, cito e abro aspas, "os direitos adquiridos são uma burla". Portanto, Sidious Correia revela ao mundo que se prepara para burlar o Estado português, ao não abdicar do seu "direito adquirido". Será que a PJ costuma ler jornais e ouvir rádio? O anúncio de um crime não é assim uma coisa tão comum. Aproveitem!

tags: ,

por Sérgio Lavos
link do post | comentar | ver comentários (33) | partilhar

por Sérgio Lavos

E que se lixem os doentes.


por Sérgio Lavos
link do post | comentar | ver comentários (20) | partilhar

por Daniel Oliveira

 

 

Alguma esquerda revolucionária procurava amigos fora do bloco soviético e ocidental. Uns encontraram na China, mesmo depois do horror da revolução cultural. Outros na Albânia, uma espécie de caricatura miserável do bloco socialista. Outros em figuras como Che Guevara, que só muito recentemente passou a ser um ícone para o comunismo ortodoxo - antes era tido como um aventureiro irresponsável. E outros, ainda mais perdidos do que todos estes, maravilharam-se com a retórica basista e o sonho pan-arabista do senhor Kadhafi. A procura de uma qualquer boia política valia mais do que o atroz sofrimentos dos líbios.

 

 

O apoio de Kadhafi à OLP, depois da guerra do Yom Kippur, fez com que merecesse simpatias mais alargadas à esquerda. Depois dos bombardeamentos dos EUA a Tripoli e a Bengazi e da suspeita de envolvimento da Líbia no atentado de Lockerbie, o Ocidente deu atenção a esta figura burlesca. Passou a ser visto como o pior dos ditadores. O mais perigoso. O inimigo. Durante pouco tempo, claro. Porque outros inimigos que antes foram aliados ocuparam, à vez, esse lugar. Fossem eles Sadam ou Bin Laden. Os ditadores só são terríveis quando nos atingem a nós. A esquerda automática funcionou como um espelho. Seguiu sempre aquela velha máxima de que o inimigo do nosso inimigo é seguramente nosso amigo. De um lado e do outro, os líbios, mais uma vez, não interessavam para nada. A Líbia era apenas uma peça da guerra fria. E as pessoas tinham a guerra fria dentro das suas próprias cabeças. Os povos das ditaduras pró-americanas ou pró-soviéticas, anti-capitalistas, ou anti-comunistas, eram irrelevantes.

 

 

Caiu o muro de Berlim mas não caiu Kadhafi. Não caíram, em geral, as ditaduras árabes - a maioria delas pró-ocidentais. Os ditadores árabes estavam sentados em petróleo e mais vale um facínora que já se conhece bem do que um outro qualquer que chegue de novo. Bastou um piscar de olho e a Europa e os EUA passaram a ver Kadhafi de uma forma completamente diferente. Terão até descoberto sinais de abertura política. O louco passeou-se pelos salões dos poderes do Mundo, acampou nos relvados das capitais europeias, financiou campanhas de políticos de direita e foi recebido sempre de braços abertos enquanto se destruía o Iraque em nome da "democracia árabe". Havia muitos negócios a fazer. Como sempre, os líbios que se lixassem.

 

 

Até que o dominó das tiranias árabes começou a cair. Pelas mãos dos seus povos, como deve acontecer. Primeiro a de Ben Ali, na Tunísia. Um bom amigo do Ocidente com assento na Internacional Socialista. Depois a de Mubarak, no Egito. Um "moderado" que foi ajudando Israel a manter os palestinianos fechados no seu gueto. E vieram as revoltas no protetorado americano do Iémen, no regime anti-americano sírio e em vários Estados "amigos" da Península Arábica. O lado de que estavam da barricada nunca foi mais do que um jogo. Ditadores mais ou menos brutais. Mas todos ditadores. E todos prontos para fazer negócios. E todos aceitáveis, se estivessem do lado certo, até ao momento em que se percebeu que iriam mesmo cair.

 

 

Na Tunísia, no Egito e na Líbia o Ocidente "descobriu" em minutos o que os tunisinos, egípcios e líbios sempre souberam: que aqueles países viviam há décadas debaixo das patas de terríveis tiranos. Independentemente da máscara ideológica que usaram antes e depois do fim da Guerra Fria. Independentemente de serem "moderados" ou "radicais". E poucos sabiam melhor de tudo isto do que os americanos e os europeus (ex-colonos de muitos destes países). Sabiam porque se alimentaram da brutalidade e da corrupção destes ditadores. Protegeram grande parte deles. Foram seus aliados ativos contra a liberdade daqueles povos.

 

 

Quando foi decidida a intervenção internacional na Líbia concordei. Tratava-se, para mim - sabia bem que não era isso que movia os EUA e a França -, de impedir o massacre de civis que, depois de começada a revolta, seria inevitável. Kadhafi era um criminoso e não hesitaria em provocar um banho de sangue. E esse banho de sangue serviria de exemplo para outros. No Iémen e na Síria, por exemplo. Seria o fim de um processo longo que pode levar à democratização dos Estados árabes - e, conhecendo alguns deles, isso não me podia ser indiferente. Mas o meu apoio - para evitar um mal maior -, não repousava em nenhuma ilusão sobre o futuro papel da Europa e dos EUA nos países árabes. Intervir para controlar o que vem depois e continuar a fazer os negócios sem que a soberania democrática daqueles povos atrapalhe.

 

 

A revolta líbia, por ter apanhado desprevenidos muitos líderes ocidentais, é um dos melhores retratos da hipocrisia ocidental. Em poucas semanas foram tantos a dar cambalhotas que até se sentiu o enjoo aqui em baixo.

 

 

Kadhafi foi, ao longo do seu regime de terror, apadrinhado por demasiada gente para haver estadistas que se possam dar ao luxo de falar do que agora se passou sem sentir vergonha. Pelo menos desta vez tiveram mesmo de se retrair na propaganda que mascara a ganância com a luta pela liberdade e pela democracia. Corajosos? Só mesmo os líbios. Aqueles de que tão pouca gente se lembrou nos últimos quarenta anos.

 

 

Nenhum governo ficou indignado com a forma como o seu ex-amigo foi assassinado? Claro que não. Querem é que todos se esqueçam dele o mais depressa possível. Porque se nos esquecermos dele também nos esquecemos de quem o ajudou. Por cá, ficou uma prova da nossa cumplicidade: mais de mil milhões roubados aos líbios numa conta do nosso banco público.

 

Publicado no Expresso Online

 

 

 

 


por Daniel Oliveira
link do post | comentar | ver comentários (90) | partilhar

Domingo, 23 de Outubro de 2011
por Sérgio Lavos

É de artista. José Manuel Fernandes, um dos donáles habituais do regime de ventríloquos que tomou conta da choldra, vem comparar os generais de Marcello Caetano que aquiesceram e recusaram participar no 25 de Abril com Vasco Lourenço, um dos "capitães" e uma das figuras da revolução, a quem continuamos a dever mais do que alguma vez deveremos a qualquer político que nos governa (ou a JMF, já agora). Ou, dito de outro modo, faz uma analogia entre o regime apodrecido que Marcello Caetano ainda julgava controlar e a democracia que nasceu da revolução que fez cair este mesmo Caetano. Duas questões: os militares portugueses estão a responder ao chamamento do dever e da responsabilidade, perante o verdadeiro assalto à liberdade conquistada que o Governo PSD/CDS tenta ensaiar; e José Manuel Fernandes, e quem pensa por ele, tem medo. Não é preciso acrescentar mais nada.


por Sérgio Lavos
link do post | comentar | ver comentários (23) | partilhar

por Sérgio Lavos

 

Passaram-se dez dias desde que o Orçamento de Estado foi anunciado em directo nos telejornais por Pedro Passos Coelho. Duas horas antes, Ricardo Salgado tinha passado pela reunião do Governo que discutia esse Orçamento. Dez dias - precisamente o tempo que levou a minha profecia a concretizar-se. E não é preciso ser nenhum Professor Karamba para se saber destas coisas tão simples. Os bancos precisam dos nossos subsídios de férias e de Natal, dos nossos impostos, da nossa meia-hora a mais de trabalho. Agora digam comigo: "é um prazer ajudar os nossos bancos, a sodomia passiva é a quintessência do capitalismo financeiro". E depois repetir até que não doa. 


por Sérgio Lavos
link do post | comentar | ver comentários (11) | partilhar

por Sérgio Lavos

Gestores de topo com pensão vitalícia para ex-políticos. São mais de 400 antigos políticos (só não estão incluídos no rol membros do BE) que beneficiam de uma benesse revogada em 2005 pelo Governo PS. Entre eles, um dos padrinhos da nação, Jorge Coelho, e um dos homens da Coelha, Dias Loureiro, que já veio dizer, com o maior desplante do mundo, que não prescindirá da subvenção vitalícia. Recorde-se que estamos a falar de alguém que, se este fosse um Estado de Direito, já teria sido julgado por crimes de colarinho branco que têm custado milhões que saem do bolso dos contribuintes. Há de facto um limite para os sacrifícios dos portugueses.

 

(Miguel Macedo, esse, abdicou do seu subsidiozinho. Mas fê-lo esperneando, que 1400 euros sempre são 1400 euros. Sim, é mesmo légau, o subsídio, e só dele prescinde para não o chatearem mais. É esta a massa de que são feitos os nossos governantes: a legitimidade moral é um conceito alienígena e apenas cedem quando são pressionados pela opinião pública. E sim, claro que num país verdadeiramente democrático ele se teria imediatamente demitido. Assim como José Cesário, que se mantém calado. Como, já agora, continuam os blogues de direita.)


por Sérgio Lavos
link do post | comentar | ver comentários (35) | partilhar

Sábado, 22 de Outubro de 2011
por Bruno Sena Martins
“It gets harder all the time, Bev Shaw once said. Harder, yet easier. One gets used to things getting harder; one ceases to be surprised that what used to be hard as hard can be grows harder yet.”

por Bruno Sena Martins
link do post | comentar | ver comentários (9) | partilhar

por Sérgio Lavos

 

Custaria muito aos jornalistas perguntarem a sua excelência, o Presidente da República, por que razão ele acha que a reestruturação da dívida é uma péssima solução? Quando finalmente parece começar a existir algum bom senso nas decisões dos líderes políticos europeus - há muito que se tinha percebido que a única maneira de não deixar cair a Grécia e o Euro seria o perdão de parte da dívida - Cavaco Silva regressa ao seu jogo de politicazinha interna, de mesquinha perpetuação do poder. Será porque, com a reestruturação da dívida, as pesadas medidas de austeridade do OE 2012 se tornariam ainda mais absurdas? Já agora, que alternativas é que (o agora tão crítico das políticas europeias) Cavaco acha que seriam eficazes no combate à crise das dívidas soberanas?


por Sérgio Lavos
link do post | comentar | ver comentários (21) | partilhar

por Sérgio Lavos

 

O rock português tem vivido nos últimos anos um fulgor que ultrapassa, de certo modo, o dos anos 80, considerada a década de ouro do género em Portugal. Das bandas da editora Flor Caveira e Amor Fúria a projectos que reúnem músicos que vêm da década de 90, tem havido muito por onde escolher; e ouvir. É verdade que na maior parte dos casos, o som está demasiado colado às influências, mas há alguns projectos que têm conseguido ser minimamente criativos, afastando-se do modelo original quanto baste.

 

Mas a música também é também corrente de influências, e um dos maiores prazeres de um melómano (estamos a falar de pop/rock, mas usemos o pretensioso termo) é descobrir acordes antigos em novas músicas, melodias de bandas de que gostamos numa canção de um novo projecto. Os Trêsporcento conseguem ser um objecto musical que cruza as duas particularidades - a criatividade e o gosto por referências acima de qualquer suspeita - de modo significativamente estimulante. Esta é a primeira música deles a rodar intensamente nas rádios, graças à Antena 3, e é retirada do álbum "Hora Extraordinária". É excelente.

 

(Devo evidenciar que o facto do Lourenço Cordeiro, benfiquista dos sete costados, pertencer à banda, não me influenciou minimamente na escrita deste post.)


por Sérgio Lavos
link do post | comentar | ver comentários (5) | partilhar

por Sérgio Lavos

Ui, a burguesia de extrema-esquerda radical. Que educação, que finura. Vão tão baixo que até desdenham das similitudes de um nome com uma profissão proletária. Pior do que um burguês privilegiado de direita, muito pior, é um mimado burguês de extrema-esquerda, a mais baixa espécie ao cimo da terra. Definitivamente, nem chega a ser uma fossa séptica; um autêntico esterco a céu aberto. É com estes que iremos dar a volta ao mais grave ataque (o OE 2012) à democracia portuguesa desde o 25 de Abril? Medo, muito medo...


por Sérgio Lavos
link do post | comentar | ver comentários (49) | partilhar

Sexta-feira, 21 de Outubro de 2011
por Sérgio Lavos

O ministro Miguel Macedo, que segundo fontes seguras pertence ao Governo PSD/CDS que quer endireitar as contas do Estado distribuindo sacrifícios por todos, recebe um subsídio de 1400 euros por morar fora de Braga. Não interessa que também tenha casa em Lisboa, já que a assessoria do ministro afirma ser legal a situação. Ora, para além de legal, eu diria mesmo que a situação é bem légau para o ministro de um Governo fervorosamente anti-despesista como este. Lembram-se do escarcéu que se levantou quando foi revelado que Inês de Medeiros tinha declarado residir em Paris para receber um subsídio? Era só gente indignada nos blogues de direita, espumando de raiva perante a pouca-vergonha. Será que algum desses bloguers criteriosamente histéricos é agora assessor de Miguel Macedo? É mesmo légau, este Governo rigoroso e sério.

 

Adenda: Parece que também há um secretário de estado, José Cesário, a receber este subsídio em situação similar ao Ministro da Administração Interna. O que me deixa estarrecido é o argumento que ele usa em sua defesa: tem "direito de tratamento igual ao de qualquer funcionário da administração pública". Lata é uma palavra suave para descrever o comportamento desta gente. Nojo é a mais correcta.


por Sérgio Lavos
link do post | comentar | ver comentários (25) | partilhar

por João Rodrigues

No início desta semana defendi no Público que com este orçamento todos saberão o que são as “gorduras” do Estado: salários, pensões e bens sociais, da saúde à educação, amputados; a vida de tantas famílias injustamente fragilizada. A acentuação da quebra da actividade económica que se segue transforma a recessão prevista em depressão inevitável e aumenta ainda mais o desemprego. Os planeadores deste empobrecimento desigual, desta desvalorização do salário directo e indirecto dos sectores público e privado, podem tentar cortar a despesa, mas não controlam o défice porque lhes escapa a reacção da economia a uma política orçamental perversa. É esta política de total submissão perante os credores que tem de ser superada pela acção colectiva dos cidadãos empenhados na auditoria e na renegociação da dívida.

 

Em entrevista, João Ferreira do Amaral clarifica a prioridade que resume a economia política da austeridade: “Não me parece que a prioridade do Governo seja o défice público, mas os custos salariais. Está a ser aplicada uma fórmula para ganhar competitividade que passa por gerar desemprego, aumentar o horário de trabalho e flexibilizar a legislação, conseguindo assim baixar o nível geral dos salários. É um modelo que sempre foi discutido, mas nunca foi aplicado com esta dureza. E estou convencido de que não funciona em Portugal (...) As famílias estão demasiado endividadas.”


por João Rodrigues
link do post | comentar | ver comentários (10) | partilhar

por Sérgio Lavos

Assim:

 

"Se a virtude é o motor de um movimento popular em tempos de guerra, o motor desse movimento durante uma revolução é virtude combinada com o terror: a virtude, sem a qual o terror é destrutivo; terror, sem o qual a virtude é impotente. O terror é apenas justiça imediata, severa e inflexível; é portanto uma emanação da virtude; é menos um princípio distintivo do que a consequência natural do princípio geral da democracia, aplicado às necessidades mais imediatas do país... O Governo, numa revolução, é o despotismo da liberdade contra a tirania."

 

O autor destas linhas liderou um comité revolucionário de 27 de Julho de 1793 a 28 de Julho de 1794 que foi responsável pelo guilhotinamento sem julgamento de 1285 pessoas, apenas em Paris. Até ele próprio ser vítima do instrumento preferido do reinado de terror e ter perdido a cabeça. Chamava-se Robespierre.

 

"É preciso desmoralizar o inimigo interno, usando a surpresa, o terror, a sabotagem, o assassínio. Esta é a guerra do futuro."

 

O autor destas linhas chamava-se Adolf Hitler e julgo que toda a gente sabe o que ele fez.

 

tags:

por Sérgio Lavos
link do post | comentar | ver comentários (33) | partilhar

por Daniel Oliveira

Não me parece que a "acampada" em frente à Assembleia da República, depois da enorme manifestação do último fim-de-semana, faça grande sentido. Mas isso é agora indiferente. Deixo-vos o relato de um ataque neonazi aos que, pacificamente, ali ficaram. Sem mais comentários, desnecessários. Deliquentes são deliquentes. 

 

"Um grupo de uma dezena de neo-nazis atacou esta madrugada os activistas que se mantêm em vigília frente à Assembleia da República, em S. Bento. A intervenção da polícia, a pedido dos activistas, impediu consequências mais graves.
… O ataque fascista aconteceu cerca das 00h50 e foi precedido da passagem de um carro com cerca de quatro a cinco neo-nazis que gritaram palavras de ordem, insultos e um deles pela janela do carro fez a saudação fascista.
Cerca de 15 minutos depois, um grupo de uma dezena de provocadores aproximaram-se do local da vigília e começaram a arrancar e rasgar cartazes, proferindo insultos e ameaças, entrando no espaço aos pontapés em alguns dos pertences dos companheiros que ali permanecem desde o passado sábado, Por sorte, não atingiram nenhum dos activistas que ali estavam sentados ou deitados a conversar.
Aos gritos de socorro de algumas das vítimas, agentes da PSP desceram desde a AR e perseguiram os arruaceiros que, quando viram a chegada da polícia, tentaram escapar. Cercados, três dos cabecilhas foram identificados pelos agentes e nem a presença destes os impediu de continuarem com os insultos, ameaças e saudações fascistas.”

 

Mais informação, no Cinco Dias


por Daniel Oliveira
link do post | comentar | ver comentários (45) | partilhar

por Daniel Oliveira

 

Muitos dos que defendiam um tratamento violento para o País estão a chegar lá: a receita da austeridade afasta-nos da solução. Cavaco Silva já se esqueceu da "austeridade digna" de que falava há umas semanas e bramou contra a inequidade fiscal que este governo está a propor - que penaliza os salários mais baixos, os trabalhadores e os funcionários públicos - e a inutilidade de tudo isto se não houver crescimento. Ou então quer que o roubo do 13º mês e subsídio de férias se estenda ao privado. E aí seria só um lunático, pronto para rebentar com a economia ainda mais depressa que o governo.

 

A austeridade não é uma resposta racional a uma situação de aflição. Pelo contrário, ela é, perante o que vivemos, absolutamente irracional. Em Portugal, por exemplo, que tem dificuldade em financiar-se porque a sua economia não dá garantias de gerar recursos para o pagamento da dívida, o maior problema é a falta de liquidez da economia. Falta-nos dinheiro porque não crescemos; porque, com o dinheiro mal distribuído, as famílias não conseguem poupar; porque, com uma moeda demasiado forte, não conseguimos exportar; e porque, depois de destruirmos a agricultura e a indústria, importamos um terço do que consumimos. Sem crescimento, sem investimento e sem uma distribuição de riqueza mais equitativa não saímos deste buraco. E todas as soluções que nos têm sido impostas agravam o problema.Esta austeridade não é nem pragmática nem economicamente rigorosa. É pura ideologia. E para definir essa ideologia foi inventada uma nova palavra que traduz quase na perfeição o tempo que se vive aqui, na Europa e nos EUA: "austeritarismo"*.

 

O austeritarismo confunde-se, na sua fonética, com o autoritarismo. Porque, cedendo à chantagem do sector financeiro para agir contra os interesses dos cidadãos, está a destruir todos os alicerces da nossa democracia. O regime austeritário, como qualquer regime autoritário, vive do medo que ele próprio alimenta. E cria com ele um momento de exceção, onde o que impõe se apresenta como inevitável, permitindo assim que tudo o que era visto como impensável passe a ser possível.

 

Há muito que o sector financeiro não cumpre a função de financiar a economia. Financia-se à custa da economia. Edepois de ter esgotado todos os recursos, quer ir aos restos. Para o conseguir, não dispensa as funções do Estado. A legislativa. Para impor uma revolução social no trabalho, reduzindo o seu custo e libertando assim recursos. E para privatizar as funções sociais do Estado, que correspondem a áreas como a saúde e a segurança social, com enorme potencial de crescimento para o sector financeiro. A fiscal. Para garantir a maior transferência de recursos de que há memória: do trabalho para o capital, do sector produtivo para o sector financeiro e dos cofres públicos para o sistema bancário. E a repressiva. Para limitar a revolta perante o saque.

 

O Orçamento de Estado de 2012 é um excelente exemplo da ideologia austeritária. E é natural que o Presidente desconfie. Tendo tendências autoritárias e acreditando nos atributos redentores da austeridade, ele não é um austeritário. É um conservador. Não é com facilidade que assiste ao voluntarismo experimentalista dos "Amigos de Gaspar". Mas, acima de tudo, sempre teve um extraordinário instinto de sobrevivência. Ao contrário do moço de recados que nos governa, Cavaco Silva tem um passado a defender. A destruição deste País não lhe fica bem no currículo. E em fim de carreira é nisso que os políticos pensam: no legado que deixam.

 

Publicado no Expresso Online

 

*Expressão que o João Rodrigues aqui popularizou. 


por Daniel Oliveira
link do post | comentar | ver comentários (26) | partilhar

Quinta-feira, 20 de Outubro de 2011
por Sérgio Lavos

 

A questão do humanismo, aqui aflorada pela Ana Cristina Leonardo, é essencial em mais uma execução - não neguemos as evidências, Khadafi foi executado - de um ditador árabe. Depois de Saddam, a cuja morte assistimos em directo, e de Bin Laden, de quem não chegámos a ver o cadáver, o déspota líbio, capturado, espancado e assassinado pelos revolucionários. Contudo, se é verdade que não devemos ser ingénuos em relação ao gesto de quem mata Khadafi, também não deveríamos ser no que diz respeito à natureza do acontecimento: ao longo da História, as mudanças de regime raramente acabaram no julgamento dos antigos governantes. A diferença entre passado e presente reside apenas nos meios de registo à disposição. Não há imagens da cabeça de Robespierre nem do corpo de Hitler envenenado, mas de Mussolini resiste no imaginário colectivo a fotografia do seu cadáver dependurado e ensaguentado, acompanhado na morte violenta pela amante e por alguns dos seus próximos. Alguém considera - ou, para todos os efeitos, considerou - que não terá sido feita justiça no caso do fascista italiano? É que, na realidade, a execução de Mussolini não passou de um acto de vingança revolucionária (os julgamentos em tempos de guerra tendem sempre para a farsa encenada). Para um detractor da pena de morte, deverá ser tão deplorável um julgamento seguido de execução pelo Estado como uma execução a frio, sem julgamento. O que muda, então? A imagem em movimento e a actualidade do acontecimento. A imagem de um ditador que durante décadas governou um país perseguindo e matando parte do seu povo é esmagada pela evidência da brutalidade cometida sobre ele. O ditador transforma-se em vítima - ou deveria transformar-se, aos olhos de um verdadeiro humanista. Mas que essa inversão não apague dois factos: que nós, olhando para o ecrã, não estamos lá (apesar de acreditarmos nisso); e que na morte do ditador as vítimas deste não deverão ser esquecidas. É humano, tratar assim um Homem? Não, seguramente. Mas o cérebro primitivo, violento, não condescende em momentos destes. E se falamos de uma turba, de um colectivo, mais facilmente a violência se impõe e domina. E aí não há Razão que salve o ser humano de si próprio.

 

(Recordo dois textos que escrevi a quando da morte de Saddam Hussein. E constato que a minha posição não é exactamente a mesma. Dá que pensar.)


por Sérgio Lavos
link do post | comentar | ver comentários (42) | partilhar

por Sérgio Lavos

 

(Excepto os do costume, claro: os velhos, os novos, os amigos dele e os inimigos dos outros.)


por Sérgio Lavos
link do post | comentar | ver comentários (51) | partilhar

por Miguel Cardina

O MATA convidou-me há dois anos para escrever um texto sobre a praxe, que republico abaixo. É que passeando estes dias pelas ruas vejo que muito pouco mudou. Algumas instituições universitárias têm tido coragem para afrontar estas práticas e o assunto foi tema de um filme que ainda não vi mas espero ver em breve: Praxis, de Bruno Cabral. Mas a realidade continua a passar-nos ao lado, como se estas coisas fossem apenas brincadeiras de pós-adolescentes.

 

O QUE EU PENSO DAS PRAXES

Penso que a praxe integra. Integra a crença de que a humilhação e o arbítrio podem dar lugar a formas salutares de relacionamento. Integra os cânticos boçais e a gesticularia grosseira no complexo das “culturas académicas”. Integra rituais de carácter hierárquico ou punitivo que privilegiam a autosuficiência grupal em detrimento do direito à dissidência ou à timidez. Integra as “tradições” como um valor em si, independentemente dos juízos que sobre elas possamos fazer. Integra uma nebulosa de desconhecimento sobre a origem das tais “tradições”, em regra bastante recentes e “impuras”. Integra o machismo e a homofobia no senso comum. Integra os estudantes numa estranha mistura de irresponsabilidade e elitismo social. Integra a ideia de que brincando à obediência se fomenta a liberdade. Integra a noção chantagista de que “tudo é praxe”, mesmo quando muitas práticas efectuadas em território estudantil ocorrem à margem ou contra aquilo que a praxe pretende integrar. É verdade, a praxe integra. Só falta agora desintegrá-la.

por Miguel Cardina
link do post | comentar | ver comentários (20) | partilhar

por Daniel Oliveira

 

Já muitos devem ter visto este terrível vídeo que corre na Net e que foi divulgado, aqui no Expresso. Num mercado da cidade Foshan, na China, uma menina de dois anos é atropelada por uma carrinha. E o condutor segue o seu caminho, passando de novo sobre ela, com as rodas traseiras. Depois passa outra. A mesma coisa. As pessoas caminham, evitam o corpo e ninguém ajuda. Algumas nem olham com atenção. Como se nada ali estivesse. Uma mulher acaba por arrastar o corpo para fora do caminho e vai-se embora. Será um homem encarregue da recolha do lixo que a socorre, sem a ajuda de ninguém. A repulsa ao ver aquelas imagens recolhidas por uma câmara de vigilância é tal, a náusea e a revolta são tão grandes, que só nos saem insultos de revolta. Podemos recordar que o valor que damos à vida humana e a proteção que garantimos às crianças são recentes. Não são, ao contrário do que pensamos, instintos. São cultura. Mas não chega dizer isto para explicar a redução de tanta gente à pura bestialidade.

 

Lendo os vários artigos que foram escritos por esse Mundo fora, com base nas reações que a cena provocou nas redes sociais chinesas, encontram-se várias explicações para o sucedido. Explicações não são atenuantes. São a única forma de não sermos soterrados pela nossa própria indignação: tentar perceber o que está por trás da barbárie. Uns explicam a estranha indiferença com um corpo de um bebé moribundo com episódios anteriores, em que quem ajudou acabou por pagar as despesas hospitalares. "Quem ajuda alguém assim se não tiver culpa pelo sucedido?" foi o argumento de um juiz para condenar, em 2006, um homem que socorreu uma mulher ferida. Outros pelas leis de trânsito que penalizam mais quem fere do que quem mata. Outros por uma cultura de falta de solidariedade e de coragem que a dantesca "revolução cultural" criou no País e da qual ele nunca se libertou. Outros pela brutal mudança na sociedade chinesa, resultado da sua industrialização repentina, sem que fosse acompanhada por mudanças políticas, o que terá destruturado toda a cultura de um povo. Os chineses são hoje máquinas de produção, tomadas pelo medo e pela luta pela sobrevivência num ambiente que lhes é estranho e hostil.

 

Não conheço a China. Nunca lá fui. Sei que nunca comprei - e não começarei a comprar agora - qualquer tese sobre a maldade inata de um povo. Nem faço de qualquer episódio o começo da caracterização de um povo com mais de mil milhões de pessoas e milénios de história. E sei que houve, neste episódio que chegou até nós, um único dado positivo: milhões de chineses viram estas imagens na Internet. E indignaram-se. E discutiram em que raio de sociedade vivem para que isto seja possível. Para nós é importante.

 

A China, dizendo-se comunista (e do comunismo herdou o regime autoritário e concentracionário), conhece o capitalismo na sua forma mais crua e brutal. Saber o que se passa na China, mas, acima de tudo, ouvir e ler o que os chineses dizem que se passa na China, é questionar o que queremos e o que não queremos que se passe no Mundo. E, de caminho, valorizarmos muitas das coisas que se diz serem insustentáveis na nossa organização social e política. Saber que os chineses o discutem é um sinal de esperança. Para eles, claro. Mas também para nós. Porque nunca poderemos "competir" com uma máquina de produção que não pára para salvar uma criança de dois anos. Não podemos nem queremos.

 

Publicado no Expresso Online


por Daniel Oliveira
link do post | comentar | ver comentários (30) | partilhar

por Bruno Sena Martins

‎"David Cameron gostaria que olhássemos para os dias do Império Britânico com orgulho. Mas na opressão brutal e na ganância ostensiva não há muito que mereça o nosso respeito." Richard Gott, The Guardian [Ler Mais]

 


por Bruno Sena Martins
link do post | comentar | ver comentários (15) | partilhar

Quarta-feira, 19 de Outubro de 2011
por Sérgio Lavos

 

Depois de na semana passada o primeiro-ministro mais despesista desde o 25 de Abril ter alertado o mundo (e a Europa) para o número de circo da dupla Merkel/Sarkozy, agora vêmo-lo queixar-se das bondosas medidas de recuperação do país que o Governo PSD/CDS decidiu incluir no Orçamento de Estado. A evidência da acusação ("corte dos subsídios viola a equidade fiscal") já teve a merecida resposta do co-conspiracionista das escutas de Belém - na realidade, o que Cavaco pretende é proteger a sua reforma de 10000 euros, pois claro, é tão evidente. Há quem ainda vá mais longe e, num súbito assomo de hipermemória, venha recordar os tempos do Cavaco destruidor dos sectores produtivos nacionais (agricultura e pescas à cabeça) ou se insurja, num grito de revolta, contra o silêncio do presidente nos casos da Madeira, das PPP's e das regras de atribuição de pensões. Esta revolta provoca em mim um misto de satisfação (finalmente vejo blogues que não são de esquerda a falar da herança de destruição deixada por Cavaco primeiro-ministro) e de surpresa; não é que bastou uma criticazinha às fabulosas medidas de Gaspar e do seu amigo tenor para que o caldo se entornasse, a tampa saltasse e a paciência se esgotasse a esta gente? Mais calma, meus amigos, mais calma; como se não conhecessem a esfíngica figura, o homem que paira sempre um palmo acima do comum dos mortais, nunca hesitando e raramente se enganando. Que interessa a Cavaco o futuro do país ou o destino do pobre Coelho? O ego fala mais alto, e não é com este Coelho, de quem ele nunca gostou, que a sua imagem será beliscada. O país estará arruinado daqui por três anos; mas, do meio dos escombros, uma figura emergirá para nos iluminar: "Eu bem vos disse, bem vos disse, já em 2011: há limites para o sacrifício dos portugueses..."


por Sérgio Lavos
link do post | comentar | ver comentários (25) | partilhar

por Daniel Oliveira

por Daniel Oliveira
link do post | comentar | ver comentários (22) | partilhar

por Daniel Oliveira

 

Felizmente, longe vão os tempos em que ao se entrar na Universidade já se era "doutor". E que ser "doutor" era uma espécie de título nobiliárquico da República, perante a qual a plebe respeitosamente se vergava com um "senhor doutor" em cada frase. A Universidade, democratizada e aberta a muitíssimo mais gente, perdeu a capacidade de oferecer aos seus estudantes prestígio social. E foi aí que, fora da cidade de Coimbra, começou a inventar-se uma tradição. A tradição académica. Mas até aqui tudo bem. Amigo não empata amigo. Cada um veste os trajes que entender e ninguém tem nada a ver com isso.

 

Compreendo esta necessidade de ritualizar aquele momento da vida. Para muita gente a entrada na Universidade não é uma mera continuação dos estudos. É motivo de orgulho familiar. Resultado de enormes sacrifícios de pais e filhos.No momento em que entram na Academia muitos daqueles caloiros acreditam que conseguiram dar o primeiro passo na sonhada ascensão social. Serei o último a julgar.

 

Bem diferente é a praxe. Também ela pretende dar àquele momento uma importância que não tem. É um ritual de passagem sem qualquer tradição na maioria das faculdades - também elas recentes. Bruno Moraes Cabral acompanhou este momento. Em Lisboa, Santarém, Coimbra, Setúbal e Beja. E fez um documentário que estreia, no DocLisboa, na próxima sexta-feira (Culturgest, Pequeno Auditório, 21h). Chama-se "Praxis", a origem grega da palavra "praxe". Tudo o que filmou foi com autorização dos envolvidos. Ali não está, portanto, aquilo que os próprios podem ver como um abuso ou um excesso. É a versão soft da praxe.

 

O que vemos é uma sucessão de humilhações consentidas - ou toleradas por quem, estando fora do seu meio, não tem coragem de dizer que não. A boçalidade atinge níveis abjectos. Os gritos alarves , a exibição de simulações forçadas de atos sexuais, o exercício engraçadinho do poder arbitrário de quem, por uns dias, não conhece qualquer limite. Tudo isso impressiona quem tenha algum amor próprio e respeito pela sua autonomia, liberdade e dignidade. Mas a questão é mais profunda do que a susceptibilidade de cada um. É o que aquilo quer dizer.

 

Como o documentário não é um mero ato de voyeurismo, mostra-nos o outro lado. Como a esmagadora maioria dos caloiros se sente bem naquela pele. Porquê? Porque, como já disse, aquilo marca o início de um momento que julgam que mudará a sua vida. Mas, acima de tudo, porque os "integra". E não se trata de uma mentira. De facto, naqueles rituais violentos e humilhantes, conhecem pessoas e sentem-se integrados num grupo. Eles são, naquele momento, rebaixados da mesma forma. Não há discriminações. São todos "paneleiros", "putas", "vermes". Na sua passividade e obediência, não se distinguem. Até, quando deixarem de ser caloiros, terem direito à mesma "dignidade" de que gozam os que bondosamente os maltrataram. Aceitam. Porque, como escrevia Jean-Paul Sartre, "é sempre fácil obedecer quando se sonha comandar".

 

Sim, a praxe integra. A questão é saber em que é que ela integra. Porque a integração não é obrigatoriamente positiva. Se ela nivela todos por baixo deve ser evitada a todo o custo. Perante o que é degradante os espíritos críticos distinguem-se e resistem. Não se querem integrar.

 

Ingénuos, supomos que a Universidade deveria promover o oposto: a exigência, o sentido critico, a capacidade de recusar a tradição pela tradição, a distinção. A Academia que aceita o espírito bovino da obediência está morta.Porque será incapaz de inovar, de pôr em causa e de questionar o resto da sociedade. A universidade que, através de rituais (que têm um significado), promove o seguidismo e a apatia, não é apenas inútil para a comunidade. É um problema para o conhecimento e para a cidadania.

 

Mais do que as cenas dignas de muito do telelixo que nos entra em casa, o que impressiona é a relação que a comunidade mantém com aquilo. São raros os que põem em causa tão estúpida tradição sem tradição nenhuma. E é normal. Vemos no documentário como as estruturas universitárias - corpo diretivo e docente - não só toleram como promovem a boçalidade. As autarquias emprestam meios. As empresas de bebidas patrocinam. E até membros do clero vão lá benzer a coisa, perante jovens de caras pintadas ou com penicos na cabeça. Não se trata apenas de um momento de imbecilidade de alguns jovens e adolescentes. Porque é aceite por todos, porque é mesmo assim que as coisas são, foi institucionalizada e parece ser vista por todos como um momento que dá dignidade à Universidade.

 

Assim, com pequenos gestos simbólicos, se forja a alma de cidadãos sem fibra. Incapazes de dizerem que não. Incapazes de se distinguirem dos demais. A praxe é a iniciação de uma longa carreira de cobardia. Na escola, perante as verdades indiscutíveis dos "mestres". Na rua, perante o poder político. Na empresa, perante o patrão. A praxe não é apenas a praxe. É o processo de iniciação na indignidade quotidiana. O pior escravo é aquele que não se quer libertar. E que encontra na escravidão o conforto de ser como os outros. Os caloiros que aceitam a praxe não são ainda escravos. Apenas treinam para o ser.

 

Publicado no Expresso Online


por Daniel Oliveira
link do post | comentar | ver comentários (112) | partilhar

Terça-feira, 18 de Outubro de 2011
por Sérgio Lavos

Olha, não é que o "todos" de que o amigo Gaspar falava não inclui, para além dos políticos na reforma e dos funcionários do Banco de Portugal, os digníssimos deputados à Assembleia da República? Ah, mas esperem: eles têm uma razão fortíssima para esta excepção; a medida já estava aprovada antes do anúncio do Orçamento de Estado. Ah, pronto, assim está bem, já compreendemos. No fim de contas, estamos a falar de migalhas, meras migalhas.

tags: ,

por Sérgio Lavos
link do post | comentar | ver comentários (6) | partilhar

pesquisa
 
TV Arrastão
Inquérito
Outras leituras
Outras leituras
Subscrever


RSSPosts via RSS Sapo

RSSPosts via feedburner (temp/ indisponível)

RSSComentários

arquivos
2014:

 J F M A M J J A S O N D


2013:

 J F M A M J J A S O N D


2012:

 J F M A M J J A S O N D


2011:

 J F M A M J J A S O N D


2010:

 J F M A M J J A S O N D


2009:

 J F M A M J J A S O N D


2008:

 J F M A M J J A S O N D


2007:

 J F M A M J J A S O N D


2006:

 J F M A M J J A S O N D


2005:

 J F M A M J J A S O N D


Contador