Quarta-feira, 29 de Fevereiro de 2012
por Sérgio Lavos

 

   

             A mentira compulsiva.                                  A neurose delirante.   

 

  

              A alucinação psicótica.                                   A esquizofrenia.

 

                    

                                O transtorno de múltipla personalidade. 

 

Não temais: o pior ainda está para vir.

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por Sérgio Lavos
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por Daniel Oliveira

 

 

Estive na Síria. Foi, aliás, dos vários países árabes que conheço, aquele onde mais gostei de estar. Por causa do incrível património histórico. Pelo mosaico cultural e religioso que ali se mantém. A laicidade do Estado sente-se. Sente-se na tolerância religiosa, cada vez mais rara nos países muçulmanos. Trata-se de uma ditadura laica que, da mesma forma que prende e mata os opositores políticos, mantém controlados os movimentos de qualquer tipo de fundamentalismo religioso que nunca quereriam nada com a dinastia Assad. A ligação ao Irão é táctica. A ligação religiosa faz-se pela minoria alauíta (10%), que se considera xiita e que domina o poder político. Ainda assim, a maioria é sunita e o Estado é laico. Uma realidade bem distante da iraniana.

 

Na segunda cidade síria, Alepo, que se diz o mais antigo local habitado do Mundo, assisti a uma missa dos maronitas e os símbolos cristãos eram tão visíveis como os islâmicos. Nos anos sessenta houve tensões com os cristãos (arménios, ortodoxos gregos, maronitas e católicos latinos - cerca de 10% dos sírios) mas os problemas não são visíveis para um visitante. Há ainda drusos, xiitas e alauítas, para além da maioria sunita. A diversidade é apenas manchada pelos bairros judeus sem judeus. A outrora numerosa comunidade judaica (eram 30 mil, quase todos a viver em Damasco e Alepo) há muito abandonou o país. Ou seja, um governo islamista neste país seria uma tragédia sem nome.

 

O cosmopolitismo sente-se também por via dos refugiados. Cerca de um milhão de iraquianos, meio milhão de palestinianos, duzentos mil libaneses. Isto em 2006, quando lá estive, durante o ataque israelita ao Líbano. Não digo que os refugiados sejam exemplarmente recebidos. Mas, comparando com o que vi no Egito, na Jordânia ou no Líbano, é, de longe, o Estado árabe que melhor recebe os palestinianos. Ou seja: o mais coerente entre o que diz e o que faz. O pan-arabismo é aqui um pouco (só mesmo um pouquinho) mais do que retórica. E a resistência a Israel também. E é também isso, muito mais do que a repressão, que explica os sentimentos do Ocidente em relação à dinastia Assad.

 

Estive na Síria. Foi, aliás, dos países árabes que conheço, aquele onde menos gostei de estar. Por causa da ditadura. Ela sente-se em cada esquina. A Síria é, como a Coreia do Norte, uma república monárquica. Ao pai Hafez al-Assadsucedeu o filho, Bashar al-Assad. Os dois têm o carisma de uma anémona. Mas, mesmo assim, não hesitam em levar o culto da personalidade até ao enjoo. As fotografias de pai e filho são omnipresentes. Todos os cafés, lojas, restaurantes e bares, queiram ou não queiram, são obrigados a ostentar as carinhas dos dois senhores. Nas fotos de propaganda do regime ao pai e ao filho junta-se o Espírito Santo. O filho predileto de Hafez, Basil al-Assad, era o candidato ao trono, mas morreu prematuramente num acidente de viação. Ficou o filho Bashar, o mais ocidentalizado, que chegou a dar sinais de abertura nunca concretizados. Por todo o lado se veem imagens de Basil, retratado como herói nacional, montado em cavalos. Ao que parece praticava hipismo e conseguiu um segundo prémio para a Síria. Sendo da dinastia Assad, isso chega para ser um novo Saladino.

 

A Síria é, como praticamente todos os regimes árabes, uma ditadura repressiva. Esta calhou ter estado do lado de lá do Muro - ou seja, do lado dos derrotados. Mas falar de socialismo aqui seria no mínimo exagerado. O país é pobre e o governo, para além de repressivo, é visivelmente incompetente. A intervenção do Estado na economia não muito é maior do que nos países vizinhos. A repressão política sim. Não me espantei, por isso, com o comportamento criminoso deste governo, perante a contestação política.

 

Este é o retrato da Síria que conheci. Muito antes da Primavera Árabe. Num momento em que o País olhava para fora e se unia por causa disso. Acontecia a guerra do Líbano e as bandeiras do Hezbollah surgiam, até com algum desconforto inicial do regime, por todo o lado. Apesar da ditadura, apesar da repressão, estava longe de imaginar uma contestação à dinastia Assad seria tão acirrada. Mas se a tivesse imaginado teria pressentido esta mortandade.

 

Perante o que vi, divide-se a minha consciência. Os milhares de mortos e o ignóbil aparelho repressivo do regime não dão espaço a qualquer tipo de cinismo. Bashar al-Assad tem de cair e não vejo como pode este regime dirigir qualquer tipo de transição pacífica para a democracia. A longa história de crimes não permite qualquer tipo de benefício da dúvida.

 

Mas a rara diversidade e tolerância religiosa que ali se vive faz-me temer por um futuro em que os islamistas tenham mais poder. Com um pormaior: a oposição na Síria é bem menos estruturada e sólida do que no Egito e facilmente manipulável por todos os interesses, incluindo os mais sinistros. E terá, até por não ser vista como alternativa, muito menos apoio popular.

 

Não ignoro também os interesses muito pouco altruístas do ocidente. Controlar a Síria é controlar o conflito israelo-palestiniano, a política interna do Líbano, parte do conflito curdo com a Turquia e ter uma porta aberta para o Irão. Não me parece que os EUA e a Europa, com a sua longa história de cumplicidade com as ditaduras árabes, estejam muito preocupados com os direitos humanos. A companhia, entre os "amigos" de uma Síria democrática e livre, daArábia Saudita, do Bahrein (que lidaram com mão de ferro com a sua "Primavera Árabe) e da Turquia (que tem interesses naquela fronteira por causa dos independentistas curdos), diz tudo dos interesses que ali se movem. Que não são nem melhores nem piores do que o oportunismo chinês e russo.

 

Neste caso, não tenho uma posição fechada. Desejo, claro que desejo, o fim da ditadura síria. O seu derrube é uma peça fundamental para a democratização do mundo árabe. Travar a loucura assassina do regime sírio é um imperativo ético. Mas nem o dia seguinte, nas atuais circunstâncias, me parece nada animador, nem as motivações externas me parecem merecedoras de qualquer respeito. Pode a Síria conquistar a sua liberdade sem se entregar a uma ainda mais sangrenta guerra civil, onde os interesses dos vizinhos árabes, de Israel, da Turquia e dos EUA sejam o que realmente vai determinar o seu futuro? Não sei. Sei que a mortandade e a repressão têm de acabar. Sei que falta aos intervenientes externos, entre eles várias ditaduras árabes, autoridade para ali meterem a pata.

 

Publicado no Expresso Online

 

Fotografias (minhas): souq de Alepo, imagem de Basil al-Assad numa loja de lingerie e imagens do Presidente Bashar al-Assad e Hassan Nasrallah no souq de Damasco.


por Daniel Oliveira
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por Sérgio Lavos

Longe de mim ser um defensor do legado de Sócrates, mas o discurso ensaiado pelo actual executivo culpando o anterior pela política ultraliberal que está a dar cabo do país já enjoa. Nunca chegou a ser explicado o "desvio colossal" que foi falado em Junho e estas alusões ao país ter sido "entregue" pior do que o actual Governo esperava não convencem ninguém e são, falando claro, cretinas. Se foi assim, que mostrem onde estava o "desvio colossal", que digam o que estava errado nas contas. Assumam-se. Só dá vontade de dizer: sr. Coelho, o sr. é um piegas!


por Sérgio Lavos
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por Sérgio Lavos

 

Os augúrios começaram a soar com bastante antecedência. Paul Krugman passou por cá ontem para receber o doutoramento honoris causa, e os ventos de desgraça sopraram mais fortes. As posições de Krugman em relação à crise da dívida soberana são relativamente conhecidas num certo meio, mas o povo que sabe do mundo pelos telejornais não sabia o que este Prémio Nobel da Economia achava do que se passa em Portugal. Para mais, por ter passado por cá no período pós-evolucionário, teria mais autoridade para opinar sobre a crise que atravessamos. Não será necessário repisar as suas teorias - quem quiser que passe pelos Ladrões de Bicicletas e pesquise por Krugman. O que me interessa é o tratamento mediático que a visita dele teve. De tanta coisa que disse, entre a conferência que deu em Lisboa e a entrevista que deu ao Jornal de Negócios (e que passou na RTP Informação), o que acabaria por ser mais destacado seria a afirmação de que os salários dos portugueses teriam de ser desvalorizados entre 20 a 30%. Já não é a primeira vez que esta informação corre pelos jornais. Mas será verdade? No blogue Jugular, houve uma primeira versão desmontada. A tradução que o Jornal de Negócios publicou de uma entrevista dada pelo economista ao Le Monde estava errada. Krugman não tinha recomendado um corte de 20% nos salários portugueses. Tinha apenas sugerido um ajustamento salarial de Portugal em relação à Alemanha, fosse através da subida generalizada da taxa de inflação ou através de um aumento dos salários alemães muito acima de um aumento em Portugal. Trocado por números, como esclareceu na entrevista dada ontem, o ideal seria que, por exemplo, a Alemanha subisse os salários 5 ou 6% e Portugal apenas 1 ou 2%. Esta medida seria suficiente para esse ajustamento de 20% das tabelas salariais entre Portugal e a Alemanha, o que provavelmente tornaria o nosso país mais competitivo sem que fosse preciso cair na espiral recessiva para onde os países periféricos da UE estão a deslizar. É de resto esta a luta de Krugman, no seu blogue do New York Times e nas outras intervenções públicas que tem feito a propósito da crise do Euro: denunciar as políticas de austeridade impostas pelo directório germano-francês, as que estão a levar os países periféricos à bancarrota e ao fim da moeda única. 

 

No entanto, o que se foi ouvindo ao longo destes dias, a parangona mais repetida, é o tal suposto corte nos salários. Eu poderia achar que este é mais um caso de sensacionalismo, que aos jornalistas interessa mais o sangue e a desgraça do que a verdade bem explicada a quem pouco percebe de economia. Mas desconfio que as razões serão outras, bem mais graves. É que na Grécia acabou de ser aprovado o enésimo pacote de austeridade, e desta vez eles vão ser forçados a cortar o salário mínimo em 200 euros. O que se passa, sem rodeios, é muito simples: é preciso mentalizar os portugueses para o que aí vem - não esqueçamos que a Grécia é o futuro de Portugal, daqui a um ano - e o Governo, através do ministro da propaganda Relvas e dos seus assessores pagos a peso de ouro com o dinheiro dos nossos impostos, já meteu mãos à obra. Spinning e mau jornalismo, em todo o seu esplendor; e isto é apenas um exemplo do que vemos e lemos diariamente, o discurso único a que estamos submetidos desde que começaram a notar-se os primeiros sinais da crise. Habituem-se! 


por Sérgio Lavos
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Terça-feira, 28 de Fevereiro de 2012
por Miguel Cardina

 

Quem trabalha em ambiente académico conhece bem a pressão do “publish or perish”. Pressão mais forte em universidades ou centros mais marcados pela ideia de “competição” e sedentos em divulgar uma imagem de “inovação” e “internacionalização”; pressão menos forte em locais onde se entende a investigação como parte de um processo socialmente enquadrado e cujo impacto – académico mas também social – não se resume à quantidade de publicações. Pressão, é preciso dizê-lo, que tem um importante aspecto positivo: ela pode funcionar como um estímulo para quebras inércias e dinamizar plataformas colaborativas entre pessoas e/ou centros que trabalham numa mesma área - ainda que possa igualmente contribuir para alimentar manchas cinzentas em torno de autorias, nomeadamente em casos onde exista relação hierárquica.

 

Pouco questionada neste mundo onde nos pedem constantemente resultados, a pressão do publish também tem desvantagens que nem sempre são tidas em conta. Desde logo, o afã publicacionista tende a fazer com que se investigue quase sempre em torno dos mesmos temas e se desvalorizem novos objectos (que naturalmente exigem "perder" mais tempo até se alcançarem resultados). Por outro lado, a pressão de publicar acentua a desconsideração do ensino e da sua relação com a investigação (nos casos pessoais, cada vez mais raros, onde é possível existir essa importante convivência), uma vez que é sobretudo na investigação que se afirma o prestígio académico e se constrói um currículo capaz de pesar nas candidaturas a projectos. Deste modo, a formação universitária fica cada vez mais destinada a professores com vínculo que batalham contra o tempo e as forças ou a jovens doutorandos ou pós-doutorandos que vão “fazendo currículo” em condições económicas que em alguns casos será eufemístico definir como “precárias”.

 

Teríamos muito a ganhar se começássemos a pensar mais estas coisas da investigação em termos daquilo que ela efectivamente é – trabalho – e a desenhar dinâmicas profissionais e reivindicativas que ponham lado a lado aqueles que estão a perder direitos e aqueles que não têm direitos nenhuns. Mas regresso à história do publicar porque hoje recebi um e-mail que me alertou para um outro limite da produtivite académica.

 

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por Miguel Cardina
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por Miguel Cardina

Em Janeiro de 2010, quando o Parlamento aprovou o casamento entre pessoas do mesmo sexo, introduziu-se uma cláusula discriminatória na lei: os homossexuais podem casar mas não podem adoptar. Ou melhor, casando deixam de poder adoptar, uma vez que no longo processo que culmina na adopção de crianças institucionalizadas não consta que haja um teste à justeza heterossexual. Esta situação, além de anacrónica, mais não faz do que reforçar estereótipos fortemente homofóbicos, como o que associa a homossexualidade à pedofilia. E, exactamente ao contrário do que se diz, não está centrada no interesse da criança, que é em primeiro lugar o de receber amor, educação e acolhimento da parte de quem está comprometido a fazê-lo. Ou, em alguns casos, de ver reconhecida por inteiro a família que já é a sua. Foi para resolver esta situção que na semana passada se apresentaram as iniciativas legislativas do Bloco de Esquerda e de Os Verdes. Sem sucesso, como sabemos. A direita votou contra (com algumas excepções) e o PS dividiu-se entre os votos a favor (a maioria), as abstenções e os votos contra. O PCP votou contra, alegando que a sociedade não estava ainda preparada para essa aprovação. A este respeito, espero sinceramente que o PCP não abandone a política em detrimento da metereologia, sob pena da esquerda minguar ainda mais em alguns domínios. Entretanto, e para reflexão, aqui fica uma breve e clarificadora entrevista à psicóloga Conceição Nogueira para nos lembrarmos de como abdicámos na semana passada de ser uma sociedade um bocadinho mais decente.

 

 

PS - O Paulo Jorge Vieira remete muito oportunamente para um estudo de Conceição Nogueira sobre o tema.


por Miguel Cardina
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por Daniel Oliveira

 

Na mesma entrevista em que defende que "Portugal tem de ser mais alemão que os alemães" Diogo Feio, eurodeputado do CDS, deixa a claro aquilo que espera de Portugal na crise europeia: "Portugal tem de ter austeridade neste preciso momento para reforçar a credibilidade e o rigor." É a tese do bom aluno de um mau professor: não interessa se o que estamos a fazer está certo, interessa ser obediente e esperar que os outros percebam que a receita que nos estão a prescrever está errada. Já escrevi sobre isto ontem.

 

Mas Diogo Feio vai mais longe e a lógica que aplica ao Estado português quer ver repetida nos comportamentos de cada cidadão: "Nós somos observados ao mais pequeno pormenor e cada greve que é feita mancha a imagem de Portugal." O jornal "Público" pergunta: "Como é que se pedem cada vez mais sacrifícios e se pede ao mesmo tempo que os sindicatos e a oposição não façam barulho?" E o dirigente do CDS responde: "Eu não acho que o património da responsabilidade seja apenas do governo e não tenha de ser também dos sindicatos e da oposição". As jornalistas voltam à carga: "Mas essa é uma responsabilidade em sentido único..." Resposta: "É uma responsabilidade mobilizadora, ou seja, para vencer o enormíssimo desafio que tem pela frente." Explica melhor: "Portugal é bem visto por ter uma maioria de governo sólida, porque tem uma situação social pacificada."

 

O que este apoiante do governo propõe é isto: o governo aceita a austeridade para agradar a quem tem o poder na Europa, os cidadãos aceitam a austeridade, mesmo que discordem dela, para ajudar o governo. Os sindicatos devem saber que prejudicam o País se cumprirem a sua obrigação: a de defenderem os direitos dos trabalhadores. A oposição deve saber que prejudica o País se cumprir a sua obrigação: opor-se a soluções em que não acredita. Diogo Feio não quer apenas que o Estado português se faça de morto. Quer a sociedade portuguesa anestesiada e em silêncio.

 

Qualquer dirigente político tem obrigação de saber que as sociedades são dinâmicas e contraditórias. Que a qualquer ação corresponde uma reação. Da mesma forma que os banqueiros pressionam o governo, com os instrumentos que têm, para defenderem os seus interesses, assim o devem fazer os trabalhadores. Da mesma forma que Diogo Feio não critica os empresários por tomarem as decisões que lhes parecem melhores para cumprir o seu principal objetivo (o seu lucro), não faz sentido criticar os trabalhadores por fazerem exatamente o mesmo: defenderem os seus salários e o seu emprego. Pode achar que não o estão a fazer e explicar porquê. Não lhes pode é pedir que fiquem quietos por uma questão de "imagem". Um governo pode alimentar uma farsa por algum tempo. Mas nenhuma sociedade é composta por atores que o sigam acriticamente numa mentira. Quando um governo toma decisões, os cidadãos que se sentem prejudicados por elas reagem e dessa reação nasce o conflito. É bom sinal que assim seja. Quem, em Portugal ou no estrangeiro, veja isto como sinal de "laxismo" (expressão de Diogo Feio) não acredita na democracia.

 

Diogo Feio gostaria que a sociedade portuguesa ficasse suspensa, apoiando acriticamente as decisões do governo, ou pelo menos abstendo-se de as criticar ativamente. É o sonho de qualquer governante pouco exigente: governar sem oposição. É sintomático do deprimente torpor deste governo que a verbalização deste desconforto com o pluralismo político e social venha do mais respeitável (na minha humilde opinião) dirigente do CDS. A tese da suspensão democrática, que tantas criticas mereceu a Manuela Ferreira Leite, institui-se como discurso oficial da maioria. Claro que Diogo Feio explica que não quer suspender os direitos constitucionais. Apenas pede que os portugueses não façam uso deles. Porque a nossa credibilidade depende da nossa anemia democrática.

 

O contraditório, o conflito e o pluralismo não são apenas bons indicadores do vigor democrático de uma sociedade. São indicadores da capacidade de intervenção, autonomia e crítica dos cidadãos. E isso diz muito da sua capacidade de lidar com as crises e de sair delas. Uma sociedade acrítica, apática e assustada não tem futuro enquanto comunidade. Nem futuro político, nem futuro económico. A cultura da obediência é a cultura do imobilismo. É a marca de um País em decadência. E essa decadência sentir-se-á em todos os domínios. Não se pode pedir a um país que seja medroso na política e temerário nos negócios, acrítico na cidadania e exigente no trabalho. O conformismo, quando se instala, espalha-se, como uma doença, por todo o corpo de uma sociedade.

 

A economia não é um mundo à parte. A vitalidade económica de um país está ligada à sua vitalidade social, cultural e política. E o principal problema deste governo é o de querer impor a todos os portugueses a sua cultura de desistência.Um governo apático perante a crise europeia quer uma sociedade apática perante medidas que considere injustas ou erradas. O resultado seria trágico: cidadãos apáticos, trabalhadores apáticos, estudantes apáticos, intelectuais apáticos, cientistas apáticos, empresários apáticos. O mesmo pântano de mediocridade que nos atrasou durante décadas.

 

Publicado no Expresso Online


por Daniel Oliveira
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Segunda-feira, 27 de Fevereiro de 2012
por Daniel Oliveira

 

Há sempre, em todos os regimes, cidadãos que se adaptam ao poder vigente, aceitando as regras, por mais injustas que sejam. De cabeça baixa e tentando não dar nas vistas, apenas se rebelam quando todos já o fizeram. Há sempre, em todas as escolas, um aluno pouco talentoso que se esfalfa para agradar ao professor, por mais medíocre que ele seja. O "graxista", assim é chamado pelos colegas, espera as migalhas que a vaidade alheia lhe resolva oferecer. Há, em todas as empresas, quem lamba as botas ao patrão, na esperança de conquistar pela subserviência o que com a competência nunca conseguiria. E há Estados iguais a esta gente sem espinha. Que procuram viver na sombra dos poderosos. Neutrais quando de qualquer refrega ainda não se saiba o resultado, insensíveis a qualquer sentido de justiça, sem orgulho, sem qualquer desígnio e capazes de suportar, em silêncio, todas as humilhações.

 

Se olharmos para o Estado português, nos últimos anos, o que vemos é uma Nação oportunista. No Mundo, apoiou, em troca de negócios, a ditadura líbia até ao último segundo. Abandonou Kadhafi na 25ª hora, descobrindo nesse momento a importância da liberdade, da democracia e dos direitos humanos. Apoia, em troca de tostões, a ditadura angolana. Apoiou a injustificável guerra do Iraque, servindo de mordomo na cimeira da vergonha. Apoiou, aliás, todas as guerras, sempre do lado do mais forte. Na Europa, esteve sempre ao lado de quem manda, incluindo em decisões que prejudicavam os países periféricos. E agora, para não variar, é ao lado do poder do momento que quer estar, não hesitando defender o oposto aos seus legítimos interesses. Sejam Estados ou pessoas, os cobardes conseguem, muitas vezes, sair-se bem na vida (Portugal nem por isso). Mas não merecem o respeito de ninguém. Nem daqueles a quem servem de espinha curvada.

 

A semana passada, um grupo de líderes europeus, incluindo vários de pequenos países periféricos, assinou um documento sobre políticas de crescimento para a Europa. Nele, nada se lê que mereça grande entusiasmo. Até se aponta para o caminho da mesma desregulação económica que levou a Europa a este beco sem saída. Vale, no entanto, pelo gesto simbólico. Surge como um embrião de uma oposição à estratégia imperial de Angela Merkel. Nunca um governo que eu pudesse apoiar assinaria aquilo. Mas um governo de direita que não estivesse entretido a servir de capacho da Alemanha quereria estar naquele grupo "rebelde".

 

Segundo fontes próximas do governo conservador inglês, Passos Coelho não terá sido contactado por "falta de sintonia" com as reservas à estratégia austeritária alemã (versão depois diplomaticamente desmentida - parece que não encontraram o número de telefone do nosso primeiro-ministro).

 

Na realidade, o chefe do governo português poderia assinar aquele documento. A sintonia ideológica com grande parte das propostas existe. A razão pela qual não foi contactado é outra: ninguém fala com o mordomo quando quer discutir com o patrão. E é assim que Passos Coelho é visto: um homem sem opinião própria, pronto a aplaudir tudo o que o poder do momento disser. Ou, na melhor das hipóteses, o cobarde que se faz de morto à espera que a confusão passe. E é esta postura que, no País, tem merecido mais elogios: fazer o que nos mandam, esperar que o vento mude e tentar não dar nas vistas.

 

Quando a correlação de forças mudar na Europa - e inevitavelmente acabará por mudar -, estou seguro que faremos o que temos feito sempre: estaremos, à última da hora e com a mesma ausência de sentido crítico de sempre, no novo comboio. Esperando que todos se esqueçam do triste papel que tivemos numa crise que nos dizia respeito. Pode ser que resulte. Pode ser que não. Mas a marca do que somos, como Nação, fica para sempre. Se os outros não se lembrarem, lembrar-nos-emos nós. Não é por acaso que somos um povo com tão baixa autoestima. Há tanto tempo que, como País, não fazemos nada de que nos possamos orgulhar. É que para contar têm de se correr riscos. E o medo tem sido a base de quase todos os consensos nacionais.

 

Publicado no Expresso Online


por Daniel Oliveira
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Domingo, 26 de Fevereiro de 2012
por Sérgio Lavos

 

 

Mais uma noite dos Oscares, a terceira com nove nomeados para melhor filme. Para quem gosta de cinema, o acontecimento acaba por ser uma baliza, o ponto final de um ano a ver filmes. Os milhares - ou milhões - de textos escritos sobre a cerimónia podem dividir-se em dois tipos: os cínicos, que ao mesmo tempo que dizem que os Oscares não têm nada a ver com cinema lá vão apostando nos (poucos) filmes que viram; e os outros. Os que se entusiasmam, e acham sempre que naqueles dez está necessariamente o melhor filme do ano que passou. Se olharmos para trás e tivermos visto suficientes filmes ao longo da vida, percebemos que raramente está. Não vale a pena enumerar os grandes filmes que não receberam o prémio e as mediocridades que o receberam. O cinismo pretensioso era uma fatiota que gostava de usar antes; agora menos.

 

Falemos então de Oscares. Dos nove nomeados, vi quatro, provavelmente a mais alta percentagem em muitos anos. Dos que não foram vistos, alguns de certeza que não irei ver, outros quem sabe. Não, não passei os olhos pel'O Artista. Poderei ver, mas algo me diz que aprenderei mais com dez minutos de qualquer um dos filmes de Chaplin ou de Buster Keaton do que com a hora e meia de pantomima a preto e branco numa era de CGI, 3D e câmaras digitais. Mas enfim, quem nunca viu um Stroheim na vida (Luís Miguel Oliveira dixit) que atire a primeira pedra. Pelas mesmas razões não terei gostado também de Meia-noite em Paris. Sim, Woddy Allen é um génio, descansem. Mas o postal turístico carregado de clichés - sobre Paris, sobre os anos 20, sobre os artistas, etc., etc. - torna o resultado final numa desilusão. Há muitos filmes de Woody onde aparece a personagem estereotipada do intelectual deslumbrado pela cultura europeia. A diferença é que neste filme ele torna essa personagem o tema, e sem o mínimo de distanciamento irónico - como acontece em Vicky Cristina Barcelona, por exemplo. E assim agrada-se a um público mais vasto - "Meia-noite" terá sido o filme mais visto do realizador nova-iorquino, desagradando-se os fãs habituais. Escolhas.

 

Moneyball é um daqueles filmes de que eu gosto: um biopic sobre um falhado ajudado por um nerd a ultrapassar-se até ficar maior do que a vida, ao ponto de haver alguém que se interesse pela história e faça dela um filme. Brad Pitt confirma que é um actor melhor do que o esperado, e que não é necessário representar um deficiente para uma cara bonita ser nomeada para um Oscar - e já são várias nomeações; para quando o prémio?

 

Restam os dois preferidos.

 

Há varias razões para gostar d'Os Descendentes: Alexander Payne, autor do genial Sideways, do excelente As Confissões de Schmidt, do brilhante Election e de uma curta-metragem, 14e arrondissement, incluída na obra colectiva Paris Je t'aime, que é uma pequena maravilha (para usar o lugar-comum). E Os Descendantes, será tão bom como estes predecessores? Aproxima-se de Sideways e fica muito perto da obra-prima em forma de curta, e isso é mais do que suficiente para ser melhor do que qualquer um dos outros nomeados. Menos um, de que falarei a seguir, não sem referir George Clooney. Grande papel, sem sair da sua pele. Clooney não é um actor de composição. Não desaparece nas roupas e maquilhagem como Meryl Streep - OK, dêem-lhe lá o centésimo quadragésimo quinto prémio, ou coisa que o valha, quero lá saber -, não é um actor do método, como Robert de Niro ou Al Pacino; não é um actor que se faça ao Oscar em papéis à medida, como Tom Cruise ou o mencionado Brad Pitt; mas é excelente no seu modo cool, versátil - faz comédia e drama em registos não tão próximos que se possa dizer que é um inexpressivo Keanu Reeves nem tão distantes que se possa comparar ao rei do histrionismo Jim Carrey -, e ganhou com o tempo uma espessura dramática que não lhe adivinhávamos por altura do Serviço de Urgência ou de um dos seus primeiros filmes, uma coisa sobre surf tão má que nem vale a pena ir ao IMDB ver qual o nome. Mas não vai ganhar hoje, o francês mudo levará a palma. 

 

Mas acontece que este ano está nomeada uma daquelas obras que irão ser ainda vistas e admiradas daqui a cinquenta anos. Acontece que Terrence Malick é o autor da obra-prima. Acontece que a probabilidade de A Árvore da Vida ganhar é quase a mesma da receita de austeridade imposta pela Troika resultar em Portugal. Acontece que será uma injustiça, e que uma vez mais se provará que os Oscares têm tanto a ver com cinema como a venda de aguarelas na feira da ladra tem a ver com arte. Ou não, terá tudo a ver com a Sétima Arte: o glamour, os vestidos, a passadeira vermelha, Billy Cristal, os discursos, a magia. Estamos a falar e a escrever e a pensar sobre a coisa. Isso sigifica que deve ser o acontecimento mais importante do mundo do cinema. Mas não interessa: o cinema resiste ao hype muito bem. E continuará a ser feito, exista ou não Hollywood e a passadeira vermelha e os prémios e as desilusões e os cínicos e os discursos dedicados aos índios. Se tudo correr bem, e os Maias e o Medina Carreira não tiverem razão, para o ano cá estaremos.

 

(Publicado também no Auto-retrato.)

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por Sérgio Lavos
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por Sérgio Lavos

 

Uma apoiante da "arbitrária e ilegal" Reforma Agrária surge, movida pelo soundbyte e aproveitando a entrevista concedida para limpar a imagem construída ao longo de uma semana de oração em favor da chuva. Parabéns ao assessor que se lembrou de semelhante ideia; durante alguns dias não se irá falar de outra coisa, mas como o plano é para demorar 4 ou 5 anos a concretizar, nunca irá ser feita a prometida entrega das terras "sem dono" a quem a quer trabalhar*. 

 

*Não vou especular sobre quem serão, para a ministra Cristas e para um Governo ultraliberal, as pessoas que irão cultivar as terras "sem dono". Mas algo me diz que ela não está a pensar em cooperativas, trabalhadores desempregados ou pobres. Há tanto latifundiário com casa em Lisboa e no Porto e fazenda no interior que precisa do apoio do Governo que dificilmente será quem precisa a usufruir de tal (hipotética) oportunidade... 

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por Sérgio Lavos
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Sábado, 25 de Fevereiro de 2012
por Sérgio Lavos

 

"Ainda é Inverno, mas vários concelhos estão em risco alto de incêndio". Caramba, nem os deuses ajudam. 106 fogos já tinham deflagrado até às 14h00. O poder da oração enquanto técnica de prevenção da seca e dos fogos florestais parece não estar a resultar. Nada me move contra a fé alheia, mas será talvez altura da ministra Assunção Cristas pensar num plano B para combater os elementos. Quem sabe incomodar os senhores da União Europeia - sabemos que este Governo não gosta de incomodar os suseranos da terra lá em Bruxelas e Berlim, mas há ocasiões de aperto inadiáveis. Também eu rezo para que os cortes sofridos nas dotações para as corporações de bombeiros na prevenção de fogos florestais não transformem este ano da Graça de 2012 num Inferno terrestre. Os cenários dantescos aborrecem-me, e já que o Governo PSD/CDS não parece muito preocupado com estas questões de somenos importância, esperemos que o gestor de carreira designado por Nosso Senhor para o território português tenha piedade de nós e não mande para já uma das pragas do Apocalipse, o fogo. Sobre as nossas florestas.

 

Dei-me conta de que quando me ponho a escrever sobre estas questões metafísicas, acabo quase sempre por descobrir que a minha fé muitas vezes ultrapassa a das mais pias almas. Com tanto corte e incompetência governamental, a oração é bem capaz de ser a única salvação para o país. A ciência da fé reluzindo em todo o esplendor divino.

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por Sérgio Lavos
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Sexta-feira, 24 de Fevereiro de 2012
por Sérgio Lavos

 

Estava pacificamente a ler este texto do Ricardo Alves quando me deparei com a palavra "tolinho". Mas depois vi melhor e era "todinho". Tolinho, no entanto, seria mais apropriado. Para classificar o voto contra do PCP na votação de hoje. Parece que até votou contra o projecto do seu own private Idaho, o PEV. Tolinho, sim, e contudo coerente. Não interessa que o casamento entre pessoas do mesmo sexo seja legal e que os membros de um casal de gays ou lésbicas possam adoptar individualmente. É absurdo? Direi mais, é de loucos. Mas o PCP, na senda de um passado de perseguição aos homossexuais, manteve-se fiel aos seus princípios e votou na hipocrisia. Prefere que gays e lésbicas possam casar, levar filhos de anteriores casamentos, engravidar - no caso das mulheres, - adoptar sozinhos, mas nunca, credo, nunca, que dois pais ou duas mães possam ter o mesmos direitos que um homem e uma mulher que vivam juntos ou até separados. Que o CDS-PP (menos um deputado, valha-me Deus, menos um) tenha votado contra os projectos do Bloco de Esquerda e do PEV, não admira. Também não surpreende que ao deputado Telmo Correia cause asco a clarificação do que é escondido; a direita cristã tem cunha metida junto de Nosso Senhor Deus Todo Poderoso para a precipitação em tempo de seca, para a resolução dos problemas de emprego e para homossexuais que não conseguem sair do armário. Mas nunca terá para quem abertamente assume a sua identidade sexual e deseje ter uma família tal qual como os cidadãos que escolhem não casar-se com uma pessoa do mesmo sexo. "Contraria o criador", tal "experimentalismo social" e não, não se ouviu isto num púlpito de uma qualquer seita protestante norte-americana, mas numa bancada do Parlamento português. Sinceramente, não sei e prefiro não saber em que estaria Telmo Correia a pensar quando fez tal afirmação. O líder do seu partido que trate do problema. Adiante. Que o CDS e o PSD se entricheirem neste moralismo hipócrita, é previsível. Não surpreende - e parabéns aos deputados dos dois partidos que votaram a favor dos projectos, demonstrando que ainda há liberdade no meio de tanta beatice. Que o PS vote de forma táctica, aceito - é difícil exigir mais ao partido da abstenção violenta. Mas que o PCP alinhe na farsa, enfim, é uma tristeza. Seria pedir muito esquecerem os tempos de perseguição a Júlio Fogaça? Deixarem de ser tolinhos está apenas nas vossas mãos. Ceder ao preconceito não está nos genes, é uma escolha de vida.


por Sérgio Lavos
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por Bruno Sena Martins

A adopção por casais do mesmo sexo foi chumbada. Está visto que os casais hetero não nasceram para criar deputados.


por Bruno Sena Martins
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por Sérgio Lavos

Que exagero, caro Luís. Extrapolar sobre intenções não é racional. O tom do meu post é forte, e intolerável, se quiser, mas olhe que mesmo assim não se aproxima do nível do post do sr. Eurico de Barros. E ainda por cima o que ele faz é tiro ao morto, numa data que recorda o desaparecimento de um grande músico e poeta. E isso não pode ter desculpa.


E mais algumas coisas:

 

O post do sr. Eurico de Barros não tem dados factuais; tem interpretações de dados factuais e especulações sem fundamento. O que é completamente diferente. Eu explico:

 

- José Afonso era defensor da revolução armada? Onde, em que situação? Em Portugal, foi-o com certeza, mas julgo que todos aí no Forte defendem pelo menos uma revolução armada, o 25 de Abril. É a essa que o sr. Eurico se refere?

 

- José Afonso era defensor da ditadura do proletariado. Partindo do princípio que este é um dos fundamentos do comunismo, poder-se-á dizer isso, dado que ele foi apoiante do PCP. Mas era também o homem que se afastou do partido e dizia de si ser o "seu próprio Comité Central". As pessoas mudam ao longo da vida, como muitos antigos militantes do MRPP que agora se movimentam na esfera ideológica deste governo poderão explicar-lhe.

 

- Escrever "princípios perigosamente lunáticos da esquerda mais radical " é um facto em que sentido? Opinião, pura subjectividade. E ideologia.

 

- Gostaria de saber quais as acções violentas que ele glorificava nas suas canções. Aludir sem citar é fácil. Não é necessariamente certo. "Atirar aos fascistas de rajada" é o único exemplo. É censurável? É. Mas seria inqualificável se ele tivesse escrito, por exemplo, "atirar aos sociais-democratas de rajada".

 

- "Demenciais campanhas de dinamização cultural" é uma opinião, bastante simplista e parva, por sinal, não um facto. Nessas campanhas andaram centenas de pessoas, e eram sobretudo ingénuas e inofensivas. Não cresci nesse tempo mas conheço gente que cantou e tocou por todo o país. Recordam essa época com a nostalgia de quem olha para a inocência própria da juventude. E, para além do mais, foi um momento único, em que grandes artistas andaram a mostrar o que criavam a gente que apenas conhecia o nacional-canconetismo da rádio e da televisão a preto e branco. Demenciais porquê?

 

- Escrever que Zeca defendeu as arbitrariedades e ilegalidades da Reforma Agrária é uma opinião, não um facto. Se o sr. Eurico tivesse escrito "defendeu a Reforma Agrária", passaria a ser um facto.

 

- Do lado "errado" da barricada no 25 de Novembro esteve muita gente mais do que respeitável. E claro que é uma opinião achar que se esteve do lado errado ao apoiar Otelo e ter estado com os paraquedistas de Tancos no 25 de Novembro.

 

O meu texto ataca o homem? Sim, admito. Mas de um modo muito mais suave, "tolerável", do que o sr. Eurico o faz em relação a Zeca Afonso, um morto que não se pode defender.

 

Quanto ao resto, à caracterização que eu faço do Forte Apache, diga-me, a sério, está assim tão longe da realidade? Insultos, eu? Até acho que fui bastante brando, tendo em conta o despropósito da alarvidade escrita pelo sr. Eurico.


por Sérgio Lavos
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por Daniel Oliveira

 

 

Só em Janeiro deste ano o Estado recolheu menos 222 milhões de euros em impostos. Quase menos 8% do que em Janeiro de 2011. Perdeu em IRS (4,5%) e em IRC (61,3%). A segunda perda deve-se, em parte, à antecipação da distribuição de dividendos. Se retirarmos estes casos, temos uma perda global de 4,8%. Isto quando houve umaumento generalizado da carga fiscal. As receitas do IVA (mais 5,7%) e dos impostos sobre bebidas, tabaco e circulação aumentaram. Não fossem elas e as perdas seriam ainda maiores. Mas quando a crise se fizer sentir ainda mais, é previsível que haja quedas no primeiro. Até porque a economia paralela tenderá a crescer. Em produtos mais dispensáveis, como a compra de carro, as receitas já caíram 43,8%.

 

Na segurança social passa-se o mesmo. Em Janeiro, menos 20,6 milhões (uma perda de 1,6%) de quotizações. Isto quando, apesar das reduções dos subsídios, aumentaram em 56,6 milhões as despesas em prestações sociais. O saldo caiu 26,2%.

 

É o b-á-bá da política orçamental. Ao contrário do que dizem as contas de merceeiro, o aumento de impostos associado a políticas de austeridade põe em causa o saneamento das contas públicas. Já aqui o tinha escrito e não fui, longe disso, o único. Mais fuga ao fisco, menos consumo, menos receitas, mais desemprego, mais despesas sociais. É uma espiral sem fim que, em nome da saúde das contas públicas, destrói a economia e as contas públicas. Quando é que óbvio vai entrar pelos olhos de quem governa?

 

Publicado no Expresso Online


por Daniel Oliveira
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por Sérgio Lavos

Passei os olhos por este post - simplesmente cretino, querer pôr-se em bicos de pés no dia em que se lembra um homem que deu mais ao país e ao mundo do que mil Euricos dariam em mil anos, mas enfim - e lembrei-me de um texto que o crítico escrevera há uns anos sobre o filme Os Amantes Regulares, de Philipp Garrel. Congratulo-o a ele e ao mundo em geral por agora poder publicar num blogue as baboseiras com ideologia na ponta das unhas que em tempos transpiravam por entre textos sobre cinema escritos com os dois pés esquerdos; e ambos com gota. Não sei contudo se, por agora poder expressar livremente o seu arrazoado ideológico de direita, perorando sobre os "princípios perigosamente lunáticos da esquerda mais radical" no falhado blogue do passismo, terá deixado de o fazer nos textos de crítica cinematográfica que, julgo eu, ainda escreve para o Diário de Notícias. Também não me interessa. Confirmo que nada mudou, e agora pode Eurico regressar ao medíocre anonimato de onde assomou por momentos. Bom timing: no fim de contas, a efeméride do dia de ontem apenas acontece uma vez na vida. Zeca Afonso, no entanto, é eterno.


por Sérgio Lavos
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Quinta-feira, 23 de Fevereiro de 2012
por Sérgio Lavos

Ufa, ainda bem que a troika avaliou positivamente os esforços do Governo PSD/CDS na execução do memorando. Caso contrário, seria preocupante esta notícia sobre o agravamento da recessão - 3,3%, de acordo com o conhecido antro de abutres comunas chamado Comissão Europeia - durante o ano do nosso ponto de viragem.


por Sérgio Lavos
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por Daniel Oliveira

 

José Afonso não era apenas um músico que emprestava o seu talento a causas em que acreditava. Não era uma estrela que se promovesse em participações esporádicas em cerimónias de solidariedade ocas. Não era apenas um dos mais talentosos músicos portugueses. Tão genial que fazia o que nenhum fizera sem ter um saber técnico especialmente apurado. Zeca Afonso era um militante, palavra que é hoje usada para insulto. Na sua generosidade, no seu empenhamento e no compromisso com as suas convicções. Sempre livre das tutelas de quem se julgasse dono das lutas dos outros, sempre preso ao dever de nelas participar.

 

Zeca Afonso era de um tempo em que a participação política se fazia por um imperativo ético. Era um compromisso de vida. Ao contrário de tantos outros da sua geração, esse empenhamento não foi um momento de excitação juvenil. Acompanhou-o até ao fim. Quando o engajamento político ainda se pagava caro (e ele pagou-o) e quando começava a ficar fora de moda. Foi sempre a todas, sem precisar de grandes palcos ou de holofotes. Onde estivesse a sua gente ele estaria. E a sua gente não era toda a gente. Nunca é para quem corre o risco de fazer escolhas.

 

Quase tudo o que Zeca Afonso fazia já não se usa. E é por não se usar que nos faz tanta falta. 25 anos depois, a sua ausência sente-se por sabemos que não nos faltaria nestes tempo de vampiros. Nunca nos faltou em todos os outros. Sorte a dos que tiveram um dos mais geniais músicos portugueses do seu lado de cada combate.

 

Publicado no Expresso Online


por Daniel Oliveira
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por Ana Mafalda Nunes

Numa espécie de sequela de mau gosto, do estímulo ao fim da produção, cujo protagonista foi o PSD - Cavaco, o executivo do PSD - Coelho, prepara-se para realizar o drama da caridadezinha para com o povo "piegas", num estímulo à mendicidade, com argumento da crise e realização do banco central e dos mercados, numa co-produção europeia, franco-alemã. O caridoso senhor ministro da solidariedade social e o conjunto governante anunciaram hoje que pretendem investir 50 milhões de euros do trabalho do povo, a sustentar a sua própria miséria. Não se destina esta maquia a desenvolver e fomentar criação de emprego, ou novas aptidões produtivas, ou reajustar das capacidades às necessidades actuais do país, de forma a aumentar a produção e diminuir a dependência, para quê? Se é possível calar a “pieguice” alimentando e mantendo a resignação pelo cinismo da ditadura da fome e da multiplicação dos pães, sem no entanto disponibilizar as redes para que o povo tenha peixe.

Enquanto andarem as gentes ocupadas a pensar nas necessidades mais básicas, como conseguir comer e em carimbos para manter o fundo de desemprego, não nos têm a pensar, a questionar o porquê de coisas como, entrar de lambreta e sair de carrão topo de gama e de preço, muito provavelmente com a roda dianteira em cima do primeiro emprego, fora da casca do partido, como administrador numa qualquer empresa pública/do povo.

 

O ronco da barriga não só não deixa escutar o pensamento, como estimula a gratidão pedinte a quem o cala. Este é o plano mais recente para salvar os portugueses da crise europeia.

 

Num guião ao estilo Oliveira, Passos & Companhia salvam o povo, da guerra dos capitais, distribuindo senhas para a mitra. A piedosa conquista do povo pela violência do estômago e do roubo da dignidade, atirando uma fatia dos portugueses para o ofício da arte de “chorar a senha para poder mamar na cantina”.

 

Qual será a próxima sequela desta saga? Investir na criação de oficinas de treino na arte de roubar? 

 

25 anos depois de Zeca...a mesma saga.

por Ana Mafalda Nunes
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Quarta-feira, 22 de Fevereiro de 2012
por Daniel Oliveira

 

Não conheço nenhum jornalista sério, daqueles que defendem, como eu defendo, que o jornalismo tem limites e que os fins não justificam os meios, que critique a divulgação, por parte da TVI, da conversa entre Vítor Gaspar e Wolfgang Schauble. Diz o código deontológico dos jornalistas portugueses, que não difere muito dos que vigoram noutras democracias: "O jornalista deve respeitar a privacidade dos cidadãos excepto quando estiver em causa o interesse público ou a conduta do indivíduo contradiga, manifestamente, valores e princípios que publicamente defende. O jornalista obriga-se, antes de recolher declarações e imagens, a atender às condições de serenidade, liberdade e responsabilidade das pessoas envolvidas." O interesse público é indiscutível, assim como as condições de serenidade, liberdade e responsabilidade das pessoas envolvidas. O teor da conversa nada tinha de privado. O local era público. E aquelas pessoas estavam ali, não a título privado, mas em representação de Estados.

 

O acordo tácito com os jornalistas - de não recolherem som de conversas - não tem, não pode ter, mais valor do que a sua obrigação profissional. As regras afixadas, ao que parece numa folha escondida atrás de uma planta, não têm valor de lei. São a vontade de políticos. Até poderiam afixar um papel a dizer que os ministros só podem ser filmados no seu melhor perfil que nem assim os repórteres de imagem (são repórteres, não são fotógrafos de casamentos) deixariam de ter de cumprir a sua obrigação.

 

Um jornalista que, tendo acesso a uma informação de tal relevância política e económica, que envolve o futuro e a vida de dez milhões de cidadãos, não garantisse o acesso desses mesmos cidadãos a essa informação seria um mau jornalista. Se alguém violou as suas obrigações foram os dois ministros que, na presença de jornalistas e num lugar público, tiveram uma conversa de interesse público achando que aquelas pessoas que ali estavam com câmaras eram meros turistas. Quem quer reserva nas suas conversas, quando essas conversas são sobre assuntos de Estado, escolhe a ocasião e o lugar para as ter. Não conta com a falta de brio profissional dos outros.

 

Ao contrário do que disse o furioso ministro das finanças alemão, não houve qualquer recolha secreta. A câmara, bem grande, estava à frente dos dois ministros. Não se trata de uma escuta telefónica, de uma violação de correspondência, de uma câmara oculta. Se os ministros são displicentes, perante jornalistas, talvez seja porque se habituaram, citando o nosso Presidente da República, ao "jornalismo suave" que se pratica nos corredores de Bruxelas. A burocracia não afecta apenas funcionários e políticos. Há, nas instituições da União Europeia, demasiados profissionais de informação complacentes com a opacidade de quase todas as decisões.

 

A suspensão do jornalista da TVI, quando estamos a falar de uma instituição que nos pertence a todos, é um ataque à liberdade de imprensa e um ato de censura. A instituições políticas não têm nem o direito nem a autoridade para suspender jornalistas. Se ainda existisse alguma solidariedade entre jornalistas nenhuma imagem seria recolhida destas reuniões até que o respeito pela liberdade de imprensa fosse reposto (ainda por cima sabendo-se que, apesar deste não ser o primeiro episódio do género, esta é a primeira suspensão de um jornalista). Os políticos não escolhem os jornalistas que podem ter acesso às sedes das instituições públicas. Se o fizerem, passaremos a ter meros propagandistas e noticiar atos políticos. No caso, os mesmos políticos que já tiveram, nas mesmas circunstâncias, conversas em frente a jornalistas para que elas fossem divulgadas. Irritam-se quando a divulgação das suas inconfidências não lhes é útil, apenas isso.

 

A representante portuguesa na Representações Permanentes (REPER) considerou a decisão "infantil". Porquê? "A TVI devia ser banida para sempre do tour de table", disse Maria Rui Fonseca. Pois eu acho que uma funcionária que, representando Portugal, julga que pode banir órgãos de comunicação social, para sempre, de espaços públicos que são pagos, como ela própria, pelos contribuintes, é que devia ser banida das suas funções. Talvez esteja em Bruxelas há demasiado tempo e julgue que aquele espaço é a sua casa. Não é. É nossa. E ninguém lhe deu qualquer poder para decidir quem são os órgãos de informação que podem e que não podem trabalhar juntos das instituições públicas europeias.

 

A representante portuguesa defendeu ainda que "a recolha de imagens pelas televisões devia acabar e passar a ser feita pelos serviços do Conselho, que posteriormente as distribuíam". Acho bem. Desde que a sua transmissão seja feita no espaço dedicado à publicidade e que o Conselho pague a sua divulgação. Já a recolha de imagens para noticiários é feita por jornalistas, com carteira profissional e sujeitos a um código deontológico. E eles recolhem as boas e as más imagens, e não apenas aquelas que os políticos querem que os seus eleitores vejam.

 

Um representante alemão disse que se os jornalistas não passarem a respeitar as regras impostas pelos ministros duvida "que o ministro Schäuble entre na sala enquanto decorrer o tour de table". Parece-me excelente. Se o senhor Schäuble é incapaz de ficar calado deve mesmo precaver-se. A função de um jornalista é que não passa a ser diferente por causa dos amuos de um incontinente verbal.

 

Publicado no Expresso Online


por Daniel Oliveira
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Terça-feira, 21 de Fevereiro de 2012
por Sérgio Lavos

 

Resultado final do Carnaval do Governo PSD/CDS: os deputados da maioria do Centrão prestando vassalagem aos amanuenses da Troika no parlamento e o BE e o PCP a assistir; a tradicional folia da época para o povo, por essas cidades e aldeias do nosso Portugal, samba de importação e consequentes resfriados incluídos no pacote; hotéis menos cheios devido à crise, mas ainda assim bem compostos; escolas sem alunos e professores, funcionários a olhar para as paredes e a matar moscas para passar o tempo; repartições calmas, silenciosas, funcionários aborrecidos despachando papelada de meses entre cafés e Facebook; centros de saúde com médicos e enfermeiros jogando Solitário para passar o tempo; um dia de sol como os outros, algumas nuvens ao cair da tarde, milhões de euros gastos pelo Estado em subsídios de refeição pagos a funcionários públicos com uma produtividade próxima do zero; algumas greves, sem stresse; Miguel Relvas novamente a nomear Miguel Relvas para mais uma comissão de inúteis constituída com o objectivo de produzir inutilidade. Um dia normal em Portugal, portanto. Siga.

 

(Imagem encontrada no Câmara Corporativa.)

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por Sérgio Lavos
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por Sérgio Lavos

Reflexão interessante de José Gil - o seu texto vai muito além da argumentação mais comum contra o novo AO. O Acordo não "mutila o pensamento", simplesmente o transforma. A questão é, e será sempre: a língua terá de ser regida por um Acordo, seja o de agora, seja o de 1911, seja o do latim escrito das classes altas de Roma Antiga. E pensamos de acordo com o acordo que usamos. Mas será um melhor do que o outro? Heidegger achava que o pensamento nunca teria atingido patamares tão elevados como na Grécia Antiga, precisamente por causa da língua que os filósofos e os poetas da época falavam. Maior complexidade gramatical permite uma maior amplitude do pensamento. Difícil discordar. Mas com o AO não são as regras gramaticais que mudam, mas sim a grafia. Será preciso mais do que uma profissão de fé para se provar que a língua ficará mais pobre com a mudança. E precisamente porque os grandes escritores infrigem e ultrapassam as regras da língua que usam, "quando o espaço virtual de liberdade interna da língua se solta e ousa, para além do uso rotineiro e correcto da gramática", é que o AO não "mutila o pensamento". Um criador precisa de regras para as poder quebrar, torcer, manipular. Para descobrir uma nova linguagem, um outro pensamento. Um Acordo é como se fosse um obstáculo que se evita, apenas para se descobrir um caminho escondido. Seja este ou outro, em qualquer tempo.


por Sérgio Lavos
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por Sérgio Lavos

 

Nigel Farage é deputado no Parlamento Europeu eleito pelo UK Independent Party. Passou pelo partido Conservador inglês, mas saiu em 1993 opondo-se ao Tratado de Maastricht. É um feroz eurocéptico e define-se politicamente como libertário. Está muito longe dos meus ideais políticos. Contudo, o conjunto das suas intervenções no Parlamento - mais algumas entrevistas - é de um brilhantismo oratório a toda a prova. E é difícil não concordar com muitas das ideias por ele defendidas quando fala das actuais políticas europeias. Enfrentou Van Rompuy e humilhou José Manuel Barroso, o presidente da Comissão Europeia escolhido "secretamente" por ser a marioneta perfeita do poder alemão na Europa. É polémico, certeiro, foge à língua de pau da política, não tem medo do politicamente incorrecto. Gosto dele.  


por Sérgio Lavos
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por Daniel Oliveira

 

Luís Fazenda decidiu fazer um balanço da situação na Islândia. À leitura que faço da leitura feita por Luís Fazenda já irei. Mas acho que qualquer debate precisa de uma base factual sólida. E o texto escrito por Luís Fazenda tem demasiados lapsos e, como está em voga dizer, "inverdades", que precisam, antes de tudo, de ser esclarecidos.

 

Escreve Luís Fazenda: "A primeira-ministra Johanna Sigurdasdottir, social-democrata, por um lado, promete ajustar contas com o crime neoliberal, por outro lado, mantém sem mais o acordo com o FMI e o pagamento da dívida pública às entidades exteriores." Não fazia ideia que Luís Fazenda concordava com os ex-militantes que saíram do Bloco de Esquerda (juntos na FER e preparados para fundar o novo partido) e defendia o não pagamento integral da dívida pública ao exterior. É uma novidade para mim: há, no BE, quem seja contra a reestruturação da dívida. Porque não pagar é, obviamente, bem diferente de reestruturar. Quanto ao acordo com o FMI, talvez fosse bom saber o seu conteúdo para perceber a quantas léguas estamos, graças à determinação dos islandeses, do acordo assinado por Portugal. Os controlos de capitais foram reintroduzidos e o Estado Social foi poupado ao ataque do costume, só para pegar em dois exemplos. O principal combate da Islândia, porque era esse um dos seus problema, foi contra o pagamento das dívidas dos bancos privados aos seus investidores externos. E, nessa matéria, os islandeses foram de uma coragem que merece aplauso. Não a suficiente, como se percebe pelo texto, para Luís Fazenda.

 

Balanço do trabalho deste governo, assim numa penada e sem grandes considerações: "Os aumentos de impostos sobre o consumo e o trabalho, cortes nos serviços públicos, desvalorização dos salários, receita célebre, foi posta em prática." Duas meias verdades mal contadas e uma mentira pura e simples. Sim, houve um aumento dos impostos. O governo acabou com a taxa plana e criou impostos progressivos sobre o trabalho. Três escalões, no caso. Não conhecia em Luís Fazenda um defensor, na companhia dos neoliberais portugueses, da taxa plana. Fico a saber que acabar com ela é um ataque aos trabalhadores. Desvalorização dos salários? Nada que o governo tenha decidido. Houve uma inevitável desvalorização cambial, resultado da coragem dos islandeses, e que muito contribuiu para a rápida retoma económica. E, por fim, os cortes nos serviços públicos. Tirando o encerramento, sem grande contestação, de um ou outro hospital e escola, atos mais administrativos que políticos, foi exatamente o oposto que sucedeu. A Islândia, no meio desta crise, conseguiu a proeza de aumentar os apoios sociais aos seus cidadãos. Quando em toda a Europa se segue o caminho inverso, defender que isto é pouco não deixa espaço para qualquer vitória. Só algumas das medidas de "recuo" social: o subsídio de desemprego aumentou de dois para três anos; os cidadãos que não consigam pagar a prestação do crédito à habitação tiveram um ano de moratória sem possibilidade de despejo;  e os cidadãos que declarem falência são desobrigados das suas dívidas ao fim de dois anos, se a sua situação não se alterar.

 

Sobre a revisão Constitucional, continua a faltar algum rigor. "Os Islandeses, desconfiados da maioria parlamentar que se "queimou" nos referendos, atribuíram por votação direta a 25 cidadãos independentes a tarefa de elaborar uma nova Constituição." Vale a pena recordar que a decisão de rever a constituição (com a eleição de 25 cidadãos para o fazer) é anterior a esta maioria Social-Democrata/Verdes de Esquerda (partido com boas relações com o Bloco de Esquerda). Ficam as datas para não haver confusões. Entre outubro de 2008 e janeiro de 2009 acontece a "revolução das frigideiras". A discussão em fora públicos sobre a revisão da Constituição acontece nesse período. Em Janeiro de 2009 o governo de direita demite-se. E só a 25 de abril de 2009 os social-democratas ganham as eleições. A 10 de maio, o governo de esquerda toma posse. Resultado do debate tido durante a "revolução", de onde nasceu este original processo de revisão constitucional, meses antes das eleições, a nova maioria aprova, a 4 de novembro, a lei de revisão da Constituição, que aplica a proposta nascida no princípio do ano. Em 2010 acontecem dois fora nacionais para debater o que deve estar na nova Constituição. A 26 de outubro desse mesmo ano é eleito o Conselho Constitucional, com 25 eleitos de mais de 500 candidatos. E em julho de 2011 a proposta de revisão é entregue ao Parlamento. Ou seja, a exigência de uma revisão da Constituição, feita por via da democracia direta, não pode resultar de nenhuma desconfiança em relação a uma maioria que ainda não existia. Não estamos no domínio da interpretação dos factos, mas apenas da cronologia dos factos.

 

O resultado deste processo de revisão constitucional, segundo Luís Fazenda, foi "uma enorme desilusão". Porquê? "É muito recuado na área económico-social". Deixo o link para a proposta que está em cima da mesa e cada um, tendo em conta o momento histórico que vivemos, que ajuíze por si. Gostava de estar a "recuar" assim, vos garanto. E acrescenta: "abriu uma nova polémica no pequeno país quando não estabelece a garantia de propriedade pública de recursos naturais". Recorda ainda: "disso nos deu conta a conhecida cantora Bjork, que animou uma plataforma contra a entrega a multinacionais de zonas de exploração aquática e mineira do arquipélago". Por fim, o processo: "O projeto poderia eventualmente ser melhorado no parlamento, onde foi entregue pelos "25" em Agosto de 2011. Aguarda decisão sobre a hora de morrer ou nascer. O parlamento tem ainda a batata quente nas mãos e o impasse à sua frente."

 

Aqui os lapsos são tantos que nem sei por onde começar. Antes de mais, é difícil haver um resultado e uma desilusão quando o processo está a meio. A nova Constituição só será aprovada em 2014, porque é isso que o processo decidido pelos islandeses impõe. Tem de ser ratificada por este parlamento e pelo próximo. Não há "impasse" nenhum nem se espera pela hora de "morrer" ou de "nascer" . Há um cumprimento das regras previamente definidas.

 

Ao contrário do que afirma Luís Fazenda, o projeto garante a propriedade pública do sector energético. Façam a fineza de ler o artigo 34º. Bjork não animou qualquer plataforma contra a entrega, por parte deste governo, a multinacionais da exploração aquática e mineira. Porque tal entrega nunca existiu com este governo. E porque a plataforma de Bjork é anterior, não só a este projeto de Constituição, como a esta maioria e a esta crise. Mais uma vez, uma confusão com a cronologia. Bjork foi contra a entrega, pelo anterior governo de direita, de uma fábrica de alumínio a um consórcio americano e canadiano. Depois, essa plataforma passou a concentrar-se na privatização da Orka, uma empresa geotermal de Reiquiavique, também decidida pelo governo anterior. A plataforma da Bjork (que foi começada pela sua mãe) remonta ao início dos anos 2000. Bjork esteve muito ativa nos últimos tempos, é verdade. Já com o atual Governo. Mas, como podem ver nesta entrevista, as suas críticas são dirigidas ao governo anterior. Um outro filme, que nada tem a ver com a revisão da Constituição ou com a política do atual governo.

 

Sobre os processos judiciais contra os responsáveis pela crise, diz Luís Fazenda que "a montanha pariu um rato" e que as detenções foram "efémeras". Vários dos responsáveis estão presos e outros, como o ex-primeiro-ministro, aguardam julgamento em liberdade. Quem me dera a mim que a justiça portuguesa parisse tamanho rato. Espero, no entanto, que não haja julgamentos sumários. Ou seja, que as pessoas esperem julgamentos em liberdade quando não haja razões para estarem presas. Mas Luís Fazenda entusiasma-se e diz mais: "o caso BPN em processo judicial, que os portugueses fortemente ridicularizam pela brandura, é muitíssimo mais duro". Vale a pena ler o processo daComissão Inquérito aos crimes bancários na Islândia e comparar com a situação portuguesa. Nada podia ser mais falso. Nunca, em Portugal, houve processo semelhante ao que está a ser experimentado na Islândia. Nunca. Muito menos o do BPN. Mas, para além do processo judicial, vale a pena recordar outras medidas: os salários dos administradores dos bancos foram tornados públicos; foram impostos limites para os bónus dos gestores; familiares e amigos dos administradores da banca têm limites ao crédito e grandes empréstimos bancários têm de ser comunicados ao Banco Central.

 

Reposta parte da verdade (há outras imprecisões no texto, mas não vamos ser picuinhas) interessa-me perceber porque sente Luís Fazenda, dirigente de um partido que tem exigido uma postura mais corajosa por parte do nosso governo, a necessidade de torcer um pouco a realidade para desancar no único governo que resulta de uma vitória da esquerda na Europa. O único que, nas condições difíceis que tem, faz frente ao poder financeiro. O único que não optou pela via da austeridade cega. O governo islandês tem fragilidades. Seguramente. Tantas, que a oposição à sua esquerda está a crescer nas sondagens. Mas estranho a prioridade, apenas isso. Tendo em conta o que se passa na Europa, ela é quase impossível de explicar.

 

A minha explicação é simples: há que refrear qualquer tipo de veleidade de, dentro do sistema e com alianças alargadas, procurar saídas de poder. "Não tentem imitar a Islândia", escreve Luís Fazenda, citando o ministro das Finanças local. Ninguém quer imitar a Islândia. Porque há, entre a Islândia e Portugal, diferenças abissais. Mastransformar qualquer meia vitória numa meia derrota - ou numa derrota inteira - não é estratégia nova. Alimenta-se da ideia de que menos do que tudo é traição. Uma ideia que só pode garantir à esquerda mais umas décadas de derrotas. Tem uma utilidade: manter um nicho de mercado, sem riscos nem sobressaltos. Os beneficiários desta crise agradecem tamanha "radicalidade". E claro que todo o texto de Luís Fazenda é para ter leituras nacionais.


por Daniel Oliveira
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por Miguel Cardina


por Miguel Cardina
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Segunda-feira, 20 de Fevereiro de 2012
por Daniel Oliveira

 

14 em cada 100 trabalhadores portugueses estão, enquanto ouvem apelos para mais trabalho e produtividade, impedidos de contribuir para o futuro do País. Um em cada três jovens trabalhadores com menos de 25 anos está desempregado. No momento em que a sua energia, vontade de aprender e disponibilidade é maior do que alguma vez voltará a ser o País dispensa-os.

 

Todos os dias quase 900 portugueses perdem o emprego. E tanto desperdício não resulta de uma calamidade natural. Resulta de escolhas políticas. A austeridade, muitos avisaram, teria efeitos dramáticos no consumo interno. E esses efeitos resultariam em falências e em perdas de emprego. É uma espiral sem fim. Mais desempregados são mais despesas sociais e menos receitas fiscais para o Estado, agravando o problema que os austeritários prometiam resolver. Mais desemprego é menos consumo e mais crise. E quase todas as medidas com vista à redução dos custos em trabalho estão a ter os seus efeitos. Não os prometidos, claro está. É um clássico: quando mais os liberais aplicam a sua receita para criar emprego mais o desemprego aumenta. Há mais de dez anos que isto acontece e não há maneira de perceberem que não resulta. Nem aqui, nem em Espanha, nem em toda a Europa.

 

A ideologia dominante vê o desemprego como uma inevitabilidade transitória. Acredita que, através da pressão que ele provoca no mercado de trabalho, se conseguirá chegar a um ponto de equilíbrio nos custos deste "factor de produção". É por isso mesmo que defende leis laborais que promovam a precariedade, despedimentos baratos, subsídios de desemprego meramente caritativos, salários mínimos no limiar da sobrevivência (ou mesmo a sua abolição) e um sindicalismo sem qualquer força negocial. A crença nas virtudes do mercado de trabalho desregulado alimenta-se da ideia de que o desemprego resulta de entraves ao livre funcionamento do mercado e que só o fim desses entraves pode resolver o problema.

 

Os ideólogos da selva têm apenas de lidar com uma contrariedade: a frieza dos números. Às sucessivas reformas das leis laborais, à redução das prestações sociais e à eterna política de "moderação" salarial não tem correspondido um aumento dos empregos disponíveis. Pelo contrário. O aumento do emprego precário e mal pago tem sido sempre acompanhado por um galopante aumento do desemprego.

 

A questão que agora se põe é esta: a que nível de taxa de desemprego sucumbirá a paz social, a democracia e o crescimento que nos garantiram um modo de vida aceitável? Até que ponto estamos dispostos a ir para confirmar o fracasso das crenças ultraliberais? Quantas pessoas teremos de sacrificar até percebermos que este caminho não nos serve?

 

Publicado no Expresso Online


por Daniel Oliveira
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Domingo, 19 de Fevereiro de 2012
por Sérgio Lavos

 

"o que é importante é que as pessoas saibam que o país não vai mergulhar em dificuldades ainda maiores, porque nós estamos a cumprir com as nossas obrigações para puxar o país para cima"

Estas palavras de Pedro Passos Coelho, depois de ter sido vaiado em Gouveia, são um extraordinário - sobretudo porque é mais do que ordinário - exercício de cinismo. Em pouco mais de seis meses de governo PSD/CDS, o país estourou. O desemprego aumentou para níveis nunca vistos. Todos os dias fecham dezenas de empresas no país. Há cada vez mais pessoas a passar fome, desempregados de longa duração a perder o direito ao subsídio de desemprego, beneficiários do RSI caem na pobreza extrema. As exportações baixaram drasticamente. O consumo, privado e público, teve uma retração que nos transportou directamente para os anos 70. E, para cúmulo, estes esforços levaram apenas ao crescimento da dívida pública - de 102 para 110% - e nem a meta do défice se conseguiu atingir sem se recorrer a medidas extraordinárias extremamente onerosas para o futuro do país. Não há qualquer esperança no horizonte, se continuarmos neste caminho, e a Grécia é o melhor exemplo disto. Alguém que afirma o que está transcrito acima de forma descarada ou vive numa realidade paralela - o mundo cor-de-rosa a que os extremistas neoliberais representados por Vítor Gaspar aspiram - ou é um cínico mentiroso sem emenda. Venha o diabo e escolha.

 

O país estourou. Daqui para a frente, viveremos miseravelmente sob os seus escombros.


por Sérgio Lavos
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por Miguel Cardina

Um dos problemas da democracia de hoje - que toda a gente repete até à exaustão - é o "divórcio entre os cidadãos e os seus representantes". E o que faz a UE quando por momentos é dado aos cidadãos um vislumbre do que se decide à porta fechada? Quando se tem um relance da falsidade do discurso do "não haverá novo empréstimo", "não somos a Grécia", "estamos no bom caminho e não haverá qualquer necessidade de reestruturar a dívida"? Faz o óbvio: suspende o repórter de imagem.


por Miguel Cardina
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por Sérgio Lavos
A primeira curta-metragem de João Salaviza.
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por Sérgio Lavos
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Sábado, 18 de Fevereiro de 2012
por Sérgio Lavos

Mais um filme "português" a ganhar um prémio no Festival de Cinema de Berlim. É o regozijo total nos media que andam o resto do ano a ignorar o cinema português. Até o Correio da Manhã, insuspeito de defender o parasitismo subsídio-dependente dos nossos cineastas, aplaude o feito. Os patriotas de ocasião é que têm razão: vou gozar este prémio enquanto português e deixar de dizer mal de um país que tem estes criadores que fazem a diferença apesar do desprezo com que são tratados por quem deveria zelar pela cultura nacional. Fica aqui um pequeno excerto de uma entrevista dada recentemente por João Salaviza a uma publicação brasileira:

 

SC-Como são as condições de produção de cinema em Portugal hoje? As co-produções são uma alternativa `a falta de fomento do cinema?

 

JS – Neste momento vive-se um momento trágico. Apesar da vitalidade do cinema português com vários realizadores cuja importância é inegável (Pedro Costa, Manoel de Oliveira, Miguel Gomes, João Pedro Rodrigues e a lista continua…), cada vez menos existe um sentido de dever por parte do estado. O dever de apoiar o cinema, de defender a cultura, a produção de ideias e de sentidos. Neste momento discute-se uma nova Lei do Cinema. É um momento crucial. Se essa Lei não for aprovada, ou se for desvirtuada, isso pode significar o fim do cinema português. Em 2012, o Instituto do Cinema anunciou que não tem fundos para apoiar nenhum filme. Será o “ano zero”. Portugal Ano Zero.


por Sérgio Lavos
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Sexta-feira, 17 de Fevereiro de 2012
por Sérgio Lavos

Visita de Cavaco a escola cancelada por “um impedimento”.

 

"Cordão sanitário" protege o Presidente da República.


por Sérgio Lavos
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por Sérgio Lavos

 

Não. Um filme realizado por um português, com actores e técnicos portugueses, vence prémio da crítica do Festival de Cinema de Berlim. Sessenta por cento do financiamento para a obra de Miguel Gomes foram conseguidos em Portugal, mas os restantes 40% vieram da Alemanha, Brasil e França. E o dinheiro português é de origem privada, enquanto que o que veio dos outros países saiu do Orçamento de Estado desses países. O que significa, citando Miguel Gomes, que acaba por ser “um bocado irónico, em relação ao discurso político que é feito - os 40 por cento restantes da parte brasileira, francesa e alemã saíram dos orçamentos do Estado desses países, cujos contribuintes pagaram, portanto, mais do que os contribuintes portugueses”. Os concursos para financiamento de filmes portugueses estão congelados há meses, sem previsão de regresso. É vergonhoso que o nosso bem cultural com melhor capacidade de exportação esteja a merecer um tratamento destes por parte do Estado português. Um país que trate assim os seus criadores não merece respeito. Não existe.

 

Adenda: não posso dizer se o prémio é merecido - não vi o filme - mas a julgar pelas suas duas primeiras obras, sobretudo Aquele Querido Mês de Agosto, mal posso esperar para ver.

 

Ao pessoal que gosta de botar conversa sem saber muito bem do que fala (sim, falo também deste extremista dos mercados):

- O filme não teve financiamento através do ICA, foi apenas apoiado por este.
- O orçamento para apoio do ICA vem de uma taxa de exibição cobrada aos distribuidores, não directamente dos impostos do contribuinte.
- O realizador conseguiu financiamento privado porque o seu filme anterior, "Aquele Querido Mês de Agosto", estreou em vários países e teve excelente recepção crítica por onde passou.
- O facto do filme anterior ter tido lucro fez com que fosse fácil encontrar investidores para este.
- Mas isso apenas foi possível porque os dois filmes anteriores existiram, e existiram com financiamento público, através do ICA. 
- Sem isto, Miguel Gomes nunca teria chegado ao ponto de poder dispensar o dinheiro dos nossos impostos.
- Tanto o realizador como o produtor recusaram a hipocrisia do acompanhamento da comitiva por uma embaixada do Governo português ao Festival de Berlim, precisamente por causa desta situação.
- Neste momento, os cortes ao financiamento do cinema português são de 100% (como afirma o realizador na entrevista que está no link).
- Havia vários filmes em fase de pré-produção que estão parados.
- Se continuar assim, o cinema em Portugal acaba. Depois disso acontecer, nem prémios internacionais, e muito menos realizadores que conseguem arranjar financiamento privado para os seus filmes, existirão.
- Sem cinema português, o país fica ainda mais pobre, moral e culturalmente.

por Sérgio Lavos
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por Bruno Sena Martins

Ao contrário da clubite que demarcou as reacções aos alegados insultos de Javi Garcia em Braga, levando muito benfiquistas a optar pela minimização leviana do caso - logo subsumindo a consciência sócio-histórica ao tesão competitivo -, não contem comigo para a arte da complacência. Ontem, durante o FC Porto-Manchester City também eu me apercebi dos insultos racistas vindos do público: o Porto deve ser duramente castigado.


por Bruno Sena Martins
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por Daniel Oliveira

Está a falhar na economia. Ela encolheu 1,5% em 2011. Nos últimos três meses do ano, caiu quase o dobro deste valor. No primeiro trimestre depois do anúncio, por parte deste governo, das medidas de austeridade, a atividade económica caiu 2,7%. Tudo dados do INE. A queda acumulada do volume de consumo público entre 2011 e 2013 deverá andar próximo dos 7,5%. Dados do Banco de Portugal. Em novembro de 2011, o indicador compósito para a economia portuguesa caiu para 96,97% da média da série. Em dezembro baixou para os 86,48%. Há 11 meses consecutivos que esta tendência se verifica. Dados da OCDE. O ritmo de crescimento das exportações abrandou para 4,4% (comparado dezembro de 2011 com o mês homólogo de 2010). Em relação ao mês anterior, a quebra do crescimento das exportações atingiu os 15,4%. Dados do INE.

 

Está a falhar nas contas públicas. O défice em 2011 foi superior, em 1.893 milhões de euros, ao previsto no Orçamento do Estado. Sim, a despesa desceu mais 440 milhões de euros do que estava previsto, mas as receitas ficaram 2.332 milhões de euros abaixo. Dados da Unidade Técnica Orçamental da Assembleia da República. A dívida portuguesa aumentou em quase 20% do PIB entre o terceiro trimestre de 2010 e o mesmo período de 2011. Só a Grécia e a Itália estão pior que nós. Dados do Eurostat. Os juros da dívida portuguesa no mercado secundário atingiram os 14,59% para o prazo de dois anos, 14,597% para o prazo de 10 anos e 18,79% para o prazo de 5 anos.

 

Está a falhar na vida das pessoas. O desemprego atingiu os 13,6 por cento. É a terceira maior taxa de desemprego da OCDE. Em Dezembro, 31% dos jovens portugueses com menos de 25 anos estavam desempregados. Dados da Eurostat. 670.604 famílias tinham entrado em incumprimento no pagamento dos seus empréstimos em 2011. Há mais 12.280 famílias a não pagar o seu empréstimo à habitação, um aumento muito superior ao de 2010. Dados do Banco de Portugal.

 

É este o balanço de nove meses de aplicação do memorando da troika. Desculpem só ter números para vos dar e faltarem-me as frases mobilizadoras sobre os efeitos regeneradores da austeridade. Está a ser um desastre.

 

Publicado no Expresso Online


por Daniel Oliveira
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Quinta-feira, 16 de Fevereiro de 2012
por Bruno Sena Martins
O tema da crise económica há muito que deixou de fornecer notícias - se as quisermos entender no sentido de novas. A cadência informativa assemelha-se à publicação em fascículos de um romance cujo enredo, personagens e epílogo todos antecipamos. Entediante a tragédia em que acção ignora o coro, trágico o coro cujo epílogo se dobra ao guião.

por Bruno Sena Martins
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por Pedro Vieira

 

 

rabiscos vieira


por Pedro Vieira
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por Sérgio Lavos

Desemprego sofreu a maior subida de sempre, para 14% no final do ano.

 

E, en passant:

 

Um Presidente da República bravely running away. A maioria sonhada por Sá-Carneiro a caminho da implosão. 


por Sérgio Lavos
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por Daniel Oliveira

 

Veremos se Barack Obama tem a coragem de levar até ao fim as ideias que já conhecemos da sua proposta deOrçamento para 2013. Veremos se no meio dos difíceis equilíbrios, negociações e concessões que a política americana sempre obriga - sobretudo quando os democratas, mais temerosos que os republicanos, estão no poder - sobra o essencial. Seria bom. Poderíamos finalmente comparar dois caminhos para sair da mesma crise.

 

Dos dois lados, a tentativa de reduzir o défice. Uma, a americana, com os olhos postos na economia. Outra, a europeia, sem olhar a repercussões económicas. Como se o equilíbrio das contas públicas fosse, por si só, um fim. E como se esse fim fosse sustentável com um ambiente geral de recessão económica. O objetivo americano é chegar a um défice de 5,5% do PIB em 2013. E de 2,8% em 2022. O da Europa é um défice de 3% já e de zero por cento de défice estrutural a médio prazo. É a diferença entre o realismo e o delírio.

 

Obama quer fazer cortes na Defesa, Justiça e Segurança Interna. E aumentar o investimento na Educação,Energia e Infraestruturas. Exatamente o oposto do que a Europa está a tentar. A Europa esvazia o papel social do Estado e reduz o seu investimento público enquanto mantém intocadas as despesas no que o minimalismo liberal considera ser o único papel do Estado: manter a soberania militar (muitas vezes para além das necessidades e da razoabilidade) e o papel repressivo do Estado, especialmente importante em tempos de crise social e política. Obama considera que as áreas em que quer investir são as "fundamentais para os EUA construírem uma Economia que dure". A Europa acredita que se pode reerguer, no meio da crise mundial, com um Estado ausente da economia.

 

Isto é na despesa. Quanto à receita, Obama quer aumentar os impostos. Só que a lógica proposta é, mais uma vez, a oposta à da Europa. Tenciona recolher mais 1,5 biliões de dólares com o fim dos benefícios fiscais que se dirigiam às famílias com rendimentos anuais superiores a 250 mil dólares. E garante que vai mesmo aplicar a "regra Buffet", com a criação de um imposto de 30% sobre todos os americanos com receitas anuais superiores a um milhão de dólares. Mais uma vez, o oposto da via europeia, que aposta em esmifrar as classes médias, chamar investimento com impostos baixos para os mais abonados e compensar as perdas com o enfraquecimento do papel social e económico do Estado.

 

É com este aumento de receita, que representa uma revolução para a equidade fiscal nos EUA, e com uma redução da despesa militar (o fim da missão no Iraque e a retirada do Afeganistão ajudam) que Obama pretende aumentar o investimento a reconstrução de estradas e pontes e em novos equipamentos.

 

A missão do presidente não será fácil. Para além da resistência republicana e dos preconceitos de muitos americanos, que, graças à propaganda de ultras e do império do senhor Murdoch, aceitaram e aplaudiram, durante décadas, a proteção fiscal dos mais ricos, terá de vencer os mais poderosos lóbis dos EUA, a começar pelo complexo industrial militar. A campanha já começou, com alguma imprensa a acusar Obama de eleitoralismo. Já se sabe que quando uma medida é difícil para os fracos é corajosa, quando é difícil para os fortes é populista.

 

Na recessão pós-1929 foram os americanos que deram a receita para sair da crise. Esta mesma: investimento público para estimular a economia. Às vezes, deitar dinheiro no problema resulta. No passado resultou. E não vale a pena dizer que, com as economias emergentes à perna, este caminho é impossível. Devo recordar que sem a abundância dos mercado europeu e americano as economias emergentes submergirão num ápice. Não por acaso, chineses, brasileiros e indianos olham com preocupação para o desvario europeu. É que a pequenez da senhora Merkel não está a pôr apenas a Europa em perigo. É a economia global que sofrerá com esta absurda austeridade.Esperemos que Obama tenha coragem e cumpra. E esperemos que a Europa tenha inteligência e aprenda.

 

Publicado no Expresso Online


por Daniel Oliveira
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por Pedro Vieira

por Pedro Vieira
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Quarta-feira, 15 de Fevereiro de 2012
por Sérgio Lavos

 

Há-de aparecer por aí gente a contestar os peanuts subtraídos ao erário público para pagar a edição "em papel couché semimate" encomendada pelo ministro da propaganda Relvas, em ajuste directo -  legal, pois claro. A impressão do programa do Governo, cujo nome é de uma pomposidade viscosa e fascizante insuportável ("Compromisso para uma Nação Forte"), ficou por uns míseros 12 000 euros de custo total, o que corresponde a 120 euros por exemplar. Ora bem: 120 euros. Cerca 1000% mais do que o custo corrente do mercado para um livro com aquelas características - e quase que nem vale a pena ir pelo luxo da edição feita para distribuir pelos membros do Governo ser tudo menos necessário. O facto da gráfica beneficiada com o ajuste ter ligações ao PSD é um pormenor. Peanuts. Um símbolo da, como dizer, palhaçada que se tornou esta governação PSD/CDS. Medidas de austeridade, sim; sacrifícios pedidos a todos; alusões à pieguice de quem justamente contesta; mas a mesma gestão dos dinheiros públicos, do dinheiro dos nossos impostos: irresponsável, circulando directamente para o bolso de interesses partidários, familiares ou de organizações mais ou menos secretas. Como dizia o Pacheco: puta que os pariu!


por Sérgio Lavos
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