da Maia
Caro Pedro,
... o tema já foi falado noutros posts, mas sendo tão importante fica sempre muito por dizer!
Levanta uma questão interessante - o que vai ser ensinado daqui a 100 anos? Certamente que nada do que aqui é escrito tem importância daqui a um mês, nem para nós... quanto mais daqui a 100 anos!
Provavelmente daqui a umas décadas, o que restará serão os nomes dos políticos, e uma nota especial para Durão Barroso, grande português que esteve à frente da comissão europeia durante 10 anos.
Isto é tipicamente o que irá passar numa Escola normalizada...
Por isso há um ensino que não pode ser negligenciado, deixado ao descuidado público, e deve ser preservado - é a tradição oral dentro das famílias.
Cada um de nós tem obrigação de passar à próxima geração a nossa opinião, e não esperar que a Escola o faça!
Repare bem, durante algum tempo as famílias descuraram o seu ensino familiar, e os filhos já nem sabiam o que era o 25 de Abril... e já temos filhos desses filhos!
Há feriados, mas a maioria da população nem sabe porquê, nem sabe o que se comemora!
O analfabetismo foi importante, e começou a ser combatido mesmo durante o tempo da monarquia, ver por exemplo o artigo de Maria Filomena Mónica sobre Fontes Pereira de Melo:
http://analisesocial.ics.ul.pt/documentos/1218793574T4kPM3ma5Rb25XZ7.pdf
Pior que o analfabetismo, é a inconsciência do analfabetismo! Ou seja, podemos ter uma boa percentagem da população que sabe ler textos, mas não é crítica ao que aí é dito... sobre esse aspecto regredimos muito. Isto é, quem era analfabeto sabia que tinha muito por onde trilhar, agora com "novas oportunidades", o que era exigido anteriormente numa 4ª classe era muito mais do que é exigido hoje para um 12º ano!
E depois... fica aquela dúvida: hoje temos licenciados que já não sabem fazer contas básicas, que não sabem quem foi o primeiro rei, o que se comemora no 1 de Dezembro, ou 5 de Outubro. Isso eram daquelas coisas que há uns 30 anos, mesmo alguns analfabetos sabiam.
Por outro lado, quando uma criança pega no rato e clica nuns botões diz-se que é um génio dos computadores. E isto prossegue... um tipo que mete um gráfico num Excel ou num Word, é um técnico especializado!
Vai tudo alinhando pelo mínimo, numa sociedade onde a aparência teve sempre mais valor do que a matéria de facto.
A educação pública transformou-se no último grande negócio rentável que as Editoras não prescindem. Numa altura em que haveria uma multiplicidade de oferta educativa na internet, insiste-se na cartilha do "livro autorizado", na opinião outorgada e chancelada. Não é só para salvar as editoras, nem é só para garantir um ensino mínimo - é muito mais para garantir que o ensino é exactamente aquele, aquele que interessa!
Será que interessa? Era bom ver o que fica na cabeça dos adultos, do que se ensinou... e era bom ver o que não sabemos e era importante ser ensinado, para a nossa vida habitual. Por exemplo, não deveriam ser ensinados os direitos consagrados na Constituição?
Vivemos numa sociedade onde não podemos invocar o desconhecimento da lei, mas onde esse conhecimento não é ensinado, nem tampouco tornado público...
Ou seja, esta é uma sociedade de farsantes, e não sendo actores, somos apenas figurantes para a parte trágica da comédia.
Cumprimentos,
da Maia
PS: Se não é o PedroM, para evitar confusões bastaria colocar Pedro Lourenço, certo?