Quarta-feira, 8 de Junho de 2011
por Andrea Peniche

Tenho lido muitos comentários sobre os resultados eleitorais do Bloco. Uns certeiros e bem intencionados e muitos outros canibalescos. Desde o seu aparecimento que a morte do Bloco de Esquerda vem sendo anunciada. A realidade contradisse sempre a profecia. Aqui chegados, perante a primeira grande derrota, convém que, como diz e com muita razão o Nuno Ramos de Almeida, a discussão seja séria para que se possa aprender alguma coisa com isto.

 

O Bloco perdeu metade dos seus deputados e milhares de votos. Contra isto não há argumentos. No entanto, e paradoxalmente, esta foi uma das melhores campanhas que o Bloco fez: empenhada, certeira nos argumentos, propositiva. O Bloco apostou tudo na renegociação da dívida, uma alternativa às imposições da troika, mas ficou sozinho no debate. Os partidos do arco do FMI blindaram a discussão e a imprensa calou-se. O ódio venceu a razão e muitos dos que quiseram acima de tudo correr com Sócrates não tiveram o cuidado de olhar para o preço a pagar por uma maioria de direita.

 

A campanha teve fraquezas. A ausência de temas capazes de chegar a pessoas menos familiarizadas com os assuntos económicos é, na minha perspectiva, uma delas. E o Bloco não conseguiu compreendê-lo a tempo de reajustar a campanha. Porém, as razões mais importantes para o desaire eleitoral, sinalizadas pelos fazedores de opinião de direita e de esquerda, foram o apoio a Manuel Alegre, a moção de censura e a não-reunião com a troika. O curioso em toda esta questão é que os mesmos que calaram a discussão sobre o que era essencial nesta campanha, a renegociação da dívida, se entretiveram a esgravatar estas questões. Aquilo que o Bloco propôs como alternativa às políticas do presente e do futuro não despertou interesse nenhum; já o passado, mesmo que recente, funcionou como melaço.

Talvez a coisa seja mais estrutural do que faltar a uma reunião e ter feito uma moção de censura pouco clara. Essa é a discussão que interessa e que temos pela frente. Tudo o resto é fogo de artifício.


por Andrea Peniche
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22 comentários:
JgMenos
Governar é ter um plano de soluções abrangentes, onde nada é excluído.
A linguagem anti-capitalista em quem está condenado a viver em capitalismo é matéria romanesca.
Quando o Bloco abandona o romance e se arvora em técnico gestor de uma sociedade a caminho do socialismo debaixo de uma penhora capitalista, sai do real e não alimenta as utopias que lhe davam o ser.
Inexiste.
Como inexiste uma esquerda que faça o menor sentido, logo que abandona um discurso que a Madre Teresa não desdenharia de usar.

deixado a 8/6/11 às 11:05
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Nuno
Sem desprezar esta opinião, esta análise ao resultado do bloco faz lembrar aquelas feitas no futebol. 
Fizemos tudo bem, trabalhámos, só que o árbitro era ladrão e a bola bateu na trave...
Continuando a analogia da bola, o BE está como o Sporting do D.O. (e meu)... decisões erradas umas a seguir às outras, estratégia deficiente... depois chega a altura do jogo e confiam que apenas o símbolo e a história ganham jogos... no fim, na hora da derrota, culpa-se a sorte, a relva, a chuva, o vento...

deixado a 8/6/11 às 11:09
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... o campo inclinado...

 

deixado a 8/6/11 às 12:49
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Estou em inteiro desacordo com a afirmação de que o BE se mostrou o paladino da "renegociação" (pior, diz-se que o pioneiro, quando tal coisa já estava claríssima no programa eleitoral do PCP). Uma "renegociação" que nunca se percebeu bem o que era. Escrevi bastante sobre isto no meu blogue "No Moleskine" <http://no-moleskine.blogspot.com>. A posição do BE foi esquiva e ambígua. Retirou-lhe credibilidade e muita gente viu o BE - ou melhor, especificamente Louçã - como aquele que, desde a convenção, mas tendo sido obrigado a mais uma das suas piruetas de um dia para o outro - se quis apresentar como bem comportado, sempre com um olho na hipótese fantasista de uma aliança com o PS.

deixado a 8/6/11 às 11:13
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Joana
Andrea:o Bloco não ficou sozinho no debate da renegociação da dívida: a CDU andou sozinha a debater a renegociação da dívida, por 15 dias, até o Bloco se lhe juntar. E fez bem. E tem toda a razão no resto do parágrafo. Cumprimentos.

deixado a 8/6/11 às 11:23
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filipe
não. o melaço do alegre não tem nada a ver com isto. isso é só um prodigiosa fantasia. as pessoas em portugal são todas muito burras e não percebem que dizer mal da política neoliberal do governo e apoiar o seu candidato presidencial é uma coisa muito de esquerda, tipo fazer pontes e criar diálogos, unidade "à esquerda", no fundo...

deixado a 8/6/11 às 11:45
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Rui F
(já escrevi isto noutro blog a um camarada)

FUGIRAM 270 mil pessoas do Bloco!
Quem eram?
Que queriam em 2009?
Que "click" as fez desertar?
Para onde desertaram?
Sabe-se contudo para onde não foram...

Entender isto é essencial.
Não querer entender ou substimar a questão, é condenar o Bloco à fumaça.
É uma questão de opção, da qual não partilho.

Se o Bloco insistir em "obrigar" o Povo a ser Bloco e não o contrário (esse papel já o PCP o ocupou) o melhor seria fazer a aliança definitiva com o PCP: os 16+8=24 podem ser até 25 ou 26, fazendo umas repescagens de votos perdidos aqui e ali.

Não peçam é para que os 270 mil regressem de novo.
Sabem o que é um manguito?
Ouviram falar no Boldalo Pinheiro?

deixado a 8/6/11 às 11:56
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João Cerqueira
O Bloco fez uma das melhores campanhas?
O que não teria acontecido se tivesse feito uma campanha razoável ... .

O BE perdeu metade dos deputados porque os seus antigos eleitores compreenderam que nada o diferencia do PCP. Logo, aqueles que pretendem acabar com o sistema capitalista, preferiram um partido mais seguro - o PCP.
Já os que desejam uma Esquerda moderna apostada em humanizar o capitalismo, esses debandaram do BE.
Porque, esgotados os temas fracturantes, o discurso anti-capitalista e de rumo ao socialismo revela-se completamente anacrónico e desfazado dos desafios da globalização.
Pretende o BE que Portugal imite o modelo da Coreia do Norte, de Cuba ou da Venezuela?
O dito votante culto do BE pode não simpatizar com as políticas liberais e o capitalismo desenfreado, mas sabe muito bem o que sucede nos países que renegaram o sistema de mercado.

Aqui reside a contradição insolúvel do actual discurso do BE: o contraforte da matriz marxista impede-o de se tornar na desejada Esquerda Moderna.
No Brasil, o PT de Lula resolveu essa contradição: abraçou o capitalismo sem esquecer as questões sociais. E os desfavorecidos do Brasil beneficiaram muito mais do que se o PT continuasse a falar em rumo ao socialismo ou protesto nas ruas, estando fora do governo.

deixado a 8/6/11 às 12:10
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LAM
Parte do que diz é verdade e admito que a explicação da fuga de muitos votos também passa por aí.
Há no entanto duas coisas quero chamar a atenção:
 
- O Bloco tem de ser um partido de convicções ideológicas baseadas em princípios claros e não pode, como um CDS por exemplo, andar à cata do vento que sopra no momento, ser de direita quando convém, ou mais centrista quando dá jeito. Independentemente do número de votos que isso possa dar, um partido existe para colocar as suas ideias políticas, bater-se por elas e tentar conquistar mais apoiantes para essa causa, não para andar ao sabor das circunstâncias e correr atrás do eleitorado, oferecendo-lhe aquilo em que não acredita.

-Os ativistas ou militantes do Bloco, aqueles que levam o Bloco às pessoas, aos eleitores, são genericamente pessoas com essas convicções. Se o Bloco abdicasse desses princípios que junta essas pessoas, poderia (supondo que esses 200 mil que fugiram defenderiam aproximações ao PS), potencialmente ganhar 200 mil votos, mas nunca lá chegaria a mensagem porque toda a estrutura que dá corpo ao BE desapareceria (de certeza que não é nem um, desses 200 mil, que faz parte da militância no partido  e lhe dá corpo).

Entre as posições mais radicais , tão prenhes de coerência revolucionária quanto de isolamento social, e as ideias social-democratas de aproximação ao PS a qualquer custo - de já tão evidentes que não se distinguem de algumas figuras do PS - há um caminho largo em que cabem os valores dos princípios e um espectro eleitoral muito mais largo do que podem mostrar estas eleições. Os zigue-zagues, para um lado ou para o outro para contrabalançar, é que são dispensáveis.


João Cerqueira
LAM,

Coerência ideológica não falta ao BE.
Todavia, nessa suposta força reside o seu principal problema: a incapacidadede de compreender que no mundo actual a esmagadora maioria dos países e dos cidadãos quer viver num sistema de mercado e aspira à prosperidade, à riqueza, ao conforto dito burguês.
O tal simpatizante culto do Bloco adora ir à FNAC.

deixado a 8/6/11 às 14:47
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LAM
Não concordo com o que diz a Andreia acerca de esta ter sido uma boa campanha do Bloco. Admito que foi uma campanha muito esforçada, mas não foi uma boa campanha. Faltaram principalmente ideias, de conteúdo e de forma.
De conteúdo porque as alternativas apresentadas, principalmente sobre a matéria financeira/económica, nunca conseguiram apresentar-se como realizáveis sem que sobre elas pairasse a ideia de ser pior a emenda do que o soneto.
De forma, porque nunca até agora o Bloco tinha apresentado uma campanha tão cinzenta, tão institucionalizada, como até agora. A inovação, a frescura e, talvez, alguma espontaneidade,  de algumas campanhas anteriores, com ações de rua diferentes dos outros partidos , estiveram arredadas desta campanha em que o protagonismo foi todo atribuído às figuras "institucionais" do partido, nisso não se distinguindo da chatice geral.

deixado a 8/6/11 às 14:00
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O Bloco ficou sozinho no debate sobre a renegociação?  A sério?!!!  :-)))  :-)))

deixado a 8/6/11 às 15:05
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LAM
De facto, ele ainda há antenas que só apanham um canal...
;)


De qualquer forma, e apesar de CDU e BE muito terem insistido em discutir tanto a renegociação como o que aí vem e de, nisso, terem ficado "ambos os dois" a pregar aos peixinhos porque o interesse dos partidos da troika amplificados pela comunicação social era discutir tudo menos isso, fiquei sempre com a ideia, e disse-o algumas vezes (pode ser defeito meu, ok), de que a mensagem a passar sobre o assunto careceu sempre de explicações compreensíveis que a apresentasse com mais solidez. (nesse senão, BE e CDU empataram).

deixado a 8/6/11 às 17:15
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Joao
"No entanto, e paradoxalmente, esta foi uma das melhores campanhas que o Bloco fez: empenhada, certeira nos argumentos, propositiva"


Se esta é a opinião do Bloco então dificilmente irão aprender o que for.


O bloco apelou bem à renegociação, mas nunca explicou como iria resolver o problema de que renegociando, continua a haver um défice para resolver. Renegociando iria ser impossível ir aumentar a dívida para colmatar o défice. Onde ia cortar o BE para atingir um orçamento nulo?


Foi a falta de esclarecimento deste ponto crucial que afastou muita gente do BE. Numa altura que as pessoas queriam soluções o BE afastou-se sequer de mostrar a sua posição perante a imposição da Troika (no mínimo bater-se pelas suas posições) e falava em renegociar sem abordar as implicações (o problema do défice das contas públicas).


Não compreender isto é não perceber o porque dos votos perdidos. O BE não devia ser o partido do contra, mas sim das soluções alternativas... falta agora a parte das soluções...

deixado a 8/6/11 às 15:42
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