A primeira reacção da esquerda socialista foi positiva: um descalabro é um descalabro. Agora há que procurar colectivamente as causas das coisas. O José Gusmão dá pistas profícuas sobre o método a seguir: “Não devemos perder um segundo a lamentar um enquadramento reconhecidamente adverso. Por duas razões: não é de esperar que melhore (antes pelo contrário) e não há grande coisa que possamos fazer a tal respeito, senão melhorar a nossa capacidade de intervenção. A oportunidade é, portanto, para reflectirmos sobre as razões desta derrota, sobre as insuficiências da nossa organização e sobre o que temos a melhorar (…) Não vale a pena queixarmo-nos do povo.” Uma derrota política desta natureza exige um debate amplo, que ouça todas as vozes, mesmo de quem só é simpatizante. Um debate que passa necessariamente por uma convenção e que vai para lá dela.
A questão é de organização e de poder. Aqui o pior que pode acontecer a uma esquerda socialista que queira tirar todas as ilações deste desaire eleitoral é não reconhecer os seus erros tácticos e estratégicos, que, de facto, estão longe da sua plataforma “económica”, com todas as insuficiências que esta possa ter e tem muitas. A esquerda tem de adequar a sua forma organizacional para impedir que os erros se repitam, para evitar que se amplie o fosso entre a sua base eleitoral e a sua direcção política. Um fosso que se abre sempre que muitos cidadãos pressentem uma indisponibilidade partidária para gerar soluções construtivas, para gerar esperança. Um fosso que se abre sempre que se fragiliza a participação democrática. Da moção de censura à recusa em reunir com a troika, há muita pedra para partir e muitas vozes, de perto e de longe, para escutar.
A melhor tradição socialista não cai na tentação de avançar com desculpas esfarrapadas, que soam a desresponsabilização, para descalabros eleitorais e não cataloga preconceituosamente a opinião legítima de militantes dos mais diversos quadrantes internos. Dizer-se, por exemplo, que a derrota se deveu à pressão do chamado voto útil é curto: por que é que, afinal de contas, essa pressão foi tão eficaz? Seja como for, o pluralismo é o nosso melhor activo porque também é a melhor forma de irmos descobrindo as verdades, as explicações mais plausíveis, as que sobrevivem a um debate, que por vezes estão nas vozes, tantas vezes aparentemente isoladas, que se podem revelar tão prescientes porque mais em sintonia com o pulsar de quem nos apoia.
Uma cultura democrática é a melhor forma de evitarmos fechamentos políticos, de evitarmos as armadilhas dos estereótipos que sabemos como começam e como acabam. Reflexões como a que Fernando Rosas aqui publicou dão-nos mais pistas, embora o debate se possa e deva fazer em todos os lados. Não há um fora e um dentro num partido democrático. Todos somos poucos e as nossas redes vão para lá das sedes. Aos dirigentes, militantes e simpatizantes pede-se ética da responsabilidade, pede-se que não transfiram responsabilidades pelo desaire das legislativas para uma candidatura presidencial digna. Temos de querer recomeçar de novo. A única esquerda socialista que vale a pena é a que não desiste de crescer.
Posts via feedburner (temp/ indisponível)