Quarta-feira, 8 de Junho de 2011
por João Rodrigues

 

A primeira reacção da esquerda socialista foi positiva: um descalabro é um descalabro. Agora há que procurar colectivamente as causas das coisas. O José Gusmão dá pistas profícuas sobre o método a seguir: “Não devemos perder um segundo a lamentar um enquadramento reconhecidamente adverso. Por duas razões: não é de esperar que melhore (antes pelo contrário) e não há grande coisa que possamos fazer a tal respeito, senão melhorar a nossa capacidade de intervenção. A oportunidade é, portanto, para reflectirmos sobre as razões desta derrota, sobre as insuficiências da nossa organização e sobre o que temos a melhorar (…) Não vale a pena queixarmo-nos do povo.” Uma derrota política desta natureza exige um debate amplo, que ouça todas as vozes, mesmo de quem só é simpatizante. Um debate que passa necessariamente por uma convenção e que vai para lá dela.

 

A questão é de organização e de poder. Aqui o pior que pode acontecer a uma esquerda socialista que queira tirar todas as ilações deste desaire eleitoral é não reconhecer os seus erros tácticos e estratégicos, que, de facto, estão longe da sua plataforma “económica”, com todas as insuficiências que esta possa ter e tem muitas. A esquerda tem de adequar a sua forma organizacional para impedir que os erros se repitam, para evitar que se amplie o fosso entre a sua base eleitoral e a sua direcção política. Um fosso que se abre sempre que muitos cidadãos pressentem uma indisponibilidade partidária para gerar soluções construtivas, para gerar esperança. Um fosso que se abre sempre que se fragiliza a participação democrática. Da moção de censura à recusa em reunir com a troika, há muita pedra para partir e muitas vozes, de perto e de longe, para escutar.

 

A melhor tradição socialista não cai na tentação de avançar com desculpas esfarrapadas, que soam a desresponsabilização, para descalabros eleitorais e não cataloga preconceituosamente a opinião legítima de militantes dos mais diversos quadrantes internos. Dizer-se, por exemplo, que a derrota se deveu à pressão do chamado voto útil é curto: por que é que, afinal de contas, essa pressão foi tão eficaz? Seja como for, o pluralismo é o nosso melhor activo porque também é a melhor forma de irmos descobrindo as verdades, as explicações mais plausíveis, as que sobrevivem a um debate, que por vezes estão nas vozes, tantas vezes aparentemente isoladas, que se podem revelar tão prescientes porque mais em sintonia com o pulsar de quem nos apoia.

 

Uma cultura democrática é a melhor forma de evitarmos fechamentos políticos, de evitarmos as armadilhas dos estereótipos que sabemos como começam e como acabam. Reflexões como a que Fernando Rosas aqui publicou dão-nos mais pistas, embora o debate se possa e deva fazer em todos os lados. Não há um fora e um dentro num partido democrático. Todos somos poucos e as nossas redes vão para lá das sedes. Aos dirigentes, militantes e simpatizantes pede-se ética da responsabilidade, pede-se que não transfiram responsabilidades pelo desaire das legislativas para uma candidatura presidencial digna. Temos de querer recomeçar de novo. A única esquerda socialista que vale a pena é a que não desiste de crescer. 


por João Rodrigues
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18 comentários:
natalia santos
Esta possivel explicação para o voto na direita dada ontem por Pedro Tadeu no DN, com um ar propositadamente simplista, não deve andar longe da verdade. Vou  citar uma parágrafo: "Para os seus eleitores, Passos cortará no Estado para pagar a dívida e enriquecer mais os ricos para estes, por sua vez pagarem aos pobres, o que está certo e irá salvar Portugal do desastre."

Claro que a opinião de Pedro Tadeu, que é comunista, é exactamente a oposta.

Na mesma crónica, gostei da transparência com que ele, comunista, diz que" a maioria das pessoas continua a não achar o projecto de socidade da CDU viável ou aceitável".

Chegados aqui, parece-me que vamos conseguir ir muito mais além na discussão.

Toda a discussão feita sem tabus nem dogmas, é uma vitória para todos e um  passo no caminho certo.



deixado a 8/6/11 às 17:19
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Vasco
Ó João, esquerda socialista? O que é afinal o socialismo? Uma ideia vaga? Uma economia «decente»? Ou uma etapa da evolução da sociedade marcada pelo poder da classe operária e pela propriedade social dos meios de produção? Se for esta última, então desculpa-me, mas o BE não é - nunca o foi - uma esquerda «socialista», pois para o BE o socialismo não passa de uma palavra vã, sem conteúdo real.

deixado a 8/6/11 às 17:34
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nuno oliveira
Vasco,

Não vale a pena estar a perder tempo, a maioria dos Srs. que aqui escrevem em nome do BE estão doidinhos para abraçarem esse grande partido de "esquerda" chamado P"S". Confesso que o D.O daria um excelente lider parlamentar do mesmo......

deixado a 9/6/11 às 14:26
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João Cerqueira
As reflexões e análises que até agora a maioria da direcção do BE fez não passou de um sacudir de água do capote: o voto útil, a campanha de ''desinformação'', a recusa dos outros partidos em discutir a Troika, etc, etc.
É  compreensível, porque qualquer outra conclusão implicaria uma atitude consequente: a demissão em bloco.
O BE falhou pela razão de que já não consegue distinguir-se do PCP.
Proclamam-se a Esquerda moderna, mas em vez de seguirem o exemplo do marxista Lula que soube evoluir para a aceitação do sistema de mercado, propõem um modelo económico utópico que nunca resultou em lado nenhum.
Foi essa a razão porque tanta gente deixou de acreditar no BE.
E a mesma razão pela qual o PCP segurou o seu eleitorado.

deixado a 8/6/11 às 17:54
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BLAGUE DE ESQUERDA
alguém tramou Passos Coelho:
http://blaguedeesquerda.blogspot.com/2011/06/quem-tramou-passos-coelho.html (http://blaguedeesquerda.blogspot.com/2011/06/quem-tramou-passos-coelho.html)

deixado a 8/6/11 às 18:48
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João Cerqueira:

" propõem um modelo económico utópico que nunca resultou em lado nenhum".

Seria possível dizer que modelo é esse?

deixado a 8/6/11 às 19:49
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João Cerqueira
Zé Bonito

Posso sim senhor: trata-se do modelo que rejeita o mercado em favor da intervenção do Estado na economia.


João Cerqueira:

Modelos que assumidamente rejeitaram o mercado, através do controlo ( enão intervenção) do estado na economia, só me recordo dos que foram aplicados no países de leste. O que houve e há é modelos que defendem uma maior intervenção do estado na economia, com o objectivo de atenuar as perversões do mercado, nomeadamente a tendência para a concentração do capital. Ora, do que se tem visto e ouvido do Bloco de Esquerda, é isto que defende.

deixado a 9/6/11 às 18:19
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E continuamos nestas conversas da esquerda/direita, laranja/vermelho etc etc

deixado a 8/6/11 às 19:49
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s-o-v-i-e-t

Como simpatizante e ex-militante BE:


Subscrevo, na íntegra este post...

"Não há um fora e um dentro num partido democrático. Todos somos poucos e as nossas redes vão para lá das sedes. Aos dirigentes, militantes e simpatizantes pede-se ética da responsabilidade"


... e assino.





deixado a 8/6/11 às 19:53
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José Dourado
Estou de acordo com a maior parte do texto, João Rodrigues. Só não compreendo nem aceito que, quem acha que há que fazer um debate amplo e que ouvir todas as vozes, remate, no fim, que "aos dirigentes, militantes e simpatizantes (...) pede-se que não transfiram responsabilidades pelo desaire das legislativas para uma candidatura presidencial digna." Então e se essa análise for feita por grande parte dos aderentes?

deixado a 8/6/11 às 20:57
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Creio que a CDU

está aberta a novas adesões

sem perda da "originalidade" das partes


 

deixado a 8/6/11 às 22:18
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Grunho
Quando é que a "CDU" larga o pindericalho?

deixado a 10/6/11 às 17:26
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Nuno
O voto útil também levou milhares de portugueses a não ir votar? Ou esses não "perceberam" a mensagem do Bloco? O problema do BE é apenas um, e vai para lá dos erros cometidos (Alegre, Trika, etc...), porque erros todos cometem: o BE transformou-se em mais do que um Partido de Oposição. As pessoas foram votando BE porque viam neste uma OPÇÃO!! Tal como votam PP. Ora, se o BE não larga a sua postura meramente de oposição, essas pessoas abandonam o BE, porque, ao contrário dos votantes CDU (que são vermelhos desde pequeninos, como se diz no futebol), são eleitorado volátil.
O BE tem que propor mais que meras medidas avulsas, tem que colocar na mesa uma estratégia alternativa de desenvolvimento, que passa por definir bem questões como o financiamento a curto e longo prazo, políticas de emprego viáveis, etc... e sim o BE terá que fazer concessões ideológicas, porque a vida é feita dessas coisas, e em muitos sectores a sociedade não espelha a 100% a visão ideológica dos bloquistas.

deixado a 8/6/11 às 22:22
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