Terça-feira, 14 de Junho de 2011
por Andrea Peniche

 

«(...) Se é certo que se trata de crimes repugnantes que não têm qualquer justificação, a verdade é que, no caso concreto, as duas ofendidas muito contribuíram para a sua realização. Na verdade, não podemos esquecer que as duas ofendidas, raparigas novas, mas mulheres feitas, não hesitaram em vir para a estrada pedir boleia a quem passava, em plena coutada do chamado "macho ibérico". É impossível que não tenham previsto o risco que corriam; pois aqui, tal como no seu país natal, a atracção pelo sexo oposto é um dado indesmentível e, por vezes, não é fácil dominá-la. Assim, ao meterem-se as duas num automóvel justamente com dois rapazes, fizeram-no, a nosso ver, conscientes do perigo que corriam, até mesmo por estarem numa zona de turismo de fama internacional, onde abundam as turistas estrangeiras habitualmente com comportamento sexual muito mais liberal e descontraído do que a maioria das nativas».

 

Corria o ano de 1989 quando o Supremo Tribunal de Justiça produziu este acórdão. Vinte e dois anos depois, em Toronto, um polícia que participava numa conferência sobre auto-defesa na Universidade de York disse aquilo que ainda muita gente pensa: «As mulheres não devem vestir-se como vadias, de modo a evitarem ser vítimas de agressões sexuais».

 

A resposta chegou um mês depois: cerca de 3000 mil pessoas, sobretudo mulheres, desfilaram nas ruas de Toronto exigindo respeito pelas vítimas de violência sexual, reclamando igualmente o direito a disporem do seu próprio corpo e a escolherem livremente o seu guarda roupa. A transferência da culpa para as vítimas é uma das mais grotescas manifestações das sociedades machistas.

 

Rapidamente o protesto se estendeu por todo o mundo: da América do Norte à América do Sul, da Índia à Austrália, passando também por França e Inglaterra. Portugal tem encontro marcado com a Slutwalk no dia 25 de Junho: pelas ruas de Lisboa, do Camões ao Rossio, a partir das 17h30, desfilarão homens e mulheres em defesa da autodeterminação sexual, condenando a violência e o machismo e reclamando o direito ao respeito, até que finalmente toda a gente perceba que Não significa mesmo Não.

 



por Andrea Peniche
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51 comentários:
Isso em Português dá o quê ?


"O passeio das Galdérias ?"


Fica assim com um nome de revista à Portuguesa !

deixado a 14/6/11 às 17:43
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"O passeio das Galdérias ?"

Mais ou menos isso. Ou talvez "O passeio das badalhocas" seja mais acertado.

deixado a 14/6/11 às 21:42
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Quer dizer que temos que incentivar mais polícias a porem as culpas nas mini-saias. Dá para vender comes e bebes à volta da manifestação, ou não? E até poderíamos convencer a câmara a fazer dessa manifestação um evento anual onde o pessoal podia montar umas bancadas, aplaudir e eleger as melhores mini-saias e os melhores piropos. O "Galdeiromedro" seria um sucesso garantido. Contra o machismo, claro... 


cyborgA
Imaginação limitada. Faz-se isso (ganhar dinheiro com a exploração da imagem das mulheres; tratá-las como pedaços de carne ambulantes; ser colectivamente imbecil) todo o ano, já.
E esta marcha é sobre isso também!


Para trata-las como pedaços de carne, prefiro que não sejam ambulantes. Não que goste delas mortiças, mas a idade já não é propícia a tanta acrobacia...
Mas não me leve a mal, eu gosto da marcha. E quanto mais galdérias estiverem mais eu vou gostar da marcha.

deixado a 15/6/11 às 23:32
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Trata-se de um tema complicado, a meu ver. Quer dizer, o tema específico de que fala este post não tem nada de complicado. Obviamente que cada mulher deve poder vestir da forma que quiser e é de um machismo inconcebível justificar qualquer acto de violência sobre uma mulher com aquilo que ela veste.

O que é complicado é algo que está por detrás disto. Se é óbvio que a mulher deve ser livre, entra aqui aquilo que para mim é uma repressão social que actua ao contrário, ou seja, uma tendência para a mercadorização da mulher e que vê em certas práticas sociais um dos seus expoentes. Ou seja, será que uma mulher que decide usar decotes e mini-saias estará sempre a usufruir da sua liberdade ou está na verdade a sofrer uma imposição social, por parte também dos homens que as querem ver assim vestidas?

A conclusão disto é que, para além de defendermos a liberdade da mulher para vestir como quiser, devemos defender também a existência de uma sociedade onde essa liberdade é realmente efectiva.

deixado a 14/6/11 às 17:57
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JORGE SILVA
Muito boa análise!!! Concordo em absoluto...
Parecer ser é mais importante do que ser! Na realidade essa gente, com a mania que é livre, não passam de uns pobres escravos da imposição social e da moda!
E isto tanto é igual para mulheres como para homens.

deixado a 14/6/11 às 21:42
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Andrea Peniche
Caro Tiago,

Obrigada pelo seu comentário. Levanta questões interessantes, mas o propósito deste post é denunciar e recusar a culpabilização das vítimas. Independentemente de uma mulher, ou um homem, ser mais ou menos condicionada pelas expectativas sociais que se constroem à sua volta, o crime deverá sempre ser imputado a quem o comete. À vítima já lhe basta tê-lo sofrido.


Completamente de acordo ;)

deixado a 15/6/11 às 00:40
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Excelente apontamento.
É por isso que praticamente não há crimes sexuais no Islão.
Quem não vê não cobiça.
Um exemplo a seguir.


"Praticamente não há crimes sexuais no Islão"... " Desculpe lá, ó Fado Alexandrino, isto vem de alguém que está numa relacionamento com um Paquistanês e sabe muito bem que existem imensos crimes sexuais no Islão, especialmente dentro do casamento. Simplesmente, não se sabe sobre isso porque é abafado dentro da sociedade (precisamente por ser machista). 
Informe-se melhor sff.


A senhora por estar casada com um monhé já está a incorrer no crime de ter opinião, acautele-se.
Se os crimes são em casa passam para outra alçada e aí o melhor é "entre portuguesa e monhé não meter a colher".

Com dizia o Grande Vulto "habitue-se".


Caro Fado Alexandrino,


não sou casada e nem sequer vivo em Portugal. Mais importante, nunca fui vítima de nenhum crime sexual. 
Tenho direito a opinião tal como você, simplesmente a minha parece ter mais fundamento. 
Crime é crime, violação é violação, seja dentro do casamento ou fora dele. Talves seja você que se tenha de habituar a isso.

deixado a 16/6/11 às 00:13
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Resposta, agora corrigida para ser bacteriologicamente pura e poder ser publicada dado os elevados padrões morais do Arrastão.

Concordo, boa sorte e Alá está com vocês todos.


deixado a 15/6/11 às 13:23
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" sabe muito bem que existem imensos crimes sexuais no Islão, especialmente dentro do casamento."

Aqui entra a definição de crime. Poderão ser "crimes" na opinião pessoal da Diana, mas essa é apenas uma opinião pessoal. O crime é definido pelas leis do país onde os actos ocorrem, e sendo assim não são crimes. Vou dar um exemplo: Um jornal Inglês noticiou que uma muçulmana de nacionalidade inglesa de férias no Dubai foi violada no elevador de um hotel. A polícia do Dubai actuou de imediato e deteve a moça por práticas sexuais com alguém com quem não era casada. Ao contrário do que a Diana possa pensar, o crime aqui foi cometido pela turista.

Quanto a crimes dentro do casamento, isso não existe. Se a mulher é uma mercadoria propriedade do marido, ele pode dispor dela assim como desejar. E já agora, boa sorte nesse seu relacionamento. Não seria qualquer pessoa que teria a coragem de se dispor a ser uma mercadoria, tudo por amor.





TheStudio,


o crime a que me refiro aqui é o acto de abusar alguém sexualmente, seja uma mulher, um homem ou uma criança. Esse princípio tanto quanto sei é considerado crime e desrespeita a Declaração Universal dos Direitos Humanos.
Com respeito à regulamentação do Arrastão, vou ter que me conter na linguagem para não lhe responder à letra. Sugiro que mantenha as suas opiniões sobre   a vida privada das outras pessoas para si.
Os tempos de "entre marido e mulher não se mete a colher" já lá vão. Actualize-se.

deixado a 16/6/11 às 00:20
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Clau
Então quer isto dizer que se eu matar o meu marido não irá ser crime porque isso aconteceu dentro das nossa portas? Ou teremos regredido uns valentes anos para os tempos em que mulheres morriam por serem espancadas pelos maridos, sem que nada lhes acontecesse a eles?


Quanto ao seu comentário sobre a relação da Diana, acho totalmente racista e desapropriado. "Não seria qualquer pessoa que teria a coragem de se dispor a ser uma mercadoria, tudo por amor." Pois bem, acho que estará na altura de deixar o seu computador e sair mais a rua, porque pelo que me parece, anda a precisar de conhecer o mundo tal como ele é, e não por aquilo que lhe chega pelos meios de comunicação. 


Quanto àquilo que o "fado alentejano" escreveu, nem me parece que valha a pena gastar tempo a responder. Quanto mais leio os seus comentários, mas enjoada fico.

deixado a 16/6/11 às 05:02
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Carlos Marques
Sou contra a pena de morte, mas defendo a prisão perpétua, sem possibilidade de liberdade antecipada, para alguns crimes e da castração para outros.

O animal que violou a rapariga de 15 anos que ficou sem conseguir falar ou andar devia ser castrado, por exemplo.

Os pedófilos que praticam crimes sexuais contra crianças idem.

Estas manifestações são úteis e louváveis, mas é preciso que a penalização seja muito mais severa para que o número de vítimas diminua.

deixado a 14/6/11 às 18:15
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Vicente de Lisboa
Entre prevenção e transferência de culpa vai um salto de gigante. Todo o guia turístico recomenda que não se dê sinais exteriores de riqueza por exemplo. Deduz-se daqui que um turista assaltado tem a culpa do assalto? Claro que não.

Força nas manifs e abaixo a projecção de culpa nas violações (que existe), mas haja bom senso!

deixado a 14/6/11 às 18:16
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Há que levar-lhes a palavra:

http://lishbuna.blogspot.com/2011/06/e-porque-aqui-se-falou-de-santos.html

deixado a 14/6/11 às 18:35
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Pedro Lourenço
exatamente, noutro dia lembrei-me desse acordão quando rebentou essa polémica que envolve esse agente da polícia.

uma vergonha...

 

deixado a 14/6/11 às 18:40
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Tenho a agradecer-lhe duas coisas.

 

Primeiro este magnífico aviso sobre o desfile das minissaias em Lisboa a que não faltarei, não é todos os dias que podemos ver centenas de sluts vai ser um autêntico colírio para os olhos.

Espero pelo menos, se forem todas, cerca de dois a três milhões.

 

A segundo que não é minha foi a observação aqui do lado é que é talvez o melhor post do tipo menopausa.

Vou aliás divertir imenso com os comentários.


deixado a 14/6/11 às 20:26
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Fada Alexandrina
Creio que objectivo da manifestação não era esse, mas se ela servir também para satisfazer o seu voyeurismo, que lhe faça bom proveito.
Pelo despeito com que escreve, você parece estar há muito na andropausa. Constato que, afinal, velhice não é sabedoria, pelo menos a avaliar pelo teor dos seus comentários.


É verdade estou e se a menina não estivesse ainda na idade em que é crime o acto sexual podia, sei lá, dar-me uma ajuda.
Vamos pensar nisso para daqui a dez anos?


Fada Alexandrina
... e a caravana passa!


Eu não queria voltar ao assunto pois trata-se de actuação de crianças fracturantes que só vêem (e e outro também porque está a mostra) o umbigo mais o piercing.

O vosso mal é pensarem que Portugal se resume a "isto" meia dúzia de garotas com as hormonas aos saltos que vão para a rua a dizer queremos mostrar tudo e as mamas são nossas não queremos cá recato ou então queremos mudar tudo e vai daí deitam-se (muito apropriadamente) no Rossio cagando aquilo tudo.

Infelizmente é nesta geração que supostamente reside a esperança dos tugas.

Se a senhora/menina se der ao trabalho de verificar a vida da esmagadora maioria das mulheres (a minha vizinha sai às 7 da manhã para voltar às 21:00 e não tem dinheiro para ter um filho) vai ver que elas se estão cagando para estas manifs da merda.

Desculpe a linguagem mas é a que ouço, um pouco pior, todos os dias da boca das jovens no comboio de Sintra.



cyborgA
Quando a vizinha leva sempre com os mesmos piropos, quando a filha é violada e o tribunal iliba o violador, acredite, pode nem se lembrar da manifestção, mas já teremos contribuido um pouco (um pentelho que seja), para colectivamente denunciarmos essa cultura de merda que culpabiliza as vítimas; já teremos tido a noção que somos muitas e, como tal, não é uma questão individual - daquele imbecil que se acha no direito de se meter comigo; ou questão só minha, que não me visto comedidamente. É social, não é individual. E por mais que individualmente possamos fazer muito, não podemos tudo.

deixado a 15/6/11 às 13:38
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Wyrm
E não se esqueça de dizer a essas vadias para tirarem os pés do seu relvado.

deixado a 15/6/11 às 13:46
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Dazulpintado
Voyeurismo uma ova!Os olhos não comem outro pão, o seu regalo é ver.

deixado a 15/6/11 às 18:18
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José
Inteiramente de acordo com o intuito do texto.
No entanto, o ponto de vista de que se discorda não é exclusivo deste tipo de crimes.
No acórdão é dito:
"crimes repugnantes que não têm qualquer justificação"
Não há qualquer justificação, não deve haver nenhuma atenuação: não sei se foi o caso, mas espero que sim.
No entanto, eventualmente as vítimas podiam ter contribuído para o evitar, apesar de não serem em nada culpadas deles.


Um exemplo. Uma vez roubaram-me duas bicicletas que tinha dentro numa garagem fechada que por sua vez  estava dentro de uma garagem fechada do prédio. Não tinha fechada à chave a porta de dentro.
A polícia registou como motivo para o roubo "descuido".
Eu não tive qualquer culpa do roubo: fui eu que o provoquei ao não ter a porta da garagem fechada à chave? Isso diminui em algum aspecto a culpa de quem roubou? Acho que não.
No entanto, podia ter fechado a porta à chave.
Há alguns cuidados que temos que ter porque não vivemos num mundo ideal? Sim. 
Como conselho, sem qualquer juízo de moral, dizer que em certas situações deve-se ter atenção ao que se veste, não é errado. Tal como há conselhos para em certas situações não mostrar objectos de valor. Não que isso atenue em nada a culpa de quem comete os crimes ou a transfira para as vítimas. Mas há vezes é só uma questão de precaução.
Pode-se aconselhar para evitar vítimas, não para transferir culpas para estas. Se os termos de o fazer não foram os mais correctos ou se houve algum juízo de valor subjacente, pelo excerto traduzido transcrito, não sei avaliar.

deixado a 14/6/11 às 21:33
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JORGE SILVA
É por estas e por outras "causas fracturantes" que o nosso Bloco de Esquerda vai de "vento em popa" para a derrocada final.

Se esta gente fosse toda trabalhar, o mundo seria mais produtivo concerteza!

deixado a 14/6/11 às 21:38
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Luís de Camões
Se você tivesse aproveitado o tempo que passou na escola, saberia escrever «com certeza». E, possivelmente, escreveria comentários mais produtivos.

deixado a 14/6/11 às 22:31
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Nuno Medeiros
Julgo que este activismo também se deve insurgir contra o infindável número de músicas e, principalmente, videoclips em que são as próprias cantoras a apresentarem-se como mercadoria ao dispor de homens ou cantores a apresentarem os seus haréns sempre disponíveis.
Basta estar 15 minutos à frente da MTV para sermos confrontados com isto (por vezes, até parecer haver uma competição entre as cantoras para ver quem é mais "bitch"). E parece-me que isto vai acabar por "dar cabo" de tudo o que as mulheres conseguiram ao longo de todos estes anos de (digna) luta pelo direito básico de ser, tão simplesmente, um ser humano, com os mesmos direitos e devers que os homens.

deixado a 14/6/11 às 21:42
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