Quarta-feira, 7 de Dezembro de 2011
por Daniel Oliveira

 

 

Max Schrems é um estudante de direito, austríaco, de 24 anos. Por curiosidade, fez o que a nenhum de nós ocorreu:quis saber que informações tinha a empresa Facebook sobre ele, mesmo depois de ter deixado de ser membro daquela rede social. Ou seja, depois de sair da rede, o que lá tinha ficado.

 

Os seus piores receios foram largamente ultrapassados pela realidade: estava lá tudo. Depois de muitas pressões e ameaças recebeu, talvez por desleixo, diretamente da Califórnia, um CD com toda as informações que a empresa mantinha: 1.200 páginas (quando impressas) de dados pessoais, divididos por 57 categorias, recolhidos ao longo dos três anos em que esteve na rede. Como o próprio recorda, nem a CIA ou o KGB alguma vez tiveram tanta informação sobre um cidadão comum.

 

Até mensagens trocadas com outros utilizadores, que ele entretanto apagara e julgava terem desaparecido, lá estavam, guardadas na base de dados da empresa. É como se um Estado abrisse toda a correspondência dos seus cidadãos e fosse guardando todas as informações. Tudo, desde que alguma vez tenha sido referido (em público ou em mensagens privadas), podia ser encontrado. Desde a orientação sexual à participação em manifestações políticas. Basta procurar através de palavras-chave. Multipliquem isto por 800 milhões de utilizadores em todo o Mundo. E lembrem-se que a timeline recentemente criada por Zuckerberg reduziu ainda mais a privacidade destas pessoas.

 

É claro que tudo isto viola as leis europeias para bases de dados. Não seria um problema para a empresa, já que as leis americanas dão menos garantias na defesa do direito à privacidade dos cidadãos. Acontece que o Facebook tem, provavelmente para fugir aos impostos (que na Irlanda são muito "simpáticos" para as empresas), uma segunda sede em Dublin. Ou seja, pelo menos os usuários europeus estão defendidos pelas leis da União. Por isso, o jovem Max recolheu, na sua página Europe versus Facebook, 22 queixas contra a empresa e enviou-as à Autoridade Irlandesa de Proteção de Dados. E tem uma base legal sólida: nenhuma empresa pode guardar informação que foi apagada pelos seus detentores legais (que é cada um de nós). E a prova de que o faz tem Max Schrems naquele CD. Garante a empresa que terá sido um engano. O comissário irlandês para a proteção de dados está a investigar se aconteceu a extraordinária coincidência da única pessoas que conseguiu a informação armazenada sobre si ter recebido tão exaustivo material sobre a sua própria vida.

 

Diz-se, com razão, que manter uma ditadura é mais difícil na era da Internet. Basta ver a recente onda de liberdade que varreu o mundo árabe para o confirmar. A censura (recordo a Wikileaks, que também mostrou as enormes fragilidades da segurança e da privacidade na Internet) é mais difícil, assim como a manipulação política. Mas tudo tem o reverso da medalha. Se é verdade que a liberdade de expressão nunca teve tão poderoso instrumento nas mãos, as tentações securitárias também não. Nem a STASI, uma das mais meticulosas polícias políticas da história, conseguiu alguma vez saber tanto sobre os cidadãos como algumas das empresas em que parecemos depositar tanta confiança.

 

A esmagadora maioria das empresas não se regem pelo respeito pela democracia, pelos direitos cívicos ou por quaisquer valores políticos e morais. E estão dispostas a abdicar de quase tudo se o seu lucro estiver em perigo. Basta recordar como, durante demasiado tempo, a Google colaborou com a censura na China e como só a pressão de muitos "clientes" a levaram a recuar para não depositar grandes esperanças nestas multinacionais da era moderna. Não sei se alguma vez as informações que o Facebook tem sobre centenas de milhões de cidadãos serão fornecidas a Estados, anunciantes ou seguradoras. Sei que o mesmo poder que recusamos a Estados democráticos, sujeitos a leis e ao escrutínio público, temos de recusar, por maioria de razão, a qualquer empresa.


É claro que já não dispensamos o uso da Internet e das redes sociais. Mas temos de aprender a viver com elas.Obrigando estas empresas a cumprir as mesmas leis que exigimos a todos e deixando de viver na ilusão de que estes espaços públicos, detidos por empresas, são privados. Ou um dia ainda nos arrependeremos amargamente da nossa tonta boa-fé.

 

Publicado no Expresso Online



por Daniel Oliveira
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44 comentários:
Lisboeta
"Diz-se, com razão, que manter uma ditadura é mais difícil na era da Internet. Basta ver a recente onda de liberdade que varreu o mundo árabe para o confirmar."

Mas qual recente onda de liberdade? Aquela que no Egipto resultou, recentemente, na ida dos Islamitas para o poder?! Vai lá, vai...


"Não sei se alguma vez as informações que o Facebook tem sobre centenas de milhões de cidadãos serão fornecidas a Estados, anunciantes ou seguradoras."

Por razões mais que óbvias, não me admiraria nada que a Mossad tivesse acesso priveligiado a todo o manancial de informação contido no FB...

deixado a 7/12/11 às 11:14
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João Cerqueira
A seguir à onda de liberdade veio um tsunami de islamismo.
Os direitos das mulheres vão diminuir ainda mais, os coptas não vão ter a vida fácil, os militares continuarão a mandar no país e quem protestar vai preso.
Ainda vão ter saudades do Mubarak.


ismael

islamitas no poder onde? só se for na Tunísia, um partido moderado, próximo daquele que está na Turquia.

No Egipto ainda nem sequer houve eleições. Quem está no poder são os mesmos, menos o Mubarak.


Lisboeta
"No Egipto ainda nem sequer houve eleições."
 
??????????
 
http://diariodigital.sapo.pt/news.asp?section_id=10&id_news=546459 (http://diariodigital.sapo.pt/news.asp?section_id=10&id_news=546459)


ismael
oh amig, isso não é nada. o processo eleitoral está longe de estar terminado. não se pode que este ou aquele estejam no poder...

deixado a 7/12/11 às 17:48
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Rafael Ortega
Isto é bastante diferente de qualquer agência de um Estado ter informação sobre os seus cidadãos.
Só entra no facebook quem quer. Ninguém é obrigado a escrever lá nada.

Quanto ao facto da informação que alguém coloca no facebook ser sua, não sei se a partir do momento em que alguém entra voluntariamnete para essa rede a empresa não poderá guardá-la. E digo não sei porque, tal como a esmagadora maioria dos utilizadores, não li o enorme contrato que tenho que aceitar se me quiser tornar membro. Se lá estiver que aceito que essa informação seja guardada, então se isso é crime eu sou cumplice porque (supostamente) sabia e não denunciei.

deixado a 7/12/11 às 11:26
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Não, não pode guardar. Pelo menos se a pessoa em causa ordenar que seja apagado. É exactamente isso que a lei diz. Nós somos proprietários das informações que nos dizem respeito. Incluindo daquelas que damos a uma empresa. E podemos exigir que ela as retire da sua base de dados. É por isso mesmo que nenhuma empresa pode usar, sem nossa autorização, os nossos dados. Mesmo quando os tem e foram fornecidos por nós.

deixado a 7/12/11 às 12:46
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A posse da base de dados é irrelevante no ponto Daniel. Mas não deixa de ter razão na questão da vontade do próprio. Não é fácil fechar uma questão de princípio neste caso e a garantia de liberdade depende em muito da cardinalidade da informação - é tanta que dificilmente servirá para alguma coisa mais que estatística. Mas o ponto do Daniel é válido.


Kirk
Meus caros, querem fazer o favor de dar um salto até

http://www.cert.pt/index.php/pt/recomendacoes/1225-cuidados-em-redes-sociais-

É um texto de  2 de Janeiro de 2008, do CERT.PT.
Li-o naquela altura e por isso durante estes anos nao entrei em qq rede social. Apenas recentemente o fiz, mas sei perfeitamente onde me meti.
Concluindo, esta história da (in)segurança das redes já tem barbas
K


Claro que tem. A PIDE também não nasceu à revelia das pessoas, ela nasceu debaixo de apoio popular. Se há coisa que não tenho dúvidas é sobre a inocência dos povos. Aliás, dá para ver nos comentários por aí a quantidade de imbecis que de bom grado se metiam numa ditadura totalitarista.

deixado a 7/12/11 às 21:27
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Mike
Fantastico...

Num texto sobre o facebook, a censura e a utilização de dados pessoias por empresas comerciais do "ocidente civilizado" tu falas na STASI... Fantástico...

Dás o exemplo do google e da China em vez de falar na vodafone e no Egipto... Fantástico...

Não tenho mais palavras... é apenas fantástico...

deixado a 7/12/11 às 11:29
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RDA, Egito ou China, é-me completamente indiferente. Não faço distinção ideológica ou moral entre ditaduras. Extraordinário é que sinta que um ataque ao regime chinês, que impõe a mais selvagens das explorações aos trabalhadores, é diferente de um ataque ao regime egípcio. 


Mike
Não, não é...
porque vens sempre invocar os mesmos de sempre... ou será que negas que invocas, sobre os mais variados temas, os mesmos de sempre...
A questão do meu comentário é esta e não outra... não é comparar ou medir as "ditaduras"... é que sempre que falas, falas nos mesmos... porque será?


Slint
Se calhar porque a China é o 2º maior país do mundo, se calhar porque a china é o pais mais populoso do planeta... o primeiro exemplo que vem à cabeça de qualquer pessoa é a china.


Mike
O porque será? era apenas uma pergunta de retórica, porque sei perfeitamente o que move o daniel e os outros...


Ontem tive que esperar hora e meia até que a pessoa que ia comigo se decidisse a escolher um par de jeans na Zara da Baixa.
Por curiosidade fui vendo as etiquetas, então é assim:

80% Made in China
10% Made in Indonesia
9,9% Made in Marrocos
1 Peça Made in BanglaDesh
1 Peça Feita na Tugulândia

Foi muito instrutivo ainda por cima quando a funcionária me disse que os chineses de cá mal vêm uma coisa Made in Lá colocam-na logo de lado.

Quanto ao FaceBook estou preocupadissímo logo que um dia daqui a cem anos me decida a colocar a minha vida particular na net para os outros se divertirem.


Anónimo
hahahahhahahaa
a sua vida privada... no facebook para os outros se divertirem. Ou é para chorarem do drama /tragédia ou para se assustarem do terror. comedia so mesmo o que escreve aqui hahahahhahaha

deixado a 8/12/11 às 00:31
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Não sei o que o Daniel pensa, não sei se será exatamente a mesma situação, nem sei se o que o Mike diz é verdade. Mas isto trouxe-me à memória uma pequena história que ouvi há anos o Caetano Veloso contar num canal de TV brasileira (não sei se a história é dele, mas foi ele que a ouvi contar). Resumidamente:


Num certo vilarejo, um homem vinha todos os dias para a praça pública reclamar do poder político  incompetente e corrupto. Dia após dia, lá estava o homem aos berros. Um belo dia alguém resolveu interpelá-lo: «Pare com isso, não vê que não vai conseguir mudá-los?». O homem respondeu: «No dia em que eu não tentar mudá-los, terão sido eles que me mudaram!»


Força Daniel!

deixado a 7/12/11 às 15:10
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O perverso da questão é que o valor destas empresas depende em larga medida do acesso, que facultam a terceiros, aos dados dos seus utilizadores. 

deixado a 7/12/11 às 11:40
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Caro Daniel, esse tema também mereceu atenção aqui http://viaparalela.blogspot.com/2011/11/facebook-is-watching-you.html (http://viaparalela.blogspot.com/2011/11/facebook-is-watching-you.html).

 

deixado a 7/12/11 às 11:58
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Lee
"Não sei se alguma vez as informações que o Facebook tem sobre centenas de milhões de cidadãos serão fornecidas a Estados, anunciantes ou seguradoras."
Basta prestar atenção ao tipo de publicidades que aparecem nas nossas paginas... elas de alguma forma estão relacionadas com pagínas que se "curtiram"!!

deixado a 7/12/11 às 12:14
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Nightwish
Firefox + Ghostery + Adblock + Beef Taco.

Não há mais nenhuma maneira de não andar a ser seguido por toda a internet, seja pelo Facebook seja por centenas de outras empresas.

deixado a 7/12/11 às 12:25
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E que tal se não colocassem dados privados numa rede social pública?

deixado a 7/12/11 às 12:32
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Vou tentar explicar de novo: as mensagens privadas entre usuário também são guardadas. E se a Google fizer isso com os nossos e-mails (é igual)? Defende que nada de privado devemos escrever na nossa correspondência?


Percebo isso. Mas o Facebook é uma rede social.
E é uma questão de confiar numa empresa para gerir algo privado.


O objectivo do Facebook foi sempre obter informação, agora depende de cada um o que lá mete ou escreve.


Verdade. Mas o pomo da discórdia está na obrigatoriedade dessa informação ser apagada depois que o usuário encerra a conta!

deixado a 7/12/11 às 15:16
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Nuno
Os emails enviados através do gmail são guardados pela empresa.


E em mais que uma localização.


Tal como os documentos que cria e armazena no google docs.


Mais... o conteúdo das mensagens enviadas via gmail servem para customizar a publicidade. Mesmo sabendo que este é um processo automático, não deixa de ser moralmente dúbio.


É o poder da nuvem. Toda a gente vê as nuvens...


Quanto à protecção de dados, não estou ao corrente das última legislações, mas penso que se aplica não ao armazenamento de informação, mas sim ao seu acesso (se bem que existe alguma informação que prescreve, e assim deve ser eliminada). Manter os dados de alguém no facebook posteriormente à saída dessa pessoa não constitui em si um problema (até dá jeito se esse alguém quiser reactivar), o possível acesso a esses dados sim, é a questão.


Anónimo
A Google, ao contrário do Facebook, não guarda informação que o utilizador apagou. Recentemente um jornalista teve a sua conta pirateada e quando a recuperou poucas horas depois, tinham-lhe apagado tudo. Contactou amigos que tinha na Google e conseguiram-lhe recuperar pouco mais de 1 ano de informação. A quem não tem conhecimentos resta-lhe contentar-se com alguns meses de informação recuperada caso isto aconteça.

deixado a 7/12/11 às 18:50
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Slint
Eu não tenho conta no facebook e tenho orgulho nisso, aliás adoro o olhar que as pessoas me dão quando digo que não tenho conta no facebook parece que é algo essencial à vida humana tipo oxigénio.

deixado a 7/12/11 às 12:50
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Até que enfim que alguém escreve o óbvio.
Quem não quer ser lobo (preencher a gosto).


Anónimo
Eu tb não tenho facebook nem hi5 nem linkedin. Não quero cá nada disso pq não quero estar sujeito a utilizarem informações minhas para fins que desconheço. Agora o Fardo pelas suas afirmações parece que é mesmo só pelo prazer de ser tecno/info excluido

deixado a 8/12/11 às 00:44
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Chapeleirolouco
impressionante ver pessoas adultas que deviam ter consciencia dos seus direitos e da violação dos mesmos, assim como das consequências que daí advém, dar justificações infantis como: "bem... só vai lá quem quer...."

portanto eles podem fazer o que entenderem com a TUA informação inclusive PRIVADA sem dar cavaco a ninguem...????????

impressionante como as palavras perdem o significado... orwel volta, precisamos de ti hoje mais do que nunca. e é assim que a democracia morre mais um pouco.

deixado a 7/12/11 às 15:25
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Pedro
Uma coisa não inviabliza a outra. Claro que as regulamentações devem corrigir o que está, neste caso, errado. Mas não devem corrigir a irresponsabilidade das pessoas. Se eu escrever num papelinho que sou gay e enviar pelo correio para alguém aleatório, posso esperar ter sincero controlo sobre essa informação, para sempre?

deixado a 9/12/11 às 16:11
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