Este texto do Luís M. Jorge. Com uma especial dedicatória (minha) a alguns comentadores aqui do Arrastão. Não preciso de dizer quem são.
Para alguma coisa há-de servir lermos Júlio Dinis: sempre nos dá um retrato do Portugal caciqueiro, sabujo e vil que antes de gritar merda repara no lado de que a merda vem.
Assistir ao comportamento da opinião pública nestes dez ou vinte anos em que foi passando das mercearias para os blogs e dos terços a Salazar para as invectivas em economês é um exercício doloroso e acabrunhante.
Os que fustigaram Cavaco por ser um parolo novo-rico, autoritário e rodeado de corruptos foram os mesmos que perdoaram a Sócrates a saloiice de fatinho laroca, o despotismo e a máfia que agora ocupa os conselhos de administração dos empreiteiros.
Não se espere mais consciência cívica dos apoiantes deste Governo. Às suspeitas sobre ministros respondem com um assobio para o ar, ao saque dos lugares públicos com um sorriso amarelo, às incursões ansiosas nos media com um encolher de ombros, às privatizações que se preparam sabe deus como dedicam silêncios fecundos, ao abuso das polícias uns considerandos filosóficos.
A única ética que sensibiliza a opinião pública lusitana é a que se pratica no comentário aos jogos da Liga: os nossos filhos da puta são melhores que os filhos da puta dos outros. Eis o seu credo e o fundamento da sua razão prática.
Que uma democracia sobreviva e frutifique entre gente assim é um milagre. Mas os milagres não existem, não se merecem nem, como veremos, costumam ser eternos.
Como diz, Joaquim Guilherme Gomes Coelho, no seu:-” Penso em Ti”, eu penso no meu Pai que andou a estudar em Coimbra e no Porto, acabando por ser um agricultor. Pus-me a fazer a associação da Família Arriaga, com a Família Luz Cunha e com outras tantas famílias deste nosso Portugal, de militares cuja carreira, revelam um sentido de servir a Pátria, tal como o meu Pai serviu, no Barrcocal Algarvio, cultivando todo os bocadinhos de terra, que possuía. Por querer fazer parte da Família Luz Cunha, recebeu do meu avô o seguinte recado, como se fosse uma ordem, mas filho nós temos tantas casas e tantos terrenos e eles só têm aquela casinha em Faro. José que me deu o nome, não gostou e levou a vida inteira a cantar:-”Ó Minha Mãe dos Trabalhos/ Para quem trabalho eu/ trabalho p'ra Mãe do Céu/ que da terra já morreu!”. Na realidade quando nasci, recordo-me, quando Deus me deu, capacidade para pensar, que o meu Pai, vivia “sózinho”, trabalhando desde o nascer do Sol, para chegar a Casa no Verão, por vezes à uma hora da noite.Morreu direi com alguma Paz de Espírito, a pensar no filho a quem não conseguiu dar mais do que o Curso Geral do Comércio, mas que seguindo o seu exemplo trabalhou, para além dos limites das suas forças, nas mais variadas profissões, para servir a Pátria, tendo chegado a desempenhar funções de Comandante de Companhia Interino. Deus, Nosso Pai, ajudou-nos e conseguimos com as nossas mazelas, voltar todos às nossas terras, que Deus sabe estão quase todas num completo abandono. Sou mais uma voz de um Soldado que a Natureza, guardará dentro de si, sem rancores e este seu Penso em Ti, está relacionado com o Soldado que cumpriu até ao fim os seus deveres, como cidadão deste pequeno País, onde só a História contará, que nem sempre conta os feitos dos grandes homens desta nossa terra Portuguesa:
PENSO EM TI - JÚLIO DINIS
Surge a manhã! Tudo é festa
Tudo no campo é prazer,
Trinam as aves na floresta
Hinos de sol ao nascer,
Nestas horas misteriosas,
Em que dos jasmins e rosas
Sobem perfumes aos céus,
Nestas horas de magia
Em que tudo tem poesia,
Meus pensamentos... são teus.
Leva o sol seu curso em meio,
Tudo inunda em clara luz
E só das selvas no seio
Branda sombra se produz.
Mal se ouvem os zumbidos
Dos insectos e os gemidos
Da fonte caindo além;
Nesta hora de ardente calma
De amor só me fala a alma
E este amor - é teu também.
Já vai desmaiado o dia,
Aumenta o grato frescor,
E na alameda sombria
Gorjeia o alado cantor;
Soltam-se os diques às presas,
Da rega é a hora, e às rezas
Convida o bronze cristão;
Cede o trabalho ao descanso
Nestas horas de remanso,
Meus pensamentos teus são.
Noite é já. A lua alta
Dos ares cruza a amplidão.
Longe, ao longe, o mar exalta
Aos céus a vaga canção;
E do arvoredo a folhagem
Quer na sua linguagem,
Seus bramidos imitar;
O sono a terra domina
E a tua imagem divina
Me enleia em brando sonhar!
Penso em ti a toda a hora,
De manhã, pelo arrebol,
Depois, quando à luz da aurora
Sucede o fulgor do sol;
Penso em ti na hora amena
Em que a tarde vai serena
Envolver-se em ténue véu;
Penso em ti de noite escura,
E é toda a minha ventura;
A mais não aspiro eu.
Joaquim Guilherme Gomes Coelho(Júlio Dinis)
Posts via feedburner (temp/ indisponível)