Guardo para o Expresso em papel desta semana a minha opinião sobre o caso Jerónimo Martins. A um triplocomendador devemos garantir um estatuto especial. Por agora, queria apenas escrever sobre a reação de alguns jornalistas e comentadores ao caso.
Perante a justificada indignação de muita gente, mais por a figura em causa se ter dedicado, no último ano, a repetidas lições de patriotismo a políticos e cidadãos do que por o caso em si, os relações públicas da Jerónimo Martins tiveram a vida facilitada. Dali vieram apenas os primeiros "esclarecimentos". Ainda o caso não era caso e já abundavam notícias contraditórias, explicações de fiscalistas e artigos de opinião que oscilavam entre as acusações a um Estado que teima em ainda cobrar alguns impostos a grandes empresas e o derradeiro e infantil argumento de que "os outros fazem o mesmo". Sempre que está em causa um grande empresário a cena repete-se: a reação em defesa da sua honra é imediata e empenhada.
Nada de mal. Todos têm direito ao contraditório (e é dele que nasce o esclarecimento público), mesmo quando a defesa da incoerência de comportamentos parece difícil. O que espanta é que este empenhamento pelo pluralismo na defesa do bom nome de quem é criticado não se alargue a todos os sectores da sociedade e seja sempre muito mais militante quando estão em causa pessoas com um enorme poder económico.
Por causa deste caso, estive a rever entrevistas na imprensa e na televisão feitas a Alexandre Soares dos Santos. Como costumo prestar pouca atenção aos conselhos que esta gente dá à Nação - cada um dá atenção a quem quer e, com todo o respeito por merceeiros, não os considero mais habilitados do que qualquer outro cidadão para o debate político -, tinha matéria para rever. Fiquei atónito. Não se pode dizer que tenha lido e ouvido entrevistas. Os jornalistas (quase sempre de economia) pedem conselhos e dizem frases para as quais esperam a aprovação do senhor. É uma amena cavaqueira onde nada de difícil, embaraçoso ou aborrecido é perguntado. Nunca é confrontado com contradições, incoerências ou dificuldades. Nada se pergunta sobre a relação da sua empresa com os produtores nacionais, com os seus trabalhadores ou com o Estado. E havia tantas coisas para perguntar. Não se trata de uma entrevista a um empresário, com interesses próprios, mas a um "velho sábio" que o País deve escutar com todo o respeito.
Trata-se de um padrão e não de um tratamento especial ao dono da Jerónimo Martins. Se ouvirmos as entrevistas a banqueiros ou outros grandes empresários acontece o mesmo. O que me leva a perguntar: de onde vem esta bovina subserviência de tantos jornalistas perante o poder económico, que não tem paralelo com qualquer outro poder, sobretudo com o poder político?
Explica-se de três formas: dependência, concorrência e imitação.
A dependência é a mais simples de explicar e talvez a menos relevante. A comunicação social não depende do poder político. Não é ele que lhes paga as contas. Depende de quem detém os órgãos de comunicação social e de quem neles anuncia. Claro que há notícias más para os empresários. Se não houvesse, dificilmente teríamos alguma pergunta embaraçosa a fazer a este senhor. Mas perante este poder o jornalista pensa duas vezes, vê os dois lados da questão e procura todas as fragilidades da informação que dispõe - coisa que, sendo outros os sujeitos, tantas vezes se esquece de fazer. Isto, claro, se for sério. Se não o for fecha o assunto na gaveta e não pensa mais no assunto.
A concorrência tem mais a ver com o poder político. A ideia de que a comunicação social é um contrapoder é absurda. E a de que é um quarto poder é um equívoco. Os media não são um poder autónomo, são um salão onde se cruzam os vários poderes. E o poder político também. Por isso, é com este, que tem a legitimidade representativa que falta aos jornalistas, que os jornalistas concorrem.
A imitação vive mais do simbólico. Os jornalistas são uma classe muito particular: a proximidade que têm dos poderes - que os namoram e seduzem - dá-lhes a ilusão de poder. A sua fragilidade profissional (cada vez maior, com a crescente proletarização da profissão) torna-os extraordinariamente fracos. A sua osmose com o poder dominante fá-los repetir o discurso hegemónico de cada momento. E esse discurso é definido pelo poder mais forte de cada momento. E esse poder é, hoje, o económico e financeiro. Sendo de classe média, o jornalista de economia tende a pensar como um rico. Não representando ninguém, o jornalista de política tende a pensar como se fosse eleito.
É por tudo isto que devemos ter em atenção três premissas. A primeira: a independência do jornalista não depende de quem é o seu empregador. Nem a empresa privada garante maior autonomia que o Estado nem a coragem de um jornalista depende do seu patrão. Ou tem, ou não tem. A segunda: sendo a comunicação social fundamental para a democracia ela não substitui a democracia. A opinião de um jornalista não é mais descomprometida e livre do que a de qualquer outra pessoa, incluindo os agentes políticos tradicionais. E a opinião publicada (a minha incluída) não é a mesma coisa que a opinião pública. A terceira: os jornalistas não têm como única função fiscalizar o poder político, mas fiscalizar todos os poderes. Incluindo o seu. Quando não o fazem tornam-se inúteis.
Publicado no Expresso Online
Meu caro Rui F
Obviamente, “entro na tua onda” e espero que o Arrastão, também, venha a fazê-lo.
http://www.youtube.com/watch?v=FyRUwKUig
Aquele grande abraço, para ti e para o Pedro.
CarlosMeu caro Rui F
Um dia, se vier “a talho de foice”, darei a minha opinião sobre Vasco Gonçalves. Se tal não acontecer, também, a posso “meter a martelo”, como estamos a fazer nesta homenagem ao Pedro. A título de curiosidade, recordo uma revista no Teatro Adoque (conhecido “antro” de comunistas), onde, após a nomeação de Pinheiro de Azevedo, o refrão desta canção foi substituído por “Porra, porra, companheiro Vasco, tem ferrugem a muralha d’aço”…
Continuando a “martelar” o tema deste “post” e prosseguindo a homenagem, envio esta:
http://www.youtube.com/watch?v=Ih9MowaVo
Depois, é seguir com “Só nós três 2” e assim, sucessivamente. Não confundir com “Só nós três Parte 2”, porque é um espectáculo que já não tem o alinhamento do original. O que coloquei tem algumas falhas mas, é o meu preferido, até porque tive a oportunidade de o ver no Estádio do Estrela da Amadora.
Beijocas do bando.
Aquele grande abraço.
Carlos
Tenho muita simpatia por si e por todos aqueles que continuam a acreditar que um mundo que implodiu pode ressuscitar.
Ora ressuscitar só houve dois (Jesus e a Fénix) e provavelmente um terceiro de que me escuso de dizer o nome mas que é comandado, tinha que ser, por Jesus.
A "revolução" portuguesa tinha que dar no que deu e que é o que temos hoje.
Começou por fingir ser uma revolução quando foi um movimento corporativo, quis levar o país para um regímen comunista quando o comunismo começava a definhar mesmo lá longe quanto mais tão perto dos Azores.
Contava com 25% de analfabetos e de repente recebeu meio milhão de alfabetizados cheios de justa ira e sabendo muito bem quais os alvos a destruir (ia escrever abater mas parei).
Lançou medidas tremendas que a seu tempo se voltaram contra eles e das quais a nacionalização de tudo foi a maior.
(segue)E por fim era liderada por uns capitães que mal sabendo manejar uma Mauser (nem precisavam) julgavam que tendo lido uns livritos do Sartre (os mais cultos) ou quer umas cartas dos intelectuais que por Paris viam a guerra nos cafés ou ouvindo a rádio do "Dr" Manuel Alegre calculavam qual o tamanho da página em que ficariam na História.
E assim chegamos a Vasco Gonçalves (raramente em fotos visto fardado) que num sonho delirante muito de acordo com aquela cabeça pensou ser um Lenine que gostava de bacalhau assado e cozido à portuguesa.
Enganou-se.
Basta por último dizer que toda esta gente não sabia e ainda hoje não querem acreditar que aos dez minutos do dia 25 de Abril já o PCP mandava em tudo o que era preciso mandar, até hoje.
Ia pedir-lhe para não responder porque a sua resposta iria implicar uma muito maior, exaustiva e penosa demonstração do que aqui se afirma mas sei que é pedir a uma benfiquista (afinal o COL sempre foi vermelho) que não grite quando marcamos um golo, mas aviso que as possibilidades de responder à sua réplica são praticamente nulas.
Melhores cumprimentos e A Bem da Nação (só para arreliar).
Caro fado alexandrino
Provavelmente, não leu (ou já se esqueceu) do que tenho “escrevinhado”, ao longo dos tempos, sobre essas matérias. Tenho sido das “vozes” mais críticas ao que designo por “minhas” Esquerdas e mantive um diálogo, longuíssimo, com o camarada A.R.A, onde tentámos fazer um exercício auto crítico, desde o 25 de Abril. Mas, também, o fizemos sobre o “mundo que implodiu”, fruto de erros e de crimes, com os quais aprendemos e portanto, não queremos “ressuscitá-los”. Mas, como “disse” ao amigo Rui F, haverá uma oportunidade para “falarmos” de Vasco Gonçalves e dos temas que o senhor lhe associou. Curiosamente, estou a ajudar a minha netinha mais “velha” a elaborar uma peça teatral sobre o “Capuchinho Vermelho” (acredite que é, mesmo, verdade)…
Permita-me três rectificações menores à sua resposta:
1-O primeiro “ressuscitado” foi Lázaro;
2-Vermelho é o Benfica mas, por ordem de Salazar, passou a ser “encarnado”;
3-O COL sempre foi “grenat”, porque, quando foi fundado, não lhe foi permitida a cor “encarnada”, quanto mais a vermelha.
Um abraço vermelho (só para sua “danação”).
Carlos
Obrigado.
Não tenho recalcamento nenhum limito-me apenas a sorrir perante certas verdades e verifico que quase quarenta anos depois (falta pouco para meio século) todos, Metrópole e Colónias estão piores. Deixou de haver ditadura (nalguns sítios) mas a dita mole às vezes magoa mais como os senhor e CAFC amplamente mostram.
Claro que percebeu que aquilo sobre o Avante era uma brincadeira mas et pour cause jornal comprado e lido em mão só "A Bola".
Caro fado alexandrino
«(…) mas a dita mole às vezes magoa mais como os senhor e CAFC amplamente mostram.»
Considero interessante a sua tendência para “baralhar e dar de novo”. Recordo-me do jogo de cartas mais apreciado na Rua da “Metrópole” em que eu morava, quando era um “puto” imberbe (não creio que fosse praticado nas “Colónias”, porque a alfabetização superior teria mais tendência para o bridge). Muito resumidamente, consistia na “bisca”, com a constituição de três equipas, cada uma delas composta por três jogadores. Tinha três partes que me agradavam imenso: O jogo era falado, cada equipa elegia o seu “chefe” e logo no início, os “duques” eram retirados do baralho…
Um abraço.
Carlos
Meu caro amigo Pereirinha (A.R.A)
Teremos, certamente, a oportunidade de retomar esse debate, porque, como “toda a gente sabe”, somos especialistas em “abardinar” temas de “posts” e depois, ficamos a falar sozinhos.
Sugiro, como referi ao amigo Rui F e reafirmei ao fado alexandrino, que fique para um pouco mais tarde, dado que, aqui, já “saltámos” da subserviência dos jornalistas para a homenagem ao Pedro.
No entanto, vou deixar este “link”:
http://www1.ci.uc.pt/cd25a/wikka.php?wak
Servirá para rever a cronologia dos factos e cujo desconhecimento ou esquecimento, podem conduzir a uma visão (mais ou menos distorcida) do que, na realidade, se passou. Esperemos que, quando chegar a hora do debate, haja mais participação. Sabes que, muitas vezes, chego a pensar que o “nosso” Povo necessita de uma catarse, embora tardia (“provocação”, pois claro!)?
Beijocas do bando.
Aquele Grande Abraço Camarada.
Carlos
NOTA: Mais uma, antiga, do Pedro:
http://www.youtube.com/watch?v=uUZBaDf26
Meu caro amigo Pereirinha (A.R.A)
“Confessa” que até gostas destes “31”! Deixaste-me “despalavrado” e por isso, respondo-te com música:
http://www.youtube.com/watch?v=5qgbIZxN8
Espero que, neste, não haja tantos “comunas” como no “link” que referes e desta vez, “fechas tu a porta”, porque, a partir de agora, já temos o Catroga para “apagar a luz”.
Aquele Grande Abraço Camarada.
Carlos
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