Sábado, 27 de Fevereiro de 2010
por Bruno Sena Martins
Referi-me ao anúncio da Super Bock Stout com duas palavras - "sexismo explícito" - e consegui a improvável proeza de ter gente que discorda de mim, alguns pela primeira palavra, outros pela segunda e, o que que é mais, alguns pelas duas. Gosto de provocar dissensões quando - raramente me acontece - logro em chegar a statments que por alguma razão possam ser considerados inovadores ou particularmente difíceis de defender. Já isto é como jogar contra os Caçadores das Taipas com o Messi no banco. À falta de ideias polémicas ou particularmente capazes de dividir as mundividências, reparo que, por exemplo,  o Sérgio Lavos e o Daniel Oliveira vão colocando o meu post dentro da economia discursiva com que lhes apetece discordar. Nenhum problema, até acho saudável só que às tantas não estão bem discordar comigo - seria uma honra, friso.

Se bem percebo, julgam  discordar comigo porque se distanciam de certo feminismo conservador que abjura os usos do corpo, da nudez e do desejo erótico na cultura mediática contemporânea. Pensei que o post da Laetitia - caros leitores, tenho um longo historial de posts da Laetitia que me ilibam destas atrozes acusações - fosse suficiente para explicar que não vou por aí, como não vai muito do feminismo da nova vaga. Pelos vistos, foi escusado.

O que eu crítico no anúncio da Stout, e só, é a sua extrema boçalidade; delira - colegas arrastões propensos a delírio, tomo nota - quem imagina que me revolto cada vez que vejo ser uma mulher representada como objecto de desejo, nada mais longínquo, enganam-se, pois, se pensam que critico o anúncio da Stout como metonímia dos usos patriarcais que sexualizam e coisificam a mulher na paisagem contemporânea; não, o anúncio da stout é apenas anúncio que, usando uma modalidade amplamente praticada - vide os anúncios da Martini -, brilha por um raro mau gosto.



Longe da sofisticação de algum erotismo publicitário, seja o que corteja as várias versões da dominação sexual e simbólica, seja o que capitaliza estereótipos como fantasias numa linguagem que a nossa libido percebe desde a creche, o anúncio da Stout seduz o seu público alvo - homens - esquecendo que um pouco mais de subtileza seria suficiente para não perder de vista o público feminino e, já agora, o público masculino mais sensível à cristalização caricatural de papeis. Sim, a mulher servil e fácil de abrir surge ali como uma caricatura vagamente grotesca - nem naquelas mamas eu me revejo. Mas avante, porque até parece que concordamos quanto à especial boçalidade da publicidade em causa.

Mais problemático, e porventura surpreendente, foi ver tanta gente embarcar na ingenuidade do mito da simetria, algo que um pouco de sensibilidade sócio-histórica deveria ser capaz de exorcizar.

Em vários momentos da discussão política, muita gente saca da fácil arma da simetria, tão depressa como do anúncio da Coca-Light (o facto de ser um marco por todos recordado deveria ter feito feito tocar as sinetas, mas não), como se não houvesse uma história de menorização, opressão e coisificação das mulheres enquanto serviçais do homem, objectos passivos de desejo, seres destituídos de autonomia e de auto-determinação. Como se não houvesse diferença na leitura que fazemos de anúncios que (como o da Coca-Cola Light) parodiam, invertem e subvertem valores hegemónicos, por oposição aos anúncios que reificam os valores hegemónicos - no caso do da Stout, não porque queira estetizar o erotismo da dominação, mas apenas porque se julga sofisticado na sua óbvia boçalidade.

O mito da simetria é uma lógica insidiosa com que o reacionarismo se compraz amiúde e, como alguns de vós devem saber melhor do que eu, dá cabo de qualquer discussão que se queira informada, informada, claro está, sobre o modo como a história das relações de poder permanece connosco. Celebrai a igualdade conquistada, sim, mas não sejais ingénuos.

Um último apelo às pessoas de bem, façam lá o favor de não me confundirem com a  Isilda Pegado.

P.s. Escrevi este post à pressa e incapaz de dar conta de algumas reacções que foram surgindo por aí, reacções a que, com mais vagar, tentarei dar justa réplica.

por Bruno Sena Martins
link do post | comentar | partilhar

25 comentários:
Há dois anúncios da Super Bock Stout em discussão: o da televisão e o dos mupis. Aquilo que penso sobre o da tv está no minoria relativa (http://minoriarelativa.blogspot.com/2010/02/super-nojo.html). Sobre o outro, estou de acordo com o Bruno.
Há, no entanto, um pormenor que gostava de salientar no anúncio do mupi. Aqui, a mulher nem cara tem. Aceitando que os «olhos são o espelho da alma», esta mulher não existe sequer como sujeito. É apenas corpo.
Sobre a questão do poder que cada sexo tem, gostava de dizer que o dito poder da mulher não é verdadeiramente poder (se o fosse, há muito que seria cobiçado). O que as mulheres têm são pequenas margens de poder, como todos os grupos subordinados. A forma como o usam poderá, ou não, constituir-se em agência. E, que me lembre, não foram as mulheres que escolheram o poder doméstico; ficaram com os restos, com aquilo que ninguém quis. É que o poder público dá prestígio, estatuto, e o poder doméstico dá canseira.
Também me chateia essa exigência de excelência, que faz certo discurso meritocrático (às vezes envergonhado), para consentir às mulheres a entrada na esfera pública. O mundo não será necessariamente melhor se houver paridade ou se todo o poder estiver nas mãos das mulheres. Mas também há mais mundo para lá do mito de que os grupos subordinados apenas reproduzem o poder dos seus opressores. O mundo será necessariamente diferente porque a partilha do poder altera a natureza do próprio poder.

deixado a 27/2/10 às 17:23
link | responder a comentário

Deixei agora mesmo um comentário no do D.O.
Há anúncios e anúncios usando o mesmo tema, eu por mim, lhe garanto super bock já não entra cá em casa ;-)
Agora falando a sério, quem fez aquele, deve ser um pouco curto...de ideias.

deixado a 27/2/10 às 15:28
link | responder a comentário

Oh Bruno, mas a questão, pelo menos para mim é que o anúncio não é sexista nem implícita nem explicitamente. O "é só puxar" faz referência à cápsula e ao cordão do roupão e a ideia é que tirando a cápsula ou tirando o cordão, o que fica à vista é igualmente agradável. É, certamente, uma publicidade estúpida mas não mais estúpida que uma qualquer publicidade de rádio local feita por 50€.

deixado a 27/2/10 às 15:54
link | responder a comentário

Cavaquinho
Isto é que se chama "voar na maionese"... Criticar uma publicidade por ser boçal é tão pertinente como dizer que o Sporting joga mal que se farta.
A Unicer apenas deseja que as pessoas no supermercado lembrem-se do anuncio e comprem a cerveja. E muitas vão lembrar-se e comprar. é tão simples...

deixado a 27/2/10 às 17:28
link | responder a comentário

Tantas palavras para não dizer quase nada.

Eu no máximo acho o anúncio televisivo sexista, mas relativamente aos homens. O nosso ideal é mamas, beber cerveja e ver futebol? Porra, esta estereotipificação do que são os homens, discrimina-nos e humilha-nos.
No meu caso consigo sobreviver sem cerveja nem futebol.
É ultrajante venderem esta imagem de nós.

Escrevia mais, mas tenho que ir tirar o barril do frigorífico - o Benfica está quase a começar.

deixado a 27/2/10 às 18:10
link | responder a comentário

mf
Que é que se há-de fazer ? acho bem pior coisas "disfarçadas " como a da Carolina Patrocinio. Ou quotas.
Com esta conversa ando para aqui a pensar quem terão sido afinal os verdadeiros responsáveis pelo sucesso de coisas como a moralidade victoriana e homens para um lado , mulheres para o outro.

deixado a 27/2/10 às 18:16
link | responder a comentário

Bruno Sena Martins
A Stout apanhou por tabela também pela visibilidade que deu a esta campanha.

deixado a 27/2/10 às 18:18
link | responder a comentário

Bruno Sena Martins
Andrea, a palavra "mupi" fazia falta no meu vocabulário.

deixado a 27/2/10 às 18:19
link | responder a comentário

Bruno Sena Martins
Ultraje é se o Leixões não molhar a sopa.

deixado a 27/2/10 às 18:22
link | responder a comentário

Bruno Sena Martins
Cavaquinho, conto com o Sporting amanhã para dar crédito à sua analogia.

deixado a 27/2/10 às 18:24
link | responder a comentário

Comentar post

pesquisa
 
TV Arrastão
Campanha
Outras leituras
Outras leituras
Subscrever


RSSPosts via RSS Sapo

RSSPosts via feedburner (temp/ indisponível)

RSSComentários

arquivos
2012:

 J F M A M J J A S O N D


2011:

 J F M A M J J A S O N D


2010:

 J F M A M J J A S O N D


2009:

 J F M A M J J A S O N D


2008:

 J F M A M J J A S O N D


2007:

 J F M A M J J A S O N D


2006:

 J F M A M J J A S O N D


2005:

 J F M A M J J A S O N D


Contador