Segunda-feira, 30 de Abril de 2007
por Daniel Oliveira



Num país onde tanta gente vive obcecada pela aparência e despreza o talento, não é qualquer um que pode cantar Frank Sinatra e Jacques Brel com uma orgulhosa pronuncia portuguesa e misturar Elis Regina com Tony de Matos. Indefectível, desde que me lembro de existir, do bom fado, foi com alívio que há uns anos descobri que depois de Amália não me restava apenas o faduncho de Cascais ou o outro a armar ao modernaço, mas sem chama nem memória. Camané não se limita a ser dono de uma voz e de uma força que nos deixa sem ar. Como Amália, arrisca e nada do que canta são apenas canções. A ir ver, no São Luiz, em Lisboa, até dia 6 de Maio.


por Daniel Oliveira
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48 comentários:
João Pinheiro
Mas não é só o deslize de Bonifácio (e de Camané, já agora, recorde-se) em relação a Brel..O mesmo jornalista tem nos brindado com pérolas nesse suplemento – a que alguns insistem, na sua juventude eterna e estúpida, a chamar de cultural e onde pululam “cronistas” como Bárbara Reis??? – de nome “Ípsilon”. Tais como, e aqui fazendo uso da memória: "Os King Crimson têm uma obra-prima: "In The Court of King Crimson". O seu legado enquanto músico durou até "Lizard". Mentira, ignorância da mais da crassa. Próprio de quem está a escrever sobre áreas que não conhece – neste caso, o rock progressivo. O que dizer de “Islands”, de 1971; de “Red”, de 1974, já para não falar do majestoso e complexo "Lark's Aspic in Tongues"? Claro que Bonifácio pode discordar, mas a sensação é que os desconhece, o que é torna o caso bem mais grave: manda patacoadas para ar e a ver onde cairão. Se sair mal ou dizer coisas erróneas, who cares? É isto suposto ser um crítico musical? Só se for o crítico da Trafaria, como uma vez fez gáudio em brincar (algo paradoxal para quem foi proibido de escrever o quer que fosse na redacção do "Público", do Porto e veio tentar a sua sorte em Lisboa...capelinhas). Mas desta vez a brincadeira sai-lhe pela culatra…

deixado a 7/5/07 às 13:19
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João Pinheiro
Mas não é só o deslize de Bonifácio (e de Camané, já agora, recorde-se) em relação a Brel..O mesmo jornalista tem nos brindado com pérolas nesse suplemento – a que alguns insistem, na sua juventude eterna e estúpida, a chamar de cultural e onde pululam “cronistas” como Bárbara Reis??? – de nome “Ípsilon”. Tais como, e aqui fazendo uso da memória: "Os King Crimson têm uma obra-prima: "In The Court of King Crimson". O seu legado enquanto músico durou até "Lizard". Mentira, ignorância da mais da crassa. Próprio de quem está a escrever sobre áreas que não conhece – neste caso, o rock progressivo. O que dizer de “Islands”, de 1971; de “Red”, de 1974, já para não falar do majestoso e complexo "Lark's Aspic in Tongues"? Claro que Bonifácio pode discordar, mas a sensação é que os desconhece, o que é torna o caso bem mais grave: manda patacoadas para ar e a ver onde cairão. Se sair mal ou dizer coisas erróneas, who cares? É isto suposto ser um crítico musical? Só se for o crítico da Trafaria…

deixado a 6/5/07 às 23:49
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Sebastião Dias
«Para poder tocar à vontade aquilo que gosta, tem primeiro que aprender a tocar tudo aquilo que não gosta. é por isso que quem diz que o trash metal não presta, não percebe que, para lá dos guinchos insuportáveis oriundos do além, está ali uma coisa muito difícil de fazer: que é tocar guitarra como deve ser, reproduzindo notas e tempos como apenas um excelente intérprete o consegue fazer.»

É sempre preferível ter-se técnica do que não a ter -tanto mais não seja por questões técnicas, certo? ;)- mas a simples exibição da técnica pode também matar a música, apesar de poder ser um número de circo interessante. Já dizia o velho Miles que não é preciso tocar as notas todas, basta as melhores.

O verdadeiro complexo de inferioridade típico dos portugueses não é o de achar que a sua música nunca terá a projecção da música inglesa, mas sim achar que é acontece precisamente por se ser português.

Aos doidos por música (como eu sou) deixo a ideia de um disco fabuloso (e muito de esquerda) que vale a pena conhecer, ou pelo menos investigar, Industry, Richard + Danny Thompson

Palhaçadas, sinceramente torço para que você tenha razão relativamente à música portuguesa, nada me encheria mais de orgulho.

deixado a 3/5/07 às 00:44
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palhaçadas
sebastião,

gostos são gostos definitivamente.
Mas isso de achar que a música portuguesa nunca poderá ser tão boa ou ter tanta projecção como a inglesa, é um sintoma de um complexo de inferioridade típico dos portugueses.
garanto-lhe que por esta europa fora os moonspell são uma lenda; ao nível de rammstein garanto-lhe.
a Mariza é recebida em Londres com dotes de diva...
para além da Amália, o duo Ouro Negro fazia as delícias da world music mundial da época e era recebido na corte do mónaco com honras de princípes.
Temos felizmente excelentes músicos, somos felizmente um país de músicos. em Almada e no Porto os músicos são mais que as mães. O que se passa é que, como em tudo, o investimento nesse sector é nulo. tornando-se assim muito mais difícil encontrar as pérolas. de resto, um excelente músico não se limita a tocar apenas aquilo que gosta. Para poder tocar à vontade aquilo que gosta, tem primeiro que aprender a tocar tudo aquilo que não gosta. é por isso que quem diz que o trash metal não presta, não percebe que, para lá dos guinchos insuportáveis oriundos do além, está ali uma coisa muito difícil de fazer: que é tocar guitarra como deve ser, reproduzindo notas e tempos como apenas um excelente intérprete o consegue fazer. claro q se me perguntarem se oiço frequentemente trash metal digo q não. mas tive de ouvir e perceber que havia ali realmente talento.

deixado a 2/5/07 às 21:54
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Sebastião Dias
Palhaçadas, quanto ao Sérgio Godinho, há uma grande afectividade em relação a ele, principalmente de alguns quadrantes, e eu próprio também a tenho, e há músicas que marcam também pelo momento. Mas acho que ele é um grande poeta mas um péssimo músico, mas são gostos.

Isto não se trata de se ser mau português ou bom, consoante gostamos ou não da música portuguesa. Gostaria muito de dizer que a música portuguesa é das melhores mas não acho, apesar das honrosas excepçôes ( a Sara Tavares, que vi ao vivo recentemente e sei que tem todos os ingredientes para ter sucesso, ou o Rão Kyau, que também ouvi ao vivo recentemente e, digo-lhe, joga mesmo noutra liga).

As editoras poderão por vezes ter vistas muito curtas mas, felizmente, hoje há todos os meios de se produzir um disco caseiro de grande qualidade, e de divulgá-lo em grandes meios de difusão.

A Maria João e o Mário Laginha (que não gosto muito) estiveram na ECM (não sei se ainda estão), uma grande editora alemã que tem nomes como Jan Garbarek, Pat Matheny, Gismonti, Charilie Haden, etc. Aquele tipo que canta fado, acho que se chama Pauilo Bragança, esteve na editora do David Byrne dos Talking Heads, Luaka Bop e teve também o seu trabalho divulgado e promovido. A Dulce Pontes gravou uma música com o Morricone e teve também uma enorme divulgação e um palco gigantesco. Todos eles tiveram grande divulgação. Agora vir-se, como muitas vezes vêm, com grandes hipérboles, dizer que somos tão bons ou melhores que os outros, que se não fosse portugiuês era um Frank Sinatra. No outro dia na televisão, ouvi o extremo. Mr Herman, no Biography Channel, quando lhe perguntaram como gostaria de ser lembrado, ele disse «Um grande artista num país demasiado pequeno». Eis como alguns artistas se acham maiores do que Portugal. Se querem ter projecção maior então que saltem o muro e cumpram essa ambição, não venham dizer que são os melhores e se não fosse a má sorte de serem portugueses. Não somos um país de músicos. Depois da Amália, não há um nome de projecção mundial, emblemático, como os espanhóis têm o Paco de Lucia (que por acaso é meio português), os brasileiros têm um Veloso (e tantos outros), os gregos têm entre muitos um Vangelis, Cabo Verde tem a Cesária, etc, etc.

Eu por acaso toco, mas veja-se que a quantidade de pessoas que toca um instrumento é mínima, em Inglaterra a maioria sabe, pelo menos fazer umas habilidades. Quer sair em Lisboa a um bar de musica ao vivo, quantos sítios conhece?

O gosto pelas artes pratica-se desde miúdo, aprende-se na escola e os talentos revelam-se desde cedo. Este tema tem pano para mangas. Se alguém agora mandar um post sobre o teatro português ou o Parque Mayer então fico mesmo imparável.

deixado a 2/5/07 às 19:11
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palhaçadas
exactamente sebastião, não tá a perceber: a discografia dos dead can dance tb tem o seu lugarzinho na minha estante de vinis.
é evidente que se toda a gente gostasse do verde, o que seria do amarelo?
mas não misturemos o cinema com a música portuguesa que é muito melhor que a nossa 7ºartezinha. e dizer que o alice podia ser uma espécie de "21 gramas" é um exagero, se bem que o marco é um querido e enfim lá conseguiu realizar um filme compostinho, apesar da equipa de labregos que tinha a acompanhá-lo.
o problema é que a música portuguesa não é promovida como deve ser. e não creio que seja preciso nenhuma multinacional para o fazer. basta acreditar no produto nacional que tem coisas muito boas. a sara tavares está aliás a conseguir passar as fronteiras... os moonspell têm tanto respeito na alemanha como os rammstein. na holanda, os espectáculos de fado esgotam semanas antes de terem lugar. a marisa, que não deixa de ser uma voz do "establishment" encanta os ingleses, etc etc.
e não haja dúvidas que os dead combo estão na música portuguesa como os filmes de tarantino estão no cinema mundial. do melhor.
quanto ao sérgio godinho, sinceramente não consigo ouvir mais de 30 / 40 minutos. e não é que adore. mas a questão é mais esta: apesar de não ser uma aficionada do sérgio godinho, reconheço-lhe o talento, porque sei que são muito poucos os intérpretes e / ou compositores que conseguem dar a volta aos tempos e aos contra-tempos como ele, saltitando do ré pró si bemol enfim com o mesmo à vontade com que o meu professor de geografia costumava enfiar o dedo mindinho no ouvido esquerdo durante as aulas, para horror de muitos de nós; a música contemporânea ou electro-acústica portuguesa, à semelhança da sua "congénere" internacional, veio desafiar os cânones tradicionais da música clássica; e é isso que eu acho que o sérgio godinho tb faz: desafia os cânones tradicionais da música popular. e é por isso ser tão difícil que me vejo forçada a tirar-lhe o chapéu.

deixado a 2/5/07 às 12:39
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Von
Ó Sebastião, não percebeu. tenho toda a discografia dos Dead Can Dance. Apenas lhe quis fazer notar, que uns Madredeus, com a visibilidade e a mística correctas, seriam no seu estilo o que os DCD o são na sua respectiva área. A Cesária Évora e a esmagadora maioria dos nomes africanos da música que ganharam notoriedade, têm o mercado francês para o efeito. É a partir deste mercado que a world music africana ganha estatuto. ora aí está: se a Sara Tavares gerisse a sua carreira num mercado mais abrangente, seria efectivamente uma bomba da música mundial, ao nível das melhores. Claro que nos nossos mp3 temos a música que gostamos. Quanto a isso não há discussão. No meu caso há uma esmagadora maioria de música estrangeira relativamente à portuguesa. Porém não há teorias da conspiração: se nem em Portugal se defende e divulga com a visibilidade suficiente a música portuguesa, se as editoras nacionais (ou deveria dizer os braços nacionais das editoras estrangeiras) se estão a borrifar para a generalidade da música nacional, limitando as apostas de largos orçamentos, às Floribelas e derivados, a promoção do que vale a pena ou não se faz ou não se quer fazer. Ou você acredita mesmo que para tocar em salas de nomeada de Londres ou Nova Iorque, ou mesmo para ganhar grammys, não é necessário o apoio de editoras multinacionais? Portugal tem qualidade; talvez não tenha é quantidade. No cinema dou-lhe mais razão. Mas também lhe digo, leve o "Alice" ao Festival de Sundance, entregue-o a uma máquina oleada de promoção e provávelmente tem um novo "21 Gramas".

Cumprimentos

Von Barata

deixado a 1/5/07 às 22:43
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Sebastião Dias
Palhaçadas, a pessoa do Sérgio Godinho gera-me imensa simpatia, acho que tem o dom da palavra e gosto muito das suas letras, mas mantenho que acho a música uma trampa, aliás, não sou o único a achar, posso dar-lhe o exemplo do Luis Jardim, um músico e produtor português de grande reputação (já produziu os maiores nomes da pop como Rolling Stones, McCartney. Bjork, Bowie, etc), que já vi defender exactamente a mesma coisa, mas enfim, gostos não se discutem, o Sérgio Godinho que continue lá a tentar encaixar o que os clássicos dizem não ser possível e continue você a comprar os discos dele. E não é preciso ficar ofendido (a).

Von Barata, talvez seja um bocado disparatado da minha parte estar a comparar a música que se faz lá fora com a que se faz cá, mas todos nós temos os IPODs com a música que mais gostamos e o meu realmente tem falta de música portuguesa – e não é por desconhecimento. Agora dizer-se que determinados músicos não têm sucesso ou projecção mundial porque são portugueses é quase uma teoria da conspiração, posso dar-lhe inúmeros exemplos de músicos de países de terceiro mundo, ou outros países de linguas pouco faladas que alcançam projecção mundial. Porque é que não acontece o mesmo com os portugueses? Culpa do santana Lopes? Do Bush? Essa conversa hoje em dia, com os meios que há, com as possibilidades técnicas que permitem produzir um disco com pouquíssimos meios, não faz sentido. Olhe, a Cesária Évora vem de Cabo Verde e é uma superstar no circuito da World Music, com concertos nas grandes salas em Londres, Nova Iorque, etc, até ganhou um grammy. E essa de comparar os Madredeus aos Dead Can Dance... os Madredeus fazem a mesma coisa há vinte anos, descobriram a fórmula e vão fazer discos iguais até morrer; agora ouça a discografia dos Dead Can Dance e compare. Quanto à honrosa excepção do Veloso é que, apesar de eu não gostar, acho que é um dos artistas que poderia ter tido uma carreira internacional com bastante sucesso. E acho que a Sara Tavares é uma bomba.

Somos mesmo um país pequeno e queremo-nos auto-convencer que somos tão bons ou melhores do que os outros. Em algumas coisas somos. Agora dizerem-me isso acerca da música ou (vá lá, mais posts de resposta) acerca do cinema, só mesmo a rir.

deixado a 1/5/07 às 21:01
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palhaçadas
ah! é verdade sebastião:
esqueci-me dos moonspell...

deixado a 1/5/07 às 20:31
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palhaçadas
Sebastian Days,

que seria de mim without your musical guidance?
nem vou perder aqui muito tempo, mas perco o suficiente para lhe dizer isto:
só quem não é músico é que pode dizer que o sérgio godinho compõe mal. para vir falar em erros de harmonia, é porque não está por dentro de grande parte da música contemporânea "ensemblática" que se faz actualmente. O talento do sérgio godinho consiste precisamente em encaixar as palavras onde os "clássicos" achavam que não era possível. Por outro lado, experimente ir à Holanda dizer que a música portuguesa não presta. Diria que lhe está a fazer falta tanto um retiro espiritual com uns quantos compositores portugueses contemporâneos dakeles mesmo chatarrões para passar a perceber sérgio godinho, como também umas bebedeiras valentes com o pessoal fixe de almada: a naifa, dead combo, cabaret voltaire, boite zuleika, clã, ornatos, sci-fi-industries, buraka som systema, sam the kid, sara tavares, mind da gap, mente anti censura, linda martini, bizarra locomotiva, lulu blind, and soy on and soy on...
pelo que vejo, tem muiiito, muiiito de música portuguesa para conhecer...

deixado a 1/5/07 às 19:41
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