Alegremo-nos. Portugal, país socialmente fracturado, continua a convergir com as melhores práticas do capitalismo anglo-saxónico: os ricos ameaçam fugir se tiverem de pagar mais impostos, mas acabam sempre por ficar e até criam fundações dedicadas a todas as ideias. É uma generosidade gramsciana de centenas de milhões: a resolução política de uma brutal crise socioeconómica depende sempre das interpretações que são dominantes. A Fundação Francisco Manuel dos Santos, criada em 2009 por Alexandre Soares dos Santos, o do sítio do costume, é dirigida por António Barreto.
A fundação arrancou muito bem: uma útil base de dados sobre Portugal chamada
pordata. Gosto daqueles números da despesa pública em saúde e em educação que não param de se mexer. Toda uma narrativa em construção. Lamento que a base não pareça ter muitos dados sobre pobreza ou sobre desigualdades. Escolhas a corrigir. No entanto, não se preocupem: já temos um excelente
observatório público sobre o tema. Aliás, aguardo com impaciência mais um ataque de Barreto aos observatórios públicos.
Enfim, agradeço a generosidade. Começo a dar bom uso a esta bem organizada
base de dados: corrigir uma aldrabice que circula entre a opinião confortável. Aquela que fala como se tivesse ocorrido um regabofe salarial em Portugal. É o que dá olhar para o umbigo. Na realidade, como já
aqui defendi, o peso das remunerações do trabalho no PIB tem permanecido estável: 50,5% em 2005 e 50,2% em 2008. No entanto, as
desigualdades salariais aumentaram...