Terça-feira, 27 de Novembro de 2007
por Daniel Oliveira
«Andamos vigiados. Precisamos de contar anedotas sobre brancos, pretos, judeus, muçulmanos, gays, machos, mulheres, loiras, morenas, católicos, papas, padres, rabinos, alentejanos, açorianos, portuenses, lisboetas, o que for. Para ver se somos gente normal. Ou se só copiamos os estereótipos politicamente correctos.»
Nada contra nenhuma anedota e longe de mim querer ser polícia do humor alheio. Conto anedotas de todo o tipo em privado. Até porque, em alguns meios por onde ando, o humor com gays ou negros é um humor minoritário e por isso funciona como uma auto-ironia em relação à minha própria cultura. E esse é o meu problema. É que o humor que se limita a fazer coro e a dizer a brincar o que quase todos acham a sério é demasiado fácil. E conto em privado e não em público por duas razões: a primeira já disse: em público a anedota ganha um sentido absolutamente oposto ao pretendido. Segunda: para ouvintes com os quais não temos cumplicidade, que não sabem o que pensamos e nós não sabemos o que eles pensam, sem o qual a subtileza e as ironias do humor muitas vezes se perdem. Suponho que Viegas pode achar graça a uma anedota sobre judeus contada entre jusdeus e não achará grande graça se for contada entre nazis. Ora, quando a conta em público, está a conta-la a judeus e nazis.
Como bem recorda o Miguel Vale de Almeida, gostava de saber quantas anedotas sobre brancos e machos (suponho que será o contrário de gays) conhecerá José Manuel Viegas.E se perceberá que a manifestação da nossa liberdade sempre e sem excepção ridicularizando as minorias é apenas a liberdade mais fácil e a mais preguiçosa. Legítima. Mas cobarde.