
Paul Krugman acha que uma das suas principais actividades, como empenhado intelectual público que intervém na conjuntura, serve de pouco. Afinal de contas, como afirma
no i, é o estado da economia que faz mover eleitoralmente as pessoas. Fica sempre bem a modéstia. No entanto, a “economia” não vem com uma ficha de instruções em anexo. Quer isto dizer que a resolução política de uma brutal crise económica nunca é evidente e depende das interpretações que se tornam senso comum e factor de mobilização ou de desmobilização popular. Aliás, como Krugman reconhece.
Aqui chegamos à racionalidade das apostas ideológicas de Passos Coelho. Passos sabe que, no actual contexto, a crise tende a condenar politicamente Sócrates. Sabe também que o PSD tem de compensar as convergências de bloco central com elementos ideologicamente diferenciadores. Sabe que há um consenso de choque e pavor, de plano inclinado, a ser construído na televisão. Sabe que a alta burguesia está hoje mais disposta a investir na luta das ideias – vejam o
pingo doce das ideias gerido pelo neoconservador António Barreto. Sabe que as politicas públicas do governo fragilizam o PS no plano ideológico – o processo de
autodestruição da social-democracia em curso. E sabe que as estruturas de constrangimento a nível europeu favorecem a radicalização das apostas neoliberais, ou seja, o aprofundamento da acumulação por expropriação de bens comuns.
A racionalidade da aposta na revisão constitucional está na conjugação destes elementos, julgo eu. É uma aposta que pretende deslocar os termos do debate ainda mais para a direita e assim reescrever a ficha de instruções para a economia. Até agora nada me diz que essa aposta tenha falhado politicamente. Isto é, para lembrar
Gramsci, uma guerra de posição, com 2011 no horizonte.